O que o gato Humphrey nos ensina


Luís Naves,

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Esta história pode ser lida na revista The Economist. Há mais informação no artigo original, do politólogo Robert Ford, que pode ser lido aqui. Para quem não tem paciência para navegar entre as fontes, a história conta-se em poucas linhas: na residência oficial do primeiro-ministro britânico, em Downing Street, existe desde os tempos de Winston Churchill a tradição de se manter um gato de estimação, com o cargo humorístico de chief mouser. É uma espécie de funcionário público, muito apreciado pelos fotógrafos. Nos tempos da conservadora Margaret Thatcher, o cargo foi ocupado por um gato chamado Humphrey e, segundo a lenda, o nome era uma referência à personagem de uma série de televisão muito popular, Yes, Minister. Humphrey usava jornais sem os ler e manteve-se em funções até à sua morte em 2006, servindo vários chefes de governo, incluindo o trabalhista Tony Blair.

A experiência descrita por Robert Ford consistiu em medir as preferências dos eleitores, não em relação a um Humphrey politicamente neutro, mas onde a sua descrição era ‘gato de Thatcher’ ou ‘gato de Blair’. Os resultados foram surpreendentes. No conjunto do eleitorado, Humphrey era preferido como ‘gato de Thatcher’, 31%, contra 27%, quando aparecia como ‘gato de Blair’. O eleitorado dos conservadores tinha uma visão totalmente inclinada para a descrição de Humphrey como ‘gato de Thatcher’, 44% contra 27%; os trabalhistas faziam o inverso, com 37% a preferirem ‘o gato de Blair‘ e apenas 21% a apreciarem Humphrey quando este era descrito como ‘gato de Thatcher’.

“Os nossos valores e preferências políticas tendem a modificar a nossa visão de tudo o que associamos com política”, conclui o autor, que no artigo menciona experiências americanas usando o cão de Obama, Bo, onde se verificou que a mascote oficial da Casa Branca era rejeitada por eleitores com preconceitos raciais. No caso britânico, foi também testada a reacção do eleitorado aos gatos de Gordon Brown e David Cameron (ambos diferentes), o primeiro muito mais apreciado por trabalhistas e o segundo por conservadores.

Estas experiências dizem muito sobre a disponibilidade que as pessoas têm para julgarem todos os acontecimentos e personagens com uma distorção de carácter partidário. Se as diferenças são tão evidentes em relação a uma trivialidade neutra, como a mascote oficial do primeiro-ministro, ficam explicadas as reacções extremadas que a opinião pública exibe em relação a assuntos sérios. Há respostas tribais, partidárias e quase instintivas a tudo o que seja política. Certas escolhas, indignações e preferências têm menos a ver com a razão e mais com a cor da bandeira do grupo a que se pertence, seja partido, clube ou movimento.

2 comentários em “O que o gato Humphrey nos ensina”

  1. Apesar de também me custar temos que admitir que é mesmo assim.Como adepto da matemática acharia boa solução votar mais com a cabeça de que com o coração; no entanto olhando para trás vejo que já me tenho deixado ir pela simpatia e arrependido depois de votar.

  2. Pergunto-me se não terá jamais havido nenhum primeiro-ministro britànico (ou outra pessoa que tenha que passar muito tempo na residência oficial) que tivesse alergia a gatos. É que há muito boa gente alérgica ao pelo desses animais.

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