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Luís Naves,

Estas coisas acontecem de cem em cem anos. Ainda estávamos em Janeiro e discutia-se o processo de destituição do inquilino da Casa Branca. Nessa altura, muita gente escreveu que a morte de um general iraniano ia custar caro aos americanos, que no mínimo seriam expulsos do Médio Oriente. Tudo isto agora nos parece anterior à guerra anterior. No Irão, país comandado por gente do século XIV, morre-se à porta do hospital; já ninguém quer saber da campanha eleitoral na América, muito menos da independência da Catalunha; e já ninguém se lembra dos temas fracturantes que entre nós se discutiam com emoção (que temas eram esses, exactamente?). O mundo mudou e vai mudar ainda mais: muitos vão defender os muros que ontem criticavam, seja para migrantes sírios ou turistas espanhóis; muitos vão condenar os políticos que ontem consideravam geniais ou indispensáveis; muitos vão pedir mais segurança, mais distância em relação aos outros, mais repressão de comportamentos irreflectidos, menos tolerância para açambarcadores e outros parasitas. Depois, a grande vassoura da opinião pública vai remover os governantes que falharam e será reconstruida uma economia menos dependente da globalização, das fábricas chinesas e das decisões dos burocratas de Bruxelas.

25 comentários em “20”

  1. Em 1920 começou a crise do após grande guerra, com milhões de mortos da gripe espanhola uns anos antes e, depois, o desastre financeiro das bolsas com falência e desemprego generalizado. A Alemanha foi brutalmente penalizada e o
    movimento contestatário foi confrontado com ao surgimento dos bandos nazis.
    É bem provável que apareçam, agora, uns bons milhares de mortos por aí, e uma crise financeira por causa deste novo coronavirus. Mas ‘falta’ uma guerra em grande escala para se repetir os cem em cem anos.

    1. Não escrevi sobre repetições de história, aliás, esta pandemia dificilmente terá os efeitos da de 1918-19, pois a população de então tinha baixa imunidade e a medicina era muito menos avançada.

  2. Acho que os jornalistas sofrem demasiado com a centralidade do facto jornalístico. A toda a hora (outra constante) afirmam que o mundo mudou por causa disto ou daquilo, mas as verdadeiras mudanças são lentas e quase imperceptíveis.

    O mundo quase nunca muda. Caso contrário já não havia gente do século XIV e até demasiada gente que os defende. E, pfooa, há mesmo muita.

    1. Dito isto, concordo com a ideia geral que atravessa o post — de que isto vai ter bastantes consequências políticas — mas interrogo-me se uma sociedade civil tão colonizada pelo Estado terá força para iniciar uma re-industrialização, quebrar dependências do exterior e re-centrar o País nos portugueses. Não é nada que eu não queira, mas no dia a dia não vejo as pessoas muito preocupadas com isto, sobretudo as gerações depois da minha que estão completamente formatadas pelo discurso snowflake das escolas públicas e do regime.

        1. Era decente, e ainda havia matéria. Agora tirando as ciências é só ideologia, que destrói o espírito crítico que a Escola era suposto ensinar a ter.

      1. Como diz o outro é preciso mudar o chip !
        Só não concordo com o que diz das gerações mais velhas, existe muita gente mais velha do que eu, que está encostada, que sempre se encostou e prova disso é maioria dos que governam ou governaram Portugal nos últimos anos, todos sem excepção cederam a interesses pessoais ou corporativos…
        Pelo menos com e infelizmente devido a esta crise já não se deve fazer mais uma cagada como seria o novo aeroporto. Por falar em aeroporto sugiro que todas as ligações aéreas que não sejam do estrito interesse publico sejam desviadas para Beja e se dê espaço em Lisboa e Porto aos voos realmente urgentes como os de importação de bens de 1º necessidade e ajuda humanitária pois vamos precisar, já para não falar da chegada da troika 2.0.

        WW

  3. Posso estar enganado mas parece-me que:
    Há muito cagarola a escrever nos blogues. Para quem (como eu) andou 2 anos e pico na guerra colonial (nada que se pareça com a da Síria) sempre na expectativa de pisar uma mina …. tudo isto é ridículo (ou parece). Terem medo de um viruseco …. francamente. Dois anos e pico sempre com o credo na boca e a ver amigos a ficarem sem perna ou sem vida. As consequências esperadas deste viruseco até me fazem sorrir (se calhar erradamente). Fosse esse o problema da tal guerra e ter-nos-íamos divertido à brava.
    Se houvesse agora uma guerra colonial com a rapaziada toda, todinha a ser mobilizada …. como aguentariam as gerações de agora tão aflitas com uma gripe de baixa taxa de mortalidade?

    1. Pode estar enganado, de facto: se combateu na guerra colonial, terá uma idade em que não se recomenda levar esta situação pouco a sério. A mortalidade nos escalões etários mais altos é alta. Esta não é uma gripe, mas uma doença nova, sobre a qual se sabe pouco e que está a matar muitos infectados com mais de 60 anos. Tenha o máximo cuidado, peço-lhe, limitando o contacto social.

      1. Pois o J. Cunha tem que ter muito cuidado. As cruzes de guerra não dão imunidade a ninguém.
        E, também, tem que ter cuidado com as comparações.
        Não há comparação com os bombardeamentos que arrasaram cidades inteiras na Síria e o que se passou, por exemplo na Guiné. Na Guiné, Angola ou Moçambique nunca houve nenhuma aldeia, vila ou cidade que tivessem sido arrasadas por bombardeamentos. Mesmo o caso de Madina do Boé, na Guiné, que era atacada quase todos os dias, a retirada foi estratégica por dificuldade de logística.

        1. “Não há comparação com os bombardeamentos que arrasaram cidades inteiras na Síria e o que se passou, por exemplo na Guiné. ” Nem comparei. O problema era a tensão com que se seguia pelas picadas à espera de pisar uma mina (em vez de encontrar o tal vírus). Isto não durante oito dias, mas durante 2 anos e pico!!!! Comparado com a tensão provocada pelo tal de corona que pode provocar febre….até me rio. E por acaso até contraí a febre asiática de 1957. Foi tão bom: uns dias na caminha e a minha mamã a trazer-me sopinhas à cama! E fui ingrato, logo que a febre lhe calhou a ela eu fui jogar a bola e o meu pai é que tratou dela até … lhe chegar a tal de asiática a ele. Bons tempos. Em que eu andava cheio de t*sa. Agora é p*la murcha. Um desastre!

      2. “terá uma idade em que não se recomenda levar esta situação pouco a sério.”
        Ora, ora, se ele aparecer, e apesar da minha idade, corto-lhe aquelas patitas e ele passa a coxear sem conseguir mover-se de pessoa a pessoa. E assim se quebra o enguiço do contágio

          1. “e o senhor vai ter cuidado.” Claro, sou destemido mas não suicida. E viver vale a pena: então o Estado não me está a compensar pelos meus sacrifícios (à força) pela Pátria com uma pensão de ex combatente de cerca de 40 Euros por ano. Não me enganei, é por ano e ainda tenho de a declarar no IRS (para mim esta declaração é que sinto como sacrifício). Mas pensando bem, só para receber esta homenagem anual vale a pena continuar neste mundo. E o corona que se f*da (como dizíamos na tropa). Na tropa o vocabulário era um bocado para o ordinário, desculpem, estou a reviver velhos tempos.

  4. Justíssimo reconhecimento universal “ao” Taleb, Nassim para os amigos e conhecidos , Tony Gordo incluído – se bem que os Galegos , de uma forma enviesada , quer dizer, galega, já o tenham formulado desde há muito : “Yo no creo en brujas,pero etc.etc.”

    JSP

  5. está a ler-nos a sina? Não é um oráculo animador. Não tem outra por aí, é que, dessas, cada português já tem uma, não se esqueça que pendemos um bocado para o fatalismo.

  6. Na minha perspectiva sua reflexão tem relevância por aquilo que aborda, mas que deixa à imaginação do autor interpretar. Aliás, para mim, a ciência do jornalismo e da escrita não é explicar ao leitor o que se pensa quando se escreve, mas deixar que ele, leitor, pense sobre o que se escreve.

    É pertinente na medida em que subentende-se o que se experienciou. As sociedades andavam a ser adormecidas e domesticadas com teorias e artificialismos bacocos para mobilizar a incapacidade de pensar, estimulando rupturas, e desviar o olhar daquilo que se encontrava diante de nós mas pretendia-se negar ou falsear.

    E o que estava diante de nossos olhos era que tínhamos falido enquanto sociedade em todas as áreas que a compõem. Pretendia-se estimular um processo catártico e colhia-se somente um fenómeno de sublimação. Buscávamos externamente o que só o interior é capaz de produzir; e na onda de nos mostrarmos cidadãos do mundo, desconstruiu-se o mundo que podia criar um novo mundo.
    Procurava-se valorizar-mo-nos com palavras convencidos que com estas tinhamos feito a nossa parte. Criámos o ruído e esquecemos que é no sussurro que se escuta a voz transformadora e tantas vezes demolidora de tantas teorias e artificialismos.

    Em suma, o bichito, que por vezes nos é apresentado de tal maneira que até apetece brincar com ele, vem revelar-nos o mais básico do que fazíamos, isto é: eramos uns açambarcadores e convencíamo-nos que estávamos a mudar o mundo puxando ele para o nosso “estômago”.

    Buscava-se a vida eterna no que a traça come.
    De certa forma a situação faz lembrar-me a máxima bíblica: «Eu mandei-vos ceifar o que não trabalhastes. Outros trabalharam e vós aproveitais-vos do seu trabalho».

    A vida eterna não é o ponto de chegada, mas um modo de viver cada instante de modo novo.
    Nada como um bichito para nos lembrar isto. Recordo-me do sermão de Santo António aos peixes: porquê aos peixes? Porque o homem também nesse tempo vivia no ruído que abafou o sussurro. Os peixitos estavam mais receptivos à escuta por viverem mergulhados em um oceano de silêncio. E foi preciso um bichito para nos fazer calar e escutar o que o silêncio nos diz.

    Hoje como há cem anos só parecemos ser diferentes por aí não termos vivido.

    Concluído mais um sermão, aceitam-se contribuições generosas para mais um açambarcamento.

    Para os católicos e todos e todas de boa vontade e para os que já vão perdendo a vontade, deixo aqui uma ligação como contributo para o encontro eucarístico, pois as igrejas começaram a encerrar e o encontro que se faz no silêncio também existe online (aceitem isto como serviço ao público):

    https://www.youtube.com/watch?v=BKoweAT723g

  7. “Depois, a grande vassoura da opinião pública vai remover os governantes que falharam e será reconstruida uma economia menos dependente da globalização, das fábricas chinesas e das decisões dos burocratas de Bruxelas.”

    Não. Para isso precisava de mudar a cultura e as pessoas.
    Não há pessoas e cultura para produzir aquilo que as fábricas chinesas produzem.

    O que vai acontecer é que os burocratas de Bruxelas ainda vão querer mais poder.
    Cada crise é sempre mais um justificação do complexo jornalista-político para terem mais mais poder.

    E se perceber os movimentos culturais no capitalismo ocidental as grandes empresas querem cada vez mais regulação – para alijar responsabilidades e impedir rivais de aparecer- e fogem como diabo da cruz dos clientes individuais- pessoas-.
    Preferem vender produtos a outras empresas e ao Estado.

    lucklucky

    1. “O que vai acontecer é que os burocratas de Bruxelas ainda vão querer mais poder.” Claro, são todos uns comunistas. Parece que você ainda não se apercebeu do verdadeiro perigo do marxismo. É por isso que só faz comentários a gozar com a malta.

  8. “… e será reconstruida uma economia menos dependente da globalização, das fábricas chinesas e das decisões dos burocratas de Bruxelas.”
    Chinesa?, sim. Bruxelas?, sim.
    Há uma dose de boa observação e de “Wishful thinking” neste post.
    A presente classe política que de “nacional” já tem pouco e de europeia tem demais, terá os dias contados apenas porque, para as novas gerações, isso de o “Portugal” já pouco lhes diz. É apenas o bairro europeu aonde por acaso nasceream.
    O mote foi dado, há muito, pelos jogadores de futebol. Há muito que correm a defender os interesses do clube que melhor condições lhes oferecer. Apátridas “avant la lettre”.
    Os novos eleitores votarão e revotarão em qualquer coisa que lhes prometa a Lua, qualquer que seja a “nacionalidade” do candidato.

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