Cadernos de um enviado especial ao purgatório (46)


Luís Naves,

A crise de 2008 iniciou uma vaga de mudança comparável às transformações desencadeadas pela queda do Muro de Berlim. O mundo que sair destes anos não será o mesmo. Vivemos um dos raros períodos em que os acontecimentos se sucedem em turbilhão e, quando tudo acelera, torna-se impossível olhar para a realidade com a visão convencional.

No Ocidente, triunfa um sistema financeiro que aumenta as diferenças sociais, ameaçando o poder dos Estados e a liberdade dos cidadãos. Nos EUA, onde emerge uma nova sociedade, afirma-se a oligarquia. As tremendas desigualdades e o politicamente correcto são sintomas que talvez antecipem a democracia nas mãos de apenas um punhado de interesses especiais, cujo controlo da comunicação permitirá domar os descontentamentos. Na Europa, todos pedem à Alemanha para liderar, mas a Alemanha continua relutante. Aliás, quando Berlim tenta conduzir os acontecimentos, logo se depara com forte ressentimento. A União Europeia não consegue resolver as suas contradições, sobretudo a clivagem entre pequenos e grandes Estados. A desconfiança do eleitoral e o ressurgimento do nacionalismo, em oposição à ordem liberal, podem rebentar com o projecto.

África é uma zona de calamidade. A pobreza extrema e a explosão demográfica são o campo fértil para epidemias, falhanço institucional e uma crise ambiental sem precedentes. Do Mali à Somália, da Nigéria à Líbia, da Argélia ao Sudão do Sul alastra uma mancha de doença e de intolerância. No Islão, o radicalismo espalha-se e pretende alterar a vida quotidiana de mais de mil milhões de pessoas. Pressionado pela modernidade, o mundo muçulmano vira-se para as suas origens e para um fanatismo saído de outros tempos. O conflito está a provocar a implosão dos regimes, cujos estilhaços implicam guerras prolongadas.

Entretanto, continua o declínio do império russo: Moscovo ameaça os vizinhos e está a destruir a Ucrânia. Numa zona onde não havia problemas étnicos, decorre uma guerra civil onde mandam grupos de facínoras. As populações serão as primeiras vítimas e as feridas do conflito levarão anos a sarar. A Rússia intimida a periferia, mas não tem força económica ou demográfica para o fazer. A China seria a potência emergente na Ásia Central mas é provável que estas ambições sejam adiadas devido ao inesperado aparecimento de um conflito em Hong Kong, onde se luta por eleições livres. Convencer pessoas ricas a suportar um regime autoritário é complicado. Pequim terá uma escolha difícil para fazer: ou perde uma das maiores praças financeiras do mundo ou perde o seu monopólio político.

2 comentários em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (46)”

  1. O episódio de Hong Kong é o sintoma que nos diz que tudo vai mudar. Na Europa a Alemanha de Merkel está convencida que resolve o problema com medidas convencionais e a Europa dos outros revê-se na manutenção do sistema. Ambos estão enganados.

    Vamos lá ser mais precisos. A China só pôde dar um ar de sua graça depois que lhe abriram os mercados. Mas a sua economia está fundamentalmente assente nas exportações. Com a recessão que se abateu sobre o mundo em geral a China sofre e busca adquirir empresas estratégicas, e recursos estratégicos, com o objectivo de poder manter alguma influência no xadrez internacional.
    O crescimento económico nos EUA é tímido e não garante a retoma do emprego.
    A Rússia é demasiado forte militarmente e usa também a tecnologia que dispõe nesta área para superar a queda demográfica. E se se sentir apertada ela desencadeará uma guerra “preventiva”, já o fez com a Crimeia e, se necessário, fá-lo-á em toda a Ucrânia e desestabilizará toda a região do pacífico.
    Gostaria de notar que a Alemanha na primeira grande guerra sofria de uma desproporção de forças de 5 para 1 e possuía não só a mais baixa taxa demográfica como também uma dívida de 135% do PIB. Compensou todas estas carências e fraquezas através da tecnologia, fazendo emergir uma mortífera máquina de guerra (e não me refiro ao gás).
    O problema de adesão popular a estes fenómenos residiu no facto de antes e no pós guerra existir toda uma oligarquia que contrastava e escandalizava com a extrema pobreza das populações, e sobreveio a II Guerra Mundial.

    Tudo isto para dizer que o enquadramento hoje vivido é exactamente o mesmo. Poderia aqui fazer uns floreados com números na Europa e noutros locais, mas seria lançar merda sobre a substância deste comentário.
    Quem pensar que a JUSTIÇA deve ser adiada em favor dos mercados não só já sente o peso deste amor que os mercados nutrem como também viverá com as chagas que eles produzem.

  2. Belo texto, a oligarquia que, na sua opinião se afirma nos EUA, qual é? Aquilo que vejo é um bloqueio do sistema político pelos dois partidos e um primado do sistema financeiro sobre os demais, mas não identifico uma oligarquia.

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