28


Luís Naves,

As democracias têm muitas formas de entrar em declínio. Podem fossilizar, podem ser controladas por fanáticos ou oligarquias, podem não conseguir modernizar-se a tempo. Há exemplos de sistemas democráticos que não sobreviveram a desastres económicos ou quando as instituições do seu país começaram a esboroar-se por qualquer razão humana. Os regimes não são eternos e o sistema democrático pode no futuro tornar-se um anacronismo, porventura substituído por algo melhor que, por defeito de imaginação, ainda não concebemos. As democracias morrem quando não há escolha, quando nos impingem as mesmas mentiras, ditas pelas mesmas pessoas; quando os velhos partidos já não se renovam por senilidade e os novos começam a cometer os erros dos antigos. A democracia morre quando o que devia ser debatido livremente passa a ser discutido com pedras no bolso, com a intolerância a falar mais alto. As democracias morrem quando deixa de haver responsáveis e ninguém quer saber; quando se faz descaradamente o mesmo que antes se criticou aos adversários. A democracia está condenada quando há regras para os poderosos e outras regras para a maioria, quando deixa de haver escrutínio e equilíbrio, quando se instalam realidades manipuladas, mas é sobretudo durante crises económicas, feitas de insegurança e desespero, que crescem os piores sintomas da febre: falta de transparência, diabolização do outro e supressão de ideias.

9 comentários em “28”

  1. A Democracia já acabou e foi o Jornalismo que a matou.
    A Esquerda pode fazer violência quando não gosta do resultados pois é o jornalismo que justifica a violência ou a condena.

    Este jornalismo até um vírus é capaz de ignorar quando conveniente depois de passar semanas a ameaçar com as mais terríveis consequências para quem violasse as regras sanitárias em curso.

    Por isso uns são denominados Activistas mas outros são Extremistas.

    É lembrar que por exemplo nos EUA houve uma tentativa de assassinato de senadores Republicanos – um gravemente ferido – por um apoiante de Bernie Sanders. Viu algum escânda-lo? imagine se fosse ao contrário.

    E teríamos carradas de textos aqui no Delito a denunciar. Assim é como se não tivesse ocorrido.

    lucklucky, o kulak

  2. Nunca esqueci o que li, já lá vão várias décadas, a propósito de algum filosofo da antiguidade, muito provavelmente Platão. Dizia ele, simplificando com palavras minhas, que a democracia continha em si o perigo de se vir a transformar numa demagogia, o que por sua vez poderia facilmente conduzir a uma situação de anarquia.
    Claro que o epílogo seria o regresso da ditadura, com satisfação de todos.
    Dá para pensar…

  3. Não é apenas a “falta de transparência, diabolização do outro e supressão de ideias”. É a censura disfarçada de “politicamente correcto”, de narrativas onde dos 360º da realidade apenas, por omissão, nos são mostrados 5º. É a visão parcial e tendenciosa alicerçada na teoria da tolerância repressiva e na ditadura das minorias, cuja génese remonta a Marcuse.

    Uma filosofia violenta, castradora, anti-democrática, obscurantista, inquisitória, repressiva, fascizóide onde “todos os animais são iguais, mas há uns que são mais iguais do que os outros”, o que dá lugar a que se fale abertamente em direitos das minorias, como se estas, pelo simples facto de o serem, tivessem mais direitos do que os outros, numa negação evidente do primado da justiça, onde todos são iguais perante a lei.

    Dito isto, não deixa de ser curioso constatar que em 1968, ano da gripe de Hong Kong, que terá causado cerca de um milhão de mortes em todo o mundo, e dos protestos do Maio de 1968, a situação então vivida muito se assemelha à dos tempos que hoje correm. Coincidência? Talvez, mas as coincidências têm fortes razões estatísticas para ocorrerem.

  4. Parece que os “hospitais de campanha”, como por exemplo o ultra publicitado Super Bock Arena / Rosa Mota, seriam úteis para assegurar o recobro em isolamento evitando assim o contagio dentro dos agregados familiares, principalmente em LVT. Mas não é isso que está a acontecer, muitas dessas infraestruturas foram encerradas, dizem eles, por falta de doentes… Por falta de organização, por falta de meios, por falta de recursos, digo eu. A estratégia de desconfinamento atual é a de deixar o povo infetar-se, cuidar-se em casa, mantendo os serviços públicos estáveis e sem sobrecargas (professores em teletrabalho, adiamento de consultas “não urgentes”, outros serviços em “teledescanso”…).

  5. Não se pode ter Democracia – o próprio nome não diz o que é importante – quando a cultura que a forma morre.
    Os conceitos de separações de poderes, checks and balances são completamente alienigenas para muitas culturas do mundo e especialmente as novas gerações que são messianicas pela educação que recebem do jornalismo e ensino.

    A Mona Lisa duraria quanto tempo nos Inuit, em Àfrica, no Afeganistão, na Arábia ou na URSS?

    lucklucky

  6. Então vai tudo dar ao mesmo, mais anos menos anos,
    O que é que se deve fazer Luís Naves?
    Dê lá uma ideia que nunca foi experimentada.

  7. Como bem infere em seu texto, não se pode dissociar democracia do elemento que a compõe: as pessoas, vulgo povo.
    As democracias ao privilegiarem o grupo transformaram-se em sistemas tribais que negam a representatividade do todo. Não admira por isto que nas democracias alguns sindicatos se entendam mais representativos que outros que se considerem fora de sua esfera, como foi o caso dos camionistas de transporte de combustíveis.
    Assim o povo transformou-se em inimigo público para que se possa agradar o amigo tribal. O problema da representatividade democrática transformou-se então em um mero acto de destruição do que é comum para satisfação do privado.

    Na alegação feita pela ministra da saúde ao acontecimento algarvio, ficou-se a saber que uma das matérias para que o Procurador Geral interviesse em representação do Estado residia também no facto de se proporcionar a propagação do bicho contra a inexistência por parte do estado de um sistema de saúde adequado para acolhimento.
    Sabemos que este sistema de saúde adequado não existe para o comum, mas os grupos têm acesso a um sistema que se adeqúe a suas necessidades. E sempre aconteceu assim mesmo sem pandemia.

    O enaltecimento dos grupos em desfavor do comum originou uma realidade que faz passar a ideia que o sentido de sobrevivência legitima toda e qualquer transgressão.
    Uma das agressões também perpetradas pelo grupo sobre os demais corre na observação de que a lei é manipulada para que se satisfaça o interesse do grupo, impondo sub-repticiamente uma repressão sobre o comum.

    Neste sentido, pode afirmar-se que o sistema de representatividade democrática a única coisa que permite é a elaboração e laboração do acto favorável ao grupo.
    Porém quando todos pensam que a possibilidade de poderem vir a fazer o mesmo se constitui como vivência em democracia, mata-se a democracia e enaltece-se o grupo.

    Dias maus estão a caminho, mas são dias em que a natureza se sobreporá aos sistemas e aos esquemas para que surja uma nova humanidade. Com a natureza os partos são dolorosos, pois ela não trabalha com epidurais.

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