
GAIVOTA
1965
Se alguém me perguntar qual é o mais belo fado de sempre, responderei sem hesitar que é este. Nascido à revelia do que geralmente acontece: primeiro surgiu a música, só depois é que chegou a letra – a pedido expresso do compositor e após algumas recusas do poeta. Numa época em que o fado estava muito longe de dar prestígio aos escritores e Amália Rodrigues era uma espécie de anátema nos cenáculos bem-pensantes da capital.
Amália somava êxitos de público nos palcos, na rádio, no disco e até no cinema – como a sua fulgurante aparição no filme Os Amantes do Tejo, de Henri Verneuil, demonstrou em 1955. Faltava-lhe a consagração junto dos intelectuais, que insistiam em demarcar-se do fado por motivos estéticos (alegando ser toada rudimentar servida por rima pobre) ou ideológicos (era promovido como “canção nacional” pelo Estado Novo). O encontro entre Amália e um seu jovem admirador, Alain Oulman (1928-1990), nascido em Portugal de uma família judaica com negócios centrados em Paris, mudou por completo esta visão anquilosada do fado como espelho da secular lamechice lusitana. Oulman, com formação musical clássica, passou a compor para ela – e encaminhou-a para a melhor poesia portuguesa, de Camões a David Mourão-Ferreira, passando por José Régio ou Pedro Homem de Mello.
Assim nasceram três discos fundamentais não apenas na carreira da intérprete de Foi Deus, mas da evolução do próprio fado: Busto (1962), com temas como “Povo Que Lavas no Rio”, “Abandono” e “Vagamundo”; Fado Português (1965), com “Erros Meus”, de Camões, e o poema de Régio que deu nome ao álbum; e Com Que Voz (1970), com o soneto homónimo do autor d’ Os Lusíadas na faixa inaugural e um desfile de temas saídos da inspiração literária de Mourão-Ferreira, Homem de Mello, Cecília Meireles, Manuel Alegre, António de Sousa, Ary dos Santos. E Alexandre O’Neill (1924-1986).
O’Neill é quem mais interessa nesta história. Porque Gaivota nasceu precisamente da sensibilidade e do talento deste poeta emprestado à publicidade que não costumava levar muito a sério aquilo que escrevia nem revelara até aí a menor atracção pelo fado: como tantos intelectuais da sua geração, achava este género musical uma “pieguice popularucha” – com estas ou outras palavras de idêntico menosprezo.
Mas a persistência de Oulman levou a melhor. Numa tarde de Novembro, entre castanhas e água-pé, com um piano em que o compositor tocou a música para o poeta ouvir. O realizador José Fonseca e Costa estava lá e relata o que aconteceu, com palavras ainda emocionadas, recolhidas por Maria Antónia Oliveira no seu livro Alexandre O’Neill – Uma Biografia Literária: «Tocou para nós uma música que o atormentava, estranha música essa, bela e profunda, toda feita de altos e baixos, como as ondas do mar ou o voo das aves, com notas que nos entravam na alma e ficavam cá dentro a vibrar.»
Enigmática e sedutora música, que pedia um poema à sua altura. Oulman procurara muito sem encontrar. O’Neill ficou pensativo e acabou por aceder à encomenda. Assim nasceu Gaivota, que tem comovido milhões de pessoas – incluindo gente que não sabe uma palavra de português.
O facto de se dever à inspiração de alguém que jamais revelara a menor vocação para versejador de fados contribuiu para que a letra nascesse já poema.
«Se uma gaivota viesse / trazer-me o céu de Lisboa / no desenho que fizesse, / nesse céu onde o olhar / é uma asa que não voa, / esmorece e cai no mar. // Que perfeito coração / no meu peito bateria. / meu amor na tua mão, / nessa mão onde cabia / perfeito o meu coração.»
Em 1969, ao ser entrevistado pela revista Flama, o poeta desvendou um pouco do seu processo criativo: «Quando nos pedem versos para uma canção, temos de lutar contra certos obstáculos. Um tipo nunca esquece que o poema se destina a ser cantado. Surgem, então, preocupações de ordem vocal, procuramos aumentar a sonoridade das palavras. Embora rica em fonemas, a nossa língua está cheia de sordícies.»

Letra e música encontravam a intérprete ideal. Que cantou Gaivota em estreia no filme Fado Corrido (1964), de Jorge Brum do Canto, inspirado numa novela de Mourão-Ferreira em que, embora com outro nome, a fadista acabava por interpretar-se a si própria. O filme é hoje memorável apenas pela presença magnética de Amália, no auge da sua fotogenia e dos seus assombrosos dotes vocais.
No ano seguinte, Gaivota aparecia em disco – precisamente o Fado Português, que arrepiou alguns puristas, desgostosos do desvio à vetusta matriz melódica e métrica da “canção nacional”, e indignou uns quantos eruditos alfacinhas, exaltados por Amália se atrever a cantar Camões. São polémicas próprias de um país pequeno e periférico, habitado por gente de vistas curtas e escasso mundo. Hoje, com tudo isso já sepultado na poeira dos arquivos jornalísticos, só podem suscitar sorrisos de condescendência a quem celebra o fado como património imaterial da Humanidade.
É certo que Gaivota conheceu outros intérpretes – e foi até alvo de uma controversa e nada feliz “recriação”, há uns anos, a pretexto de homenagem. Mas permanecerá para sempre ligada a Amália, incomparável intérprete desta canção condoída, que transforma a dor numa paradoxal exaltação da felicidade – tanto mais intensa quanto mais fugaz e nostálgica. Com palavras que se colam à música em respiração entrelaçada, raiz e asa, chão e céu em simultâneo.
Palavras como estrelas que nos inspiram e iluminam mesmo na noite mais escura da existência, companheiras perpétuas até em momentos de dilacerante solidão.
«Se ao dizer adeus à vida / as aves todas do céu, / me dessem na despedida / o teu olhar derradeiro, / esse olhar que era só teu, / amor que foste o primeiro. // Que perfeito coração / no meu peito morreria, / meu amor na tua mão, / nessa mão onde perfeito / bateu o meu coração.»

Lindo e grande descrição. A interpretação de Carlos do Carmo é também fenomenal
Também gosto, sim. Belo poema, magnífica música. Ponham-lhe o rótulo que puserem, é do melhor que há no inesgotável universo das canções. Com alcance planetário, pois a boa música nunca tem fronteiras.
A verdade é que Amália Rodrigues teria para sempre permanecido pouco mais que uma fadista vulgar, não tivesse sido o magnífico trabalho de composição para ela desenvolvido pelo judeu Oulman. O qual mereceria, esse sim, uma estátua em Lisboa.
O “judeu Oulman”.
Chiça, isso parece palavreado nazi.
É o que acontece a quem lê o ‘Mein Kampf’ e ainda parece orgulhar-se disso: t/a-vitoria-postuma-de-hitler-11610413?t hread=93916717#t93916717
https://delitodeopiniao.blogs.sapo.p
Quando falo do “judeu Oulman” é para salientar a genialidade dele que, na minha humilde opinião, tem uma correlação não trivial com o facto de ele ser (ou antes, ter sido) judeu. Tal como outros músicos judeus geniais, digamos Bob Dylan, Leonard Cohen ou Georges Moustaki.
E Wagner
E Carl Orff. ics-and-propaganda/third-reich/orff-carl/
http://holocaustmusic.ort.org/polit
Não sabia.
Luís Lavoura a 16.06.2020 às 11:33
Foi o judeu Oulman que lhe deu a voz? Inigualável desde que me conheço.
Não é propriamente o Fado a musicalidade da minha referência, mas este fado e o Povo que lavas no rio, estremeço cada vez que os ouço.
E a Dulce Pontes causa-me o mesmo efeito.
Oulman não deu a voz a Amália mas, só com a voz e os faduchos que havia antes de Oulman, Amália teria sido pouco mais que vulgar. O que lhe deu o toque de genialidade foi Oulman.
A Dulce Pontes também é de estremecer, mas apoia-se tanto em microfones e respetivo tratamento de som como na voz propriamente dita.
Ó Lavoura! Vá lamber sabão para os Golan!
A voz da Amália não era de uma fadista vulgar.
Oulman apenas fez as músicas.
Fabulosa música e letra magistral. A Gaivota pode ser interpretada por N excelentes fadistas, mas ninguém como a Amália consegue ( ainda e sempre) pôr o sentimento “lá” exactamente lá, onde o sentimos terno e agitado, calmo e ansioso. Aquela nostalgia, a saudade que é tão nossa e que a Amália expressa tão bem sempre que a sua voz declama música.
Concordo inteiramente consigo, Maria Dulce.
Fado não!!!
Tudo é triste, melancólico ….
Não puxa carroças….
Para “puxar carroças”, o ideal é uma marcha bélica.
Ou sopas de cavalo cansado
https://www.youtube.com/watch?v=akoi4kyz JZQ
Miguel
https://youtu.be/RHN_H_XBEbw
Uma dessas marchas racistas que andam para aí….
Espero que isto não se torne um fado, pois é muito triste.
Ao que chegámos!!!…
Há quem professe essa ideologia. O marchismo.
Eu estou imune a esse vírus.
Este também é icónico
https://youtu.be/TrJe5FYlVZY
Essa é outra canção da minha vida, hei-de falar dela aqui.
E é também um dos álbuns da minha vida.
Há dois picos absolutos da música portuguesa do último meio século. Um protagonizado por Amália em ‘Com Que Voz’, outro protagonizado por Carlos do Carmo em ‘Um Homem na Cidade’.
Depois temos o Rui Veloso, Sérgio Godinho, Heróis do Mar, Madredeus, etc. Mas aqueles são os nossos Himalaias.
Porra, esse “Homem na Cidade” do Carlos do Carmo é foleiro à brava. Xungaria lisboeta da pior espécie.
https://youtu.be/ZdQPMT5ZIqQ
À atenção do comentador Lavoura: vXbI
https://www.youtube.com/watch?v=91SdeaE
Uma homenagem extraordinária e com texto fantástico e bem documentado. Tiro-lhe o chapéu. E que Amália merece. Considero-a a maior e melhor fadista que já ouvi. E há hoje boas fadistas.
Tenho admiração cativa por Alain Oulman, não apenas um bom músico, também um visionário que sabia do que a voz de Amália era capaz e a encaminhou para os grandes poetas.
Foi sorte já haver discos e a voz nos ter ficado cheia daqueles meandros onde a gente se perde e se encontra e sente que é Portugal no mais inteiro de si.
Obrigado pelas suas palavras, Bea. É como diz: Amália teve muita sorte em cantar num tempo em que a tecnologia discográfica ia sendo cada vez mais apurada. Não por acaso, o primeiro LP – disco de longa duração – em Portugal é dela. E o primeiro som estereofónico também. E os primeiros telediscos.
Andou à frente do seu tempo também nisto. Não apenas em trazer a melhor poesia portuguesa para o fado. E em interpretá-la com um sentimento insuperável, como se tivesse sido ela própria a escrever os poemas.
Ainda ninguém propôs retirar do Panteão Nacional esse símbolo do Estado Novo?
Quem? O Eusébio?
Agora ficou o post estragado.
Uma má resposta para uma pergunta estúpida
.
“Símbolo do Estado Novo no Panteão”? Hum… Talvez este leitor esteja a referir-se ao Marechal Carmona.
Que aliás é nome de parque em Cascais e de ponte em Vila Franca. Pelo menos. Tal como Gomes da Costa e Craveiro Lopes dão nome a duas grandes avenidas em Lisboa. Enquanto Fernando Pessoa e Eça de Queiroz, por exemplo, só constam de ruas insignificantes na capital.
Numa sala cheia a ouvir a Amália nesta ‘Gaivota’ não há ninguém que se sinta acompanhado.
É arrepiante e deixa-nos sozinhos sem precisarmos de companhia para a ouvir.
Esta é das tais que pode levar os desesperados ao suicídio.
Ou o contrário: é tão bela que pode prevenir suicídios. E ser, no fundo, um hino à vida.
Sim, também pode ser.
Ouvir a Amália longe do nosso país é qualquer coisa de arrepiante, e quem estiver com uns copos por causa da puta da vida pode sentir uma grande tristeza de não poder ver o céu de Lisboa. É do caraças.
Impossível não me emocionar com este fado. Canção também da minha vida. E ao ouvi-lo renovo sempre a minha profunda admiração por Amália, O’Neill e Oulman. Três deuses que me fazem sentir tão mortal e pequenina. Mas ao mesmo tempo orgulhosa pelo seu talento ser português…
Nunca ouvi este fado sem me emocionar, Teresa. Também por isto é – e será – uma das canções da minha vida.
Há alguns belos fados e este é dos melhores. Mas qual era o jovem com sangue na guelra e um pouco de mundo que, nos anos 60 e 70, preferia o fado a Brassens? (entre outros, como Boris Vian para a desbunda e por “Le déserteur”). Aposto que escolhia Brassens, na certa.
https://www.youtube.com/watch?v=NgwcuYZK iiQ
https://www.youtube.com/watch?v=prdS6mw9 s40
https://www.youtube.com/watch?v=N5_vcVq_ vSE
Percebo o seu ponto de vista. E hei-de falar de alguns desses temas.
Mas a música – como quase tudo o resto – distingue-se, em última questão, entre a que fica e a que passa.
‘Gaivota’ fica. Para sempre.
a música – como quase tudo o resto – distingue-se, em última questão, entre a que fica e a que passa
Esse ponto de vista é, em meu entender, errado.
A boa música distingue-se por ser boa. A sua política é que pode passar de moda e torná-la desagradável ao intelecto.
Por exemplo, as canções revolucionárias de Sérgio Godinho são excecionais, do ponto de vista musical, mas hoje em dia quase ninguém as quer ouvir porque a sua política passou de moda.
Noutro campo, a poesia de Pablo Neruda também é fantástica, mesmo quando nela aparecem (e aparecem com alguma frequência) referências laudatórias a, por exemplo, Estaline. Ou seja, Estaline é repugnante, mas a poesia que Neruda fez louvando-o continua a ser maravilhosa. Hoje em dia as pessoas não quererão ler em voz alta esses poemas laudatórios, mas nem por isso eles deixam de ser de primeira água.
Você consegue passar da Amália ao Estaline num flic-flac de que poucos são capazes.
Se isto fosse um talento, merecia ser felicitado.
Gosto mais das músicas que me fazem esquecer o intelecto e quietar o esqueleto. As músicas de Sérgio Godinho, de José Mário Branco, continuam actuais pois as dinâmicas de Poder, as preocupações das gentes médias, são as mesmas, e serão as mesmas, até todo o sempre
E vem o José Mário Branco muito a propósito do fado. Na sua juventude muito naturalmente não podia com o fado; mais tarde compôs e orquestrou vários.
Quem disse que ninguém quer saber das canções do Sérgio Godinho?
Um tractor
Quando é usado com amor
Com o amor, com amor da terra nas rodas
Quando é usado para todas
As bocas que dele dependem
Quando os que o usam se entendem
Para dividir o produto
Segundo as necessidades
Unindo a máquina ao fruto
Unindo o campo às cidades
https://www.youtube.com/watch?v=M3EUoLtW Kg8
https://youtu.be/NycZiWLnDww
Só uma palavrinha ao sempiterno Lavoura, que pelos vistos continua coerente no disparate e fiel ao Delito passados tantos anos: Pablo Neruda, que você aqui tanto elogia por contraponto a Amália (uma fadista vulgar se não fosse o Oulman…) ouviu um dia Amália ao vivo no Bobino, em Paris, onde ele estava à época para um congresso de escritores comunistas, no final dos anos 60. Ficou de tal maneira maravilhado com a voz dela que lhe escreveu um soneto ali mesmo, num papel, pediu para conhecê-la no camarim e entregou-lho pessoalmente. O poema andou perdido durante muitos anos mas foi muito mais tarde incluído no livro “Cem Sonetos de Amor”, naturalmente sem referência a quem o inspirou porque o livro foi dedicado a Matilde Urrutia, mulher de Neruda. Para mim é um dos mais bonitos sonetos do grande Neruda.
E mais não digo, porque a este episódio está associada uma história verídica muito bonita e rocambolesca que um dia talvez ainda eu escreva e publique, com a autorização expressa (que já tenho) do seu protagonista real.
Muito bem, Ana.
Porque é que a versão (da menina dos The Gift?) foi controversa?
Porque muita gente não gostou dela. Incluindo eu.
Na altura escrevemos aqui sobre isso. Foi há dez anos.
Há que reconhecer, no entanto, que o projecto permitiu a muita gente nova (e não só) um acesso “refrescado” ao repertório de Amália e mesmo à sua figura que, de outra maneira, não se teria porventura concretizado. A eles (Nuno Gonçalves e cia.) o mérito de muitos saberem hoje cantar de cor a Gaivota.
Ainda um ponto positivo: a dita homenagem permitiu desferir mais um valente golpe nas recorrentes tentativas de politização (de que se vêem ainda alguns resquícios, aqui ou ali) da memória da fadista e do seu legado .
Beleza de texto, Pedro, uma homenagem ao nível de todos os envolvidos: Amália, Oulman e O’Neill. De um trio assim só podia sair uma maravilha como é Gaivota. Também é o meu fado preferido da Amália. Quase, quase exequo está Barro Divino, outra inspiração de outra gente.
Também eu fiz uma homenagem à grande Amália, um dia destes está aí em forma de fado cantado. Guardo a surpresa e prometo mostrá-lo aqui no nosso Delito em primeira mão.
Saudades tuas, saudades de todos os meus delituosos! Beijos para todos.
Ana Vidal
Excelente notícia que aqui trazes, Ana. Fico a aguardar. Espero sempre o melhor do teu talento.
Lembro-me que há dez anos, aqui no DELITO, andávamos a clamar justamente contra a versão contrafeita da ‘Gaivota’. Reli esses textos e continuo convicto de que estávamos na linha justa.
Saudades também.
P. S. – Também gosto muito do ‘Barro Divino’, bem menos conhecido. Belo fado do saudoso Álvaro Duarte Simões.