O elefante na loja de porcelanas


Luís Naves,

Negar os factos evidentes só é possível até certo ponto, pois a realidade tem sempre razão. Apesar disso, o País habituou-se a negar o óbvio. Foi assim durante o endividamento que nos levou à falência, foi assim durante a austeridade, é assim agora: Portugal está a sair da crise, mas em vez de discutir o futuro, corre sérios riscos de se meter numa conversa de surdos sobre o passado.

O ex-primeiro-ministro José Sócrates foi detido, havendo suspeita de crimes graves, mas vejo sobretudo comentadores que questionam a saúde do estado de Direito e a própria sobrevivência do regime democrático. Alguns sectores do Partido Socialista parecem dispostos a tomar a Bastilha, para libertar o ilustre prisioneiro, livrando assim o País da perigosa conspiração de sinistros poderes justicialistas. Como mostra a recolha de citações que Pedro Correia publicou na séria ‘A Cabala’, neste blogue, muitos autores ainda não perceberam que o assunto não vai desaparecer por magia. Alguns gostariam que o caso fosse enterrado, embora não expliquem como é que o inquérito pode morrer à nascença sem que isso seja negação de justiça ou péssimo funcionamento das instituições.

O inevitável interesse do público pelas peripécias do caso não pode transformar-se num ambiente de histeria ou de pressão. Isto devia ser simples, mas as emoções estão à flor da pele e o PS, incapaz de lidar com a herança dos anos Sócrates, tem mostrado por estes dias algumas divisões insensatas. O que parecia ser um passeio para a vitória está a transformar-se num pesadelo trágico. Estamos perante um exemplo extremo de não se ver o elefante na loja de porcelanas. Só até à acusação, o assunto pode durar um ano, condicionando toda a campanha para as eleições de 2015. Mais valia perceber isso já, em vez de tentar negar a realidade. É que quanto mais politizado estiver o caso, pior será para os socialistas.

O futuro de Hollywood


Luís Naves,

Interstellar-movie-still-015.jpg

 

Interstellar, de Christopher Nolan, pode ser a chave da futura Hollywood, com um regresso à velha tradição de contar histórias verosímeis e originais, com cabeça, tronco e membros, sem parafernália visual que não esteja estritamente ligada à eficácia narrativa. O filme é um exemplo da melhor ficção científica que vi nos últimos anos, liberta do terror que contaminava o género e com reflexões interessantes sobre os problemas da humanidade, a exploração espacial e o tecido do cosmos. O ritmo é alucinante, como convém a uma viagem através de buracos de verme. As personagens são ricas e contrastadas, há um argumento inteligente, poucas cenas com lamechice, até algum humor.

Nolan tentou criar um clássico, o que se pode definir como um filme que transcende a sua época e resiste ao tempo, que é aliás um dos temas centrais. A marca clássica está impressa no rigor científico, por exemplo, no silêncio que acompanha as imagens sem atmosfera, ao contrário do que sucede em filmes menores, onde não se resiste a colocar som impossível de ouvir. Nos últimos vinte anos, o cinema de Hollywood insistiu em efeitos visuais e no fogo de artifício, trocando a coerência das histórias pelo espectáculo superficial e os caprichos da vedetas. Interstellar é uma excepção a esta tendência. Ali existe um fio de histórias, o que é típico das grandes narrativas.

 

Interessou-me em particular uma historinha incluída na poderosa cena das ondas gigantes: os heróis pousam num planeta sob o efeito da gravidade de um buraco negro (a gravidade dilata o tempo) e permanecem ali quase três horas, passando 23 anos no local, devido à distorção temporal associada à relatividade. Os destroços da expedição anterior, que partira anos antes, estavam ainda juntos, pois o tempo também se alongara para esta expedição e, do ponto de vista do planeta onde o relógio andava mais devagar, a catástrofe ocorrera apenas uma hora antes. É impressionante que ideias tão complexas possam surgir num produto da cultura popular.

Nolan consegue prender o espectador numa espécie de efeito relativista de contracção do tempo, pois este filme invulgarmente extenso vê-se sem cansaço. A obra tem falhas, com diálogos dispensáveis e pouca explicação sobre a maneira como a humanidade escapa ao seu mau destino. Há uma dose de misticismo para acalmar os religiosos, mostrando o poder das cautelas que no mercado americano é necessário manter com as correntes criacionistas.

Julgo que a maior falha está no pudor com que o filme ataca a questão do declínio da civilização terrestre. Pragas devastaram as colheitas e uma vaga de fome fez recuar a curiosidade científica. Surgem também uns vapores sobre os efeitos dessas pragas alimentares (menciona-se um conflito, talvez nuclear, contra os esfomeados), mas nota-se a relutância sistemática dos argumentistas em entrar nos controversos terrenos das alterações climáticas, que seriam uma explicação para a fome geral e para o recuo tecnológico. O cenário de mudança de clima nunca é evidente e perante doenças tão óbvias, torna-se incompreensível a insistência dos agricultores nas monoculturas.

No início, um curioso diálogo introduz o politicamente correcto: a civilização está em crise, mas tornou-se anti-tecnológica, como mostra a professora (aliás, encantadora) que critica a aluna por contrariar a tese de que a conquista da Lua foi uma manobra de propaganda. Ou seja, o filme é crítico do pensamento único, mas sem evitar a correcção política, na dose q.b. de misticismo e na finta ao problema das mudanças climáticas, talvez pelo facto dos interesses económicos pesarem no financiamento. Enfim, Interstellar é uma experiência emocionante, que faz um esforço decente para recuperar o passado glorioso do cinema clássico, introduzindo com coragem ideias científicas complexas que colidem com muitas certezas religiosas. É uma obra de compromisso, que brilha no meio da monocultura de Hollywood, repleta de filmes violentos para adolescentes, de histórias fraquíssimas, temas inócuos, e que infelizmente tem resistido a todas as pragas.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (58)


Luís Naves,

Casos judiciais em curso merecem o mínimo possível de comentários apressados, mas a investigação ao ex-primeiro-ministro José Sócrates é o quinto grande acontecimento político em apenas seis meses, o que faz de 2014 um ano invulgar. Nas eleições europeias, os maiores partidos sofreram uma valente punição e esboçou-se uma rebelião populista. Logo a seguir, houve a saída limpa do programa de ajustamento, numa altura em que já eram evidentes sinais de recuperação económica, com criação de emprego, contas externas positivas e saldo primário razoável, além do regresso do investimento externo. Passados seis meses, Portugal financia-se ainda a taxas de juro reduzidas e parece capaz de pagar a sua monstruosa dívida. Acima de tudo, o País sobreviveu à queda do Banco Espírito Santo, terramoto com contornos ainda difíceis de prever e que tem potencial para mexer com todo o regime. No meio, mudou a liderança do maior partido da oposição, dividido em relação à herança política de Sócrates, assunto que agora não pode ser evitado.

Não me lembro de seis meses tão avassaladores e tudo isto acontece no início de um período pré-eleitoral que vai durar mais de um ano, com duas eleições no caminho. Os grandes partidos nunca estiveram todos ao mesmo tempo em situação tão frágil. PSD e CDS cumpriram um ajustamento que implicou grandes sacrifícios para a população, mas o Governo também cometeu erros e comunicou de forma deficiente os motivos que justificavam a austeridade. O PS parecia em posição favorável para regressar ao poder, mas não pode a partir de agora cavalgar uma estratégia sem promessas ou explicações, baseada nas teses de que nunca houve falência em 2011 e que será possível fazer muito diferente. Sobretudo, esta parece ser a grande oportunidade para surgirem formações populistas a defender que ‘eles são todos iguais’ e é preciso limpar a política. A crispação e o aumento da temperatura serão perigosos para os três partidos tradicionais do poder.

Grande parte da opinião pública acredita que houve colapso financeiro em 2011 e que pagaram sobretudo os mais fracos. Muitos portugueses estão convencidos de que a austeridade foi injusta, desproporcionada e inútil. Ao longo dos últimos três anos, a comunicação social criou um clima neo-realista de pessimismo e descrença, com previsões de insurreição iminente e espirais recessivas. Na realidade, o País está a sair da crise e os cinco exemplos de mudança na política portuguesa mostram que os anos difíceis não comprometeram o essencial: as instituições democráticas e o Estado de Direito estão a funcionar. Isto é uma mudança, não é um lamaçal.

Cena macabra


Luís Naves,

Senti vergonha ao ver esta cena. O essencial está no segundo vídeo. O parlamento mostra uma banal falta de cortesia e tudo indica que, no âmbito da campanha eleitoral, iremos assistir a estes episódios durante um ano. Podemos troçar da falsa crispação dos protagonistas, mas julgo que este clima só vai agravar-se. Se o PS cometer muitos erros destes, a previsível vitória nas legislativas será bem mais complicada. Enfim, ao ver isto, parece evidente que existe espaço para os partidos populistas, que vão usar à saciedade a patente desorientação dos políticos tradicionais. Neste caso, os deputados parecem preocupar-se com o regimento e estão-se nas tintas para o povo que representam. O que espanta ainda mais é a falta de educação, a impreparação e a fraqueza de discurso de alguém que exige ser levado a sério. O que vai nestas cabeças? O que leva a política a descolar desta maneira do mundo real? 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (57)


Luís Naves,

Certos comentários sobre os vistos dourados não escondem significativa dose de xenofobia. Só se fala dos chineses, associados na frase seguinte à ideia de corrupção. A China tem uma das economias emergentes mais dinâmicas do mundo, não sendo surpreendente que esteja ali o maior mercado destes vistos dourados. Sim, é um mercado, embora alguns considerem que estamos perante uma questão moral e, de forma sempre subtil, até racial.

As notícias sobre o caso de polícia sugerem que as pessoas detidas são suspeitas de terem criado uma rede que enganava eventuais beneficiários dos vistos, acelerando o processo burocrático em troca da venda de casas com valor real abaixo do solicitado. E, no entanto, esta história criou uma onda de críticas ao próprio conceito, achando-se que o mal está nos chineses ricos que querem facilitar a sua entrada no espaço europeu.

Uma das críticas mais bizarras é de que os vistos deviam ser iguais para todos, o trabalhador braçal e o milionário. A ideia é ingénua e até um bocadinho infantil: imagine-se o milionário que quer construir uma fábrica em Portugal e tem de pedir o visto como se fosse camponês. Em todos os países, a política de vistos é construída em torno da ideia da diferença (estudante, turista, intelectual, empresário, familiar, trabalhador pouco qualificado). Outras críticas afirmam que os detentores de visto dourado só compram casas ou que nos estamos a vender por pouco. São afirmações estranhíssimas, como se a compra de uma casa fosse algo de ilícito, como se o dinheiro investido não servisse, como se o custo de um visto tivesse alguma coisa a ver com a venda da pátria ou da alma nacional.

Em conclusão, por causa de um esquema em que os pagantes eram esfolados, os críticos exigem o fim do privilégio. Em questões europeias, os portugueses são uns anjinhos. Na Europa, há países com questões de emigração politicamente complicadas, nos quais a tese dos vistos dourados será sempre vista de forma negativa, o que explica notícias devastadoras e o alarme com a segurança europeia, que nunca esteve aqui em causa. Há também países sem problemas de emigração e esses não hesitarão em usar sistemas de via verde para obtenção de vistos privilegiados, se as pessoas os puderem pagar.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (56)


Luís Naves,

As pessoas pagam produtos indigentes e respeitam muito o que compraram, se necessário até valorizam com unhas e dentes, colocam nos píncaros, para não terem de admitir que pagaram por um produto indigente. Se gastaram dinheiro, aceitam coisas más e até dizem que são extraordinárias. Dizem com convicção, são fáceis de convencer. Por outro lado, quando estão a ler textos gratuitos, a desvalorização mental que fazem bloqueia de imediato os seus sentidos e o espírito crítico torna-se feroz. Se é grátis, deve estar cheio de erros ou deficiências. Alguns, mais preocupados com ninharias, gastam todo o tempo da leitura em busca desses erros.

Por isso, escrever literatura na blogosfera nunca terá valorização, será sempre algo de inferior, pois o leitor não aceitará ler um texto gratuito e concluir que a qualidade era elevada. Esta regra aplica-se a textos de opinião, a qualquer tipo de artigo: sendo oferecido, não pode ser bom. As pessoas preferem aquilo que pagam, ou seja, é falso o velho provérbio de que a cavalo dado não se olha o dente. Neste caso, aplica-se outro provérbio, segundo o qual quando a esmola é grande o pobre desconfia. Se não for pago, um produto artístico é necessariamente nulo, por isso não tem valor a pintura na qual não se reconhece o pintor que assina, mesmo que seja um belo quadro. E isto leva a um paradoxo que ameaça a existência da própria arte: o público, que não a quer gratuita, também não aceita pagar por ela. Os membros do público contemporâneo não se conseguem libertar do preconceito com que olham, do preconceito com que lêem ou do preconceito com que escutam. As pessoas decidem à partida se vão gostar de alguma coisa. Geralmente, estão dispostas a criticar ou demolir. O objecto tem de possuir um valor monetário ou nada valerá, no sentido literal e no sentido profundo: não fará pensar um destinatário que, à partida, estava indisponível para o aceitar. O artista tem de ser pago a peso de ouro para ser levado a sério.

A Cruzada das Crianças (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

zpage201.gif

 

A cruzada das crianças mais parece tirada de um livro de ficção. Rodeada de lendas, motivo para romances e narrativas populares que distorceram um pouco o que se conhece da realidade, esta peregrinação aconteceu de facto no início do século XIII, quando a civilização europeia sofria vagas de ardor religioso, num tempo em que a vida era curta, marcada pela superstição, dominada pela doença e pela violência extrema do quotidiano.

Esta foi uma época de fé ilimitada, em que os poderes sobrenaturais explicavam o destino humano. Foi também um tempo de guerra religiosa, o que implicou tradicionalmente violência extrema e sem quartel. A história da Cruzada das Crianças envolveu vários milhares de jovens, mas eram de baixos estratos da população, o que significa que este enorme drama deixou rastos históricos ténues. De forma apropriada, um dos protagonistas era pastor, ocupação que do ponto de vista simbólico tinha ligação imediata ao cristianismo e à religião.

Em 1212, ocorreu uma vasta movimentação de europeus que tem intrigado os historiadores. Sendo difícil distinguir a parte factual da parte lendária, sabe-se que a Europa do início do século XIII viveu num clima de intensa religiosidade, que podia ter criado uma civilização fanatizada. Nesse mesmo ano, foi mobilizado um vasto exército cristão que combateu em Espanha, proporcionando ali uma vitória esmagadora sobre os sarracenos, em Navas de Tolosa, no Verão de 1212, onde ficou definitivamente estabelecido que os cristãos iriam dominar a Península. Curiosamente, nesta batalha participou um contingente português, embora sem a presença do rei, Afonso II, que era doente e enfrentava graves problemas internos. O monarca, cujo cognome é o Gordo ou o Gafo, era neto de Afonso Henriques e ascendera ao trono em 1211, aos 26 anos.

Em simultâneo, ocorreu uma mobilização militar cristã no centro da Europa, cujo objectivo foi o de sufocar uma perigosa heresia que ganhara vasto apoio popular. Conhecido por Cruzadas Albigenses, este episódio provocou grande mortandade no sudoeste da França. A guerra duraria entre 1209 e 1229, saldando-se pela eliminação dos heréticos Cátaros, uma seita maniqueísta que acreditava no poder do bem e do mal, portanto, também na capacidade criadora de Satanás. A Igreja recorreu a meios extremos para eliminar os hereges, que foram mortos, expulsos das suas propriedades ou convertidos à força. A inquisição, criada neste período, continuaria a reprimir as populações muito depois da guerra ter terminado. Houve extraordinária perturbação económica e muitas pessoas deambulavam sem rumo.

 

 

Foi neste ponto, em 1212, que surgiu o episódio da Cruzada das Crianças, que se estabeleceu mais tarde como lenda, reforçada sobretudo devido a textos românticos posteriores que lhe acrescentaram fábulas e fantasias. Sabe-se hoje que existe uma base autêntica na história, sendo verdadeiras as duas personagens principais referidas na tradição, um pastor francês chamado Estêvão (Etienne) de Cloyes, e um camponês alemão referido como Nicolau de Colónia. Do pastor francês conta-se uma história mirabolante, segundo a qual o jovem tentou entregar ao rei de França, Filipe Augusto, uma carta escrita pelo próprio Jesus Cristo, onde se exigia ao monarca que organizasse uma cruzada à Terra Santa.

A Europa estava entre duas cruzadas (a quarta, lançada em 1202, e a quinta, entre 1217 e 1221), mas também se debatia com problemas de sobrepopulação e revoltas camponesas. Ignorado ou rejeitado pelo rei, Estêvão começou a pregar e organizou uma grande movimentação de peregrinos, com cruzes, estandartes e regras próprias. Também no Verão de 1212, surgiu um fenómeno semelhante na Renânia alemã e os historiadores não conseguem explicar a impressionante coincidência. Estarão as duas marchas ligadas? Ninguém sabe ao certo, embora estes factos se possam explicar pela circunstância de existir em ambos os locais um clima religioso apropriado a fenómenos de exaltação e arrebatamento. Há quem defenda a tese de que houve mais peregrinações de menor dimensão, coagulando em dois grandes focos de “ansiedade comunitária”, os quais se podem até ter juntado um ao outro, embora seja mais provável a tese de existirem apenas dois grandes movimentos separados (1).

Os números da lenda afirmam que a peregrinação de Estêvão juntou 30 mil crianças e a de Nicolau talvez 20 mil, mas pode ter havido outros grupos e os números não são verificáveis. As fontes documentais sobre a cruzada identificam os peregrinos como “pueri”, palavra latina que significa “crianças”, mas sabe-se que estes grupos de peregrinos em vagabundagem incluíam adolescentes, também homens maduros e até idosos e raparigas. Na sua maioria, estes pueri eram camponeses sem trabalho e sem hipóteses de casar, pois na altura era preciso pagar o dote e a pobreza extrema dificultava os noivados. Alguns pormenores das crónicas dão a entender que Estêvão, sobretudo este líder, estaria já na idade viril.

Os historiadores franceses têm dúvidas sobre a possibilidade de 30 mil peregrinos atravessarem o sul de França sem deixarem rasto documental e autores como Christopher Tyerman não dão grande credibilidade às informações sobre a viagem de Estêvão até Marselha, sublinhando que estas procissões “desapareceram rapidamente dos registos”. As multidões em movimento apelavam a uma vida mais correcta e à libertação da Terra Santa. Os peregrinos participavam numa penitência colectiva, mas existe um possível motivo social para a concretização deste drama: “Alguns relatos afirmam que os participantes não eram provenientes das hierarquias habituais do poder social (jovens, raparigas, os solteiros, por vezes excluindo até as viúvas) ou do estatuto económico: pastores, lavradores, carreteiros, trabalhadores agrícolas e artesãos rurais sem estabelecimento fixo na terra ou na comunidade, desenraizados e nómadas” (2). Em resumo, estavam envolvidos os mais pobres e os excluídos, não havia liderança da hierarquia religiosa ou da aristocracia e os objectivos da peregrinação eram difusos e vagos.

 

Os documentos sobre este acontecimento sugerem que os grupos de peregrinos não tinham permissão para entrar nas cidades, devido ao medo das epidemias. Sem apoio, porventura até expulsos e hostilizados, sofriam fome e sede. Muitos “cruzados” foram atacados e espancados ou morreram no caminho. A enorme movimentação de gente transformou-se numa lenta agonia. O grupo alemão, chefiado por Nicolau, que segundo as crónicas terá tentado atravessar os Alpes, foi dizimado por avalanchas e pelo mau tempo. As crianças viajavam descalças e a maioria morreu de fadiga ou doença. Certamente, terá havido outros que abandonaram a peregrinação e, vencidos pelas dificuldades, foram ficando pelo caminho. Não se sabe o que lhes aconteceu, mas talvez tenha sobrevivido um número razoável, transformando a peregrinação também numa migração.

Segundo as crónicas e a tradição, chegaram sete mil peregrinos a Génova, não havendo referência ao número dos que conseguiram chegar a Marselha. A história da cruzada de Estêvão de Cloyes, na sua versão lendária, conta que as crianças francesas foram enfiadas em sete navios e seguiram pelo Mediterrâneo (seriam pelo menos algumas centenas de sobreviventes). Dois destes navios afundaram com todos os passageiros e os restantes cinco foram capturados por piratas da margem sul do Mediterrâneo (com a possível conivência dos armadores, que lhes tinham garantido transporte para o Levante).

As crianças que sobreviveram a esta calamidade foram escravizadas. Ainda segundo a lenda, houve mártires que recusaram converter-se ao Islão, tendo 400 deles sido bem tratados por um califa bondoso. Enfim, ainda segundo os pequenos farrapos de informações, vários peregrinos acabaram o seu percurso a servir como intérpretes no Cairo. A cruzada dos jovens alemães também acabou mal, embora alguns tenham chegado a Roma. Dos sete mil que tinham chegado a Génova, restavam mil, que segundo uma crónica partiram por mar para Jerusalém, para nunca mais serem vistos. A tradição de um mosteiro alpino sustenta que Nicolau participou numa expedição à Terra Santa, tendo combatido na batalha de Damieta, junto ao Nilo, anos depois.

Enfim, talvez Estêvão e Nicolau não tivessem a importância que parecem possuir nos textos da época, talvez tudo isto não passasse de uma histeria colectiva, com dezenas ou centenas de grupos de crianças a percorrerem a Europa, pregando a guerra santa em troca de esmola, em grupos que se formavam e desfaziam, ao sabor das marés do acaso. Talvez tudo isto corresponda a uma história verídica, mas exagerada pela incerteza medieval. A história presta-se à imaginação e não admira que a Cruzada das Crianças tenha inspirado escritores românticos. Os conflitos de religião foram sempre motivados pelo fanatismo e o fervor, mas também pela ambição e a ganância. Neste caso, uma excepção, tudo parece bem mais infantil e ingénuo: os espíritos fracos são os primeiros a embarcar em guerras santas. Se aconteceu na realidade como contaram as crónicas, a Cruzada das Crianças sugere que a civilização europeia era bastante frágil e a sua sobrevivência e posterior triunfo tem sem dúvida um lado miraculoso. Do ponto de vista do longo drama da humanidade, esta é também uma terrível história sobre a inocência e a tolice.

 

(1) A Guerra de Deus, Uma nova história das Cruzadas, Christopher Tyerman, Aletheia

(2) idem

 

Alguns argumentos sobre a questão catalã


Luís Naves,

iberian_peninsula.jpg

 

Decorre neste blogue um debate sobre a interpretação dos resultados da consulta popular na Catalunha e queria acrescentar alguns argumentos. Peço antecipadamente desculpa pela dimensão do texto, mas as questões são complexas.

Como afirma Luís Menezes Leitão, em texto anterior, os catalães têm todo o direito de se tornarem independentes, se assim o quiserem. Podemos, no entanto, duvidar que o queiram. Os resultados da consulta são, no mínimo, ambíguos. A votação pela independência foi esmagadora, mas o facto é que dois em cada três eleitores não se deram ao trabalho de ir votar. Para os independentistas, trata-se de um mau resultado. Para quem queira negociar com o poder central, foi um triunfo. Comparando com o referendo escocês, onde a participação rondou 80%, a consulta catalã sugere que apenas votaram eleitores já convencidos.

Em democracia só contam os votos expressos, é verdade, mas aqui temos outros elementos a considerar: a consulta não era legal e os eleitores não tinham obrigação cívica de votar, a primeira pergunta continha forte ambiguidade e os interesses económicos em jogo são demasiado complexos. Numa reportagem que fiz na Catalunha, há uns anos, perguntei a uns empresários (catalães) sobre a independência e eles fugiram da pergunta como o diabo da cruz. Não era bem o que queriam, pois dependiam do mercado espanhol. Outro exemplo: Barcelona é a capital da indústria editorial em língua castelhana, que controla um dos maiores mercados mundiais do sector livreiro. Os escritores catalães escrevem em castelhano, a diferença entre vender mil livros ou cem mil. A questão linguística catalã é tão folclórica como a escocesa.

 

A Catalunha nunca existiu como Estado independente, mas Aragão (a origem histórica da Catalunha) foi um dos reinos mais influentes do seu tempo e chegou a ter um império no Mediterrâneo. Estas memórias permanecem. No século XIV, Portugal e Aragão foram aliados contra Castela, o que aliás levou a várias derrotas militares portuguesas e quase à nossa perda de independência. Em comparação, a Eslováquia, satélite da Alemanha nazi durante a II Guerra Mundial, ou a Croácia, sempre ligada ao Reino da Hungria, ao Império Austro-Húngaro ou à Jugoslávia, terão porventura menos pergaminhos nacionais.

Isto leva-nos ao argumento de que Espanha-fraca é bom para Portugal e Espanha-forte é mau. A ideia não tem sustentação: Espanha-fraca sempre foi mau para Portugal, isso é claro; e, no novo ambiente europeu, Espanha-forte é favorável, pois representa mercado para os produtos portugueses, investimento e emprego, sem implicar qualquer ameaça de anexação. Conclusão óbvia: a independência catalã seria objectivamente má para Portugal, pois afectava a economia espanhola, da qual dependemos.

 

Como refere José Gomes André, mais abaixo, os europeus não têm grande memória das guerras que devastaram o continente, apenas histórias de família contadas pelos mais velhos. Como escrevi em texto anterior, os europeus não sentem qualquer ameaça externa e a União Europeia alterou quase tudo na velha Europa. Há vários exemplos de populações ou até de nações que não se revêem inteiramente nos países a que pertencem, mas os ressentimentos e a noção de injustiça histórica deram origem a mero desconforto. Antes da UE, estas entidades separatistas foram combatidas com dureza. Hoje, não faz qualquer sentido que o Estado soberano resista pela força a uma tentativa de separação.

No entanto, se a Europa é uma vasta zona de liberdade, também se verifica que a independência não implica mais liberdade, tendo vantagens pouco claras para quem se separa. Esta parte do argumento é complicada e exige explicação: a legislação de cada país membro da UE tem de estar de acordo com critérios europeus muito exigentes em matéria de liberdade individual e direitos de minorias. Nas regiões da Europa onde há grupos separatistas ou minorias étnicas, a adesão comunitária reduziu as discriminações e conferiu autonomia a essas populações. Há ainda problemas, sobretudo com as minorias, mas a situação tende a melhorar. Assim, a única liberdade que podia ser obtida com a eventual independência seria a económica, mas mesmo aqui haveria vencedores e perdedores. No caso catalão, os empresários perdiam algum acesso ao seu principal mercado e os trabalhadores teriam mais desemprego.

 

O cerne do conflito está nas transferências financeiras e na ideia de que a Catalunha, sendo rica, sustenta as regiões mais pobres de Espanha. No caso escocês, havia algo de semelhante, o dinheiro do petróleo do Mar do Norte, com os escoceses a pedirem uma maior fatia. Na Bélgica, o problema é ainda o mesmo, não havendo separação por causa de Bruxelas, cujo estatuto de sede das comunidades europeias representa uma fonte de rendimento e de emprego que nenhuma das duas comunidades pode perder.

A Catalunha sente que, na prática, sustenta regiões mais pobres. O reverso da moeda é a circunstância de muitos catalães serem hoje emigrantes de regiões mais pobres de Espanha. Estas pessoas não querem a independência e fizeram um boicote à consulta popular, recusaram-se a votar, mas se houver um referendo a sério vão certamente votar contra. Quantos são? Não sabemos. O que farão em caso de independência? Não sabemos.

O que sabemos é que se a Catalunha se tornar independente, terá grandes problemas com a sua integração europeia, pois a UE baseia-se em tratados internacionais e tudo teria de ser renegociado. Sendo inédita, a situação implicaria certamente um pesadelo legal e burocrático. Também por aqui se prejudicava Portugal. A Escócia sentiu o mesmo dilema e preferiu não arriscar. Parece assim evidente que os grupos soberanistas europeus terão cada vez menos incentivos para lutar pela independência. Os ganhos são incertos e podem perder tudo.

 

O muro e a transição


Luís Naves,

Trabant-Berlin-Wall-1989.jpg

 

A queda do Muro de Berlim não foi um acontecimento estritamente alemão, antes o símbolo da reunificação da própria Europa. Ao longo dos últimos 25 anos assisti à transição dos países do bloco socialista para o sistema liberal. Vi como era antes da mudança, testemunhei episódios revolucionários e fui assistindo às vicissitudes da transformação, sobretudo na Hungria. Apesar de ter proporcionado desenvolvimento e liberdade, a transição foi um processo também traumático, ainda mal compreendido em Portugal. Na primeira década, uma geração perdeu a segurança no emprego e muita gente mergulhou na pobreza. Empresas socialistas foram compradas por tuta-e-meia, nomeadamente pela concorrência ocidental, através de testas-de-ferro, só para serem desmanteladas. Os ocidentais ficavam com menos um competidor, os testas-de-ferro ganhavam dinheiro com os terrenos e as luvas. Assim se fizeram fortunas de conhecedores que souberam aproveitar a privatização apressada da economia, passando directamente do aparelho repressivo para a burguesia capitalista.

 

O mexilhão pagou de muitas maneiras, pela inflação ou pelas leis imprecisas que tornavam os investimentos arriscados, engolindo as poupanças. O novo poder não era exactamente novo, pois o antigo regime tinha forte inércia. Os agentes da polícia secreta continuaram tranquilamente a fazer as suas negociatas. Escrevi um romance sobre o tema, com o título Territórios de Caça, editado pela Quetzal, tentativa de extrair dessa história algumas impressões sobre a natureza humana. O regime comunista não desapareceu de um dia para o outro, as pessoas que tinham apoiado a ditadura continuaram a fazer a sua vida. Já não prendiam dissidentes, mas há outras formas de perseguir. Curiosamente, alguns amigos que tinham sido opositores do regime (artistas, professores, intelectuais) ficaram desempregados e em dificuldades, enquanto prosperava a nova classe de empresários ex-comunistas travestidos de capitalistas. As minorias étnicas foram altamente prejudicadas, pois o empobrecimento atingia primeiro os que tinham menor influência. Na Hungria, as maiores vítimas foram os ciganos, grupo discriminado, que já vivia em pobreza, pois os comunistas tinham proibido o nomadismo.

 

As fábricas foram reconvertidas. No campo, muitos agricultores iludiram-se e acabaram na falência. Os ocidentais investiram enormes somas, mas também fizeram grandes lucros, alguns duvidosos, aproveitando ao máximo os corruptos que iam sendo eleitos, sobretudo pós-comunistas, que se reciclaram em formações ditas socialistas, usando parte do aparelho do antigo regime. Estas formações continuam a ser escutadas com respeito deste lado da antiga cortina de ferro. Houve também colapsos financeiros, antes e depois da adesão europeia, sendo que esta incluiu restrições estranhas, sobretudo no acesso ao dinheiro da agricultura e na circulação de pessoas.

Enfim, passaram 25 anos e estes países superaram os traumas devido à sua forte identidade nacional. O balanço da transição é para eles positivo, ganharam democracia e liberdade, mas muitas críticas ocidentais não escondem forte sobranceria, omitindo sacrifícios que explicam a crispação nos debates políticos, o quase desaparecimento da esquerda pós-comunista, a desconfiança em relação à UE e o cinismo do eleitorado. A absorção da RDA (onde os pós-comunistas ainda têm razoável votação) foi feita à custa de uma gigantesca injecção de capital, que de forma indirecta mobilizou todos os países europeus, mas o resto da Europa de Leste não teve as mesmas facilidades. Muitas pessoas esquecem-se disto. Espera-se destes países que andem na linha e não guardem ressentimentos.

 

As luzes que se acenderam na Europa


Luís Naves,

europe.night_.jpg

 

O dia 9 de Novembro de 1989 teve enorme importância simbólica. A meio do Verão desse ano, dezenas de milhares de alemães de leste aproveitaram as primeiras brechas na chamada ‘Cortina de Ferro’ para fugir do seu país e a onda de refugiados atingiu tal dimensão, que o regime comunista da Alemanha Oriental não podia resistir muito tempo. Devido ao pânico da hierarquia, tudo se precipitou a 9 de Novembro. A dissolução da fronteira entre dois sistemas políticos antagónicos teve o seu ponto culminante no derrube do muro que dividia em dois a cidade de Berlim, mas o campo socialista estava já em pleno colapso e a Rússia perdia a Guerra Fria.

O muro era uma ferida com origem na divisão que resultou da Segunda Guerra Mundial. A sua destruição permitiu a reunificação da Alemanha, que 25 anos depois se tornou a força dominante da União Europeia. O dia crucial de 9 de Novembro de 1989 corresponde a um capítulo fundamental de outra narrativa, esta mais extensa, sobre a supremacia na Europa. Nos últimos 500 anos, o assunto mais importante da política europeia tem sido a definição do controlo de uma faixa de territórios onde se concentra a riqueza, a população e o principal património do continente. Esta faixa é perfeitamente visível do espaço, sobretudo de noite, e vai desde o sul de Inglaterra e dos Países Baixos ao norte de Itália, de Paris até Varsóvia ou Budapeste. No passado, quem controlou esta região, controlou a Europa.

Durante a Guerra Fria, uma fatia substancial da zona central do Continente esteve sob controlo soviético. Esta extensão do império russo entrou em graves dificuldades nos anos 70, incapaz de prosseguir a competição económica e militar com os Estados Unidos e respectivos aliados. Moscovo não conseguiu manter sob seu controlo países mais ricos do que a Rússia e foi o descontentamento crescente das populações submetidas que levou ao colapso da Cortina de Ferro. Os oprimidos resolveram o assunto, sendo interessante observar que a Alemanha, como potência, foi a maior beneficiária de um processo que não iniciou e no qual as autoridades embarcaram, de início, com algum temor.

Passaram 25 anos sobre a Queda do Muro de Berlim e podemos observar que este foi sem dúvida um dos episódios mais felizes da História recente. Nos chamados países de leste, cem milhões de europeus vivem agora em sociedades livres e prósperas. A Alemanha reunificada é a maior potência europeia, mas está firmemente ligada à França, Holanda, Itália e Polónia, sem esquecer a NATO. Existe portanto um equilíbrio: a Alemanha não é demasiado forte nem demasiado fraca, necessita dos seus parceiros e estes necessitam dela. Pela primeira vez na sua História, não tem inimigos nas fronteiras. Em vez de um cerco de hostilidade, há um cerco de alianças. Ninguém esquece que foi nos momentos de extrema fraqueza ou de hegemonia alemã que, segundo a poderosa imagem de Edward Grey (ministro britânico em 1914), “as luzes se apagaram na Europa”. A frase foi proferida há cem anos, quando começou a I Grande Guerra, e seria necessário esperar por 1989 para que a luz tivesse de novo uma verdadeira oportunidade. 

Terra Distante


Luís Naves,

cvap lockart.jpg

 

Em Terra Distante, um agradável western de Anthony Mann, de 1954, Jimmy Stewart interpreta um individualista sem causa, de psicologia complexa, com um lado negro e cujas motivações não são de todo claras. As restantes figuras estão divididas entre cínicos e vítimas. Os primeiros movem-se pela ganância, que é a origem do mal, como vai recitando um dos mineiros mais pessimistas. No final, o bem triunfa, mas assistimos com certo fascínio às transformações episódicas do nosso herói, que pode ser cruel e violento ou fingir sem hipocrisia uma inocência que não possui.

Os mineiros procuram ouro numas montanhas perto do Alasca e que pertencem ao Canadá. A propósito de geografia, vemos o contraste entre a ordem de um país tutelado pelo Estado de direito e outro onde só existe a desordem, o território do capitalismo selvagem, onde reina a injustiça do mais forte. É interessante verificar como Hollywood foi sempre fortemente ideológica, mesmo num banal western: aqui, encenava-se o confronto entre uma comunidade trabalhadora e os interesses estreitos da minoria exploradora e sem escrúpulos, que não hesitava em recorrer à maior violência.

O bem geral triunfa, mas só depois de o herói compreender que tem de se colocar do lado da justiça. O amor perde, de certa maneira, pois não é possível conciliar a o fundo bondoso do aventureiro com a paixão algo irracional da sua alma-gémea, Ruth Roman. Também não podemos concluir que o poder do Estado seja a solução ideal, pois a autoridade canadiana tem falta de meios, hoje diríamos que parece sofrer políticas de austeridade, forçando homens com a vocação de solitários, como é o caso de Stewart, a tomarem conta da questão. Tirando estas ideias mais datadas, o filme tem a alma do cinema clássico americano, com ritmo e estrutura, densidade de personagens, diálogos sem tiradas literárias e a inexcedível credibilidade dos actores.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (55)


Luís Naves,

Se sobreviver politicamente ao escândalo dos acordos fiscais do Luxemburgo, Jean-Claude Juncker será um presidente da comissão fragilizado, incapaz de enfrentar a crescente tendência intergovernamental da União Europeia. Isto implica que os grandes países têm a ganhar com o escândalo, enquanto os pequenos tendem a perder. O presidente da CE “eleito” pelo parlamento será provavelmente derrubado pelo mesmo parlamento que sonhou sobrepor-se ao conselho.

O pequeno Luxemburgo, liderado por Juncker, fazia acordos fiscais muito vantajosos para multinacionais, atraindo investimento, mas sobretudo permitindo que empresas poderosas pagassem menos impostos em outros países da UE. Isto prejudicava o cidadão comum, criando concorrência desleal dessas multinacionais, face às empresas dos países afectados. Para além da dimensão moral, existe uma conclusão prática: o mercado único só funcionará verdadeiramente com mais harmonização fiscal. Este será o argumento dos grandes países da UE, que têm mais a ganhar com essa harmonização. Nos próximos tempos, podemos esperar uma discussão alargada sobre o tema, com pressão sobre os países que têm regras fiscais mais generosas. Acordos como aqueles que o Luxemburgo fazia serão no futuro politicamente insustentáveis. A concorrência fiscal envolve distorções ao mercado comum, mas sobretudo tem um aspecto moralmente inaceitável. O seu fim será conveniente para as grandes economias e vai acelerar a integração.

Uma das tensões mais relevantes da actual Europa é entre pequenos e grandes. A Comissão Europeia, o órgão que mais garante os direitos dos pequenos países, tem perdido poderes. Com um presidente politicamente inexistente, a CE perderá ainda mais influência. Se Juncker se demitir, acaba à nascença a fantasia do Parlamento Europeu “eleger” o presidente da comissão.

Só as grandes empresas podiam fazer acordos de evasão fiscal no Luxemburgo. No fundo, a hipocrisia da ordem liberal, que neste caso beneficiava as multinacionais de forma tão flagrante, contribui para o descontentamento geral e para o descrédito das instituições.

A vida invalidada


Luís Naves,

“Sem saírem de casa, os autores de novelas, mesmo os mais anónimos, podem viajar prescindindo da reserva de hotel ou de bagagens complicadas, basta-lhes ocupar a imaginação das personagens que inventam, podem até deslocar-se no tempo e ignorar as regras. Todos os que gostam de escrever viajam barato”.

Escrevi este parágrafo e depois retirei-o do texto onde estava. Na realidade, não sabia muito bem o que fazer com ele.

 

“Para que serve a União Europeia?”, perguntou a minha mulher imaginária, antes de explicar que a roupa não tinha tamanhos normalizados, as calças 44 eram diferentes das homólogas alemãs. Sem ter resposta lógica, saí da loja (chamem-lhe divórcio) caminhei pela rua Augusta e vi um homem estátua, a fazer de conquistador mongol. Subi ao pedestal e fiquei ali um pouco, sem pensar: de vez em quando, mudava de expressão e fazia cara de mau para os turistas, que achavam graça e deixavam uma moeda numa caixa de cartão que se abria mais abaixo. Pelo ar, pairava o cheiro a castanhas assadas.

Cansei-me depressa e continuei o caminho, se é que tinha algum. Logo ao fim da rua, cruzei-me com uma pessoa conhecida e o tipo desviou a vista, para não ter de falar comigo. Senti-me um intruso na vida dos outros, senti-me embaraçoso. Fiquei a pensar naquele desencontro, naquilo que eu fizera e que levara esse outro a desviar a vista para evitar cruzar-se comigo e ter de me apertar a mão, poupando assim duas palavras de falsa amabilidade, talvez até duas palavras de comiseração e pena, enfim, ia de qualquer forma referir que estava tudo bem, na normalidade habitual, mas ele deve ter pensado que não havia pachorra para ouvir desgraças e que as suas já lhe bastavam. Ninguém viu o meu aceno para a atmosfera, à excepção talvez do mongol, que mudou subitamente de expressão, de semblante neutro para aspecto aterrorizador.

Quando cheguei ao metro, ia a assobiar Here comes the sun, a tentar recordar a letra, havia uma réstia de calor, um farrapo que deslizava do sol envergonhado e, ao descer as escadas, cruzei-me com um doido cuja vida tentara imaginar no outro dia. Fui o tempo todo a observar as pessoas apressadas, os nervosos e os críticos, os impacientes e os que já desistiram, caras entristecidas e corpos cansados. Quando cheguei à minha estação, já me tinha esquecido da melodia que vinha a assobiar. Seria Across the Universe? Uma estrangeira não podia passar a cancela e dizia-me que tinha o bilhete pago para todo o dia, embora dissesse invalidado. Era jovem e simpática, uma personagem de novela romântica: abri-lhe a cancela com o meu bilhete e ela agradeceu-me com um sorriso que me pagou o dia.

Só mais tarde percebi que eu próprio já não podia passar a cancela. Insisti, mas o meu bilhete dava invalidado, assim dizia o visor, pois as máquinas são mais espertas do que pensamos e sabem que ninguém sai de um sítio duas vezes seguidas. Assim, estou preso no metro. Ando pelos corredores sombrios e vazios, entro nas composições e saio onde me apetece. Só não consigo passar pela cancela e isso impede-me de regressar à vida normal. Nos subterrâneos da cidade, as pessoas nunca se cumprimentam e, por isso, ainda não encontrei alguém que não me cumprimentasse de propósito. Estou a assobiar Across the Universe. Aqui, não há frio e não chove; há outros como eu, raros, que vão ficando neste labirinto. É isso o que fazemos, por aqui vamos ficando, com a vida invalidada.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (54)


Luís Naves,

Na terça-feira, nos Estados Unidos, os candidatos republicanos deverão conquistar o Senado e alargar a sua maioria na Câmara dos Representantes, o que radicalizará a política americana nos próximos dois anos. A crescente impopularidade do presidente Obama é um dos motivos desta provável vitória, mas os analistas mencionam o profundo descontentamento do eleitorado, sem conseguirem explicar exactamente do que se trata. As pessoas estão fartas da política do costume e em todos os pequenos assuntos há trincheiras cada vez mais violentas.

A América está frustrada com os seus fracassos no Médio Oriente, com o estado periclitante da economia e com a esterilidade do debate político das elites. As campanhas eleitorais têm crescente ferocidade e os republicanos usaram este ano uma agressividade retórica nunca vista contra um presidente adversário. O país parece fragmentar-se em questiúnculas onde é impossível negociar, por exemplo, sobre imigração, direito de porte de armas, vigilância interna, impostos para os ricos ou saúde pública.

Na Europa, este mal-estar impreciso também alastra como uma mancha de óleo, dando origem ao mesmo fenómeno da impossibilidade de negociar qualquer reforma. Em Espanha, onde estalou um escândalo político, o PP afunda-se nas sondagens e o Podemos (um partido populista de esquerda) surgiu pela primeira vez à frente das intenções de voto, com uma percentagem superior à dos socialistas. Mesmo que estes valores não se mantenham, o novo partido terá provavelmente uma boa votação e pode ser crucial para formar governo, apesar da sua plataforma incluir propostas que levariam a Espanha para um rumo incompatível com o cumprimento do Tratado Orçamental.

O fracasso do liberalismo implica o avanço dos populistas em todos os países, da Frente Nacional ao UKIP, da Alternativa para a Alemanha ao Syriza grego. Em Portugal, teremos provavelmente o partido republicano de Marinho e Pinto. Todos eles concentram o discurso em pequenas causas e franjas do eleitorado. Todos eles constituem uma ameaça ao Tratado Orçamental e à zona euro. Se não querem acabar com a Europa, todos querem, no mínimo, acabar com a Europa que existe. A crise financeira deu origem a uma crise política global e esta alimenta-se de formas de descontentamento que, não sendo iguais em todo o lado, parecem anunciar um longo Inverno.

O imperador empalhado (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

romansparthians.jpg

 

O poder é demasiado transitório e há muitos exemplos de homens poderosos que quase chegaram aos píncaros da glória, perdendo tudo num único momento em que a sorte conspirou contra eles. Estes casos deviam ensinar que todos os projectos políticos contêm a semente do seu eventual fracasso e que a ambição tem um lado ilusório e, normalmente, uma relação próxima com a futilidade.

Na lista dos grandes fracassos onde os protagonistas eram os homens mais poderosos do seu tempo brilham os nomes de dois romanos, Marco Licínio Crasso e Públio Licínio Valeriano, separados um do outro por cerca de três séculos, o primeiro associado ao auge do poder de Roma e o segundo ao início do suave declínio desta civilização. Os exércitos romanos tiveram frequentes colisões com os persas, em torno do controlo do Médio Oriente, nomeadamente dos territórios da Síria e da Mesopotâmia que coincidem com a zona hoje contestada pelo autodenominado Estado Islâmico (curiosamente, os descendentes dos romanos, os ocidentais, e os descendentes dos persas, os iranianos, estão do mesmo lado no combate aos terroristas do autodenominado Estado Islâmico, que ninguém reconhece).

Os antigos persas eram difíceis de bater no seu terreno, como aprenderia Crasso, cuja cabeça cortada serviu de adereço teatral, e como aprendeu, três séculos mais tarde, o imperador Valeriano, cuja aventura acabou de forma ainda mais humilhante, na vergonha do cativeiro e, depois da morte, com o corpo empalhado e transformado em troféu de parede.

 

Comecemos por Marco Licínio Crasso. Em 53 a. C. ocorreu um dos episódios mais traumáticos da história romana, quando um exército comandado por este milionário e político, então o homem-forte de Roma, foi esmagado na batalha de Carras pelas forças do império Arsácida ou Império Parta. Este episódio teve grande impacto no seu tempo e deu origem a lendas que excitaram a imaginação das gerações seguintes, por exemplo, a da legião perdida, segundo a qual muitos prisioneiros de Carras foram utilizados nos confins das fronteiras do império captor. Não há provas concludentes de sobreviventes para além da escravatura, mas a genética e a arqueologia encontraram nos confins da China rastos que apontam para a possibilidade de ter sido usada em combate pelos persas uma legião de soldados romanos capturados.

Crasso, o general vencido, era um homem riquíssimo, movido pela avareza e a inveja, mas destruiu numa única campanha, através de uma série de erros catastróficos, tudo aquilo que acumulara ao longo de uma vida cuidadosa e calculista. O seu colega no primeiro triunvirato, Júlio César, devia-lhe uma fortuna, mas tanto César como Pompeu (o outro triúnviro) tinham a seu crédito vitórias militares importantes, enquanto Crasso apenas sufocara rebeliões, nomeadamente a perigosa insurreição de escravos liderada pelo gladiador Espártaco. Essa vitória brutal não lhe trouxera glória suficiente, por isso Crasso tentou submeter os Arsácidas, certamente para aumentar a sua riqueza.

Segundo o autor clássico Plutarco, Crasso acumulara uma vasta riqueza “à custa do fogo e do sangue, fazendo das calamidades públicas a sua maior fonte de renda” (1). O milionário era um bajulador e avarento, que soube aproveitar os leilões de propriedades de gente que caíra em desgraça durante a guerra civil na república, mas também a falta de escrúpulos que mostrou ao especializar-se na compra, por valores ridículos, de prédios contíguos a propriedades romanas que ardiam ou que estivessem à beira da ruína. A ambição de Crasso não podia ser contida. Embora já tivesse 62 anos, faltava-lhe um triunfo militar. A estabilização da fronteira oriental da república romana servia os seus interesses, pelo que reuniu um imponente exército de 40 mil homens, com sete legiões. A campanha no norte da actual Síria era extremamente complexa, devido às distâncias e ao terreno inóspito ou até desértico, que os romanos conheciam mal. Os Arsácidas utilizaram tácticas de guerrilha para cansar os romanos e esmagaram o exército invasor numa batalha de enormes dimensões onde as vantagens habituais do combate colectivo das legiões não puderam ser utilizadas.

A expressão “erro crasso”, que significa “erro grosseiro”, associou-se nos últimos séculos à tragédia deste milionário romano. Segundo o relato de Plutarco, a sua cabeça foi usada como adereço numa peça de teatro dada em honra do rei Orodes II. Carras foi um daqueles momentos da História cheios de interrogações. E se Crasso não tivesse atacado os persas? É bem possível que Júlio César não tivesse chegado ao poder ou que isso tivesse acontecido de forma mais rápida, sem a necessidade da guerra civil que o opôs a Pompeu. O filho mais novo de Crasso, Publius, que também morreu na expedição, teria possibilidade de seguir uma carreira política de destaque. Publius era amigo de César e o seu irmão sobrevivente foi um fiel companheiro do futuro ditador romano. Se tivesse triunfado, Crasso teria enorme influência naqueles anos decisivos entre a República e o império. Assim, foi o responsável pela maior derrota militar de Roma e tornou-se no mais famoso de uma longa lista de romanos poderosos que conheceram a derrota nas distantes fronteiras orientais.

Apesar de tudo, a sua humilhação ritual e lendária pode considerar-se relativamente suave em comparação à que sofreria um líder romano que viveu mais de 300 anos depois. Devido provavelmente a excesso de confiança, o imperador Valeriano foi capturado em 260 d. C. pelos persas do Império Sassânida (que sucedeu à dinastia Arsácida). Este episódio ocorreu na batalha de Edessa, agora no sul da Turquia. Os romanos perderam muitos homens numa peste e ficaram em dificuldades, sem capacidade para proceder a uma retirada estratégica. Quando tentou negociar uma saída política com o líder persa, Sapor I, o imperador terá sido atraiçoado em circunstâncias não muito claras, tendo sido feito prisioneiro. Valeriano foi o único imperador romano jamais capturado vivo em batalha, mas não sobreviveu muito tempo ao cativeiro. As crónicas afirmam que o seu corpo foi esfolado e a pele preservada, de forma a que o cadáver empalhado era exibido em público pelos captores, como esplendoroso troféu de parede.

No seu clássico Declínio e Queda do Império Romano, Edward Gibbon conta o que aconteceu ao infeliz imperador: “Diz-se que Valeriano, acorrentado, mas revestido da púrpura imperial, foi exposto à multidão num demorado espectáculo de grandeza derrubada; e que, sempre que o monarca persa montava a cavalo, apoiava o pé no pescoço de um imperador romano. Apesar de todas as advertências dos aliados, que repetidamente o aconselhavam a ter presente as vicissitudes da sorte, a temer o regressado poder de Roma e a fazer do seu ilustre prisioneiro o penhor da paz e não um objecto de insulto, Sapor manteve-se inflexível. Quando Valeriano sucumbiu ao peso da vergonha e da dor, a sua pele, empalhada e conservando uma forma humana, foi guardada durante séculos no mais famoso templo da Pérsia”. No mesmo livro, Gibbon coloca em dúvida alguns aspectos da derrota de Valeriano, mas não o seu triste fim, sobre o qual há outras versões que incluem elementos pouco prováveis, por exemplo, a história de que Sapor terá morto Valeriano forçando-o a engolir ouro líquido.

A captura do imperador ainda vivo é incontroversa. Numa inscrição encontrada em 1936, como se fosse uma frase do próprio Sapor, afirma-se o seguinte: “Tomámos César Valeriano prisioneiro com as nossas próprias mãos, como os restantes comandantes do exército. Conquistámos 36 cidades e os seus territórios” (2). Outro imperador, Numeriano, foi morto em batalha contra os Sassânidas, 24 anos mais tarde (perto da actual Homs, na Síria) e o corpo serviu para fabricar um objecto de luxo. A pele terá sido preservada em mirra, embora não haja descrições minuciosas do artefacto que, ao contrário do caso de Valeriano, não teria forma humana.

As guerras com os antigos persas prolongaram-se no tempo. As do século III foram especialmente ferozes, como demonstram os relatos da época. Os Sassânidas foram mais eficazes do que os antecessores na utilização dos recursos da região e, nesta fase, não há lendas sobre legiões perdidas. Os milhares de prisioneiros romanos foram usados como mão-de-obra escrava na construção de obras de irrigação que aumentaram o poder dos persas na região e o seu controlo sobre os potentados locais. Para os romanos, “a ascensão de uma potência rival foi um profundo choque estratégico. Teve repercussões não apenas nas regiões da fronteira leste, mas em todo o império” (3). Isto sugere que a derrota de Valeriano, o imperador que acabou empalhado, foi um prego no caixão do império romano. A sensação de insegurança levou os romanos a reforçarem as suas forças militares. Manter um exército de grandes dimensões, que se calcula poderia ter 400 mil soldados, era um terrível fardo para um império que tinha recursos limitados. Além disso, as perdas eram pesadas e regulares, o que aumentava a insegurança, implicando novos gastos militares, que seriam desperdiçados na campanha seguinte. A decadência foi inevitável e as guerras constantes com os persas eram aquilo que se podia definir como um erro crasso.

(1) A Vida de Crasso, Plutarco

(2) The Fall of the Roman Empire, Peter Heather

(3) idem

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (53)


Luís Naves,

Segundo a crítica mais comum ao actual Governo, sobretudo entre os conservadores, não foi feita a reforma do Estado e, nesse sentido, o ajustamento pode ser definido como um fracasso. Os críticos têm razão, não foi feita a reforma do Estado, mas não é comum ouvir-se a continuação da frase, sobre o que devia ter sido feito.

Sem uma mudança na forma como o Estado gasta o dinheiro dos contribuintes, nunca será resolvido o problema recorrente do desequilíbrio das contas públicas. Os credores já começaram a avisar sobre futuros aumentos de impostos, pois os cortes na despesa atingiram o limite constitucional e o limite do contexto político. Um governo enfraquecido, a um ano de eleições, não tem consistência para cortes impopulares. As reformas ficaram em suspenso no Verão do ano passado, na sequência da crise da coligação e muito antes da saída limpa do resgate. Nos próximos anos, a reforma do Estado não será mais do que uma frase estafada, repetida ritualmente por políticos sem intenção de a realizar, pois a verdadeira mudança seria impopular e exigiria um acordo político. Ela teria de envolver a segurança social e uma escolha sobre como é que as pensões seriam cortadas nos anos de vacas magras; teria de definir o número adequado de funcionários públicos, que este governo já reduziu em 10% sem resolver o excesso de trabalhadores, sobretudo no poder local.

A reforma do Estado não se poderá fazer sem reduzir ainda mais o número de professores, de polícias ou de profissionais de saúde (que constituem o grosso do efectivo de funcionários). Como se concretiza essa redução? É preciso definir o que se fará com empresas como RTP, CGD ou TAP, antes que um segundo resgate decida pelo País. A informatização mudou a forma de trabalhar e tornou desnecessárias inúmeras funções, mas a burocracia estatal tem sido lenta a adaptar-se e basta entrar numa repartição pública para o compreender. Neste tema, só é preciso lembrar a tempestade provocada pela fusão de mil freguesias, que foi uma medida minúscula em comparação à necessária redução de municípios e, no entanto, quase causou uma insurreição, motivando na altura muitas críticas dos mesmos comentadores que agora exigem a reforma do Estado instantânea, concretizada por varinha mágica. Os críticos não podem continuar indefinidamente a dizer que não houve mudança e terão de ser mais específicos: quais são as reformas ausentes que deviam ter sido feitas?

Os palhaços macabros


Luís Naves,

KryptKiddiesClowns.jpg

 

O fenómeno está a alastrar em cidades francesas, mas parece ter origem na Califórnia, também numa pequena cidade. Pessoas vestidas de palhaços surgem em poses suficientemente ambíguas para poderem ser consideradas arrepiantes. No fenómeno francês, apareceram palhaços nas ruas, armados e em atitudes ameaçadoras, naquilo que se poderia definir como brincadeira de mau-gosto, mas logo surgiram grupos de autodefesa anti-palhaços, também armados. Isto foi ao ponto de Lille não ter dado autorização para um desfile chamado zombie walk, no âmbito da festa americana conhecida por Halloween.

A tudo isto se pode juntar uma história de motins e histeria colectiva, também em França, durante a exibição de um filme de terror sobre uma boneca maléfica. As pessoas têm muita imaginação, mas há aqui mais qualquer coisa, talvez isto seja um sinal dos medos colectivos que as sociedades têm acumulado, medos esses que a fantasia do cinema de terror alimentou de forma particularmente eficaz com esta personagem do palhaço que esconde o psicopata. Vendo bem, é uma ideia particularmente criativa, pois transforma uma figura trágico-cómica, que fez rir as crianças durante séculos, no seu perfeito oposto. Como está ligado ao imaginário infantil, o palhaço é particularmente assustador.

 

Neste caso, a pergunta que devemos fazer é ‘o que se passa com as nossas sociedades’? O fenómeno francês parece ser importado dos Estados Unidos, em breve chegará aqui, pois tudo aquilo que é da cultura popular americana acaba por chegar aqui. Estamos perante uma brincadeira que expõe medos fundamentais, imprecisos e totalmente imaginários, que por sua vez produzem uma reacção de agressividade e de auto-defesa das pequenas comunidades supostamente ameaçadas (não há grandes cidades envolvidas).

No passado, havia histerias em torno de bruxas, vampiros, diabos à solta. Havia sempre vítimas, até as pessoas se cansarem de destruir as suas vidas com estas fantasias difusas. Vistos à distância, estes episódios são hoje interpretados como psicoses provocadas pela ignorância geral de cada época, mas os surtos eram ocasionais e temporários, pelo que deviam estar associados a um contexto qualquer de ameaça existencial.

Como nunca gostei de filmes de terror e conheço mal o género, sempre achei estranho o fascínio infantil que eles exercem sobre as massas. As pessoas gostam de se assustar e parecem tirar algum prazer da emoção do medo. Nas sociedades dos nossos antepassados, circulavam narrativas que serviam como base para as histórias de terror que se contavam às crianças. As bruxas são talvez o melhor exemplo, pois associavam a feminilidade e o mal, duas ideias contraditórias, tal como no caso dos palhaços, daí a sua eficácia. A cultura popular evolui e acreditar em bruxas deixou de ser uma opção, pelo que surgem novas personagens para encarnar esses medos colectivos. Mas o que parece certo é que, num contexto diferente, um palhaço em atitudes macabras (ou a sua simples sugestão) não teria levado a reacções tão abruptas e talvez não provocasse mais do que alguns sorrisos.

Existe, de facto, um clima de medo, e acredito que na sociedade francesa isso seja particularmente forte: não é por acaso que, à medida que aumentam as clivagens religiosas, a Frente Nacional tem votações crescentes. O contemporâneo medo económico, ou seja, o medo de perder o emprego, o que levará a prazo a um sentimento de humilhação, é uma das forças que criam o contexto necessário para a histeria. O outro vector pode ser a fragmentação dos media e o aparecimento de informação não filtrada por profissionais e que prolifera nas redes sociais, sobretudo no Facebook. Ontem, circulou uma notícia falsa, que os autores reclamavam ter sido sancionada pela NASA, e que provocou certo pânico. A invenção de rumores alarmantes não tem nada de novo, talvez seja consequência do humor negro de alguns, mas muitos acreditaram nesta falsa notícia, que não tinha pés nem cabeça.

Não é preciso muito esforço para criar um clima eficaz de fim de mundo iminente. Não sei se os palhaços são um sinal do mal-estar civilizacional que acompanha as grandes mudanças, mas atrevo-me a pensar que vivemos num desses momentos: a aceleração do mundo excita as imaginações e o medo pode ser a ferramenta mais útil para travar certas mudanças.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (52)


Luís Naves,

No momento em que Durão Barroso saía da Comissão Europeia foi duramente criticado nas colunas de opinião em Portugal, acusado de ter comprometido o projecto europeu e privilegiado os interesses dos grandes países. O novo presidente da comissão, Jean-Claude Juncker, conservador luxemburguês e profissional do aparelho comunitário, tem tido excelente imprensa e dizem que estará muito atento aos interesses nacionais e até, de alguma forma, preocupado connosco.

Alguns parecem acreditar que Barroso era mais nocivo para Portugal do que Juncker. Li textos de pessoas satisfeitas por Durão se ir embora e com esperança no bom trabalho do novo presidente. Nenhum desses autores explica como é que Portugal pode ter ganho influência. Os analistas parecem ter esquecido as negociações dos pacotes de subsídios europeus ou a forma como, nos tempos da troika, a comissão fazia sempre de polícia bom. Durante os dois mandatos de Barroso, os pequenos países viram diminuir a sua influência relativa, é um facto, mas isso não nos diz nada sobre o ex-presidente da comissão, embora seja sinal das mudanças que esta crise provocou na UE e, sobretudo, na zona euro.

A força económica da Alemanha, o desenvolvimento da união bancária e o rigor do Tratado Orçamental alteraram profundamente o equilíbrio de poder, retirando influência ao árbitro do sistema e privilegiando as equipas mais fortes. Embora de forma relutante, a Alemanha é agora a grande potência europeia e, quando se trata de dinheiro e cheques, como aconteceu durante toda a crise, os governos resolvem directamente o assunto, sem intermediários e sem ouvirem os países que não pagam as contas. No jargão comunitário, isto implica a supremacia do método intergovernamental sobre o método comunitário.

A desvalorização da comissão não é culpa da própria e, no entanto, há entre nós quem aposte na conversa de paróquia. Imaginam comentadores espanhóis todos contentes porque um luxemburguês substituiu um espanhol numa instituição europeia? Eu não consigo imaginar, sabendo que os espanhóis, neste campeonato, nunca foram anjinhos.

Público e de preferência gratuito


Luís Naves,

 

Street-Art-Collection-Banksy-95.jpg

 

Por vezes lemos textos com os quais discordamos, mas que nos fazem pensar. Foi o caso deste artigo de Luís Valente Rosa, na Revista Visão, a propósito de um artista que assina com o pseudónimo Bansky e que se tornou famoso no Reino Unido devido às suas provocações. O texto da Visão parece apoiar a ideia da arte pública e da extrema democratização do acesso, esquecendo que os artistas precisam de ter rendimento ou não haverá obras de arte. O artigo levanta de forma indirecta outra questão, que tem mais a ver com os mecanismos da fama e os truques do comércio.

É curiosa a separação que o autor faz das diferentes expressões artísticas, omitindo que a pintura só é adquirida por pessoas extremamente ricas devido à circunstância de cada obra ser única (por isso se chamam coleccionadores e também há especuladores). As cópias nada valem, até podem dar prisão se forem vendidas como originais, e a boa pintura de autores desconhecidos tem valor quase nulo. A questão das reproduções aplica-se de igual forma na literatura ou na música. Podemos ouvir Bach na grafonola, mas é uma reprodução. Se quisermos ouvir o original, precisamos de uma orquestra, de um coro, de uma organização que forneça as partituras e pague aos artistas. Até podemos complicar: há quem só aceite a interpretação com instrumentos da época. Nem falo da música contemporânea, que é raramente tocada, pois os compositores importantes são desconhecidos do público. Quem é que ouviu obras de Sofia Gubaidolina, Arvo Part ou Gyorgy Kurtag? E só incluí os indiscutíveis*.

  

Na literatura, o manuscrito original leva anos a redigir e, tirando alguns casos, não tem valor: a reprodução dos livros é barata e exige minutos, mas o negócio de a fabricar implica altos riscos, pois um romance tem grande complexidade e é preciso encontrar leitores. A pintura necessita de museus e de coleccionadores que estejam dispostos a pagar os elevados custos da preservação dos quadros e da sua segurança. Bansky é, certamente, um caso singular de um pintor cuja provocação passa pelo uso de espaços públicos para colocar as obras, mas as pessoas só lhe dão muito valor depois de saberem que é um Bansky e ninguém conhece ao certo como vive o artista, se é rico, se é pobre. O que ele expõe não é tanto a obra em si, mas a interrogação da obra, sobretudo o que nos levou a gostar ainda mais, depois de sabermos que era um Bansky.

Deixemos as digressões e vamos ao ponto: muitas pessoas cultas defendem sem hesitar a democratização total da arte: toda a gente devia ter direito a ouvir Bach, ninguém deveria adquirir colecções que escondem a grande pintura do olhar da sociedade e precisamos de bibliotecas públicas em todo o lado. E, no entanto, poucos cidadãos estão dispostos a pagar os custos de manter as instituições necessárias, as bibliotecas, os museus, as orquestras que possam interpretar Bach ao vivo, pois não é a mesma coisa ouvir as gravações. Não discuto aqui a democratização em si, pois isto leva aos problemas de quem escolhe, que já são do domínio da política.

Isto também se aplica à literatura. Em Portugal são publicados 120 romances por ano (o dobro da produção que existia no final da década de 80), sem contar com a auto-publicação. Uma pessoa muito culta lê talvez meia dúzia de obras desta colheita anual de romances portugueses. Os leitores podem achar que há livros a mais, mas esse é um pensamento errado, nunca há livros em demasia, uma literatura nacional é sempre um conjunto. E, no entanto, esta pujante produção de romance e novela perde-se numa enxurrada de mais de mil livros publicados em cada mês, sobre os mais variados assuntos, todos eles tão importantes como a ficção. É por isso que nove em cada dez escritores trabalham de forma praticamente gratuita, sem direitos de autor, como aparentemente faz Bansky. E, tal como é regra em qualquer das três grandes expressões artísticas, comércio e transcendência não andam sempre de mãos dadas **.

O público pouco se preocupa com isso, não é o seu departamento. As pessoas exigem arte gratuita e da melhor qualidade, não toleram falhas no desenho, na afinação ou na escrita. E, no entanto, na hora de pagar, o bilhete do concerto devia ser oferecido, o museu podia ter entrada livre e o livro, a cópia do manuscrito, é sempre demasiado caro. Ninguém tem destas dúvidas quando vai à bola.

 

* Os três compositores são muito considerados no meio musical, não tenho a ousadia de os compreender; Kurtag conheci pessoalmente, devido a um acaso.

** Na semana passada, Modiano andava nos saldos e tinha dado prejuízo às editoras.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (51)


Luís Naves,

O mundo em que vivemos será talvez lembrado daqui a meio século como uma época particularmente feliz: o tempo da terceira globalização, da segunda revolução industrial, uma espécie de renascimento que abriu os horizontes do saber e da cultura, a perspectiva da paz e do progresso. E, no entanto, o que acabei de escrever produzirá na maior parte dos leitores uma rejeição imediata.

A terceira globalização significa que as distâncias voltaram a encurtar e que sabemos agora o que se passa no outro lado do planeta. A troca de produtos, de dinheiro, de ideias ou de pessoas entre as diferentes sociedades nunca atingiu as actuais proporções. Também assistimos à criação de uma nova economia, com uma tremenda redução nos custos da comunicação e a mudança na forma de trabalhar. Vivemos numa espécie de paz prolongada. Somos bombardeados por notícias de conflitos, mas uma observação atenta permite perceber que se trata de guerras limitadas, com número de vítimas relativamente baixo. Tendo em conta as tecnologias disponíveis para os beligerantes, essas baixas deviam ser aos milhões. Na origem da maioria dos conflitos contemporâneos há geralmente interesses económicos mais ou menos disfarçados de questões nacionais e religiosas. O facto é que as maiores potências não se enfrentam directamente desde 1945 e não se vislumbra um confronto desses.

O enriquecimento dos países ricos tem tido soluços ocasionais, mas foi constante nas últimas duas gerações. A humanidade nunca foi tão numerosa, tão saudável e tão próspera como agora. Apesar disso, vivemos na ansiedade. Só vemos desigualdades, violência, ameaças, injustiças e ignorância. Identificamos um declínio na civilização que não é de todo evidente. Segundo a ideia comum, os seres humanos têm cada vez mais talento para a destruição, mas acontece o oposto: a humanidade tornou-se menos violenta e as forças da evolução parecem favorecer a generosidade e o diálogo. Sobre a política dizemos que tudo é cinismo e hipocrisia, mas a opinião pública nunca foi tão influente e tão esclarecida. Nos países industrializados, os cidadãos são prósperos e livres, as democracias são indiscutíveis e os direitos humanos universais.