Cadernos de um enviado especial ao purgatório (60)


Luís Naves,

Embora seja uma boa metáfora da vida, o futebol é desprezado por alguns intelectuais. No fundo, este jogo mostra que não somos todos idênticos e que a luta pelo triunfo individual tem aspectos mais complexos do que parece. Os escritores e os filósofos deviam prestar mais atenção e os jornalistas especializados deviam perder o ar de sumo-sacerdotes discutindo as inescrutáveis altitudes celestes. Na rua, toda a gente comenta e sabe muito sobre futebol, pois toda a gente tem uma perspectiva sobre a existência humana.

Há um treinador que costuma ser ridicularizado pelos intelectuais, mas que recentemente disse mais sobre a vida do que alguns compêndios. Questionado pela milésima vez sobre uma minúcia táctica que ninguém recorda, Jorge Jesus perdeu a paciência e explicou que isso não interessava para nada, o importante era a forma como os jogadores reagiam “aos momentos do jogo”. A declaração motivou outros treinadores a dizerem mais ou menos o mesmo: o sistema táctico não é o mais importante, o que interessa é a “dinâmica” da equipa e a força de vontade dos jogadores.

Tomei isto como uma boa lição em geral. É também uma boa lição para a literatura. O que interessa não é o sistema ou a forma prevista na teoria, mas a dinâmica da prosa; o que interessa é a maneira como as pessoas reagem aos “momentos da vida” e como superam as crises, que são sempre mais ou menos idênticas. Recordamos segmentos limitados de um jogo, como esquecemos quase tudo o que vivemos e não podemos lembrar tudo o que lemos num livro. A maior fatia do tempo que passamos na vida serve para nos levar de um momento memorável para outro momento assim. Isso funciona da mesma forma no jogo de futebol e no romance de ficção: nem tudo será lembrado e o que verdadeiramente conta são os momentos (aquilo a que alguns chamam a dinâmica) contendo drama e emoção, algo de diferente, mas sobretudo intenso, que nos fique gravado na memória, não exactamente como aconteceu, mas ligeiramente transformado em mito.

Um comentário em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (60)”

  1. Mas que há uns cromos(estou a lembrar-me dos presidentes do Sporting) que têm uma forma patusca de criar essa indispensável dinâmica, isso é verdade.
    Lembro aqui a ideia de trazer para cá o treinador Riikard e a frase do presidente:
    “está tudo tratado, agora só falta encontrar o dinheiro”.
    Provável o que vamos ouvir quando terminarem todas as investigações GES.

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