Cadernos de um enviado especial ao purgatório (50)


Luís Naves,

A sociedade portuguesa mudou, mas o sistema político, como um pesado dinossauro, parece incapaz de se adaptar. A direita está meio perplexa com as sondagens que dão o PS perto da maioria absoluta. Se as eleições fossem agora, tudo indica que António Costa, que tenta reconstruir o PS de 2010, atrairia suficientes votos na esquerda e no centro para vencer com margem folgada. Existem duas explicações possíveis para o fenómeno: o profundo descontentamento da população e a ilusão de que é possível regressar ao tempo anterior ao resgate. O governo está de tal forma desacreditado, que os próximos meses serão de agonia lenta, por isso seria lógico realizar eleições em Abril ou Maio, como pedem muitos comentadores, pois esperar até Outubro só prejudica o País.

Se chegarem ao poder, os socialistas tentarão adiar qualquer reforma impopular, mas com escassa margem de manobra e ainda menos tolerância europeia. O maior risco que correm é o de perderem a credibilidade externa e o acesso aos mercados financeiros, o que podia resultar no segundo resgate ou até no abandono da zona euro. A extrema-esquerda alternativa fracassou: o Bloco não se distingue do PCP e ninguém vota em imitações. O Livre será devorado ainda no ovo. Os populistas continuam a ser uma incógnita, pois as recentes sondagens não indicam qual o impacto eleitoral de Marinho e Pinto, embora sublinhem a sua popularidade.

A direita, agora limitada a um em cada três votos, prepara-se para uma penosa travessia do deserto. Os sociais-democratas que passaram o tempo a arrasar o governo não poderão reclamar qualquer herança e, por isso, nada têm para oferecer. A sua oposição será fragmentada e difícil. Durante três anos, o actual poder dedicou-se a erros de comunicação infantis e consentiu que a praça pública fosse ocupada pelos interesses especiais que a troika excluiu da divisão orçamental. A coligação fracassou, pois PSD e CDS nunca se entenderam e muitas reformas que ficam por fazer (RTP, autarquias, arrendamento, pensões) falharam devido a contradições internas. O PSD tem feridas insuperáveis, ódios que, mais tarde ou mais cedo, darão origem a uma purga ou à divisão permanente deste partido. Durante a grande crise houve uma cronologia de pré-falência, resgate, protectorado, austeridade, desistência, pântano e inicia-se provavelmente um novo ciclo de delírio, que pode ser longo ou curto, dependendo da dimensão das miragens que nos forem apresentadas.

6 comentários em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (50)”

  1. Quanto mais depressa o PSD e o CDS desaparecerem melhor.
    A falsa Direita não faz falta.
    Só existem para a Esquerda dizer que são “Democratas”.
    Assim deixariam de dar mau nome aquilo que nunca foram, nem nunca fizeram.

    O ónus do futuro negro deve estar inteirinho nos diversos socialismos do regime.
    Aí já se pode desmascarar o 2+2=5 ou 6 ou 7 das diversas correntes.

  2. O PSD foi um movimento, e digo movimento porque se movia, avançava, com uma visão cosmopolita para Portugal com Francisco Sá Carneiro. Depois da morte do Francisco assistiu-se a um retrocesso e ao emergir de barões do campo, com vestimentas, ainda que cinzentas, citadinas que o tentaram gerir à maneira dos compadres com a língua de comadres.
    Os rebentos desta vinha, ainda que haja inconformados, são precisamente aqueles que hoje vemos por aí, isto é, sem projecto, sem ideal e que procuram reforçar esta herança a que desejam tirar o nome falando e agindo em nome de um não sei quê.
    A frase do filósofo Séneca enquadra este pensamento: “Quando o homem não sabe a que porto se dirige nenhum vento lhe é favorável”.

    O CDS procurou enquadrar a imagem cristã, mas esqueceu-se do cristianismo e faz-me lembrar aqueles que falam da ressurreição e desconhecem o ressuscitado. Na falta disto usam o sistema comum, isto é, o amor à lei em detrimento da lei do amor.

    O PS saído das primárias não absorve o eleitorado por convicção deste, mas porque em Portugal existe a cultura de se deixar infantilizar e aguardar que Sebastião surja do nevoeiro.

    A outra esquerda é uma esquerda ortodoxa que destrói os dogmas existentes para enquadrar os seus. Mas ela também é necessária. Assim o disse Sá Carneiro no Hotel Turismo da Guarda, e ele sabia o porquê desta afirmação.

    Marinho Pinto marcará o pleno na próxima legislatura, e abrirá a porta ao regresso de Seguro.

  3. A ser verdade, este país está paranoico…

    ” O governo está de tal forma desacreditado”…

    E acredita em que nos levou à falência? E vir a ter um governo, precisamente com a mesma tralha socrática…
    Acredita num indigitado 1º M ,que com cara de pau, diz não haver solução para as cheias da capital… e ter soluções milagrosas para as múltiplas “inundações” em que o PS mergulhou o país?
    Caminhamos a passos largos para uma suicidária: Quatroika!

    Valha-nos Deus ! Alá ! e os deuses : Genesha! Brahma! Vishnu! Shiva ! O Rato! Macaco!

  4. O único ciclo de delírio é aquele em que vivemos os últimos três anos. Um delírio que custou muito, muito caro ao país.

  5. Relendo o texto discordo da premissa central:
    A sociedade portuguesa mudou e o sistema político é um dinossauro.

    Não é verdade. O sistema político é o reflexo fiel da sociedade portuguesa se excluirmos a minora que vota nulo ou branco.

    Basicamente culturalmente estamos onde estivemos desde a 1º Republica.

    O verniz civilizacional de ter entrado na CEE é isso mesmo só verniz. Entrámos porque queríamos entrar para um clube de ricos e assim ficar ricos, não porque queríamos mudar. Entrámos na CEE precisamente para não ter de mudar.

    Como se vê no presente, a generalidade do Complexo Politico-Jornalista, ou seja quem tem Poder a opinião é que a Riqueza chega por Culto de Carga, pelos Ricos que Paguem e pelas Desvalorizações do início dos anos 80.
    Basicamente nada mudou.
    Ficámos mais ricos porque todo o mundo ficou mais rico, mas por trás do Verniz temos o populismo, chico espertismo que já vem de há mais de 100 anos com o interregno do Ditador por quem o povo clama para por as coisas na ordem sempre que as coisas ficam demasiado caóticas.

    Ainda não vi nenhum da Elite, dos que gostam de propor a mutualização da dívida baseada em princípios de solidariedade( uma expressão populista das mais fortes ) a fazê-lo entre Portugal e a Grécia. Solidariedade na voz desta gente é Populismo.

  6. Uma análise bastante curta. Não presumo saber o que António Costa quer. Certamente não será o PS de 2010, que é o dos PECs.

    Insistir em ser paladino

    da Austeridade,
    do pagamento submisso de juros, que idependentemente do julgamento moral de serem usurários ou não, objectivamente nos comprometem a capacidade de desenvolver o país de forma a vir a ter melhor capacidade de pagar a dívida
    das “reformas estruturais” que são a novilíngua para destruição do Estado Social, e do ataque a efectivas conquistas civilizacionais.
    É a receita para não captar os votos de quem acredita que o PS deveria ser, efectivamente, de esquerda.

    E isto, para mim, significa estar do lado dos mais pequenos e mais fracos contra os que dominam o processo político com o seu poder económico, viciando o jogo a seu favor. A definição nobre de populismo.

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