Relatório de um agente espacial


Luís Naves,

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Como sabem, o conselho galáctico encarregou-me de analisar a situação no território do planeta Terra conhecido como Portugal. A bordo da minha nave, e na companhia da minha assistente Barbarela (no espaço as noites são frias e longas) atravessei os confins do cosmos e cheguei esta semana ao vosso belo e tranquilo país, que tanto tem para ensinar aos restantes povos do universo. Quase comovido, assisti ao belo costume de atribuir doutoramentos honoris causa aos gestores que afundam as suas empresas. É uma notável tradição que apenas enobrece a academia e lembrei-me que no meu planeta, Urano, também existia esta prática saudável: o meu avô era gestor de uma fábrica de Zeutrões e foi vítima de um súbito short selling que o levou à falência, tendo por isso recebido um doutoramento honoris causa que muito honra a nossa família. Foi aliás devido a estes incidentes que tive de me alistar na frota galáctica e estava no outro dia a comentar com a minha assistente Barbarela que as noites espaciais são frias e escuras, mas ela disse que estava ocupada a evitar uma ejecção de massa coronal e ficou a mexer nos botões e nos computadores, em vez de seguir a minha inteligente conversa.

 

Por falar em inteligência. Portugal é um país de gente muito inteligente, como constatei na outra noite no Cais do Sodré, onde uma multidão se dedicava à tortura do sono, um costume local. Eram três horas da manhã e alguns cavalheiros, não aguentando a vigésima cerveja, urinavam em público, gritando palavras de ordem para impedir a vizinhança de dormir. O país discute agora se deve ou não reduzir a hora do fecho dos bares, das três da manhã para as duas, e só posso elogiar o elevado grau de civilização que os portugueses atingiram. Se ao menos no meu planeta houvesse este tipo de debate político! Um atento analista verificava que, em caso de redução do horário, os donos dos bares deverão perder metade da sua receita, com graves repercussões na venda de bebidas, emprego de vendedores de bebidas e mais perda de investimento privado na decoração dos ditos bares. Tudo isto representa perdas de empregos a montante da longa cadeia económica, o que ameaçará a própria recuperação europeia. Mas o que esta informação revela é que em Portugal mora uma raça disciplinada, que consome metade da sua cerveja entre as duas e as três da manhã. Se um português bebe cinco bebidas numa noite, beberá duas e meia naquela hora final da folia, se bebe dez, serão cinco, cada gole ingerido no momento adequado, sem possibilidade de antecipar o consumo ou de mudar sequer um minuto naquela busca de felicidade com hora marcada.

A elevada educação do povo deve ter uma origem. Julgo que esta disciplina e método são bem visíveis na acção do ex-ministro Crato, que procura inovar na forma criativa como procede à destruição do seu sector. Embora este ministro da educação já seja doutorado, merece amplamente um doutoramento honoris causa pela universidade da beira interior, onde fará um belo discurso sobre valor acrescentado e a persistência da vontade. Este é de facto um povo que espalha civilização, nas praxes e no rigor dos seus comentadores políticos especializados. Os portugueses são corteses, afáveis, bem dirigidos, e atravessam a sua crise com uma atitude despreocupada, por exemplo, a discutir a dívida sem a discutir verdadeiramente, que é a forma mais inteligente do debate. Na minha visita anterior, em 1891 (as viagens no espaço são longas e enfadonhas), tentei explicar aos responsáveis do tempo que a dívida era para ir pagando e essa, de facto, acabou de ser paga em 2001.

Teria sido a minha recomendação também desta vez, mas não consegui que me ouvissem. Fui a São Bento e vi muita mudança, o estacionamento estava cheio de naves espaciais e tive dificuldade em encontrar lugar. Lá dentro havia uma discussão intensa sobre as próximas eleições e um dos agentes espaciais dizia que este governo ia ganhar facilmente as legislativas. Todos concordaram de imediato. A vitória é certa, pois o tempo está do lado do governo, afirmou um. “É como cão em vinha vindimada”, disse outro dos conselheiros. “Julgo que o ditado português é cão em vinha mirrada”, afirmou um terceiro conselheiro. E logo ali se gerou uma frutuosa discussão, que não era um cão, mas porco, o qual passeava em vinha semeada. Nada disso, era vinha vigiada e o fulano tinha a certeza. Perguntei-me se não seriam vinhas da ira? Uma coisa é certa: os estrategas acham que este governo ganha facilmente as legislativas.

 

Na imagem, a minha assistente Barbarela confraterniza com dois assessores de são bento.

 

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (50)


Luís Naves,

A sociedade portuguesa mudou, mas o sistema político, como um pesado dinossauro, parece incapaz de se adaptar. A direita está meio perplexa com as sondagens que dão o PS perto da maioria absoluta. Se as eleições fossem agora, tudo indica que António Costa, que tenta reconstruir o PS de 2010, atrairia suficientes votos na esquerda e no centro para vencer com margem folgada. Existem duas explicações possíveis para o fenómeno: o profundo descontentamento da população e a ilusão de que é possível regressar ao tempo anterior ao resgate. O governo está de tal forma desacreditado, que os próximos meses serão de agonia lenta, por isso seria lógico realizar eleições em Abril ou Maio, como pedem muitos comentadores, pois esperar até Outubro só prejudica o País.

Se chegarem ao poder, os socialistas tentarão adiar qualquer reforma impopular, mas com escassa margem de manobra e ainda menos tolerância europeia. O maior risco que correm é o de perderem a credibilidade externa e o acesso aos mercados financeiros, o que podia resultar no segundo resgate ou até no abandono da zona euro. A extrema-esquerda alternativa fracassou: o Bloco não se distingue do PCP e ninguém vota em imitações. O Livre será devorado ainda no ovo. Os populistas continuam a ser uma incógnita, pois as recentes sondagens não indicam qual o impacto eleitoral de Marinho e Pinto, embora sublinhem a sua popularidade.

A direita, agora limitada a um em cada três votos, prepara-se para uma penosa travessia do deserto. Os sociais-democratas que passaram o tempo a arrasar o governo não poderão reclamar qualquer herança e, por isso, nada têm para oferecer. A sua oposição será fragmentada e difícil. Durante três anos, o actual poder dedicou-se a erros de comunicação infantis e consentiu que a praça pública fosse ocupada pelos interesses especiais que a troika excluiu da divisão orçamental. A coligação fracassou, pois PSD e CDS nunca se entenderam e muitas reformas que ficam por fazer (RTP, autarquias, arrendamento, pensões) falharam devido a contradições internas. O PSD tem feridas insuperáveis, ódios que, mais tarde ou mais cedo, darão origem a uma purga ou à divisão permanente deste partido. Durante a grande crise houve uma cronologia de pré-falência, resgate, protectorado, austeridade, desistência, pântano e inicia-se provavelmente um novo ciclo de delírio, que pode ser longo ou curto, dependendo da dimensão das miragens que nos forem apresentadas.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (49)


Luís Naves,

A contestação da ordem internacional que resultou da queda do Muro de Berlim explica a agitação que vemos no mundo. Após duas décadas em que o sistema parecia estável, surgiu uma crise financeira global que catalisou vários movimentos de perturbação. Alguns autores muito citados (por exemplo, a historiadora canadiana Margaret MacMillan) encontram semelhanças entre a situação actual e a que precedeu a guerra de 14-18, nomeadamente o facto de haver potências emergentes a contestar a ordem imperial que beneficiava a Grã-Bretanha, com outras semelhanças na globalização acelerada e na ruptura tecnológica.

Há também diferenças. O imperialismo de hoje não ocupa território e, ao contrário da Alemanha do início do século XX, a China actual não pretende imitar a potência hegemónica. Por outro lado, o desafio contemporâneo à ordem internacional estabelecida após a Guerra Fria não é executado apenas por potências emergentes, mas sobretudo por forças em declínio. Estado Islâmico ou Rússia são dois exemplos de aparente força que esconde, na realidade, crescente fraqueza. O Estado Islâmico parece até o estertor de uma civilização que não consegue de forma alguma resistir à modernidade.

A Europa resultante do fim da Cortina de Ferro também mostra sinais de esgotamento e mudança. O que aí vem é ainda pouco claro, mas o Estado social continuará a ser reformado e o liberalismo pode recuar, perante o avanço da retórica nacionalista e da crítica ao multiculturalismo. Os populistas anti-capital estarão provavelmente na linha da frente. A Europa será menos tolerante, menos adepta da liberdade dos mercados, menos paciente em relação à política do mínimo denominador comum que lhe tem permitido avanços na integração. Foi pouco noticiado em Portugal, mas o grupo de eurocépticos no Parlamento Europeu dissolveu-se após a saída de uma deputada. Só ficaram seis dos sete países necessários e em jogo estão subsídios de milhões de euros. Neste conflito decide-se quem vai liderar a contestação ao quase monopólio parlamentar dos socialistas e conservadores, o meio termo que permite manter a estrutura mais ou menos coesa. A queda dos eurocépticos abre caminho à possível formação de um grupo parlamentar de extrema-direita, que será muito mais hostil ao statu quo.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (48)


Luís Naves,

O mais certo é que Portugal não tenha emenda. Lemos blogues e jornais, vemos a TV, o clima é de pré-catástrofe. A elite decidiu a mudança de ciclo e nem tenciona esperar pela decisão popular. O governo confessa em público que não consegue transpor aqueles últimos metros de cortes na despesa, por isso não haverá diminuição de impostos. O País não consegue resolver os seus problemas crónicos de desequilíbrio das contas públicas, medíocre funcionamento das instituições e paralisia política seguida de homem-providencial. A oposição não se compromete, mas cada notícia é uma corporação a fazer uma exigência com despesa associada. Se os socialistas vencerem as próximas eleições, será difícil travar esta maré de bodo aos pobres.

A Grécia já está a patinar, provavelmente atira-se do penhasco lá para Fevereiro, a Irlanda saiu da crise, teve juízo suficiente para não embarcar em ilusões constitucionais e fez o que tinha de fazer, com pragmatismo e coragem. A Alemanha não paga nem um tostão das dívidas alheias e vai exigir aos seus parceiros (França, Itália) que façam as reformas que estabilizam a zona euro e sem as quais a moeda única não faz sentido.

Há pessoas que ainda não perceberam que Portugal não conta para este campeonato. Se for preciso deixar cair, deixa-se cair. Em texto anterior (tem um ano), usei a imagem da corda de alpinistas: quando o desequilíbrio de um homem, por acidental que seja, ameaça lançar toda a gente na queda, os de cima cortam a corda. Caminhamos alegremente para o segundo resgate, talvez em 2017 ou 18, mas pode dar-se o caso de, na próxima vez, não haver quem nos segure. Os cortes na despesa esgotaram-se (com a reposição de salários e pensões) e os limites constitucionais impedem a criação de um Estado sustentável, com nível de impostos adequado. Se atingiu o limite neste contexto político, não conseguindo equilibrar os seus orçamentos, o País perderá de novo o financiamento dos mercados. Este corolário, que já vivemos uma vez, continua a ser iludido da opinião pública, com a agravante de, a continuarmos na beata ignorância, todos os sacrifícios terem sido em vão.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (47)


Luís Naves,

Num livro notável que gosto de explorar, The Faber Book of Reportage (colecção de pequenos textos com testemunhos sobre episódios mais ou menos famosos) encontrei o relato do naufrágio de um navio português, em 1585, ao largo de Moçambique. Este texto, baseado em testemunhos de terceiros, foi escrito por Jan Huyghen van Linschoten (1563-1611), figura fascinante do Renascimento, um holandês que viajou pela Ásia com ajuda portuguesa e que, depois de regressar à Europa, publicou livros sobre essa experiência. Linschoten foi muito influente na ambição da Holanda de criar o seu próprio império. O texto incluído nesta colecção tem o ritmo e a simplicidade que associo a uma boa reportagem (apesar de não ser um relato presencial), mas o que mais me surpreendeu foi uma passagem crítica, em que o autor holandês comenta a teimosia do piloto do navio naufragado, claramente o culpado da tragédia, ao ignorar os avisos dos outros marinheiros. Por “orgulho”, escreveu Linschoten, os portugueses “não seguirão o conselho de nenhum homem, e não estarão sob a sujeição de alguém, especialmente quando têm autoridade. Como aconteceu com este piloto, que não ouviu os conselhos, excepto os que deu a si mesmo”. A tragédia causou centenas de mortos e teve outro pormenor requintado, que muito surpreendeu o autor holandês: os oficiais salvaram-se primeiro e quem não conseguiu improvisar uma jangada, morreu afogado. Ao todo, houve sessenta sobreviventes. Na História Trágico-Marítima, existe um relato muito semelhante de comando incompetente, seguido de naufrágio e abandono dos passageiros pelas elites do navio. Também já li sobre um caso holandês, mas aí a justiça foi implacável. Claro, por orgulho não gostamos de ler coisas assim ou de pensar na actualidade destas críticas.

Fernando de Sousa (1949-2014)


Luís Naves,

Tive o privilégio de conhecer Fernando de Sousa, que faleceu em Milão, aos 65 anos. Guardo dele uma imagem de serenidade, de competência e simpatia. Era um jornalista cheio de confiança e boa disposição, com larga experiência, que incluía rádio, televisão e imprensa, sendo bastante raro encontrarmos alguém que faça bem as três coisas. Na televisão, funcionava segundo a escola da BBC. Na imprensa, o Fernando era um dos melhores exemplos da escola do DN, tradição obcecada pelo rigor e a precisão dos factos, distanciamento emocional, poupança de adjectivos e frases sem ornamentação. Ele era também um dos jornalistas portugueses com mais conhecimento sobre União Europeia, um labirinto onde ele se movia com enorme habilidade e onde é tarefa difícil conseguir transformar o importante no interessante. O Fernando era um mestre a descodificar a complexidade: morreu a fazer o seu trabalho, a dar notícias objectivas, que todos compreendiam, rigoroso até ao fim, um senhor.

A Mortandade da Grande Paz (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

 

Em todos os grandes países houve revoltas populares famosas, mas nenhuma se compara a um movimento que abalou a China entre 1850 e 1864, provocando a morte a mais de 20 milhões de pessoas e, segundo autores de referência, talvez a 30 milhões. A ser correcta esta estimativa, o número de vítimas terá superado o da Primeira Guerra Mundial. É um valor espantoso e difícil de imaginar. Conhecida por Taiping Tianguo, que significa ‘Reino Celeste da Grande Paz’, esta revolta começou no sul da China e foi uma resposta à profunda humilhação que o país (e a dinastia Qing, de origem manchu) tinha sofrido às mãos dos europeus, a começar pelos ingleses, na chamada Guerra do Ópio, entre 1839 e 1842.

Usando em combate um navio a vapor com rodas de pá, os britânicos devastaram com facilidade as fortalezas do Rio das Pérolas e destruíram a frota chinesa em Cantão. O conflito foi desigual, a ponto da China ainda hoje não ter digerido a derrota. Aliás, pode argumentar-se que a civilização chinesa sofreu uma humilhação e esteve perto do colapso. O desequilíbrio de forças tem uma explicação certamente complexa, onde cabe a incompetência do poder imperial, o azar e a inovação, mas o facto é que os ingleses actuaram com uma brutalidade que mesmo então era difícil de aceitar. Hoje, as razões da guerra seriam totalmente incompreensíveis, pois tratava-se de obrigar a China a importar ópio, droga cujo consumo sem restrições afectava a saúde de muitos chineses.

A tese das diferenças tecnológicas entre as duas forças não convence todos os autores. Segundo John Keay (1) “em canhões e navios, o fosso tecnológico não era assim tão grande”, a diferença maior esteve no que a “China pré-industrial e a Europa pós-industrial fizeram com essa tecnologia e a confiança com que foi manuseada”. Os dirigentes militares Qing tentaram um único contra-ataque naval, que se transformou num desastre: em poucos dias, foram destruídos 71 juncos e a baixa de Cantão foi arrasada. No tratado que se seguiu, os ingleses obtiveram o direito de erguer um porto em Hong Kong.

 

No início da guerra, na cidade de Sanyuanli, ocorrera um confronto entre tropas indo-britânicas e milícias de uma resistência chinesa espontânea. Esta batalha deu origem a um relato mítico que empolgou a opinião pública chinesa da época, tornando-se a inspiração de rebeliões populares. O sentimento anti-manchu na sociedade misturou-se com o sentimento de xenofobia e com o abalo profundo que provocava a evidente fraqueza do país. Tudo isto criou um caldo de cultura feito de pessimismo e revolta, alimentado por uma poderosa desconfiança em relação às autoridades. Foi esta a origem, nos anos 50 e 60, de vários protestos contra o regime imperial, cada um deles a provocar milhões de mortos, não necessariamente em combates, mas em fome provocada, colheitas perdidas, epidemias, convulsões e banditismo em larga escala. A lista inclui os denominados ‘Turbantes Vermelhos’, que defendiam a restauração Ming, insurreições separatistas muçulmanas (uma das quais terá provocado 10 milhões de mortos) e revoltas camponesas conhecidas por Nian. No meio, houve a calamidade das inundações do Rio Amarelo, em 1855, e motins organizados pelas tríades.

 

Nada disto se compara às desgraças provocadas pelo movimento taiping. A rebelião da Grande Paz surgiu num contexto que não existiria sem a Guerra do Ópio e é considerada uma consequência da intervenção dos ingleses, que abriu caminho ao comércio desigual mas também à evangelização cristã em larga escala. Foi por esta altura que as ideias bíblicas começaram a circular entre os chineses comuns, chegando a um obscuro candidato a burocrata, Hong Xiuquan, que nascera em 1814 e cuja juventude coincidiu com estes tempos de choque entre civilizações. Hong tentou por quatro vezes concluir o exame oficial da burocracia imperial (onde só passava um em cada vinte candidatos) e na derradeira tentativa estudou textos cristãos que o impressionaram e que tinham sido traduzidos em Singapura por uma organização evangélica inglesa.

Os protestantes europeus e americanos estavam por esta altura a usar uma nova estratégia de evangelização da China: dois séculos antes, os padres jesuítas (entre eles muitos portugueses) procuraram convencer as elites instruídas; em meados do século XIX, quando a China foi forçada a abrir as sua portas a uma vaga de missionários, a mensagem começou a chegar à população mais pobre de forma directa e através de resumos e textos simplificados.

O jovem Hong foi uma das pessoas expostas a estas ideias cristãs, mas só mais tarde teve a sua epifania. Ele pertencia à minoria Hakka do sul da China e, após fracassar no ingresso na burocracia imperial, tornou-se professor numa localidade sem importância. Foi ali que teve as primeiras alucinações e estas convenceram-no de que era irmão de Cristo e filho de Deus. Após converter um núcleo inicial de seguidores, valendo-se de forte carisma, Hong expandiu rapidamente o seu domínio. A partir de inícios tímidos na província de Guangdong, a rebelião Taiping iniciou uma ‘cruzada’ que durou dois anos, entre 1851 e 1853, cuja inspiração era a resistência espontânea de Sanyuanli. Embora tivesse conhecimento rudimentar do cristianismo, Hong nunca foi baptizado e a sua seita não era exactamente cristã, mas um movimento político que pretendia libertar a China da ocupação estrangeira (sobretudo dos manchus), destruindo os velhos ídolos do budismo e confucionismo. Curiosamente, nessa destruição, os revoltosos nunca pouparam as imagens católicas que tanto tinham impressionado o líder.

 

Não é fácil descrever o que aconteceu, pois esta história foi sobretudo contada pelos vencedores. A rebelião transformou-se numa espécie de ‘guerra santa’ ou ‘Longa Marcha’. Esta expressão remete para o que aconteceria 80 anos mais tarde com os comunistas chineses, que retiraram inspiração dos taiping. Mao Tsé-Tung era admirador do movimento da Grande Paz e a sua estratégia terá sido influenciada pelos erros e pelas iniciativas de um grupo que os comunistas consideravam precursor da sua própria ideologia. As diferenças entre os taiping e os comunistas são evidentes, mas há curiosas semelhanças: a propriedade era colectiva e também se verificou a apropriação dos bens comuns por uma elite; existia igualdade entre homens e mulheres, pelo menos teórica, associada a um puritanismo sexual muito disciplinado.

Tal como os comunistas chineses, os taiping quase foram eliminados no início da rebelião, em 1850. Os avanços militares iniciais dos insurrectos foram lentos e só em 1853 tiveram uma enorme vitória, ao conquistarem Nanquim, onde instalaram a sua capital. Diferentes exércitos do ‘Reino Celeste da Grande Paz’ continuaram a avançar para norte e uma destas forças chegou a estar próxima de Pequim, mas houve hesitações fatais e divisões internas, que a liderança resolveu com banhos de sangue. Os taiping tinham milhões de membros, eram fanáticos e procediam a massacres nas cidades que capturavam, não poupando ninguém de etnia manchu. Usavam cabelos longos e eram extremamente disciplinados. As suas tropas incluíam mulheres combatentes e havia uma suposta igualdade entre classes sociais, embora a liderança (reis e vice-reis) vivesse num luxo que incluía concubinas e outras amenidades.

Inicialmente, os ocidentais tiveram uma atitude ambígua em relação aos rebeldes (2): alguns missionários acreditavam estar perante um grupo cristão, mas na realidade tratava-se de uma teocracia intolerante, que apenas usava certos elementos superficiais do cristianismo. Ignorantes e supersticiosos, os rebeldes rompiam com os símbolos do passado e procuravam destruir o conhecimento antigo. As bibliotecas foram incineradas tão depressa como os templos. A maré revolucionária virou em 1861, após nova guerra desigual contra as potências ocidentais e a morte prematura do imperador Xianfeng, dando origem a um novo regime, sob a imperatriz Cixi, figura anacrónica que sempre fascinou os europeus e que os historiadores ainda hoje discutem apaixonadamente.

 

Perante as ameaças internas e para consolidar o seu poder, Cixi fez grandes concessões aos invasores ocidentais, através de novos tratados que beneficiavam largamente a posição de ingleses, franceses, russos, japoneses ou americanos, entre outros. Para poderem explorar as vantagens conquistadas, as potências apoiaram a formação de exércitos imperiais capazes de esmagar a revolta taiping, sendo uma destas forças comandada por uma personagem que já encontrámos noutro episódio, Charles Gordon. Em 1862, quando os taiping tentaram conquistar Xangai, ocorreu um fenómeno raríssimo na região: nevou durante 58 horas e o seu exército não conseguiu mover-se (3). O que se seguiu foi uma série muito rápida de massacres colossais. As cidades tomadas pelas forças chinesas enchiam-se de corpos decapitados e não havia prisioneiros entre os rebeldes, antes rios de sangue.

Hong morreu um mês antes da tomada de Nanquim, em 1864, evento que se transformou num morticínio de proporções épicas. Na cidade cercada não havia comida e o profeta prometeu que cairia maná do céu, mas para espanto dos seguidores não houve milagre. Acredita-se que o profeta, desesperado pela fome, tenha morrido após comer ervas venenosas. Aos crentes foi dito que Hong morrera por causas sobrenaturais. Sem liderança e sem rumo, a rebelião foi sufocada. Onde quer que houvesse fugitivos, seguia-se uma perseguição até à morte. Os taiping sobreviventes foram caçados até ao último e os registos da sua existência foram incinerados. No meio do tumulto, os camponeses sofreram com a fome e ocorreram novas inundações catastróficas, pois durante anos os diques tinham sido negligenciados. A China demorou décadas, talvez um século, a despertar totalmente deste pesadelo cruel, cuja memória se foi transformando numa nuvem parecida com as divagações do ópio.

 

(1) China, a History, John Keay, 2008

(2) idem

(3) History of Modern China, Jonathan Fenby, 2009

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (46)


Luís Naves,

A crise de 2008 iniciou uma vaga de mudança comparável às transformações desencadeadas pela queda do Muro de Berlim. O mundo que sair destes anos não será o mesmo. Vivemos um dos raros períodos em que os acontecimentos se sucedem em turbilhão e, quando tudo acelera, torna-se impossível olhar para a realidade com a visão convencional.

No Ocidente, triunfa um sistema financeiro que aumenta as diferenças sociais, ameaçando o poder dos Estados e a liberdade dos cidadãos. Nos EUA, onde emerge uma nova sociedade, afirma-se a oligarquia. As tremendas desigualdades e o politicamente correcto são sintomas que talvez antecipem a democracia nas mãos de apenas um punhado de interesses especiais, cujo controlo da comunicação permitirá domar os descontentamentos. Na Europa, todos pedem à Alemanha para liderar, mas a Alemanha continua relutante. Aliás, quando Berlim tenta conduzir os acontecimentos, logo se depara com forte ressentimento. A União Europeia não consegue resolver as suas contradições, sobretudo a clivagem entre pequenos e grandes Estados. A desconfiança do eleitoral e o ressurgimento do nacionalismo, em oposição à ordem liberal, podem rebentar com o projecto.

África é uma zona de calamidade. A pobreza extrema e a explosão demográfica são o campo fértil para epidemias, falhanço institucional e uma crise ambiental sem precedentes. Do Mali à Somália, da Nigéria à Líbia, da Argélia ao Sudão do Sul alastra uma mancha de doença e de intolerância. No Islão, o radicalismo espalha-se e pretende alterar a vida quotidiana de mais de mil milhões de pessoas. Pressionado pela modernidade, o mundo muçulmano vira-se para as suas origens e para um fanatismo saído de outros tempos. O conflito está a provocar a implosão dos regimes, cujos estilhaços implicam guerras prolongadas.

Entretanto, continua o declínio do império russo: Moscovo ameaça os vizinhos e está a destruir a Ucrânia. Numa zona onde não havia problemas étnicos, decorre uma guerra civil onde mandam grupos de facínoras. As populações serão as primeiras vítimas e as feridas do conflito levarão anos a sarar. A Rússia intimida a periferia, mas não tem força económica ou demográfica para o fazer. A China seria a potência emergente na Ásia Central mas é provável que estas ambições sejam adiadas devido ao inesperado aparecimento de um conflito em Hong Kong, onde se luta por eleições livres. Convencer pessoas ricas a suportar um regime autoritário é complicado. Pequim terá uma escolha difícil para fazer: ou perde uma das maiores praças financeiras do mundo ou perde o seu monopólio político.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (45)


Luís Naves,

No memorando de entendimento com a troika, que já nos parece do tempo da peste negra, eram exigidas reformas estruturais que os credores consideravam inadiáveis: justiça, leis laborais e redução das rendas excessivas nas PPP’s, medicamentos e energia. Ao contrário do mito, o governo da coligação nunca teve de proceder à reforma do Estado, pois nesse ponto o objectivo era mesmo cortar despesa e lançar as bases de uma reforma futura, o que aliás foi feito, com a redução de 10% no número de funcionários públicos.

O País embarca agora numa nova fase: a inversão do que foi realizado. As corporações venceram todos os ministros que tentaram mexer a sério nos seus sectores, porventura à excepção da saúde. No ano eleitoral, Portugal corre sério risco de embarcar numa ilusão. A coligação não quererá ser trucidada e o PS, que pode vencer as eleições, não tenciona enfrentar os erros do seu passado. Os novos partidos devem obter boas votações, mas isso implica que não haverá maiorias estáveis, excepto o bloco central, o grande derrotado.

O contexto europeu aconselhava prudência. Os alemães não estão dispostos a permitir uma união monetária com indisciplina orçamental. Os críticos do euro já assumem a oposição ao governo da chanceler Merkel, por isso qualquer suavização das metas orçamentais estará ligada a reformas estruturais compulsivas e duras. Italianos e franceses tentam sair do pântano em que se atolaram, terão de aprovar medidas impopulares, mas os governos reformistas têm apoio político frágil, sobretudo em França, onde o Presidente Hollande atingiu a mais baixa taxa de popularidade jamais registada para um chefe de Estado da V República.

Os responsáveis nacionais deviam concluir que os cortes na despesa terão de prosseguir após 2015. Caso haja renegociação das metas orçamentais do Tratado Orçamental, porventura a pequena folga com que todos sonham, a Comissão Europeia vai impor novas reformas, também impopulares. Por outro lado, se as corporações triunfarem, todos os sacrifícios terão sido em vão e Portugal começará a ser empurrado para fora do euro, o que aliás pode acontecer sem mais alterações, caso a Grécia vote no início do próximo ano e o Syriza vença. Nesse caso, Atenas tentará sair da zona euro, dando argumentos aos que defendem por cá o novo escudo e aos que na Alemanha querem o novo marco.

A Tragédia de um Homem Honesto (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

  

No século XVI, um dos maiores prémios da exploração asiática era o controlo das ilhas Molucas, onde se produziam algumas especiarias importantes. Aquele arquipélago (na actual Indonésia e que surge muitas vezes escrito como Ilhas Malucas) era distante e sobre ele pouco se sabia na Europa, como pouco se sabia sobre a Ásia e o Índico, o que explica o enorme interesse no Tratado dos Descobrimentos, livro escrito pelo português António Galvão e publicado em 1563, já depois da morte do autor. A obra, a primeira do seu género, tornou-se muito famosa no século XVII e foi traduzida para inglês em 1601, quando as outras potências europeias começavam a interessar-se em estabelecer os seus próprios impérios.

Galvão foi um militar exemplar e participou em múltiplas acções de combate na Índia Portuguesa e nas costas de África. Tinha uma carreira irrepreensível, foi governador das Molucas e, apesar da coragem e honestidade dos seus serviços, regressou a Portugal, para viver na pobreza e até o seu funeral foi pago por esmolas. O editor do livro, Francisco Sousa Tavares, lamentava o tratamento dado ao autor seu amigo e a “fraqueza da natureza humana, que vindo ele  (António Galvão) a Portugal com grande confiança, que pelo que tinha feito devia ser mais favorecido e honrado, que só trouxera cem mil cruzados, se achou muito enganado, porque nele não achou outro favor ou honra, senão a dos pobres miseráveis, quero dizer, o do hospital: onde o tiveram dezassete anos, até que dele morreu e dele lhe deram o lençol para o amortalhar” (1).

  

Em resumo, esta é uma história sobre como servir a pátria e acabar com uma mão à frente e outra atrás. Entre os livros que António Galvão escreveu no final da vida estará um volume sobre A História das Molucas, perdido total ou parcialmente, do qual existe um esboço ou uma cópia parcial que o militar e cronista não terá escrito pelo seu punho. O texto sobrevivente, chamado Tratado sobre as Ilhas Molucas (2), tem informação preciosa sobre as sociedades nativas, as condições de vida e também sobre o curto período em que Galvão esteve a comandar aquele distante e crucial pedaço do império. Pela primeira vez, são associadas as descrições da geografia e do contexto histórico, um princípio que o capitão português viria a desenvolver na sua obra máxima, o já referido Tratado sobre os Descobrimentos, que teve enorme influência na compreensão europeia do mundo.

No documento que sobreviveu sobre as Molucas a geografia exótica é sempre comparada a zonas mais familiares: “O mar é quente e não do de Espanha diferente” escreve o autor, antes de explicar até que ponto o arquipélago está repleto de especiarias cujos preços atingiam fortunas nos mercados da Europa: “A noz, maça, pimenta-longa, gengibre e cravo”, entre outras.

A riqueza das plantas locais era imensa, com nomes estranhos, como sagueiros, nipas, arequeiras, jaqueiras, catapas, mangueiras, caramboleiras, canárias, lanceiras, cada uma com frutos sumarentos e ricos, doces ou nutritivos. O escritor descreve minuciosamente os insectos, as colheitas, os peixes e os pássaros, as cobras no mar e as feições dos homens, que são, segundo diz, “forçosos, manhosos, desenvoltos e bem dispostos (…) grandes nadadores (…) dados muito aos vícios e pouco aos trabalhos”. Nada escapava à atenção do narrador, dos costumes às minúcias políticas, a religião, a justiça, a maneira como as pessoas locais trabalhavam e combatiam: “São de grandes ardis, ciladas e homens destros nas armas e têm por costume ou leis não ferir nem matar os reis”.  

A escassa cultura científica das elites não académicas é exemplificada neste trecho, no qual o autor se espanta com a informação de que a Ilha de Ternate fica na latitude de São Tomé, sendo a segunda insalubre e a primeira gozando de boas condições: “A causa disto eu não a posso entender, senão se é São Tomé ser de todas as partes cercada de terra firme e receber os maus vapores dela”. As ilhas estariam em pólos opostos da Terra e isso introduzia um problema insolúvel: “Porque parece estarem contrapostos [os homens] e que devem andar com os pés uns para os outros (…) Causa disto fique a quem melhor entender”.

Tirando curiosidades como neste excerto, para mais em frases relativamente confusas, o Tratado sobre as Ilhas Molucas (atribuído a António Galvão ou escrito por alguém que o transforma em personagem central) está repleto de informação etnográfica e detalhes sobre a história dos territórios. De resto, Galvão devia ser um homem instruído, tendo em conta o seu tempo e profissão. O militar tinha boas ligações familiares, pois era filho bastardo do cronista Duarte Galvão, ele próprio um português cuja vida dava um filme e que morreu em 1517, quando chefiava uma embaixada à Etiópia.

Para além da origem familiar, pouco mais se sabe sobre a infância e juventude de António Galvão, nem sequer o ano em que nasceu ou o nome da mãe. A incerteza sobre a data de nascimento não permite saber que idade tinha em 1522, quando embarcou rumo à Índia, num navio que era comandado por um primo seu. Sabe-se que fez uma viagem de regresso a Portugal e que voltou à Índia, onde se distinguiu como um dos comandantes militares mais capazes, a ponto de ganhar a confiança do governador Nuno da Cunha, que o nomeou em 1536 para liderar a presença portuguesa na ilha de Ternate, no arquipélago das Molucas. Conhecendo todos os recantos do império, Galvão dispunha de muita informação e conhecia as grandes histórias que viriam a constar do seu famoso livro sobre os descobrimentos.

 

Na década de 20 do século XVI, as ilhas Molucas eram reclamadas por Portugal e por Castela, que não se entendiam em torno da divisão do mundo acordada em 1494 em Tordesilhas, e que dependia da dimensão da Terra. Fernão de Magalhães, ao serviço dos castelhanos, tentara demonstrar que a fonte das especiarias estava na esfera castelhana, mas a rota de Magalhães era mais difícil do que a portuguesa, pois as distâncias tinham sido subestimadas pelo navegador português, cuja frota saiu de Sevilha em 1519.

Tordesilhas definira um meridiano que passava a 370 léguas de Cabo Verde, na direcção do poente, mas o tratado era vago sobre a posição exacta do respectivo prolongamento oriental, que devia definir os dois hemisférios, o português e o castelhano.      

Em 1524, houve um acordo, que envolveu um pagamento português e deu a Portugal o comércio das Molucas, mas pouco antes, em 1522, os portugueses tinham entrado em força na região, erguendo em Ternate uma fortaleza e construindo uma pequena colónia que se dedicava ao controlo do comércio internacional de cravo, produto abundante na ilha e muito apreciado na Europa. A presença portuguesa foi contestada pelos habitantes e na década seguinte houve guerras e rebeliões, com uma actuação inábil dos invasores, que exerceram grande violência.

 

António Galvão chegou ao Maluco em Outubro de 1536, achando a fortaleza de São João Baptista de Ternate “ainda pior e mais desbaratada do que dela contava, a ilha despovoada e os lugares queimados, tudo destruído, muita gente portuguesa e escravos mortos” (3). Através de um misto de força e diplomacia, Galvão submeteu as ilhas rebeldes, tendo inclusivamente casado com uma princesa de Tidore, para evitar o prolongamento da guerra, e “mandou à princesa muitas peças ricas em que ia uma cadeia, manilhas e uma espera de ouro, cheias de âmbar, para os ter mais contentes; assim que por todas as vias este casamento não lhe custou pouco, o qual foi celebrado com muitas festas, prazeres e triunfos”.

A reconstrução foi penosa e não havia recursos para o fazer. A certo ponto da narrativa, o autor do Tratado sobre as Ilhas Molucas queixa-se que António Galvão mantinha a fortaleza “quase às suas custas, emprestando dinheiro a el-rei”, pois tinham sido tirados “quatro mil bares de cravo” e ele, Galvão, não ganhara “um só arrátel”. Nos quatro anos em que exerceu o cargo de governador, o militar e cronista podia ter acumulado uma enorme fortuna, mas pagou do próprio bolso as despesas do Estado. Não havia dinheiro para manter o poder português naquela zona ou as verbas ficavam pelo caminho. Na prática, Lisboa abandonara Ternate à sua sorte.

Mesmo assim, Galvão não apenas pacificou as ilhas, mas mandou construir um seminário e promoveu a colonização de cristãos e isso também lhe custou dinheiro. O capitão estava obcecado com a evangelização dos nativos e tomou decisões que o arruinaram, promovendo a construção de novos edifícios, comprando mantimentos para as tropas, exigindo a honestidade absoluta nas contas do comércio. Em última análise, Galvão entrou em conflito com os mercadores que o tentaram subornar e acabou por ser recambiado para Lisboa em 1540.

O capitão caíra em desgraça e regressou à Pátria crivado de dívidas. O militar tinha atingido interesses poderosos, talvez ao recusar permitir o comércio de feitores que pretendiam enganar a coroa e contavam com um governador corrupto que aceitasse receber a sua comissão nos lucros. Tinha também feito alguns amigos e dedicou-se à escrita, para ganhar dinheiro. Estes auxílios permitiram-lhe sobreviver 17 anos no Hospital Real (na imagem), onde ajudava a tratar os doentes, apesar dele próprio estar debilitado pelos efeitos das doenças tropicais. Os homens poderosos do seu tempo faziam fortuna pessoal, mas Galvão tentou defender os lucros da monarquia e quis travar a corrupção do império.

O cronista viveu um heroísmo efémero e acabou por se transformar num doente embaraçoso. António Galvão morreu em 1557, na maior miséria. Teve um funeral de indigente e dizem que deixou uma dívida de dois mil cruzados.

 

 

(1) Tratado sobre os Descobrimentos, introdução do editor Francisco Sousa Tavares, Lisboa, 1563.

 

(2) Tratado sobre as ilhas Molucas (António Galvão nas Molucas), manuscrito no Arquivo Geral das Índias, em Sevilha, de autor desconhecido, transcrição para português actual de Maria da Graça Pericão, edição de Luís Albuquerque.

 

(3) idem

 

Navegações


Luís Naves,

Bons exemplos de textos da concorrência sobre os desenvolvimentos políticos:

Em Nada os Dispõe à Acção, Pedro Picoito opina sobre a dinâmica de vitória do PS, as expectativas elevadas em relação a António Costa e a resposta da coligação, com a possível tentação da demagogia. Os anos eleitorais são tramados. Só que, ao contrário de 2009, desta vez temos a troika à perna. O texto é excelente e, por erro, foi atribuído em versão anterior deste post a Filipe Nunes Vicente, autor que considero um dos mais argutos da blogosfera. Peço imensa desculpa pelo lamentável equívoco.

Acho notável este texto de rui a., em Blasfémias. O autor fala de um padrão constante na política portuguesa, a existência do número dois nas lideranças e questiona-se sobre quem será o possível braço direito de António Costa.

Francisco Seixas da Costa sublinha a forte legitimidade do novo líder do PS, que é superior à que teria numa vitória em congresso. Isto representa um capital político inestimável.

Também há textos como este, de Isabel Moreira, publicado em Aspirina B antes da votação nas primárias. A prosa sugere que o PS sai da crise (ou transição) com feridas profundas. As clivagens são entre os que querem uma coligação mais à esquerda, que nos levaria a uma possível ruptura europeia, e os moderados que julgam inevitável um bloco central que prossiga as reformas estruturais.

Finalmente, este é um dos melhores textos que li sobre o tema. O autor é Rui Bebiano. Simplesmente brilhante.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (44)


Luís Naves,

O centro-direita está basicamente tramado. Em 2011, pegou num país à beira da falência e sujeito a um programa de resgate mal negociado, num contexto de crise da zona euro que dificultou a flexibilização das metas orçamentais, que foram mínimas e arrancadas a ferro. Apesar do espartilho, este governo pagou dívidas, conteve a despesa e evitou a saída do euro, mas esteve sempre dividido e atraiu a hostilidade de sectores importantes da própria direita, que serão aliás os primeiros a entrar agora em pânico e a tentar abandonar o barco a tempo. Com péssima comunicação e insistindo no absurdo de querer ir além da troika (o que nunca fez), o lado governamental terá escassos argumentos a seu favor: as pessoas ainda não sentem a economia a dar a volta e a estratégia de credibilização funcionou apenas nos mercados. Foi a opção correcta, mas não foi a escolha popular. Ninguém come taxas de juro.

A História será provavelmente mais branda do que o eleitorado está disposto a ser na campanha para Outubro de 2015, mas isso é fraca consolação. O descontentamento geral só não é percebido por quem não quer compreender. Nas próximas eleições, as pessoas vão votar de forma emocional e isso será visível de imediato nas sondagens, com forte subida do PS. António Costa não terá pressa e dispõe de muito tempo para esmifrar os ministros mais fracos e para encostar o Governo às cordas.

Acima de tudo, Costa não quererá interromper os erros do adversário, sobretudo se a estratégia governamental for a de tentar diabolizar os ex-socráticos que esvoaçam à volta do novo líder socialista. Falhou em 2009 com o próprio Sócrates, mas esta direita é burra, aprende mal e vai querer repetir o número.

Para não perder por muito nas próximas legislativas, a coligação deverá trazer a discussão política para os temas que verdadeiramente contam: como é que o PS de António Costa tenciona cumprir o Tratado Orçamental e o que prefere na questão da dívida pública? A reestruturação? Não sendo o crescimento económico suficiente para o milagre das contas públicas positivas, que cortes e reformas estão os socialistas dispostos a fazer? O líder do PS só precisa de fintar estes temas, de não se comprometer, de insistir na mudança e na esperança, de mostrar preocupações sociais, de falar aos desempregados e aos que vivem no medo de perder os seus empregos. Nestes assuntos, o governo estará em forte desvantagem. Costa evitou com êxito mencionar o Tratado Orçamental nas primárias do PS, tentará fazer o mesmo nas legislativas.

Crónica que sempre desejei escrever sobre George Clooney sem nunca ter o pretexto


Luís Naves,

Fiquei feliz com o casamento de George Clooney, que é um rapaz da minha criação. Todo aquele ambiente de Hollywood clássico, o amor tirado de um livro de Hemingway, tudo isto encanta. Eu e o George nascemos no mesmo dia e, tendo em conta a diferença horária, julgo que nascemos mais ou menos à mesma hora. Somos gémeos de ascendência gémeos e no signo chinês ambos búfalo, mas desconheço os detalhes e as implicações, julgo que estarão envolvidos o yin, a água e o metal. Ambos temos aspecto de pessoas felizes e, se fôssemos cantores de ópera, ele seria o barítono que tentava impedir o meu amor com a soprano (felizmente, não canto, mas sou tenor).

Pelos meus cálculos, nasceram 380 mil pessoas nesse dia, mais ou menos um par de milhares e algumas centenas. Isto inclui apenas aqueles que sobreviveram ao primeiro ano de vida e é naturalmente uma estimativa grosseira. Muitos dos rapazes e raparigas da nossa criação já faleceram, vítimas de doença, acidentes, conflitos, mas julgo que haverá dezenas de milhares ainda vivos. É natural que os últimos morram algures na década de 70 deste século.

Se eu e o George nascemos no mesmo segundo, o que não sendo provável é apesar de tudo possível, haverá duas outras pessoas no planeta que também nasceram nesse segundo. Não sei se estarão vivas, mas teria sido bem pensado enviar um convite para o casamento. Nunca estive em Veneza. 

 

Eu e o George somos também primos afastados. Na pior das hipóteses tivemos um antepassado comum que viveu talvez há uns dois mil anos, mas é provável que os nossos laços familiares sejam mais recentes, com apenas alguns séculos. A noiva, a minha prima Amal, de deslumbrante beleza, também partilha comigo uma ascendência de Médio Oriente mas, no caso do meu ramo da família, emigrámos mais cedo para a Europa e por aqui ficámos.

Nas cimeiras europeias, no centro de Imprensa, costumava ser cumprimentado por jornalistas que não conhecia de lado nenhum, e em várias línguas. Era um clássico inexplicável. Até que encontrei o meu sósia, um jornalista italiano muito mais popular do que eu. Ficámos a olhar um para o outro, a tentar descobrir as diferenças e, a partir daí, sempre que nos víamos, inclinávamos a cabeça, num cumprimento simpático que parecia alguém a ver-se ao espelho. Quando fui ao Paquistão, as pessoas achavam que era iraniano. Comprei uma roupa local, chamada shalwar kameez, muito confortável e que me ficava a matar. Dizia que era europeu e as pessoas olhavam para mim, desconfiadas, identificando logo o ar de iraniano, apesar da elegante kameez. 

 

Não acreditam nesta parte? Também tenho dúvidas. Quando estou no estrangeiro, sou frequentemente abordado e fazem-me imensas perguntas: onde é a estação de comboios, onde é o museu, onde fica a rua não-sei-quê. Em Portugal, isso nunca acontece, ninguém me pergunta coisas a que sei responder. Na Hungria, as mulheres bonitas até olham para mim com interesse (isto é rigorosamente verdadeiro). Em Portugal, nunca olham, a ponto de achar que há qualquer coisa de errado com estas novas gerações. Certa vez, em Copenhaga, um cavalheiro cumprimentou-me ‘Salam Alaikum’ na rua e fiquei sem saber o que responder e só consegui dizer ‘salam’ em troca, o que julgo me denunciou de imediato, talvez por causa da pronúncia. Sei que estava escuro, mas o aeroporto do Cairo parecia bem iluminado por um sol esplendoroso quando perguntei a um funcionário onde era o terminal da Lufthansa e ele me devolveu a questão: ‘Você é Sírio?’

Ainda hoje não sei o que é que a Lufthansa tem a ver com a Síria, mas percebi a alusão do funcionário ao ver o George Clooney no filme Syriana, a fazer de mim, um bocadinho mais gordinho e desmazelado, cabelo e barba compridos, com aquele seu ar bonzinho e descontraído, num não te rales muito próprio dos rapazes e raparigas da minha criação, tirando aquele momento final do filme em que percebíamos toda a humanidade da personagem, quando esta compreendia que tinha falhado tão completamente.

É a diferença maior entre a fantasia dos filmes e o que imaginamos da realidade, pois aqui do outro lado, o falhanço não é bem assim, tão cinematográfico. É o viver que importa, maneira de conceber a mesma coisa, mas de forma diferente. Como dizia um amigo meu, isto anda tudo ligado, e como diria o meu sósia italiano, sendo tempo de encontrar um remate para esta confissão obscura: ‘tanti auguri, George’.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (43)


Luís Naves,

O caso Tecnoforma visa destruir o principal capital político de Passos Coelho, a sua imagem de honestidade. Embora o primeiro-ministro tenha esclarecido as questões ligadas à denúncia anónima e as dúvidas sobre a exclusividade parlamentar, há quem ainda não esteja satisfeito. A denúncia era falsa e o processo foi arquivado. Sem novas informações, esta história está morta. O primeiro-ministro demonstrou de forma convincente que cumpriu as regras da exclusividade parlamentar a que se obrigou quando recebeu um subsídio. Passos Coelho é aliás um político pouco habitual, sem sinais exteriores de riqueza e que tem resistido aos interesses que dominam o regime democrático.

Ontem, enquanto ouvia o debate parlamentar, lembrei-me de uma história pessoal: estive na Guiné-Bissau em 1998, como repórter, e gastei muito dinheiro numa guerra onde não se passavam facturas. Na altura, não podia provar despesas de centenas de contos. Sou uma pessoa remediada, não tenho sinais exteriores de riqueza e o meu pai ensinou-me a não ficar sequer com um tostão que não seja meu. O jornal devolveu-me o dinheiro e não posso esquecer o chefe de redacção e o director que nem hesitaram em aceitar a minha palavra.

As pessoas honestas não podem ser confrontadas com situações onde tenham de provar a sua honestidade. O princípio aplica-se no caso Tecnoforma, onde foram esclarecidas as suspeitas que até agora surgiram. É por isso grave que o primeiro-ministro não tenha direito à presunção de inocência. É dramática a exigência de que prove a sua honestidade através da devassa pública e da abdicação de um direito individual. Se triunfar a demagogia, não haverá pessoas de qualidade na política. E sem pessoas de qualidade na política, o que teremos é a promiscuidade com os negócios, exactamente aquilo que toda esta retórica afirma combater.

Um encontro feliz


Luís Naves,

 

No mais recente livro de Patrícia Reis, O que nos Separa dos Outros, o narrador tem 54 anos. Eu tenho 53 e, tal como o protagonista, vejo com espanto e certa melancolia os efeitos do tempo na vida que passa.

A afinidade entre leitor e livro é um encontro feliz a que chamamos habitualmente qualidade literária. Por isso decidi escrever esta nota de leitura. A novela foi ontem apresentada em Lisboa, lê-se sem dificuldade, sinal inconfundível de boa escrita. A autora escolheu uma forma simples, o monólogo interior, mas o tema é complexo: perda, sensação de fracasso, a ideia de que se gastou uma vida inteira para quase nada. O narrador, um professor de escrita ou talvez escritor falhado, enfrasca-se em Macau a observar a empregada chinesa de um bar anónimo, a falar com ela em imaginação (como se a rapariga pudesse perceber as palavras dele). Temos ali o cansaço e o desencanto, a impossibilidade de comunicar, a fantasia sobre a vida dos outros.

O livro de Patrícia Reis tem uma escrita transparente e despretensiosa, sem floreados ou excesso de imagens, deixando aos leitores amplo espaço para imaginar as omissões do enredo. Em O Que nos Separa dos Outros por causa de um copo de Whisky (na versão longa do título) há pequenas passagens de grande intensidade dramática e personagens apenas esboçadas, mas que sentimos em toda a sua riqueza humana. A mãe do narrador, por exemplo, que vemos aflita durante um funeral e depois, senil, num lar de idosos: “Quando se vê ao espelho, será que pensa em alguma coisa?”. Ou o falecido irmão, um solitário, cujo desespero nunca chegamos a perceber.

O narrador, silencioso e fatigado, observa uma chinesa ligeiramente estrábica, tenta adivinhar a vida dela e vai desfiando memórias, num fluxo de pensamento falsamente aleatório. Por vezes, interroga-se sobre a personagem muda que julga observar: “Não consigo perceber que idade tens. É intrigante”. Em ruído de fundo da sua mágoa está o suicídio do irmão (que talvez seja acidente), o casamento nulo e a falta de amor, o desaparecimento do pai (porventura outra história complicada).

A escritora conseguiu ligar os diferentes fios da intriga num conjunto harmonioso e um leitor não pode deixar de sentir a solidão destas figuras dispersas. A melhor paisagem para confessar o que ninguém ouve é um lugar estrangeiro. Num bar do outro lado do planeta, na companhia de um copo de whisky, a personagem tenta recordar o que durante a inexorável passagem do tempo se perdeu na sua vida: “Esse desconhecido é-me confortável. Faço o copo rodar na minha mão, as pedras de gelo a diluírem-se, e tenho pena dessa morte lenta da água”.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (42)


Luís Naves,

Três meses depois de ter saído do programa da troika, Portugal afunda-se numa crise política. O fim do ajustamento devia ter dado lugar a um clima mais optimista, mas verifica-se o oposto: aumenta a crispação, banalizam-se as greves, luta-se pelo poder. Vinda do nada, surge a suspeita sobre o próprio primeiro-ministro, que ameaça o único capital político que Passos Coelho ainda possuía, a sua reputação de honestidade. Caso não seja esclarecido depressa, este caso porá o Governo a fritar em azeite lento e a coligação no poder enfrentará um final triste. 

O PS está em plena guerra civil. A perspectiva do poder deve unir as facções, mas o centro-esquerda não esclarece como vai solucionar o problema das contas públicas. Os socialistas dizem confiar no crescimento da economia, mas na melhor das hipóteses este não chegará nem para metade do esforço de consolidação orçamental que falta fazer.

No último debate da corrida à liderança do PS houve uma frase curiosa de António Costa, que passou despercebida: “Agora, começa a parte difícil”, disse o dirigente socialista. A parte fácil da oposição tinha sido com a troika. De forma implícita, Costa admitiu por um momento que não houve grande margem de manobra durante os três anos de ajustamento. Portugal esteve sob protectorado e foi sob tutela externa que realizou algumas reformas. Esta fase do campeonato acabou. Entretanto, houve uma crise no Governo que colocou ponto final no reformismo e, logo a seguir, estoirou o banco do regime, mostrando a fragilidade das confortáveis ligações entre as corporações partidárias e os negócios amparados pelo Estado.

Três meses depois da troika, o clima de fim de festa facilita o aparecimento dos populistas e do sebastianismo, ou seja, da ilusão dos caminhos fáceis. Os partidos radicais (que não pensam em ocupar o poder) repetirão a sua narrativa romanceada sobre o país de fantasia em que vivem. Os analistas do costume vão esconder do povo a parte mais crua da realidade, sobretudo as consequências dos compromissos europeus. A verdadeira crise nacional é a impotência da política, a conversa da treta e o abismo cada vez mais evidente entre as fracas elites e uma sociedade em mudança.

O Regicida (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

 

Na geografia da aventura, é por vezes difícil distinguir os heróis dos falhados e os patriotas dos traidores. Estas incertezas existem em muitas figuras do passado, talvez à excepção dos regicidas, que eram os criminosos mais detestados entre todos, mesmo em forma tentada, pouco importava, esses eram crimes demasiado graves. Matar ou tentar matar o rei mereceu sempre máxima violência na justiça estatal, de forma a que não houvesse rasto dos corpos dos assassinos ou sequer dos seus motivos.

Um dos mais importantes regicidas portugueses foi o esquecido escrivão Domingos Leite Pereira, executado em Lisboa em 1647, após tentar assassinar o rei D. João IV. O seu motivo parece ter sido banal (ciúmes), e estes seriam ainda por cima infundados, pelo que a história oficial carece de certa consistência ou teremos de avaliar o protagonista como homem pouco inteligente e muito manipulável.

Se resultasse, o atentado podia ter mudado a História do país: o rei teria morrido numa altura em que a independência de Portugal era periclitante. A conjura teve ramificações externas e o caso incluiu um pouco de tudo: sexo, espionagem, guerra e traição.

  

Em meados do século XVII, Portugal estava envolvido numa luta difícil pela sobrevivência como nação independente. A restauração, em 1640, tivera amplo apoio popular, mas a guerra da independência implicava o isolamento internacional e conflitos permanentes nas colónias e nas regiões da fronteira, as primeiras atacadas por holandeses e as segundas a serem alvo das rapinas dos exércitos Habsburgos estacionados na Extremadura espanhola.

Domingos Leite Pereira, natural de Guimarães, era uma personagem relativamente apagada do novo regime, com o ofício de escrivão do cível da coroa, mas apesar de tudo teria alguma influência social, pelo menos nos patamares inferiores. Participara na conspiração de 1640 e podia ter seguido uma vida pacata se não lhe constassem certos rumores sobre a infidelidade da sua esposa, alegadamente envolvida em paixões funestas com um padre, um tal Luís Álvares. O marido enganado associou-se a uma personagem sinistra (também presente nas violências de 1640), Manuel Roque da Cunha, e o padre foi apanhado numa emboscada e morto com requintes de malvadez.

Esta parte da crónica não aparece em todas as fontes. Os documentos da época (1) iniciam o relato colocando Leite Pereira já em Madrid, associado a Manuel Roque e sem qualquer referência às origens desta segunda personagem fundamental, que provavelmente era um facínora em fuga ou um agente português em Castela. O escrivão foi aliciado a trair o seu país quando se encontrava refugiado em Madrid. Há referências explícitas a “ministros de Castela”, mas historiadores mais recentes indicam que na origem do atentado estiveram conspiradores portugueses, nomeadamente o marquês de Porto Seguro e o conde de Figueiró (2) que, no exílio, combatiam a nova elite nacional.

 

Ao homicida tinham chegado rumores (talvez plantados) de que a sua mulher trocara como amante o falecido padre pelo próprio rei. No exílio em Madrid, Domingos Leite Pereira estava sem perspectivas de regressar a Lisboa e sobretudo sem dinheiro ou ocupação. Tudo o que dizia respeito a Portugal interessava aos espanhóis. A guerra assumira contornos de extrema crueldade, com as tropas de ambos os lados a cometerem excessos pouco habituais, os portugueses tratados como rebeldes, os castelhanos maltratados em retaliação.

Não há documentação que esclareça o que se passou em Madrid, embora seja pouco credível que a ideia de matar o rei português tenha surgido sem envolvimento das autoridades espanholas, pois o regicida obteve dinheiro e um salvo-conduto que lhe permitiu atravessar a zona militar. Domingos era impulsivo e vingativo, padecia de ciúmes loucos e tinha pouca confiança no cúmplice, a quem não disse qual era o objectivo do regresso a Portugal. Esta é a versão posterior de Manuel Roque: foi a Lisboa julgando que a intenção de Domingos era vingar a traição da mulher adúltera, Maria Luísa, conhecida por Traga Malhas, mas sem saber que o verdadeiro alvo seria o monarca.

Assim, no Verão de 1647, Domingos Leite dirigiu-se para Lisboa com Roque da Cunha, passando por Badajoz, trazendo consigo uma espingarda, munições e jarros de veneno para impregnar as balas. A sua missão clandestina era a de matar D. João IV. Em Lisboa, o regicida alugou três casas no caminho da procissão de Corpo de Deus e desfez paredes, para obter mais espaço no interior. As casas ficavam na paróquia de São Nicolau, em local estreito por onde passaria necessariamente a procissão, e numa delas o regicida fez um pequeno buraco para o exterior, onde cabia o cano de uma espingarda.

A procissão decorreu a 20 de Junho de 1647. O rei participou, mas o tiro nunca partiu. Na altura, D. João IV nem soube que tinha escapado ao abraço da morte. Sem disparar, o regicida fugiu e Roque tinha cavalos à espera. Seguiram os dois cúmplices para Espanha e ali, estranhamente, foi organizado novo atentado, embora sem plano fixo. Desta vez, Roque conheceu o objectivo, mas escondeu do amigo a sua oposição. Os dois cúmplices estavam já nesta altura à beira da ruptura, pois Domingos desconfiava da traição de Roque e a certo ponto teve mesmo uma atitude patética, agarrando-se às pernas do outro, implorando-lhe que não o denunciasse.

Este ponto da história oficial pode significar que Manuel Roque mentiu às autoridades. A alternativa é que o episódio seja verdadeiro, mostrando que na segunda expedição Domingos já estava em descontrolo emocional, mas isso também pode ser significativo, pois ninguém o teria mandado numa missão tão perigosa se estivesse num estado psicológico de pouca utilidade. O regresso a Portugal, em Julho, parece ser uma acção desesperada do próprio e não caucionada pelos conspiradores madrilenos. Enquanto Domingos ficou numa estalagem no Alentejo, o seu cúmplice foi a Lisboa arranjar uma casa. Em vez de desenvolver o plano, Roque denunciou Domingos Leite, foi falar com um magistrado e com um ministro, tendo de imediato sido enviados militares para prender o regicida.    

 

Esta é uma parte misteriosa do episódio: o que levou Roque subitamente a trair? Patriotismo, medo? E qual o motivo de Domingos se esconder numa estalagem alentejana? E a pergunta fundamental: por que razão falhou o atentado de 20 de Junho?

No documento (3) baseado no interrogatório das testemunhas (as confissões eram geralmente obtidas sob tortura), o regicida explicou não ter conseguido disparar pois vira o rei envolto numa luz mística que brotava do céu, dando ao monarca uma extraordinária magnificência. Domingos admitiu que falhara por intervenção divina e o milagre era útil em benefício da causa nacional. Talvez ele estivesse a dizer o que os seus interrogadores queriam ouvir. Para efeito de propaganda, a narrativa miraculosa esclarecia todas as dúvidas e de forma demasiado conveniente, passados dois meses, ainda estavam na casa as provas do atentado: as balas, o veneno, o buraco na parede por onde devia passar o cano da espingarda. Ninguém entrara ali? O abandono não despertara qualquer interesse do proprietário?

A verdade será talvez um pouco mais prosaica do que a oficial. Nos autos afirma-se que o atirador se ajoelhou, pois nessa posição conseguia disparar melhor. As armas daquela época eram longas, imprecisas e pesadas, disparavam-se a partir da posição ajoelhada ou com um apoio que permitia ao soldado ficar de pé. Isto parece indicar que o buraco na parede estaria colocado num plano relativamente baixo em relação à rua onde passou a procissão, talvez a meio metro de altura.

Embora o autor do atentado tenha dito que viu o rei (não disparou devido à tal experiência mística), é possível que houvesse muitas pessoas à volta da procissão, a ver e a desfilar, sobretudo a impedir um ângulo de tiro. Pode especular-se que ocorreu um azar tão simples quanto este: alguém se encostou à parede da casa, para ver dali a procissão, de costas para o cano da espingarda, tapando completamente a visão do assassino. Um basbaque salvou a vida a D. João IV.

Contar a história desta forma não teria qualquer valor de propaganda e, por isso, até hoje permanece o mistério do atentado falhado. 

Este caso foi suficientemente rocambolesco para interessar autores do século XIX, como Pinheiro Chagas e Camilo Castelo Branco. Este último escreveu um romance histórico, O Regicida, que teve uma continuação muito popular, A Filha do Regicida. Baseando-se na documentação disponível, inventando mais pormenores, o romancista fez uma interpretação livre, tornando credível a eventual resposta ao enigma do que impediu Domingos Leite de disparar contra o rei. Camilo resolveu o problema com um golpe de asa narrativo: o verdadeiro milagre fora o assassino ver a beleza das mulheres que rodeavam o monarca, o medo de falhar e de atingir uma donzela inocente.

Domingos Leite Pereira foi executado em Agosto de 1647. Deceparam-lhe as mãos, houve jorros de sangue e gritos de dor antes do enforcamento que lhe tirou a vida. O corpo foi transformado em cinzas. No local onde estavam as casas, nas Olarias, mandou a rainha construir um convento, para agradecer o milagre, mas o edifício não sobreviveu ao terramoto do século seguinte. Dizem que tudo isto aconteceu na actual Rua dos Fanqueiros e que havia ali um beco chamado Ponce de Leão, baptizado com o nome do navegador espanhol a quem foi atribuída a descoberta da fonte da juventude. 

 

 

(1) Relaçam do Assassínio Intentado por Castella contra a magestade de el-rey D. João IV e impedido miraculosamente, Francisco Brandão, 1647,

ou ainda Duas sentenças proferidas no tempo da guerra da aclamação, primeira contra o aleivoso Domingos Leite Pereira, 1647 

 

(2) Os Maus da História de Portugal, Ricardo Raimundo, a Esfera dos Livros, 2014. Neste ponto, o autor cita a Crónica Inédita de D. João IV, de António Coelho, 1942.

 

(3) Relaçam do Assassínio Intentado por Castela

 

As duas mulheres de Rackam, o Terrível (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

A história das duas mulheres piratas é contada num livro primoroso publicado em 1724, The General History of the Pirates, assinado por um capitão Charles Johnson, com várias edições e também conhecido por Uma História Geral de Roubos e Crimes de Piratas Famosos (1). O autor tinha tal domínio da técnica literária que existiu durante muito tempo a suspeita de ser o pseudónimo de Daniel Defoe, o autor de Robinson Crusoe. Parece que não é assim: o livro terá mesmo sido escrito por um antigo pirata. As suas fontes não são conhecidas, mas grande parte da narrativa baseou-se em factos ou em lendas que circulavam entre os marinheiros, talvez até em histórias vividas. 

Num dos capítulos do livro do capitão Johnson apareciam os nomes de duas mulheres, Mary Read e Anne Bonny, que integravam a tripulação do temível capitão John Rackam, que assolou os mares das Caraíbas por volta de 1720. De início, toda a gente pensava que neste relato o autor deixara à solta a fantasia, mas as duas mulheres piratas existiram mesmo. Johnson conta como ambas se defenderam em tribunal mostrando os ventres inchados. A justiça britânica não executava grávidas e foi assim que elas evitaram o enforcamento.

  

Mary Read (2) tinha 32 anos quando enfrentou a ameaça de pena capital na Jamaica. Vivera muito tempo sob disfarce masculino, a começar nos primeiros anos de vida, ainda em Inglaterra. A sua mãe mentiu, dizendo à família que tinha um filho, obrigando a filha ilegítima a fazer-se passar por uma criança anterior, do sexo masculino, que morrera pouco antes dela nascer.

Este detalhe é importante para perceber a mentalidade da pirata e exige alguma explicação: a mãe de Mary era casada com um capitão da marinha inglesa e o casal teve um filho, que morreu na infância, numa altura em que o marinheiro estava fora de casa. A senhora não informou o marido sobre o que sucedera. Ela era jovem e bonita, tivera um descuido do qual resultou uma outra bebé, mas do sexo errado. Não podendo aparecer à família com uma menina nos braços, Mary era disfarçada de rapaz, assumindo de alguma forma a aparência da criança falecida.

O pai de Mary (pai no papel, naturalmente) nunca regressou a Inglaterra, por motivos que não são referidos, presumindo-se que tenha morrido durante as suas perigosas expedições. A família do marinheiro acreditava na existência de um descendente masculino e tentava ajudar a viúva, enviando regularmente algum dinheiro. Este era o principal motivo do disfarce e foi sem dúvida o início apropriado de uma vida rebelde.

 

Desde cedo, Mary teve o gosto da aventura. Após uma passagem por França, ao serviço de uma senhora muito rica, a rapariga disfarçou-se de homem e partiu para a guerra na Flandres (Guerra da Sucessão Espanhola). Durante este conflito, sempre a fazer-se passar por homem, a intrépida inglesa lutou na infantaria e num regimento de cavalaria, mas apaixonou-se por um camarada de armas e, segundo o relato do capitão Johnson, isso tornou-se incompatível com os deveres dos soldados, “pois parece que Marte e Vénus não podem ser servidos ao mesmo tempo”.

Esta enorme frase podia servir de epitáfio a Mary Read, que perdeu o marido no momento de máxima felicidade, já terminada a guerra, quando ambos geriam uma estalagem perto de Breda, nos Países Baixos. A inglesa deve ter ficado abalada com a morte do amante e certamente hesitou sobre o futuro. Num primeiro tempo, tentou o regresso à vida militar, no entanto a guerra terminara. Então, decidiu emigrar para as Índias Ocidentais, sempre disfarçada de homem, mas o barco em que viajava foi capturado pelo pirata John Rackam, conhecido por Calico Jack.

Vários episódios demonstram que John Rackam não era propriamente um terror dos sete mares, antes um capitão hesitante e fraco, que não teria saído da segunda divisão da pirataria nas Caraíbas se não tivesse capturado o navio holandês em que viajava Mary Read. A prisioneira era uma mulher invulgar, uma verdadeira força da natureza: o navio foi pilhado e seguiu viagem, mas Read (fazendo-se passar por homem) viu ali uma oportunidade e juntou-se à tripulação dos piratas, mantendo o disfarce.

Rackam nunca foi o Terrível, isso veio mais tarde, quando o pirata das Caraíbas serviu de inspiração para uma das personagens mais impetuosas das aventuras de Tintim, a banda desenhada do belga Hergé. No seu tempo, o verdadeiro John Rackam viria a ficar famoso sobretudo devido à ligação com outra mulher, Anne Bonny, e ao facto de ter usado uma bandeira com um desenho original, que incluía uma caveira cruzada por dois sabres, em fundo preto, já muito próximo do ícone que viria a dar grande fama à pirataria do século XVIII, a chamada Jolly Roger, bandeira também de fundo preto, com uma caveira e duas tíbias cruzadas (3). 

 

Está na altura de conhecermos Anne Bonny, que também seguia a bordo e que se juntara à tripulação pirata em circunstâncias que se desconhecem. Ela era uma irlandesa com pouco mais de vinte anos, filha de um negociante rico que a viria a proteger no momento de maior aflição. Bonny achou graça ao suposto rapaz do navio capturado que se juntara aos piratas e só mais tarde descobriu que este era de facto uma mulher. Como guardou o segredo, o capitão Rackam começou a ficar ciumento das cumplicidades entre Bonny e o recém-chegado e, a certo ponto, perdeu as estribeiras e ameaçou cortar o pescoço ao suposto namorado. Foi assim que Bonny o informou sobre o verdadeiro sexo do alegado rival. O relato do capitão Johnson não dá mais explicações sobre estes equívocos picantes, apenas nos informa que as duas mulheres eram muito amigas, que se vestiam como os outros tripulantes e que sabiam combater.

Observando com mais cuidado, o pirata Rackam fez bem em não tentar cortar o pescoço ao suposto namorado da sua Bonny. Em primeiro lugar porque não havia namoro algum e, depois, Mary Read era militar profissional, como revela uma das pequenas historietas dentro desta história: Read, já sem disfarce, embora com direitos de combatente, apaixonara-se por um dos tripulantes e, em certo dia, soube que este teria de combater em duelo até à morte. Era assim o código de honra dos piratas, que exigia a reparação de insultos através do sangue. Ora, o amante de Mary tinha escassas hipóteses de sobreviver a essa luta, por isso ela insultou gravemente o mesmo adversário e combinou um combate duas horas antes do duelo em que o amante estaria envolvido e na mesma praia. Mary combateu com espada e matou o opositor, salvando assim a vida do namorado.

 

Tudo indica que John Rackam era um capitão bastante incompetente e, em Outubro de 1720, foi surpreendido com metade da tripulação num estupor alcoólico. Atacado pelas autoridades navais britânicas, a resistência foi mínima, excepto a de um grupo onde estavam as duas mulheres, que tentaram em vão incentivar os restantes piratas à luta. Este facto complicaria mais tarde a sua defesa em tribunal. Ficou provado que eram lutadoras voluntárias e não simples cativas. O que as salvou da forca foi o facto de estarem grávidas.

Por especial favor do tribunal, Calico Jack, antes de morrer, ainda teve uma conversa com a sua amante, Anne Bonny. Esta disse-lhe que lamentava a situação em que ele se encontrava, mas “se tivesse lutado como um homem, não haveria necessidade de morrer como um cão”.

Assim aconteceu: Rackam foi enforcado a 18 de Novembro de 1721 e o seu corpo pendurado à entrada de Port Royal, na Jamaica. Tinha 32 anos. A irlandesa sobreviveu a todas estas aventuras, com aparente ajuda dos pais ricos. Johnson afirma saber que ela não foi executada e mais tarde surgiram provas documentais de que, na realidade, a amante de John Rackam morreu na Carolina do Sul, em 1782, com quase 90 anos, o que era uma idade extremamente avançada nessa época. Ela teve pelo menos dez filhos, pelo que haverá muitos descendentes seus nos Estados Unidos.

Mary Read não teve tanta sorte. Morreu na prisão em Abril de 1721, de uma febre não especificada. Não se sabe se teve a criança ou o que aconteceu ao amante que salvara na praia, mas presume-se que ele tenha seguido o mesmo fim que os outros piratas, o enforcamento. Tanto tempo depois, o que se sabe é que Rackham não era assim tão terrível, que houve mesmo duas mulheres entre os piratas das Caraíbas, e que uma delas, Mary Read, foi uma incomparável mistura de Vénus e de Marte, de amor e de guerra. 

 

 

(1) O livro do Capitão Johnson foi recentemente editado em Portugal pela Cavalo de Ferro, História Geral dos Piratas, trad. de Nuno Batalha. 

(2) A história de Mary Read tem interessado a literatura. Em português, existe uma biografia romanceada, A Pirata, da autoria de Luísa Costa Gomes (D. Quixote, 2006).

(3) A grande fama dos piratas das Caraíbas veio sobretudo deste livro do capitão Johnson, que inspirou muitos autores durante dois séculos e tem preciosa informação sobre a pirataria da época e os seus efeitos, nomeadamente no caso de Portugal. Há muitos relatos históricos sobre as sucessivas vagas de pirataria e os seus protagonistas, geralmente náufragos de guerras ou fugitivos de injustiça. As façanhas mais sinistras foram sendo envolvidas em lenda e certa dose de romantismo. A pirataria tornou-se tema de romances e sustentou o género literário das aventuras.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (41)


Luís Naves,

No caso do Iraque, é bastante evidente que a América não tem intenção de enviar tropas para o terreno, o que aliás seria um brinde oferecido aos radicais do Estado Islâmico (eles não querem outra coisa). O EI está a tentar perturbar o fluxo de petróleo, cuja produção se encontra sobretudo no Curdistão e no sul do Iraque, mas o radicalismo tentará também ser uma ameaça aos regimes autoritários da região. Até que ponto a monarquia saudita é estável? Os curdos continuam a controlar a parte mais apetecível do petróleo iraquiano e os pontos de saída parecem por enquanto seguros, mas os ocidentais estão claramente à defesa.

Os imperialistas ingleses da Era vitoriana diziam que não tinham aliados, mas apenas interesses. Os americanos deviam um dia deixar-se de grandes discursos sobre a defesa de alianças e dos valores da democracia e da moral, assumindo com simplicidade aquilo que sempre fizeram, que foi defender os seus interesses. Tentando perceber o que é conveniente para a América (e para o Ocidente), podemos analisar um pouco melhor os vários conflitos que se agravam no Médio Oriente. Tudo o que afecte o fluxo de petróleo terá de ser travado. Tudo o que enfraqueça o governo iraquiano de maioria xiita terá de ser evitado, pelo que Washington precisa de estabelecer uma comunicação com Teerão, que será cada vez mais um importante parceiro conjuntural. A Arábia Saudita é uma perigosa incógnita, como veremos porventura nas próximas peregrinações a Meca. Os regimes tradicionais da região devem encarar a radicalização com especial medo, o que implica não ser esta a melhor altura para falar em revolução árabe. E, no entanto, sem uma abertura nestes regimes, sem um pouco mais de justiça, o descontentamento das populações só alimentará os radicais.