A angústia que perpassa por estes nossos dias não é a da Liberdade, como nos diria Sartre. É a da prisão. Ou melhor, a da viagem até à prisão. Costa vai a Évora? Esta é a pergunta que atormenta o jornalista. Esta é a inquietação que acorda a meio da noite o cidadão. Costa, o filósofo da acção que tem todas as respostas para o crescimento, o homem-solução, o positivo-humanista do progresso cientificamente provado dirigido às pessoas, já respondeu. Que sim, que vai. Mas, pergunta-se o tal cidadão acordado a meio da noite, entre suores frios, que tipo de viagem é esta? Uma daquelas ao jeito de Kerouac, de ruptura, de fuga ao sistema e às convenções, uma daquelas em que vamos e não queremos voltar? Parece que não. Perguntado pelo Expresso, Costa diz que vai. Mas afirma e interroga: “Só me ficaria mal se não fosse. Você não faria o mesmo se um amigo seu fosse preso? Isto é, Costa vai mas quer voltar. E quando voltar da viagem quer que nada de essencial se tenha alterado. Como cada um de nós, quando faz férias de duas semanas. Vamos. Mas quando regressamos queremos ver a nossa casa no mesmo sítio onde a deixamos. O mesmo cão de louça no parapeito de sempre. A mesma toalha de renda no tampo da mesa. E o mesmo resultado nas sondagens. A viagem de Costa a Évora é mais do imperativo categórico do que da liberdade de ir ou não ir. Ao que parece, tem fundamento nas obrigações sinalagmáticas que decorrem de uma certa solidariedade com os amigos. No fundo, dessa solidariedade que o eminente jurista Calvão da Silva refere no parecer que justifica a oferta de 14 mihões de certo construtor a Ricardo Salgado: o bom princípio geral de uma sociedade que quer ser uma comunidade – comum unidade –, com espírito de entreajuda e solidariedade. Mas o ponto é exactamente este. Supondo que sim, que qualquer um de nós, jornalista ou cidadão acordado a meio da noite em suores frios perante a angústia da viagem, iria ver um amigo à prisão, qual de nós esperaria pelas férias do Natal para fazer os cem quilómetros que separam Lisboa de Évora? É provável que Sócrates, por ter amigos, não morra na cadeia. Mas, a julgar pelo tempo que terá de esperar pela visita do amigo Costa, pode muito bem sair do presídio bastante mais envelhecido. Se virmos bem, o tempo de pouco mais de uma hora de viagem entre Évora e Lisboa é o mesmo que demora a fazer o caminho entre a angústia e a perplexidade.
A angústia e a perplexidade
Rui Rocha,

Esse Costa será o mesmo que ainda há pouco, em campanha, esteve em todo o lado (incluindo até a Madeira e os Açores)? Nã pode seri.
Ontem esteve em Tróia. Mas deve ter ido de ferry. Para evitar passar em Alcácer…
Também achei piada a ele ter afirmado por lá que “o PS cometeu muitos erros”, mas não nomeou um único — para se perceber a que se referia em concreto — e passou rapidamente ao elogio da Novas Oportunidades…
Isso das novas oportunidades foi uma grande treta. Novas oportunidades a sério foi as que o Sócrates deu ao motorista que andava envolvido na coisa das drogas.
Apenas para uma correcção: “o último governo do PS” (e não o PS).
Na realidade, mermão, saiu mal a costa essa tacada no bilhar às três tabelas. E sem querer ele revelou o que o incomoda- Bastava dizer: vou.
Quanto a essa questão dos 14 milhões, devo dizer ao mermão que existe uma clausula legal que leva por nome “liberalidade” que permite tais actos. Necessita perguntar aos legisladores, e seus apoiantes, o que pretendiam moldar com esta figura.
Alguém que sussurre a uma das orelhas (não, não são ouvidos) do costa a palavra “Canossa”.
Ou, noutro registo, “Samarra” – mas esclarecer que, apesar do frio que já faz, não se trata de vestuário…