Navegações


Luís Naves,

Um excelente artigo de Carlos Guimarães Pinto, em Insurgente, sobre a eventual vitória de António Costa em futuras eleições. O diagnóstico do autor parece certeiro. Ao entrar na lógica de escolher um homem providencial, a esquerda está a ignorar questões centrais sobre o futuro. O texto termina num tom optimista.

Um post delicioso de Francisco Seixas da Costa, em Duas ou Três Coisas, sobre a nossa mania das trincheiras ideológicas.  

A eficaz simplicidade de Manuel Jorge Marmelo, no brilhante Teatro Anatómico, colocando um problema central da literatura: a luta do escritor pela originalidade e a ideia contraditória de que esta parece sempre inatingível.

Quase entra em diálogo com este post de Rui Ângelo Araújo. Na literatura, existe certamente mentira, mas se a escrita não vier do mais profundo da alma, de uma sinceridade interior, então qual o interesse? Dito de outra forma, os escritores mentem no acessório, mas dizem a verdade no essencial. Enfim, refiro-me a uma verdade sem absoluto, a de cada personagem.

Rui Ângelo Araújo é, aliás, o autor de um blogue excelente, Os Canhões de Navarone, que deve ser lido com atenção. Fica aqui o link para uma oportuna reflexão sobre arte contemporânea e o triunfo da cultura do espectáculo. 

E ainda tempo para a leitura de um blog que muito aprecio, A Gata Christie (uma saudação especial à autora). Também fui ao Mercado da Ribeira, tive a mesma sensação de estar num local agradável e onde se come bem, mas achei os preços algo elevados.

A calamidade


Luís Naves,

Um dos mitos mais curiosos dos três anos de resgate coincidiu com a decisão do governo de aumentar o IVA da restauração, com efeitos a partir de 2012. Na altura, a Imprensa repetiu à exaustão a notícia da perda iminente de 120 mil empregos. Milhares de pequenos estabelecimentos iriam à falência e a receita fiscal até seria perdida. Ainda recentemente, no parlamento, a oposição afirmava que o aumento do IVA da restauração provocara o desaparecimento de 70 mil empregos. Não foi referida a fonte da informação e ninguém contestou. Na internet encontram-se centenas de artigos sobre a calamidade e basta falar com alguém na rua para ouvir sobre isto a sentença imediata: foi mau terem aumentado o IVA da restauração e houve muitos trabalhadores que perderam o emprego.

O mito é persistente e ninguém na comunicação social se deu ao trabalho de observar os factos. Os restaurantes continuam teimosamente abertos e repletos. E bastava comparar o número de empregos no sector do alojamento, restauração e similares, ao longo de vários anos, para perceber que o aumento do IVA não produziu nenhum colapso. Aliás, de acordo com os dados do INE, não houve efeitos no emprego.

No quarto trimestre de 2009, trabalhavam no sector 283 mil trabalhadores; no quarto trimestre de 2011, quando foi tomada a decisão de aumentar o IVA para 23%, o sector empregava 281 mil pessoas; ora, dois anos mais tarde, no quarto trimestre de 2013, o número total de trabalhadores no sector era de 299 mil. Em vez de cair 120 mil, o valor até aumentou em 18 mil.

Onde estão os 120 mil postos de trabalho perdidos? E os 70 mil? Na realidade, o sector do alojamento e da restauração pouco mudou em dez anos. O emprego manteve-se relativamente estável, com picos de Verão acima dos 300 mil.

Direito ao esquecimento


Luís Naves,

Na introdução a um livro que publicou em 1911, o escritor britânico H. G. Wells tentou defender-se dos críticos que exigiam rigidez na forma do conto, segundo o modelo de Maupassant. Wells ajudara a inventar um género, a ficção científica, que os peritos ainda hoje desprezam. E, no entanto, esta era uma literatura de ideias que se adaptou muito facilmente ao pequeno formato e à narrativa naturalista. No texto de Wells, após a reflexão sobre o enigma da sobrevivência da arte, que o autor admitia ter profunda ligação à liberdade e à sinceridade, surge esta frase certeira: “As coisas escritas vivem ou morrem”.

No fundo era simples, o mecanismo da vida aplicava-se também a esses produtos do espírito humano chamados ‘obras de arte’ e que, mais tarde ou mais cedo, acabariam por desaparecer, como antes tinham desaparecido os seus autores. É fascinante encontrarmos um velho romance esquecido numa pilha de livros prontos para venda ao quilo: pegamos no volume poeirento e ele deixa-se ler com agrado, apesar dos defeitos e mesmo que não se reconheça o nome de quem o escreveu. Quem seria? Mistério. Não consta das enciclopédias. Foi talvez um zé-ninguém libertado do esquecimento por causa de uma pilha de livros velhos encontrada num sótão desabitado. 

 

Wells escreveu que as histórias vivem ou morrem, e assim era no seu tempo, quando nascia uma modernidade que o autor britânico percebeu ser perturbadora. O nosso século já não tem lugar para essas pequenas insurreições contra a lei da fama. Agora, triunfa a cultura do espectáculo, o populismo das vedetas e a espuma das ideias apressadas. Tudo se resume ao domínio da técnica, da culinária de mestre à melodia sem esforço e ao romance segundo fórmulas testadas. Há mil novidades todas iguais que, sem excepção, querem transformar as nossas vidas também todas iguais, ou pelo menos assim surgem no facebook, que é um mundo virtual habitado por gente feliz.

Se hoje discutimos o direito ao esquecimento é pela simples razão de que este direito está em perigo. Não existe forma de apagarmos a memória, a não ser pela engrenagem do motor de busca, máquina que nos transcende. A poesia tornou-se frívola, mas permanente, e o autor apaga-se, embora sem desaparecer. As coisas ainda lá ficam, embora em águas profundas, sob a pressão de um imenso oceano de palavras. A impossibilidade do esquecimento é igual ao inferno de recordar tudo, mas sem cronologia, onde tudo o que existe está na prisão do hoje, impossível de distinguir do ontem e do anteontem.

 

Conflito europeu


Luís Naves,

As crises dão origem a transformações e esse pode ser o caso da Europa, como sugere o antigo primeiro-ministro francês Michel Rocard, em Le Monde. O que está em causa é um conflito em torno da escolha pelo Conselho Europeu de Jean-Claude Juncker para candidato a presidente da comissão. O nome deve ser apresentado a votação no Parlamento Europeu, mas alguns países ainda recusam, entre eles o Reino Unido, para irritação francesa.

Os líderes deviam escolher outra pessoa e a apresentação de Juncker não é democrática, como tentei argumentar aqui. A rebelião dos eleitores tem muito a ver com a ideia de que as instituições europeias exorbitam os seus poderes à custa da soberania dos Estados. O Parlamento tem poderes a mais e, no caso Juncker, procura ocupar a esfera dos governos. 

Por isso, devemos discordar de Rocard, mas este texto a convidar os ingleses a uma saída da UE mostra o verdadeiro conflito do futuro. É natural que o Reino Unido acabe por desistir, antes de ‘destruir a Europa’, como admite o socialista francês. No texto são claras as ambições dos federalistas, ou seja, aprofundamento da união, decidido através de voto maioritário aplicado em políticas sociais, justiça ou fiscalidade.

A crise europeia dará talvez origem a um avanço destes planos e quem não tiver unhas para tocar guitarra ficará de fora. Os ingleses têm condições para manter o seu modo de vida, preservando a ligação ao mercado único. Franceses e alemães irão mais depressa, após resolverem os problemas do euro por meio de uma união política.

Em Portugal, esta possível evolução é mal compreendida, pois os políticos continuam a falar de uma Europa que nunca existiu, onde só há mecanismos de solidariedade e se podem ignorar as regras. Portugal é uma constante fonte de frustração: a crise do ano passado acabou com as reformas, a recente decisão do Tribunal Constitucional impossibilita a consolidação orçamental a que nos comprometemos. A esquerda não tem qualquer intenção de cumprir o Tratado Orçamental. Os europeus perdem a paciência e tratam os portugueses como crianças.

Se as recentes dificuldades europeias ensinaram alguma coisa foi o facto de comportamentos irresponsáveis de países pequenos poderem arrastar os maiores. Por isso, para nós não haverá colunas de jornal com educados pedidos de saída. Não temos essa importância. Haverá exigências, imposições, pegar ou largar, segundo resgate ou ainda pior.

Entradas de leão


Luís Naves,

Existe na sociedade portuguesa uma dissociação entre o país político e o país real, como existe um fosso entre a Europa real e aquela que nos venderam na campanha. O eleitorado disse que quer mudança sem loucuras e tornam-se agora mais evidentes as limitações do voto de protesto: numa reportagem na TV, Marinho e Pinto tentava juntar-se ao grupo dos Verdes no Parlamento Europeu, mas a reunião correu da pior forma.

Estes grupos parlamentares têm agendas estabelecidas e não são ingénuos, pois conhecem as posições dos candidatos. Os Verdes, por exemplo, são federalistas, enquanto o MPT de Marinho e Pinto teve uma campanha sobretudo de carácter populista e de ruptura com a Europa tradicional liderada pelas potências. Este episódio constitui um pequeno exemplo da forma como alguns dirigentes do País habitam ilusões e acreditam na própria retórica.

 

Durante os três anos do resgate, ouvimos mil vezes a indignação dos interesses especiais mais afectados e a comunicação social participou de forma pouco crítica na criação do mito segundo o qual a sociedade estava em plena dissolução. Nada disto se confirmou: a economia recupera timidamente, o desemprego começa a cair. Dizem que o dinheiro ainda não chega ao bolso dos portugueses, mas há por todo o lado sinais de que a vida se restabelece, por exemplo, multidões a comprarem bilhetes caros para ouvir rock, jogos de futebol sem bancadas vazias, improváveis vendas de automóveis e a feira do livro a abarrotar de gente. Afinal, não veio o fim do mundo.

Desmentindo este País real que tenta reerguer-se, os políticos mergulharam de novo nas suas bolhas de discussão estéril. A troika saiu há três semanas e as instituições já andam entretidas nas bizantinas discussões jurídicas, embora o povo se preocupe muito mais com a inflamação no tendão rotuliano de CR7. Uma boa imagem: há uma inflamação crónica no País, que nos impede de enfrentar os problemas recorrentes, sempre bem escondidos pelas entradas de leão que, começando por prometer partir tudo, afinal aprendem lá fora que as elites portuguesas não se enxergam.

 

Aproveito este meu primeiro post para saudar todos os membros do Delito e, com muita amizade, agradecer o convite do Pedro Correia.