Não os ouçam…


Luís Naves,

Portugal não tem um problema com imigração muçulmana e também não tem uma rebelião populista como a que continua a crescer na Europa, numa reacção em torno da ansiedade económica e cultural de importantes camadas da população, sobretudo as que têm menos acesso aos meios de comunicação e às preocupações dos partidos tradicionais. O politicamente correcto que inunda o discurso das elites e que se instalou em força nas redacções está a fazer grandes estragos: muitos eleitores acham que a sua voz não é ouvida e acham até que a sua identidade é desprezada.

O texto de João André, mais abaixo, sobre o movimento populista Pegida, cita um artigo em The Economist que vale por mil palavras. A certo ponto, é citado um cavalheiro que diz mais ou menos isto: os muçulmanos não são um problema, quem não se integrou na República Federal da Alemanha foram os alemães que protestam em Dresden (na Alemanha de Leste). Esta visão das coisas é extraordinária. As pessoas que vivem em locais da Alemanha de Leste não se podem pronunciar sobre as políticas da Alemanha. Os eleitores que vivam em zonas onde haja baixas proporções de imigrantes não se devem pronunciar sobre a política de imigração da Alemanha. Talvez fosse lógico propor que os votos sejam diferentes, consoante se é alemão do Ocidente ou do Leste, se o tema é fracturante ou não. Talvez fosse lógico fazer um catálogo de temas apropriados a manifestações.

Se os partidos não compreendem que têm de ouvir os eleitores não compreendem nada, mesmo quando discordam ou quando mostram caminhos alternativos ou quando provam que o problema não é tão grave como o pintam estes segmentos da opinião pública. Apagar a luz, fazer contra-manifestações ou grandes discursos em que se acusa as pessoas de serem alemães de segunda só irá lançar estes eleitores para as mãos do primeiro demagogo que mostre alguma disponibilidade para os ouvir. Além disto, demonstra grande medo.

Por causa deste género de alienação do eleitorado, os populistas do Podemos estão à frente nas sondagens em Espanha, o Syriza prepara-se para vencer na Grécia, políticos como Marine Le Pen, Nigel Farage ou Geert Wilders são ameaças concretas aos partidos tradicionais, como são outras formações populistas ou extremistas (praticamente todos os países têm uma, à esquerda ou à direita). O fenómeno está a estender-se a toda a Europa e vai dificultar os habituais entendimentos entre centro-direita e centro-esquerda que dominaram a política europeia nos últimos 30 anos. A rebelião populista não vai desaparecer do mapa e alimenta-se da surdez das elites. Resta saber se Portugal também entra nesta dança.

Zombies da Al-Qaeda


Luís Naves,

Escrevi em texto anterior que os autores do atentado de Paris tinham ligações ao Estado Islâmico. Esse texto, Soldados do Califado, baseava-se em primeiras informações, que não se confirmaram. Afinal, os dois terroristas não estiveram na Síria e, aparentemente, não tiveram contacto directo com o chamado Califado. No final da sua extraordinária fuga, já cercado, um dos irmãos Kouachi fez uma breve declaração pelo telefone a um jornalista e sabe-se agora que pelo menos Said Kouachi esteve no Iémen sob a tutela de um dos principais líderes da Al-Qaeda, Anwar al-Awlaki, o imã americano, que era então considerado um dos dirigentes mais perigosos da organização. Kouachi esteve no Iémen em 2011, no mesmo ano em que Al-Awlaki foi morto com alguns dos seus companheiros pelo disparo de um drone americano. Assim, não sendo propriamente soldados do Califado, os três radicais franceses puderam preparar a vingança durante três anos, sem serem detectados. É possível que haja outras redes adormecidas, prontas para a acção. O aparecimento de um terceiro terrorista só aumentou a confusão e tornou mais difícil a captura dos dois irmãos que mataram os membros da redacção do Charlie Hebdo. Seguiu-se um ataque puramente racista, que acabou em banho de sangue numa loja de produtos kosher, embora provavelmente o alvo fosse uma escola judaica próxima. Isto serve de aviso: a Al-Qaeda parecia ultrapassada, mas tem raízes fundas; o Estado Islâmico, talvez ainda mais perigoso, tentará certamente a mesma estratégia de preparar grupos que actuam após anos de clandestinidade e silêncio. O terrorismo contemporâneo é um pouco como os filmes de zombies, haverá sempre mortos-vivos a saírem das tumbas.

 

Na blogosfera portuguesa foram publicadas boas reflexões sobre este caso, mas recomendo sobretudo a leitura de dois textos notáveis, de Pedro Picoito e de Rui Ângelo Araújo. 

A exclusão dos populistas


Luís Naves,

A exclusão da Frente Nacional de uma manifestação de unidade em França é um bom exemplo da crise de legitimidade que cresce nas democracias liberais e que, a prazo, ameaça tornar-se numa rebelião populista capaz de se transformar numa crise das próprias democracias. Embora esteja em estado de choque pelo brutal atentado de Paris, a elite política francesa parece incapaz de realizar uma simples manifestação onde participem todos os partidos. A exclusão da Frente Nacional é na realidade uma bofetada a um quarto do eleitorado. Este partido de extrema-direita ou, na sua actual versão, de populismo de direita teve 4,5 milhões de votos nas eleições europeias. Nas legislativas de 2012, ficou em terceiro lugar, com 3,5 milhões de votos, mas só elegeu 2 deputados. Muitos eleitores em França e na Europa sentem que o seu voto não conta. Embora haja grande número de jovens nestas formações populistas, a esquerda intelectual continua a dizer que se trata do passado.

 

Os populistas de direita e de esquerda estão a crescer devido aos fracasso das políticas liberais e ao aumento do desemprego e das desigualdades. Na Alemanha, onde quase não existe oposição e debate, um novo partido, Alternativa para a Alemanha (AfD), que defende a saída do euro, tem conseguido mais de 10% em eleições estaduais (12% em Brandenburgo). Em Itália, o Movimento Cinco Estrelas da esquerda populista ficou em terceiro lugar nas legislativas de 2013, com 23%, valor que conseguiu aumentar para 25% nas europeias. Em Espanha, com o Podemos, ou na Grécia, com o Syriza, os populistas de esquerda continuam a crescer nas sondagens e são possíveis candidatos à vitória em legislativas que se realizam este ano (na Grécia, dentro de duas semanas). No Reino Unido, o UKIP (que teve apenas 3% em 2010), conseguiu vencer uma eleição intercalar e surge nas sondagens com valores entre 10% e 15%. Um estudo sobre 87 círculos mostrou que este movimento populista podia vencer em seis e ficava em segundo lugar em outros 22. O UKIP está a conquistar eleitores que votavam nos conservadores, mas também a atrair votos trabalhistas. O seu impacto é uma incógnita.

 

O problema é que as elites têm um pensamento global e olham para as instituições europeias como instrumento ao serviço das suas ambições de poder, mas as populações querem apenas discutir o reforço das  comunidades e a sua segurança física e económica. É espantoso como os intelectuais continuam a não compreender que, pelo menos aos olhos do eleitorado, a imigração tem impacto no emprego, sendo este cada vez mais escasso. Nas sociedades democráticas, onde há amplas liberdades e tolerância, parte significativa da população sente que a sua voz nunca é ouvida, nem será. Estas pessoas têm alguma razão: existe tendência, nos partidos e meios de comunicação, para desprezar ou ignorar muitos eleitores, sobretudo aqueles que recusam o multiculturalismo.

O consumismo desenfreado e a indiferença aumentam esse sentimento de alienação, bem como a ausência de política, no sentido de se formar uma espécie de cartel de partidos centristas que dizem e fazem mais ou menos as mesmas coisas. O exemplo alemão é impressionante. O consenso, as falsas uniões nacionais criam uma hipnose que prolonga a grande continuidade, tornando ainda mais difícil a ruptura e a simples mudança.

Os movimentos populistas não são autoritários e querem participar no jogo democrático, atraindo o voto de pessoas que não se sentem bem representadas nos partidos tradicionais e nos meios de comunicação. O fenómeno está a crescer à direita e à esquerda, apropria-se da retórica nacionalista e reage à brutalidade do terrorismo contemporâneo com o apoio a medidas menos tolerantes. O populismo está a mudar a Europa e a sua exclusão é um erro. Aliás, o fenómeno não é apenas europeu, mas tem talvez ainda mais força na sociedade americana, onde a paralisia institucional e a ascensão de uma aristocracia constituem sérias ameaças ao futuro do Ocidente.

 

Soldados do Califado


Luís Naves,

O atentado de Paris contra o jornal satírico Charlie Hebdo foi também um ataque brutal às elites intelectuais francesas. A emoção da frase “somos Charlie” será inconsequente se não for acompanhada de uma reflexão. Os dois primeiros suspeitos do tiroteio chamam-se Cherif e Said Kouachi (à hora a que escrevo ainda não foram capturados). Os dois irmãos franceses de origem magrebina estavam referenciados pelas autoridades policiais, combateram na Síria e, no entanto, estes soldados do Califado regressaram tranquilamente a França, onde aparentemente obtiveram armamento de guerra. A ser verdade, como é que isto foi possível?

O ataque não visou exactamente a liberdade de expressão, pois os terroristas estão-se nas tintas para quem criticar a República ou o presidente Hollande. O ataque foi contra o direito de criticar o Islão, norma que não sabemos exactamente onde começa, embora seja nítido onde acaba. Os dois terroristas simbolizam o desprezo que o Islão radical tem pelo Ocidente, mas também a forma benevolente como a elite intelectual francesa (à excepção porventura de jornais como Charlie) tem tratado esse mesmo Islão radical.

Os intelectuais franceses e europeus continuam a afirmar que não existe um problema de imigração, continuam a achar que a intolerância religiosa dos radicais é uma reacção à crise económica, mas o facto é que as democracias permitiram o crescimento de um tumor que parece ser difícil de extirpar: muitos jovens muçulmanos foram radicalizados por imãs que aproveitaram as amplas liberdades da sociedade francesa, nomeadamente a liberdade religiosa. O desprezo pelos valores do Ocidente fez o resto. A França é o país europeu com mais combatentes na Síria, onde se formou uma espécie de brigada internacional, sobretudo de europeus que vão dedicar as suas vidas, previsivelmente curtas, à destruição do Ocidente.

O Islão radical é uma ideologia fanática com escassas hipóteses de triunfar no mundo, mas a sua ascensão deve-se em grande parte à ingenuidade das elites intelectuais do Ocidente, sempre velozes a condenar uma inquietação popular que é fácil classificar de “xenofobia”. Os movimentos populistas e a extrema-direita têm aproveitado habilmente o conflito social e cultural que decorre no interior dos bairros mais pobres. Quando vivi em França, nos anos 80, já era insuportável a hostilidade dos árabes em relação à população não-muçulmana e ocorreu um fenómeno que os sociólogos da época tinham dificuldade em compreender: os operários, que votavam no PCF, passaram directamente para a Frente Nacional, grupo então associado apenas aos chamados ‘pieds noir’ (retornados da Argélia) e que teve os seus primeiros verdadeiros êxitos nestes anos. Nas décadas seguintes, muitas famílias muçulmanas integraram-se na sociedade francesa, mas uma parte significativa foi radicalizada quase em silêncio e as liberdades republicanas acabaram por ser suprimidas em muitos locais onde a polícia não entra e onde mandam os fanáticos.

O dilema da liberdade


Luís Naves,

O atentado de Paris onde foi chacinada a redacção do Charlie Hebdo só pode provocar nos espíritos um imenso repúdio. Os terroristas atingiram o coração do mundo moderno, pois a ideia de liberdade fica associada ao medo. As sociedades ocidentais não têm solução fácil para ataques como este: podem evitar futuros atentados se criarem Estados mais securitários, tal como já acontece nos aeroportos (ninguém aceitaria viajar de avião sem passar pelos complexos procedimentos de segurança); as comunidades islâmicas serão vigiadas mais de perto e, um dia, os imãs perderão a liberdade de radicalizar crentes, com os sermões alterados e a doutrina censurada. Soa mal, mas para as sociedades ocidentais defenderem as liberdades, haverá redução da liberdade religiosa.

Sem políticas de imigração mais restritivas, os islamitas serão reforçados e isso implica menos tolerância com o actual estilo de vida dos europeus. Portugal não tem um problema de imigração e as pessoas aqui desconhecem a tensão que existe nos bairros franceses, sobretudo com o aparecimento de uma geração de jovens radicais islâmicos (tão franceses como os outros) que não têm qualquer intenção de viver numa sociedade liberal ou de aceitar a república secular. Os partidos populistas, como a Frente Nacional, estão a aproveitar a insegurança das pessoas, como aliás escrevi ontem, a propósito de um movimento espontâneo na Alemanha. Isto não tem nada a ver com a crise financeira, mas com religião e choque de culturas. As vítimas de Charlie Hebdo mostram que em muitos aspectos os terroristas já ganharam, pois a intolerância e o silêncio têm garras bem fundas.

A rebelião populista


Luís Naves,

O eleitorado europeu está farto de medidas que não compreende, de liberalizações que prejudicam os trabalhadores, de cortes nos serviços públicos, de desemprego e estagnação. Quem tinha vidas previsíveis observa agora o horizonte da incerteza. A grande crise de 2008-2014 aumentou a angústia na opinião pública, criando um estado de pessimismo e de insegurança que os meios de comunicação exploram com misérias sociais que, existindo antes da crise, nunca antes tinham merecido tanto relevo. As percepções de corrupção, de criminalidade ou de pobreza são muito maiores do que a realidade da corrupção, da criminalidade ou da pobreza. O desemprego e o declínio do Estado criaram um sentimento de impotência.

A frustração, muito visível em países resgatados, não tem saídas fáceis: o Syriza, na Grécia, está a duas semanas de vencer as eleições e pretende renegociar a dívida e aumentar a despesa pública, com dinheiro que o país não possui: nos últimos anos, entre ajuda externa e perdão de créditos, a Grécia recebeu 380 mil milhões de euros, sempre a agravar a situação, devido à relutância em cumprir as condições do ajustamento. Agora, apostando na pura chantagem aos parceiros europeus, os populistas de esquerda acreditam poder ressuscitar uma economia de rastos deitando dinheiro dos outros para a fogueira, mas correm sério risco da torneira ser fechada de vez. É uma ilusão pensar que a Europa pagará as contas indefinidamente ou que as dívidas podem ser perdoadas sem a perda definitiva da credibilidade externa. Aliás, as contas não batem certo: sem financiamento, a Grécia terá de sair do euro, como indicam as suas taxas de juro.

Na Alemanha, entretanto, fervilha um movimento espontâneo anti-imigração, o Pegida, que está a assustar a classe política alemã. Embora sejam pessoas comuns, os manifestantes pacíficos são apresentados como xenófobos e racistas, o que apenas aumenta a irritação com uma democracia que, à partida, pretende ignorar a sua voz. Os partidos tradicionais têm dificuldade em lidar com formas de protesto que surgem fora do respectivo controlo, como aliás acontece na França, Espanha, Itália ou Reino Unido. Os populistas de esquerda e da direita proliferam no terreno fértil do cansaço. A ansiedade torna difícil manter as reformas económicas de inspiração liberal, cujo fracasso político é cada vez mais evidente. Assim, 2015 será porventura o ano da rebelião populista.

A propósito do ano de 2015


Luís Naves,

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Quem quiser antecipar para 2015 um ano de potenciais desgraças deve lembrar-se que em 1915 o mundo estava envolvido numa terrível guerra mundial, com milhões de soldados a viverem em trincheiras improvisadas e no perigo constante da aniquilação. A Europa sofreu uma das suas piores calamidades e esta guerra, que só terminou em 1918, após 9 milhões de mortos, foi certamente uma das causas da terrível epidemia de gripe que viria a matar mais dez milhões de pessoas. A Primeira Guerra Mundial destruiu quatro impérios europeus e lançou as sementes de uma guerra ainda mais destrutiva, que iria dizimar a geração seguinte.

O ano de 1815 não foi mais auspicioso do que 1915. Houve dois momentos explosivos, a fuga de Napoleão da ilha de Elba e a erupção do vulcão do monte Tambora, na actual Indonésia. O primeiro episódio culminou na batalha de Waterloo, em Junho, onde um tempo anormalmente húmido perturbou seriamente as tácticas militares: as armas não disparavam e a artilharia francesa não provocou o efeito esperado, apesar de Napoleão ter esperado uma hora (crítica) antes de lançar o ataque, na esperança de que o campo de batalha secasse. A chuva e a lama foram talvez a consequência imprevista da distante erupção vulcânica, que provocou um pequeno Inverno na Europa. O ano seguinte seria o famoso ano sem Verão, que provocou uma mortandade devido à fome e à doença. A década de 1810 teve um mínimo solar e foi uma das mais frias e húmidas dos últimos 300 anos.

Se 1815 não foi um ano bom, pode afirmar-se que 1715 não teve grande história e foi até auspicioso, pois a Guerra da Sucessão Espanhola terminara em 1714, com resultado medíocre para Portugal, que no papel foi um dos vencedores. Visto mais à lupa, este período deu início a uma longa fase de consolidação dos grandes poderes europeus, sobretudo do Reino Unido e da Áustria, ao mesmo tempo que ocorreu o declínio lento dos pequenos impérios, sendo Portugal uma das vítimas, apesar do ouro do Brasil descoberto nesta época.

A Europa estava em transição e vinha de uma longa série de conflitos, o maior dos quais, a Guerra dos Trinta Anos, começou em 1618. Este foi um período particularmente negro, com milhões de vítimas provocadas pela fome, batalhas, massacres, doenças e puro ódio religioso. E podia ter sido diferente. Em 1615 ocorrera um momento de vitalidade artística e científica, mas era como o canto do cisne: a literatura teve uma das suas maiores glórias nesse ano, com a publicação do segundo volume de D. Quixote, meses depois de ser publicado em Lisboa A Peregrinação, de Fernão Mendes Pinto. William Shakespeare terminara anos antes a sua notável carreira e, tal como Cervantes, morreria em 1616. No início da década, Galileu fizera as primeiras observações com telescópio, mas entretanto enfrentava crescentes dificuldades com as autoridades eclesiásticas, devido à sua defesa do modelo heliocêntrico do sistema solar proposto por Nicolau Copérnico.

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Os grandes cientistas e escritores são o melhor símbolo do final de dois séculos de intensa mudança de mentalidade. Se recuarmos cem anos, em 1515 estava em rápido movimento o período dos Descobrimentos. O rei português Manuel I enviou ao papa um rinoceronte vivo, que muito impressionou quem o viu. Nesse ano ocorrera também uma autêntica revolução na arte, na botânica, na geografia, na matemática, na astronomia, na alimentação e na guerra. Os portugueses encontravam-se na vanguarda da exploração e da ciência, mas tinham rivalidades insuperáveis, espírito de facção e falta de disciplina. Vítima de intrigas palacianas, o vice-rei da Índia, Afonso de Albuquerque, um dos primeiros construtores dos impérios europeus, foi destituído vergonhosamente pelo monarca e morreu nesse mesmo ano de 1515, segundo dizem atingido pelo desgosto, proferindo uma frase célebre que resume toda a frustração de quem gastara a vida a lutar pelo insolúvel dilema do poder: “Mal com el-rei por amor dos homens, mal com os homens por amor de el-rei”.

A frase continua a ser um dos melhores sumários dos dois séculos portugueses. A aventura começara em 1415, com a tomada da cidade de Ceuta, na costa marroquina, episódio marcado pelo espírito das cruzadas típico da velha época, mas já com o embrião de uma nova curiosidade que mudaria o destino de toda a civilização europeia. Foi em Ceuta que começou a Era dos Descobrimentos, de forma porventura irreflectida, mas desencadeando um processo de acumulação de conhecimentos que levou o Ocidente à supremacia.

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Cem anos antes, em 1315, ninguém diria que isso era possível. A Europa viveu nesse ano o início de uma grande fome que matou porventura 10% da população. Muitos sobreviventes ficaram debilitados e viriam a ser vítimas fáceis da Peste Negra que se propagou a partir de 1348, com vários surtos em anos posteriores. Segundo se julga, a Grande Morte dizimou um terço da população europeia. É quase inexplicável que a Europa tenha sobrevivido ao século XIV, para mais com as desgraças associadas à guerra dos Cem Anos, vários períodos de fome e vagas de peste que actuavam como tsunamis regulares a devastar a população.

O mesmo se pode afirmar do século XIII, quando um momento de pura sorte evitou a provável destruição da Europa Central pelas hordas mongóis (1241), o que apesar de tudo não evitou a destruição de metade do poderoso reino húngaro, onde ocorreu um verdadeiro genocídio. Os mongóis tinham conseguido o seu primeiro grande triunfo externo em 1215, com a conquista da actual Pequim e respectivo massacre da população que, em desespero, usara artilharia primitiva e, à falta de ferro para as munições, teve de recorrer a ouro e prata. Nesse ano, desconhecendo as desgraças alheias, a Europa poderia estar despreocupada, mas era palco de um fanático fervor religioso e de cruzadas contra o Islão mas também contra as heresias cristãs. Os cátaros, por exemplo, foram massacrados de forma impiedosa. Este mundo medieval era cruel e pobre cem anos antes e também dois séculos antes. O ano de 1115 não foi melhor, nem 1015: a vida dos europeus era curta e penosa; as pessoas, analfabetas e supersticiosas, trabalhavam agarradas à terra onde nasciam, até ao dia em que morriam.

Um balanço


Luís Naves,

O mundo é caótico e difícil de interpretar. No final de cada ano, as pessoas procuram sinais que permitam compreender o que lhes acontece, fazem o deve e haver da vida quotidiana, dos insucessos e momentos de felicidade, das suas desilusões e vivências memoráveis, das novas angústias e velhos receios. Há quem se convença de ter encontrado uma grelha de leitura dos mistérios da vida, mas no final toda a gente vai passando pelo tempo que lhe calhou em sorte a acumular inquietações.

Este é o dia dos balanços, queiram desculpar o desabafo. Aparentemente, vivi um ano péssimo e anuncia-se outro ainda pior. E, no entanto, nunca fui tão livre das opressões do espírito. Estou cheio de dúvidas e tudo me parece mais claro. Sinto uma verdadeira serenidade e, apesar das ruínas da minha vida anterior, sei agora que não importa tanto a escolha ou o acaso, mas o que tiramos desta breve oportunidade para contemplar o esplendor do mundo.

Este pode ter sido um ano genuinamente mau, mas um dia talvez olhemos para ele de outra forma. Por mais modernas que as sociedades sejam, as mudanças são sempre contidas pela solidez da cultura. Existe uma inércia que atenua as grandes transformações, tal como a areia da praia trava a onda e a transforma em espuma. O pessimismo e a crise talvez nos tenham feito mais fortes. O que ficará da nossa passagem pelo tempo será sempre um enigma, fruto das circunstâncias, mas também em parte escolha nossa.

 

A todos os companheiros de blogue e a todos os leitores desejo um óptimo 2015.

Divisões sobre a Rússia


Luís Naves,

Alguns países europeus têm dúvidas sobre as sanções à Rússia. A discussão, agressiva e até agora discreta, vai aquecer nos próximos meses. Os americanos estão a exercer forte pressão sobre países que, por serem mais afectados pela destruição do seu comércio com a Rússia, não querem aumentar a parada nas sanções. O facto é que a ordem mundial financeira e política não pretende tolerar o desafio colocado por Vladimir Putin, que fez uma jogada de alto risco na Ucrânia e agora tem poucas hipóteses de conseguir sair da situação. Alguns países do centro da Europa estão relutantes em humilhar completamente a Rússia e querem apenas acabar com o conflito ucraniano, mas os falcões americanos pretendem usar este episódio para dar uma lição aos russos e acreditam que as elites de Moscovo estarão em breve a discutir a eventual substituição do seu presidente.

Desta história conclui-se que a política externa americana segue por vezes ao sabor das conveniências do calendário doméstico e muitas iniciativas surgem na forma de grandes ideias inatacáveis. Quando dominou o mundo, o Império Britânico mandou as suas esquadras defender causas humanitárias (a luta contra a escravatura, por exemplo), mas na maioria das decisões externas a política interna não era tão forte como acontece no caso americano. No que diz respeito aos EUA, os democratas precisam de parecer duros, pois a percepção de fraqueza no mundo será a sua maior debilidade na campanha para 2016. Os republicanos estão a condicionar a estratégia nesta crise e nas sanções contra Moscovo. Quando o facciosismo condiciona a estratégia, o resultado costuma ser desproporcionado ou incoerente. Os europeus, por seu lado, não podem tolerar tácticas de intimidação e a anexação de um território de um país mais fraco por outro mais forte, mas há diferentes níveis de prejuízos comerciais e nem todos se podem dar ao luxo de exigir acção imediata.  

O Meu Amante de Domingo


Luís Naves,

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Não conhecia a ficção de Alexandra Lucas Coelho, apenas as brilhantes reportagens e crónicas, mas depois de ler o seu mais recente romance, O Meu Amante de Domingo, não vou perder mais nenhum livro da autora. Trata-se de um texto dilacerado, cruel, comovente, com humor negro e sem contemplações na linguagem. Nenhum leitor lhe poderá ficar indiferente.

A história é simples: uma mulher de 50 anos, ferida por uma traição amorosa, sonha com a vingança e perde-se num labirinto de dor, desejo, insatisfação, raiva e desespero. No meio, a literatura, sobretudo a literatura brasileira, e a fantasia do sexo, embora os homens sejam aqui uma espécie de lugar comum entre o ridículo e o insensível, homens objecto que constituem uma forma de punição. “A vingança é uma espécie de amante, toma o lugar do morto na cama”, explica em certa passagem a narradora.

O livro tem páginas de grande beleza e outras com linguagem desbragada e propositadamente chocante, mas isso explica-se pela profunda indignação da personagem central, que tem dois planos de discurso, um em que fala directamente aos leitores, provavelmente em pensamento, e outro em que escreve um suposto romance chamado O Meu Amante de Domingo. A prosa de Alexandra Lucas Coelho é apurada e rica, como mostra este exemplo de uma descrição da paisagem alentejana: “Todos os dias subo ao Castelo a pé, para que os olhos corram como um cão que estava preso, até onde a terra cai do outro lado”.

As personagens não têm nome, mas designação genérica: Sancho Pança ou o mecânico, Nosferatu ou o futuro Nobel, o caubói, Apolo; a narradora nunca se identifica, embora se descreva várias vezes; sabemos, pois, que é uma mulher baixa, loira, magra, revisora literária, que vive sozinha. Através desta figura, a autora constrói um texto sarcástico, com linguagem brutal e que, ao estilo da literatura brasileira, não usa reticências. As palavras proibidas são usadas sem poupança e as cenas de sexo explícito surgem sem condescendência ou pudor. E, no entanto, há por aqui uma ilusão de realismo: o sexo é insatisfatório e sem emoções, quase parece ginástica, como na pornografia; no fundo, torna-se uma parte do delírio da personagem, elemento central da sua vingança. Sublinho a dificuldade desta escrita e julgo que não existe um único momento de mau-gosto.

 

Os diálogos são hábeis, o ritmo de prosa é alucinante, o estilo poderoso e eficaz. Em cada página encontramos frases espantosas, por exemplo, “a minha fúria é mais forte do que o meu lamento”. Algumas destas frases contêm indícios da intenção estética da autora, sobretudo na discussão com Nosferatu, onde este diz que não está interessado no explícito, ou ainda no diálogo um pouco anterior, quando a narradora diz ao amigo para escrever depois de “meter o dedo na ferida”. No primeiro caso, o oposto do que se pretende; depois, o intuito da exploração da dor íntima.

Neste livro tão bem escrito é notável a prosa aflita do capítulo onde se revela a razão da vingança, como se a personagem, ali, perdesse o pé e o fôlego. Há no texto um constante exagero, nos delírios, na riqueza do vocabulário, na brutalidade dos insultos e nas referências literárias. A meu ver, este último excesso, demasiada literatura, é o maior defeito do livro, embora se possa argumentar que faz parte da caracterização da narradora, onde existe boa dose de histeria. O fio da narrativa tem igualmente fragmentação invulgar na fase final, quando tudo acelera e o foco se engasga. As personagens secundárias são demasiado efémeras e desaparecem, há igualmente digressões que, apesar do interesse, parecem inúteis para o desenvolvimento do romance: cito apenas a história de Euclides da Cunha, metida um bocado a martelo, boa para uma crónica, desnecessária naquele contexto.

Tirando estes pormenores menos felizes, O Meu Amante de Domingo é um livro inteligente, desassombrado e profundamente original. O título evoca os “condutores de domingo”, aquelas figuras inábeis e desajeitadas que infernizam a vida aos que têm pressa. Os homens, aliás, são ineptos e tolos, ou apenas cruéis. As mulheres estão desprotegidas perante uma brutalidade masculina que não aceitam. Como explica a narradora, “os homens são a imaturidade das mulheres, difícil não ficar refém deles”. Neste romance, Alexandra Lucas Coelho consegue subtilezas que fazem pensar e atinge um grau de inquietação que, no fundo, nos fala do medo da mudança, do envelhecimento e do declínio. A maior traição, parece, é não suportarmos a verdade. E como isso é actual.

 

Os habitantes do aeroporto


Luís Naves,

Recomendo a leitura deste espantoso texto sobre os estranhos habitantes do terminal ultra-moderno do aeroporto de Barajas, em Madrid. Para além da escrita brilhante de Daniel Verdú, que evita as armadilhas do sentimentalismo, esta reportagem de El Pais mostra a fauna de um eco-sistema secreto. Os protagonistas (da ordem de três dezenas) são invisíveis a quem por ali passar, apesar de comerem os restos que os passageiros deixam nas mesas do fast-food e de usarem os lavabos, apesar de andarem pelo terminal como se fossem apanhar algum avião, até arrastando malas vazias. Para os ver, é preciso estar atento, por isso ninguém repara neles. Nunca levantam voo, nunca chegam ao destino, pois não têm propriamente um destino. Um destes fantasmas diz receber uma pequena pensão de 300 euros, o que o dispensa de comer restos; e até usa computador portátil, navegando no sistema wi-fi do sofisticado terminal de 6200 milhões de euros, considerado espaço público. Nem todos conseguem esta camuflagem perfeita, mas os viajantes do vazio andam limpos, parecem passageiros em trânsito, escondem-se entre a multidão, passam ali os dias e as noites, protegidos do frio, sem jamais embarcarem em qualquer um dos mil voos diários. Alguns usam truques para pedir esmola, geralmente envolvendo complicações com o passaporte. Neste aeroporto, não há nenhuma vedeta de Hollywood que nos provoque simpatia especial, apenas gente incorpórea e anónima, os de nenhum lugar.

O ano de 2015


Luís Naves,

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A mitologia da catástrofe criou uma mentalidade que tarda em desaparecer. Torna-se penoso mencionar factos, quando estes apontam para a melhoria da situação económica e social, pois muitas pessoas simplesmente recusam a possibilidade de já não estarmos em crise. As lojas estão cheias e nos restaurantes é difícil encontrar mesa, mas o espírito da indignação continua bem vivo.

A situação na Europa parece mais positiva do que nos diz a comunicação social. Em 2015, a baixa do preço do petróleo e o aumento da confiança na Alemanha terão impacto favorável, isto apesar de não terem desaparecido todos os riscos políticos. As presidenciais gregas podem implicar uma eleição antecipada (veremos no final do mês) e prossegue a ascensão do Podemos, mas o facto é que há várias economias em recuperação. As incertezas sobre a Rússia e os efeitos das sanções não podem ser ignorados, mas a Europa apresenta boas perspectivas para o próximo ano.

Tudo indica que em Portugal o défice de 2014 ficará abaixo de 4%, o que facilitará o cumprimento da meta do próximo ano sem novas medidas de austeridade. As exportações estão a crescer mais depressa do que se esperava e o preço do crude, a manter-se durante alguns meses, será uma boa oportunidade para se conseguir crescimento acima de 1,5% em 2015. O bom desempenho das exportações associado à recuperação da procura interna é compatível com a preservação dos excedentes da balança corrente e de capitais. Isto significa que o País tem condições para se financiar nos mercados e para reduzir a sua elevada dívida pública.

O Banco de Portugal espera mais investimento, mais exportações e a renovação do saldo positivo da balança externa, o que significa que o aumento do consumo não implica endividamento insustentável. O crescimento acima do valor para a zona euro é ainda modesto e criará emprego de forma insuficiente, mas no último ano foram criados cem mil postos de trabalho (mesmo que um terço resulte de políticas activas de emprego, é um número positivo). Crescimento acima da zona euro significa convergência com o rendimento médio europeu, ou seja, uma boa medida de final da crise.

Apesar de todos estes indicadores favoráveis, só vejo análises deprimentes. Os comentários nas redes sociais e na imprensa estão cheios de demagogia e tremendismo. Continua a indignação com trivialidades, como se os pessimistas que nos mandaram desistir ao longo dos últimos três anos, porque era impossível e íamos morrer todos, agora nos quisessem afogar na praia.

A minha vez


Luís Naves,

Ao passar duas horas no centro de emprego, vi os sinais da melancolia e do conformismo que alguns pensadores julgam ser a natureza mais profunda do povo português. Naquele grupo de uma centena de pessoas havia estrangeiros, mas a preponderância era de trabalhadores pouco qualificados e pessoas com baixa instrução, as maiores vítimas de um colapso económico que a elite nacional tarda em compreender. Digo isto porque muitos intelectuais ainda não perceberam que a crise social atinge sobretudo trabalhadores que não encontram emprego num mercado de trabalho que se tornou de súbito mais curto e exigente.

A senhora que meteu conversa comigo contou-me que muitos desempregados preferiam receber de uma vez o dinheiro a que tinham direito, para abrirem um negócio, mas aquilo tinha grande risco, disse-me ela, a acrescentar que sonhava em abrir uma tasca ali numa boa avenida da cidade. Não mencionei as minhas dúvidas nem lhe disse que as tascas na minha rua fecharam todas e que os negócios são difíceis, pois é preciso investir e fazer contabilidade, enfim, todas essas coisas, e de resto não há consumo. Ela continuou a falar do seu sonho, mas não explicou o que eu já adivinhara, que não lhe restava muito dinheiro para receber, apenas mais alguns meses, a um valor diário que não dava para uma refeição normal. Mostrou-me os papéis. No ecrã da televisão, os números avançavam devagar e as pessoas mantinham-se nos seus lugares, como acontece por vezes nos aeroportos à espera dos voos atrasados, sem grandes manifestações de impaciência, excepto no caso de um homem que entrou a falar alto, headphones ao pescoço, aspecto de já andar pela quinta dimensão. Naquela inesperada invasão, a senhora que meteu conversa aproveitou para me dizer que os números andavam devagar por eles serem “psicólogos”. Quem? Os que nos atendiam, respondeu. Eram psicólogos por ouvirem as pessoas. A senha dela estava a dois números do objectivo, mas aquilo ia “engasgar”, disse, num tom apenas factual, sem alarme ou fatalismo.

Na sala, havia o ruído de conversas em voz baixa, certa serenidade, à excepção do homem dos headphones, que acabou por sair, a ralhar com o mundo. Lembrei-me de alguém ter dito que este povo é demasiado manso, mas ali não valia a pena fazer barulho. Qualquer perturbação só iria atrasar o avanço dos números no ecrã, adiando a esperança de quem aguardava a vez. No painel electrónico prosseguia o avanço lento das senhas, por vezes engasgando-se a sua boa ordem, mas ninguém se importava muito com a demora num número: cada pessoa na sala esperava isso para si, que houvesse alguém, por uma vez, a escutar os seus problemas.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (60)


Luís Naves,

Embora seja uma boa metáfora da vida, o futebol é desprezado por alguns intelectuais. No fundo, este jogo mostra que não somos todos idênticos e que a luta pelo triunfo individual tem aspectos mais complexos do que parece. Os escritores e os filósofos deviam prestar mais atenção e os jornalistas especializados deviam perder o ar de sumo-sacerdotes discutindo as inescrutáveis altitudes celestes. Na rua, toda a gente comenta e sabe muito sobre futebol, pois toda a gente tem uma perspectiva sobre a existência humana.

Há um treinador que costuma ser ridicularizado pelos intelectuais, mas que recentemente disse mais sobre a vida do que alguns compêndios. Questionado pela milésima vez sobre uma minúcia táctica que ninguém recorda, Jorge Jesus perdeu a paciência e explicou que isso não interessava para nada, o importante era a forma como os jogadores reagiam “aos momentos do jogo”. A declaração motivou outros treinadores a dizerem mais ou menos o mesmo: o sistema táctico não é o mais importante, o que interessa é a “dinâmica” da equipa e a força de vontade dos jogadores.

Tomei isto como uma boa lição em geral. É também uma boa lição para a literatura. O que interessa não é o sistema ou a forma prevista na teoria, mas a dinâmica da prosa; o que interessa é a maneira como as pessoas reagem aos “momentos da vida” e como superam as crises, que são sempre mais ou menos idênticas. Recordamos segmentos limitados de um jogo, como esquecemos quase tudo o que vivemos e não podemos lembrar tudo o que lemos num livro. A maior fatia do tempo que passamos na vida serve para nos levar de um momento memorável para outro momento assim. Isso funciona da mesma forma no jogo de futebol e no romance de ficção: nem tudo será lembrado e o que verdadeiramente conta são os momentos (aquilo a que alguns chamam a dinâmica) contendo drama e emoção, algo de diferente, mas sobretudo intenso, que nos fique gravado na memória, não exactamente como aconteceu, mas ligeiramente transformado em mito.

Um mundo sem europeus


Luís Naves,

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Reencontrei Um Mundo Sem Europeus e reli algumas partes. Em 2010, quando foi publicado, discordei do autor, Henrique Raposo, cujas opiniões me soavam demasiado definitivas. Agora, as ideias parecem ultrapassadas. Alguns exemplos: “Tirando Rússia e China, todos os Estados-chave são democracias liberais”, ou “a Europa não tem qualquer centralidade na política mundial”; ou ainda “o drama central da segunda metade do século XX asiático não foi o choque EUA vs URSS. O drama central dos asiáticos no pós-1945 foi, isso sim, o pós-colonialismo”.

A primeira frase confundia democracia com democracia liberal. Definir Índia, África do Sul ou Turquia como democracias liberais não faz sentido. Nos próprios EUA, onde as oligarquias têm poder desproporcionado e onde existe uma obsessão com a segurança, a democracia é mais conservadora do que liberal. As democracias liberais são raras e existem sobretudo na Europa. Nada impede modelos democráticos de tipo populista, social-democrata, conservador ou islâmico. Se o Podemos ganhar as eleições em Espanha, deixa de haver ali democracia? E essa democracia não vai ser liberal, pois não?

A segunda frase traduzia uma tese em voga que menorizava os europeus e que a crise financeira também se encarregou de negar. Como os ucranianos bem sabem, a Europa continua a ser decisiva na política internacional. A luta pela supremacia na Europa Central tem sido a razão principal dos grandes antagonismos dos últimos 500 anos.

O terceiro exemplo representa outro exagero, pois os conflitos da Coreia e do Vietname estavam ligados à Guerra Fria. A ascensão da China tem de ser lida à luz do choque entre as duas superpotências e o mesmo se aplica à Revolução Islâmica no Irão ou aos choques petrolíferos. A Europa esteve no centro dos acontecimentos entre 1945 e 1989, mesmo quando havia episódios laterais, como o do Médio Oriente. A criação da Comunidade Económica Europeia resultou em grande parte da reacção à complexa crise de Outubro de 1956, que foi essencialmente uma crise europeia, embora envolvendo também Israel e Egipto, com desdobramentos locais em 1967, 1973 e por aí fora.

O que o gato Humphrey nos ensina


Luís Naves,

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Esta história pode ser lida na revista The Economist. Há mais informação no artigo original, do politólogo Robert Ford, que pode ser lido aqui. Para quem não tem paciência para navegar entre as fontes, a história conta-se em poucas linhas: na residência oficial do primeiro-ministro britânico, em Downing Street, existe desde os tempos de Winston Churchill a tradição de se manter um gato de estimação, com o cargo humorístico de chief mouser. É uma espécie de funcionário público, muito apreciado pelos fotógrafos. Nos tempos da conservadora Margaret Thatcher, o cargo foi ocupado por um gato chamado Humphrey e, segundo a lenda, o nome era uma referência à personagem de uma série de televisão muito popular, Yes, Minister. Humphrey usava jornais sem os ler e manteve-se em funções até à sua morte em 2006, servindo vários chefes de governo, incluindo o trabalhista Tony Blair.

A experiência descrita por Robert Ford consistiu em medir as preferências dos eleitores, não em relação a um Humphrey politicamente neutro, mas onde a sua descrição era ‘gato de Thatcher’ ou ‘gato de Blair’. Os resultados foram surpreendentes. No conjunto do eleitorado, Humphrey era preferido como ‘gato de Thatcher’, 31%, contra 27%, quando aparecia como ‘gato de Blair’. O eleitorado dos conservadores tinha uma visão totalmente inclinada para a descrição de Humphrey como ‘gato de Thatcher’, 44% contra 27%; os trabalhistas faziam o inverso, com 37% a preferirem ‘o gato de Blair‘ e apenas 21% a apreciarem Humphrey quando este era descrito como ‘gato de Thatcher’.

“Os nossos valores e preferências políticas tendem a modificar a nossa visão de tudo o que associamos com política”, conclui o autor, que no artigo menciona experiências americanas usando o cão de Obama, Bo, onde se verificou que a mascote oficial da Casa Branca era rejeitada por eleitores com preconceitos raciais. No caso britânico, foi também testada a reacção do eleitorado aos gatos de Gordon Brown e David Cameron (ambos diferentes), o primeiro muito mais apreciado por trabalhistas e o segundo por conservadores.

Estas experiências dizem muito sobre a disponibilidade que as pessoas têm para julgarem todos os acontecimentos e personagens com uma distorção de carácter partidário. Se as diferenças são tão evidentes em relação a uma trivialidade neutra, como a mascote oficial do primeiro-ministro, ficam explicadas as reacções extremadas que a opinião pública exibe em relação a assuntos sérios. Há respostas tribais, partidárias e quase instintivas a tudo o que seja política. Certas escolhas, indignações e preferências têm menos a ver com a razão e mais com a cor da bandeira do grupo a que se pertence, seja partido, clube ou movimento.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (59)


Luís Naves,

As histórias que lemos sobre este nosso mundo complexo raramente têm sentido ou conteúdo moral que possa ser extraído com facilidade e esta notícia, sem dúvida, obedece à regra. Um tribunal americano recusou a Tommy, o chimpanzé, a concessão de direitos humanos que o poderiam libertar da prisão. Embora esteja privado de liberdade, confinado a uma cela desconfortável e de pequenas dimensões, o juiz considerou que Tommy não pode ser responsabilizado pelos eventuais actos que venha a cometer, como partir coisa, sujar, fazer macaquices. Daí a rejeição do pedido feito por uma organização de defesa dos direitos dos animais.

Tommy não tem qualquer noção do seu caso, embora certamente tenha a percepção física de se encontrar confinado a uma cela, que é todo o seu mundo e onde decorre o essencial da sua experiência de vida. Ele gostaria certamente de ser livre, se pudesse escolher ou se soubesse escolher ou se tivesse qualquer recordação do seu habitat natural, que provavelmente já não existe. Alimentado todos os dias, sem consciência da escravatura, este simpático chimpanzé é talvez mais livre (num certo sentido de não sofrimento) do que muitos humanos e tem mais direitos humanos do que muitos humanos, mas assim vai o mundo em que vivemos, onde os direitos de Tommy se tornam notícia de interesse geral, pois a humanidade aprecia estas ambiguidades contemporâneas, discute com paixão o que lhe parece ser humano naqueles 99% de material genético (milhões de diferenças) idêntico ao nosso, naquele olhar perdido que parece conter alguma inteligência, nem que seja uma fímbria dela, onde nos revemos por um instante; e se fosse eu, ali, dentro daquela mente, de que forma veria as barras da minha cela e os limites da minha existência cativa? Enfim, parece que não estava apenas o chimpanzé ali a julgamento, mas uma parte de nós. Sem esta presunção de inocência, que teria para nos dizer este pedacinho de humanidade? E quanto é suficiente para ser um homem inteiro?

Boa notícia ou má notícia?


Luís Naves,

Num mundo onde existe frustração constante perante as altas expectativas criadas pelo culto da juventude e do consumo, tornou-se um lugar comum o clima mediático negativo e pessimista. O grande papão em Portugal, nos últimos três anos, foi a espiral recessiva, mito que na altura foi impossível contrariar. Foram escritos artigos inflamados e a espiral recessiva nunca aconteceu, mas a memória é curta e agora vem aí a deflação.

Quando o preço do petróleo subia, aqui-d’el-rei que era o fim do mundo. No momento em que o preço do barril baixa, surge outra desgraça iminente. Impõe-se a seguinte narrativa: o petróleo está barato porque a economia ficou de rastos após a austeridade, as pessoas não consomem, os preços baixam e as lojas estoiram e despedem, criando assim uma espiral de queda de preços e baixa de consumo, que se poderia resolver apenas com estímulos estatais que, infelizmente, são impossíveis, pois aumentam a montanha da dívida.

Além da colisão frontal com alguns factos, pois há mais consumo (veja-se as vendas de automóveis e expansão económica em vários países) é visível um problema central neste raciocínio: o preço do petróleo não está a cair apenas devido ao estado da economia mundial e à queda da procura, mas por um conjunto mais complexo de factores. Existe o efeito da produção de gás de xisto, que reduz a dependência americana de importação de energia, mas acima de tudo o petróleo é uma arma estratégica em uso contra a Rússia e contra o Irão. A queda do preço do barril restringe as opções de Moscovo no conflito da Ucrânia e pressiona Teerão a colaborar com o Ocidente na questão nuclear e no ataque ao Estado Islâmico. A actuação da Arábia Saudita no cartel da OPEP, forçando a queda dos preços, será temporária e tem claras intenções políticas, pois os sauditas temem os iranianos.

Os Estados Unidos mandam no petróleo e mandam no mundo. Para mais, não faz sentido falar em espiral deflacionária numa economia que cresce a ritmo de 3% ao ano, sem vestígios de abrandamento. Alguns países europeus têm de facto preços em queda e economia estagnada ou em contracção, mas a redução da factura de importação de petróleo constitui para cada um deles uma evidente vantagem temporária. Portugal, por exemplo, a crescer pouco, tem aqui uma excelente notícia, pois o petróleo barato aumenta a taxa de crescimento e reduz o custo das importações.

Perdidos e achados


Luís Naves,

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Um historiador de arte foi ao cinema e ficou estupefacto ao ver numa das cenas do filme, pendurada sobre a lareira, uma obra desaparecida. Interessou-se pelo caso, fez perguntas aos produtores da película e descobriu que o “adereço” tinha sido comprado por tuta-e-meia num antiquário da Califórnia, parecendo perfeito para decorar a cena do filme Stuart Little. A história pode ser lida com mais detalhe aqui e também aqui, em inglês (não consegui encontrar um artigo em português e, caso exista link, as minhas desculpas antecipadas).

Afinal, a obra era uma preciosidade europeia perdida, pintada por Robert Berény (1887-1953), um dos mais importantes mestres húngaros do século XX. Os trabalhos deste pintor são relativamente raros, devido à destruição do seu atelier, no final da II Guerra Mundial, mas sobretudo por essa guerra ter incinerado parte muito relevante do riquíssimo património artístico do país. Passada uma década depois de aparecer num filme de Hollywood, o quadro “Mulher Adormecida com Vaso Negro” será vendido em Budapeste, em leilão. A obra tem uma história fantástica, que provavelmente vai criar um mito artístico: foi levada para a América em 1928 e ali mudou sucessivamente de mãos, pelos vistos sem ninguém reparar na assinatura (a parte estranha da história). Depois, num desenvolvimento ainda mais bizarro, a descoberta acidental. Na imagem, um dos quadros famosos de Berény, “Mulher com Violoncelo”, da mesma época, 1928.

Depois da crise


Luís Naves,

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Um País que durante séculos se habituou à impunidade dos poderosos assiste com espanto a uma vaga de inquéritos judiciais. Os altos escalões da administração, a banca, os partidos, tudo isto parecia intocável. E, no entanto, na comunicação social, onde antes se reclamava quase todos os dias por mais transparência e pela remoção imediata das maçãs podres, esta semana quase só se ouviram as vozes daqueles que, sem conhecerem os factos, contestam a actuação dos juízes.

É talvez cedo para se avaliar o impacto das grandes mudanças que Portugal sofreu nos últimos seis meses, sobretudo com o escândalo do BES e a queda da PT, o caso dos vistos dourados, a detenção de José Sócrates. E, no entanto, está em curso uma transformação no regime democrático, que coincide com o fim do período de ajustamento. A opinião pública sai deste longo período de sacrifícios muito mais exigente em relação à transparência do sistema político e ao uso do dinheiro dos contribuintes. Em texto anterior afirmei que Portugal está a sair da crise e a frase foi imediatamente recusada por leitores que nem sequer consideraram a hipótese.

É altura de tentar explicar. Durante três anos, os partidos e os média impuseram à sociedade portuguesa uma narrativa de extremo pessimismo sobre a situação nacional e europeia. Por vezes, Portugal era descrito em tons neo-realistas, como se estivéssemos nos anos 40, outras vezes parecia saído do expressionismo dos anos 20, onde pairavam as sombras fundas do pós-guerra. O naufrágio estava sempre na vaga seguinte.

 

Qualquer indicador favorável era imediatamente desvalorizado ou até ridicularizado. A Europa estilhaçava-se e ia para o caixote do lixo da História. Quem se atrevesse a escrever que as coisas podiam melhorar era considerado louco ou criticado por insensibilidade social. Pessoas que viviam em situação razoável ou boa consideravam que todos os portugueses estavam à beira da miséria.

E, no entanto, o colapso iminente, a espiral recessiva ou o êxodo em massa eram incompatíveis com os restaurantes repletos, o entusiasmo nos festivais de Verão ou as multidões de adeptos nos estádios de futebol. Surgiam também pequenos sinais de recuperação (taxas de juro baixas, emprego a subir, tímido crescimento económico, mais exportações, algum investimento), mas a sua menção era considerada propaganda. Os poderosos mitos em torno da natureza da crise eram difíceis de contrariar.

Por outro lado, cada nova dificuldade na União Europeia é ainda hoje interpretada como estertor final da organização ou negação da utopia. É quase impossível escrever, sem ser acusado de loucura, que na Europa está a ser criado um bloco político poderoso, liderado pela Alemanha, país pela primeira vez na sua história rodeado apenas por nações amigas. A estratégia de Berlim parece ser a de criar uma aliança com França, Itália e Polónia, núcleo duro que terá depois uma integração acelerada, não acompanhada pelos países periféricos que preferirem manter uma relação menos profunda. Entretanto, insistindo na ideia de uma Europa que nunca existiu e não existe, os nossos intelectuais criaram um clima de descontentamento em relação à UE, facilitando o afastamento progressivo do País.

 

A conversa da desgraça iminente já não faz sentido. Nenhuma crise é eterna, o problema está em definir o momento em que ela termina. O que é ‘sair da crise’? No caso português, será o momento em que o rendimento dos portugueses recomeçar a convergir com a média da zona euro, estando a economia europeia fora da recessão. Ou seja, se aceitarmos esta definição, estamos provavelmente a sair da crise no segundo semestre de 2014.

Convergir com a Europa tem de ser um objectivo nacional. Portugal não pode cair num pessimismo estéril ou na discussão monotemática sobre os erros do passado. A sociedade portuguesa ainda não resolveu os seus problemas fundamentais e um deles é sem dúvida a impunidade tradicional dos poderosos, um dos motivos na base da má distribuição de recursos. A longa campanha para as eleições de 2015 será uma altura favorável para se discutirem soluções que permitam eliminar os suspeitos do costume: a baixa produtividade, o desequilíbrio das contas públicas, a dívida, o desemprego, a pobreza, a demografia desfavorável, o deficiente sistema político e a relutância em aceitar a integração europeia. Falar durante um ano sobre os méritos ou defeitos dos casos de justiça não resolverá nenhuma questão relevante da sociedade portuguesa. Temos de começar a discutir o pós-crise, sem demagogia populista ou pessimismo tonto.