A crise do emprego


Luís Naves,

O João André escreveu mais abaixo sobre emprego e optimismo. Convém ler com atenção o texto e olhar o gráfico. Julgo que estas questões não deviam dar lugar a interpretações governamentais ou oposicionistas. Na realidade, só há lugar para interpretações honestas ou desonestas, certeiras ou ao lado. Julgo também que é preciso olhar para os números do INE usando séries longas e homólogas, sendo útil comparar o mesmo trimestre, pois as variações anuais podem ser enganadoras.

Como o número mais recente disponível é do primeiro trimestre de 2014, é possível construir uma série começando, por exemplo, em 2009, no início da crise financeira. No primeiro trimestre de 2009, havia 5099 mil pessoas empregadas em Portugal (5,099 milhões). Destas, uma estimativa de 3476 mil com escolaridade básica e 805 mil com curso superior completo. O desemprego afectava 495 mil pessoas.

Vejamos então o que aconteceu nos primeiros trimestres dos anos seguintes:

 

 

Se observarmos o número de empregados, vemos uma quebra regular. Para não encher isto de números (e como sou incompetente em gráficos) tentarei simplificar: em 2009, perderam-se quase cem mil empregos; depois, 140 mil, depois 200 mil, a seguir 300 mil. Entre o primeiro trimestre de 2013 e o primeiro trimestre de 2014, a tendência inverteu-se e foram recuperados 70 mil empregos.

Dito de outra forma: entre 2009 e 2014, a economia portuguesa perdeu quase 700 mil empregos. Na crise financeira, foram destruídos cerca de 250 mil; durante o ajustamento, perderam-se mais 500 mil e depois foram recuperados 70 mil.

Nos primeiros quatro anos desta crise, entre o primeiro trimestre de 2009 e o primeiro trimestre de 2013, a economia portuguesa perdeu postos de trabalho a um ritmo médio superior a 15 mil por mês ou de 500 por dia. Repito: isto não foi um exclusivo do período de ajustamento e da troika, mas começou em 2009 e durou quatro anos.

O desemprego obviamente cresceu, de 495 mil para um máximo de 926 mil (só estou a comparar primeiros trimestres), descendo depois para 778 mil. Quando o ajustamento começou, já havia quase 700 mil desempregados.

Os números são ainda mais esclarecedores quando percebemos que os empregos se perderam sobretudo nas camadas de população com baixas qualificações. No primeiro trimestre de 2009, quando começaram a morder os efeitos da crise internacional, havia 3476 mil trabalhadores portugueses com baixas qualificações (apenas escola básica). Quando começou o ajustamento, este grupo já tinha perdido 450 mil empregos, mas o pior estava para vir: no primeiro trimestre de 2014, havia apenas 2351 mil trabalhadores com ensino básico. A sangria foi superior a um milhão de empregos; repito, perderam-se mais de um milhão de empregos pouco qualificados em apenas cinco anos.

Isto, portanto, atingiu os mais pobres. 

 

O número revela uma transformação brutal na sociedade portuguesa, que não vejo analisada. O fenómeno foi parcialmente suavizado pela entrada no mercado de trabalho de pessoas com curso superior completo. Este número esteve sempre a aumentar (mais 200 mil ou 40 mil por ano) e o grupo superou pela primeira vez o milhão, entre 2013 e 2014.

Não é fácil tentar interpretar estes números. Julgo que é seguro afirmar que foram destruídos de forma rápida empregos pouco qualificados e que isso implicou três efeitos: regresso de imigrantes aos respectivos países, emigração de trabalhadores portugueses pouco qualificados e aumento do desemprego.

Isto sugere que os números sobre emigração que têm sido referidos estão provavelmente sobreavaliados.

Estivemos durante três anos a ouvir falar do desemprego jovem e da fuga de cérebros, mas esta foi a verdadeira crise nacional e a principal causa do aumento da pobreza. Por outro lado, a transformação da economia pode ter sido bem mais profunda do que se pensa. Em 2009, apenas 15% da mão-de-obra nacional tinha curso superior; em apenas cinco anos, esta proporção passou para 23%.

A destruição de empregos começou com a crise financeira e agravou-se durante o resgate, mas a situação inverteu-se no segundo trimestre de 2013. A recuperação do mercado de trabalho será certamente lenta, pois só está a ser criado trabalho qualificado, que depende de níveis de investimento mais elevados, mas que também implicará aumentos de produtividade.

Entretanto, o governo tem ignorado por completo esta crise, que atingiu de forma desproporcionada trabalhadores com baixas qualificações (e, já agora, com idades significativas). Esta tragédia tem também sido ignorada pelos meios de comunicação, que insistem (a meu ver, de forma preguiçosa) na tecla do desemprego jovem.

 

 

Pequena reflexão sobre descontentamento e pessimismo (2)


Luís Naves,

Crise nacional

A história do Kaiser e do seu chefe de Estado-maior contém lições que podem ser usadas na actualidade.

É difícil tentar remar contra uma corrente que nos empurra na direcção inversa. Nas sociedades em que se instalou o medo da mudança, isso é ainda mais difícil. Portugal vive um momento assim: perante uma transformação rápida, que exigiria uma resposta flexível, a sociedade portuguesa divide-se em conflitos inúteis, com as personagens entrincheiradas em becos sem saída. Querem melhor exemplo do que a história de hoje, em que nenhum dos lados tem razão? Um ministério convoca um exame de professores com antecedência demasiado curta, para não permitir o recurso aos tribunais (um governo com medo do estado de Direito?); os sindicatos respondem com tácticas de guerrilha que envergonham a classe dos professores. É isto a educação?  

A parte mais importante da crise nacional não é económica ou financeira, mas consiste num irresistível clima de pessimismo que se colou à sociedade portuguesa como se fosse uma doença de pele. Quando surge uma notícia, ela é repetida e dissecada apenas na sua pior vertente. Não admira que os comentadores, que erraram sistematicamente nos últimos três anos, continuem a prever o colapso na próxima semana. Talvez haja saída, talvez a situação não seja tão má, sugere alguém, mas há sempre um Von Moltke a garantir que o nosso destino trágico já foi traçado. É impossível mudar. 

 

No último ano, o desemprego baixou, o emprego está a aumentar, mas na cabeça dos portugueses a realidade é ao contrário. Terminámos um período de ajustamento imposto pelos credores que nos salvaram da bancarrota, mas perdeu-se a noção de que a alternativa ao resgate teria sido a situação da Argentina em 2001, com desemprego em massa, caos social e a democracia à beira do abismo. Nada disso, repetem os sábios, o que tivemos de fazer foi uma imensa estupidez, não foi imposto, foi insensato.

Há sectores inteiros da economia que rebentaram em Portugal (a comunicação social, por exemplo), mas a culpa é dos ‘cortes cegos’ e da ‘ausência de reformas’, sem lugar para erros de gestão, modelos falhados, mudanças tecnológicas, favores de estado, incompetência, perda de credibilidade, despesas insustentáveis ou falta de competição.

A corrente da opinião vai em sentido único: os erros vieram de fora.

Esta corrente é tão forte que, às vezes, penso estar a ver mal o filme. Quando as generalizações são desmentidas pela vida real, a opinião das pessoas devia mudar, mas a indignação inútil instalou-se no discurso; ela garante elogios, mesmo quando omite factos. Por outro lado, evitar a exaltação e a hipérbole assegura uma acusação de insensibilidade. E, no entanto, a vida de cada um devia guiar a percepção do real. Falo por mim: há quem não me atenda os telefonemas, tenho razões para sentir desgosto, mas bater com a cabeça na parede não adianta nada.

Dou outro exemplo: recorrendo às poupanças (comecei o ajustamento antes) e certo esforço, consegui recentemente ir ao casamento do meu irmão mais novo, que emigrou. Sobre o país onde ele vive, percebi que existia ali uma realidade diferente da que lia nos media nacionais e mais parecida com a reflectida nos jornais estrangeiros que consulto. Crise na Europa? Qual crise na Europa? Mas, confesso, estava mais preocupado com o reencontro familiar e dei comigo a pensar que o meu irmão é o mais rico da família; ele não saiu do país por causa desta crise, mas não tenho dúvidas de que se tivesse ficado por cá seria hoje o mais pobre da família.

Por tudo isto, não compreendo a tese de que a emigração é algo de negativo, não entendo os gritos de horror quando alguém diz que essa emigração pode ter uma vertente vantajosa, quanto mais não seja a das oportunidades que oferece aos que emigram e que aqui teriam menos perspectivas. Qual é o problema? O fenómeno apenas aproveita a mobilidade europeia, que infelizmente não existia na altura em que eu era jovem.

Portugal sempre foi um país exportador de mão-de-obra, como escape da nossa pobreza crónica. As elites nunca antes se preocuparam com isso, pois eram os menos qualificados a sair (a ralé). Nessa época, a emigração era ignorada, pois evitava que houvesse legiões de desocupados (ameaça de conflito) e, para mais, fornecia trabalhadores às empresas que exploravam o império. As elites nacionais, quando viajavam, tinham vergonha dos seus emigrantes. E os emigrantes traziam costumes diferentes. Muitas das mudanças sociais a que assisti na minha vida vieram desse choque cultural, que é ainda uma história por contar.

Escrevi pobreza crónica? Só pode ser erro meu. Os comentadores dizem que éramos ricos em 2011.

 

 

Pequena reflexão sobre descontentamento e pessimismo (1)


Luís Naves,

Uma discussão em Berlim

Nenhuma crise é eterna e os conflitos são evitáveis. Podemos resolver problemas se pensarmos com realismo e, mesmo que não seja possível resolver todos os nossos problemas, bater com a cabeça na parede é que certamente não será solução. E, no entanto, os pessimistas que dominam o espaço público usam o método habitual de olhar para a realidade imaginando apenas o pior cenário, mas numa configuração impenetrável ao bom senso.

O pessimismo leva a uma rigidez de pensamento que paralisa decisões que deviam ser evidentes. Há exemplos históricos. A teimosia de insistir num erro não produz a repetição exacta dos acontecimentos, mas cria situações recorrentes e padrões que, com a passagem do tempo, nos parecem simplesmente estúpidos.

No livro clássico The Guns of August, a historiadora americana Barbara Tuchman contou em detalhe um episódio que podia ter evitado a Primeira Guerra Mundial ou que podia ter alterado profundamente o curso dos acontecimentos, decidindo talvez o conflito a favor da Alemanha. É um grande modelo do pessimismo em acção.

 

A 1 de Agosto de 1914, a máquina militar das potências europeias estava em andamento. A complexidade da mobilização obrigava os generais a defender a urgência da declaração de guerra. A crise diplomática em torno do atentado de Sarajevo e do ultimato austríaco à Sérvia estivera a crescer de tom nas semanas anteriores, mas a guerra não era ainda inevitável; os alemães tinham planos militares detalhados, que previam aniquilar primeiro os franceses, num movimento rápido que exigia a invasão da Bélgica e, apenas numa segunda fase, permitia combater os russos. Este plano deixava a frente leste desguarnecida e implicava a entrada do Reino Unido na guerra, devido à violação da neutralidade belga.

A 1 de Agosto, no próprio dia em que Berlim declarou guerra à Rússia, o kaiser Guilherme II teve conhecimento de uma mensagem ambígua dos ingleses e propôs ao seu chefe de estado-maior, Von Moltke, uma súbita mudança de estratégia: não invadir a Bélgica, a abstenção da ofensiva no ocidente e a concentração das tropas a leste; em vez de sete exércitos contra a França e um contra a Rússia, haveria cinco exércitos alemães contra a Rússia e três em posições defensivas no ocidente. Os ingleses não teriam motivo para intervir e, mesmo que a França atacasse, era possível aniquilar a Rússia a tempo e, depois, concentrar forças contra os franceses.

Ao ouvir isto, Von Moltke teve um ataque de fúria e respondeu que a proposta era impossível de concretizar. O general disse que a mobilização se transformaria num caos, ‘não pode ser feito’, explicou. “Moltke usou esta frase rígida, a base para todos os grandes erros alemães, a frase que desencadeou a invasão da Bélgica e a guerra submarina contra os Estados Unidos, a inevitável frase que surge quando os planos militares ditam a política”, escreveu Barbara Tuchman*.

Segundo a historiadora, soube-se mais tarde que a estratégia alemã podia ter sido alterada, que havia planos para lidar primeiro com a Rússia, planos esses que colocavam os comboios na direcção oposta e que teriam instalado os exércitos em campos de batalha inteiramente diferentes. A França teria atacado, mas Londres ficava provavelmente fora do conflito; a Rússia teria sido derrotada sem conseguir grandes vitórias contra os austríacos. Depois, as potências centrais podiam desembaraçar-se facilmente dos franceses. A hesitação de Guilherme podia ter mudado o mundo, mas deparou-se com a teimosia fatalista do seu chefe de Estado-maior.

Não sendo pessoa brilhante, o kaiser compreendeu mesmo assim que os ingleses estavam divididos em relação ao seu papel no conflito iminente e que a invasão da Bélgica (sem a qual aquele plano militar alemão não funcionava) ditaria a participação inglesa. Londres tinha planos detalhados para enviar um contingente para França, mas apenas em caso de violação da neutralidade belga, pelo que no seu caso os planos não ditavam a política: a intervenção inglesa dependia da atitude alemã.

Havia outro problema: em 1914 tinha sido criado um clima de inevitabilidade da guerra e os protagonistas não se conseguiram livrar deste fatalismo, transformando-se em marionetas incapazes de pensar, oscilando entre desespero e depressão. Esta mentalidade não existia apenas nos círculos que definiam a estratégia, mas instalara-se na opinião pública, onde as vozes que remavam contra a maré foram sendo neutralizadas pela lógica imperial de que os ganhos de um eram a perda do outro.

As pessoas tinham a noção de que o mundo estava em mudança, mas não conseguiam ajustar-se a essa mudança rápida, ou assim pensavam, pois uma espécie de desalento dominava a sociedade e a única saída parecia ser a de avançar na direcção do abismo.

 

*The Guns of August, Barbara Tuchman, pág 88 

 

 

Atrocidades de guerra


Luís Naves,

Um avião comercial foi abatido por um míssil no leste da Ucrânia e morreram três centenas de pessoas, vítimas acidentais de uma guerra civil que não lhes dizia respeito. Até agora, o conflito era descrito em muitos artigos como opondo ‘ucranianos e russos’, o que permitia interpretações que desculpavam a evidente intervenção de Moscovo. Perante a nova atrocidade, a terminologia apaziguadora desapareceu de repente e isso diz alguma coisa sobre a forma como poderá evoluir a guerra.

 

Na realidade, as forças em confronto são o governo ucraniano e milícias separatistas pró-russas, que defendem o afastamento de uma parte do território (o Donbass) e a respectiva adesão à Rússia. A questão é um pouco mais complexa, pois há russófonos que não desejam a separação, mas estatuto federal ou de autonomia, sem partilha da Ucrânia. Parece ser essa a intenção de Moscovo. Por seu turno, o governo ucraniano resulta de eleições parlamentares, de protestos pró-democracia e de uma eleição presidencial que foi boicotada pelos separatistas, mas que se realizou na maior parte do território. Não faz sentido referir aqui divisões étnicas, embora exista divisão linguística, sendo que parte significativa da população é bilingue, falando russo e ucraniano.

A Ucrânia é um país reconhecido internacionalmente e a sua soberania está a ser posta em causa pela Rússia, que ocupou e anexou a península da Crimeia, sem qualquer motivo ou aviso. A anexação violou as leis internacionais e foi uma acção militar de carácter tipicamente imperial. Na altura, foram feitas comparações com o Kosovo, mas o facto é que quando foi anexada pela Rússia, a Crimeia estava em paz.

Entretanto, a Rússia deu apoio material aos separatistas do Donbass, cujas milícias atraíram combatentes estrangeiros: entre as actuais chefias, há russos anteriormente ligados aos serviços de segurança de Moscovo. Segundo informações independentes, nas regiões rebeldes ocorreram atrocidades contra civis que discordavam da violência. Em Sloviansk, por exemplo, estas milícias tinham prisões e fuzilaram pessoas acusadas de pequenos crimes ou por motivos políticos. Entre as suas vítimas, estavam jornalistas, activistas e autoridades eleitas.

A Rússia não chegou a ocupar o território do leste da Ucrânia, como se temia, mas forneceu aos rebeldes armas sofisticadas. Caso se prove que o avião comercial malaio foi abatido por um míssil disparado pelas milícias, Moscovo estará numa situação delicada. Nos meios de comunicação internacionais, a linguagem mudou de um dia para o outro. Agora, estamos perante uma agressão externa e as milícias deixaram de ser ‘russas‘ para serem de ‘separatistas pró-russos’, como aliás deviam ter sido descritas desde o início deste conflito.

Caso se confirme a origem separatista do disparo, a estratégia de Moscovo foi abatida em pleno voo. Agora, este conflito é um enorme embaraço para a Rússia e um motivo para sanções internacionais que vão isolar ainda mais o regime de Vladimir Putin. A opinião pública russa verá de forma crítica o apoio adicional aos rebeldes, que têm aqui uma oportunidade para se livrarem dos radicais que estão a conduzir toda a região para um beco sem saída. Se conseguir dividir os separatistas, o governo ucraniano pode tentar negociar um acordo político que permita encerrar o capítulo da violência.

A destruição de um avião comercial cheio de passageiros sem ligação a este conflito foi um crime chocante e uma barbaridade que não dá margem de manobra aos que pretendem continuar esta guerra civil fabricada. As manipulações propagandísticas, que pintam a Ucrânia como agressora, não fazem sentido. Kiev não pode perder o Donbass, pois ali está a sua base industrial. Além disso, as potências ocidentais estão irritadas com Moscovo e essa irritação vai aumentar depressa.

 

Problemas crónicos


Luís Naves,

Uma sociedade que não compreende os seus problemas está condenada a repetir vezes sem conta os mesmos erros.

Após uma década de estagnação económica, em que o Estado, as famílias e as empresas acumularam dívidas insustentáveis, Portugal foi confrontado com uma situação de insolvência que exigiu intervenção externa, sujeita a condições draconianas. O resgate implicou um programa de ajustamento que, por sua vez, exigiu duros sacrifícios à população. Neste processo, mal negociado no início e que não era negociável depois, Portugal perdeu 6% da riqueza. Seria um verdadeiro milagre que a pobreza não tivesse aumentado ou que não houvesse mais desemprego.

Infelizmente, temos uma narrativa maioritária que ignora os factos básicos, impedindo o País de compreender que o ajustamento esteve associado a uma mudança estrutural da economia. Se quiser manter-se na zona euro, Portugal terá de cumprir regras de equilíbrio orçamental. Não está resolvido o seguinte trilema: podemos ter uma sociedade democrática e próspera, mas isso implicará controlar os gastos sociais, limitar a dimensão do Estado e rever o sistema de pensões; se preferirmos continuar com um elevado nível de despesa pública e de dívida, teremos de sair da zona euro, prescindindo da prosperidade e talvez até da democracia que a participação na União Europeia garante.   

 

O problema central, nesta crise, esteve na repetição de um modelo errado. As principais dificuldades que Portugal atravessou nos últimos 150 anos tiveram sempre elementos semelhantes: grupos de interesses apropriavam-se de um orçamento limitado, ganhando partes desproporcionadas do bolo ou não pagando impostos; os negócios que privilegiavam os amigos eram muitas vezes ruinosos, mas estava lá sempre o Estado centralizado para acudir a aflições; as clientelas garantiam a estabilidade do sistema, não havendo verdadeiro espaço para uma opinião pública crítica ou para o aparecimento de autênticas alternativas políticas; este foi um país imune a reformas, onde cada pequena mudança deparou com a resistência feroz dos grupos beneficiários, que controlavam os meios de comunicação. Este modelo garantiu-nos uma pobreza crónica e a instabilidade instalava-se quando os recursos disponíveis se tornavam insuficientes.

 

   

A Monarquia Constitucional entrou em dissolução após a bancarrota de 1891; a Primeira República mergulhou na loucura, sobretudo depois do colapso do sidonismo; o Estado Novo claudicou no marcelismo, com economia pujante, mas incapaz de resolver o problema imperial e de fazer reformas democráticas.

A adesão europeia evitou que a República Democrática seguisse o caminho do caos que outros regimes viveram. O dinheiro europeu que Portugal recebeu nas últimas três décadas em quantidades extraordinárias permitiu edificar infra-estruturas modernas, mas não criou ainda um país moderno. As pessoas comuns continuam a desconfiar das instituições e as elites contribuem para esse descrédito, com a sua aversão a reformas significativas.

Apesar de tudo, desta vez pode ser diferente, pois a sociedade portuguesa tem agora elites mais alargadas, consequência de reformas recentes, tardias, mas que transformaram as gerações. Os meios de comunicação, onde imperava o controlo dos poderosos, continuam a ter diversidade limitada, mas sofrem cada vez mais a concorrência da liberdade de expressão que se fortificou na internet. A sociedade civil lá vai crescendo, enquanto passa entre as gotas de chuva.

Existe um mito entranhado de que as desgraças recentes deste País foram uma imposição externa, a que se juntou a fraqueza do actual governo. Na realidade, esta crise é mais complexa, pois envolve uma mudança de mentalidade a que os poderes tradicionais têm resistido como podem.

Para continuar a definir o seu destino, Portugal necessita de continuar as reformas e mudar o Estado, onde tudo se decide. A alternativa será uma existência irrelevante de País isolado e de segunda linha. O ajustamento foi brutal, envolvendo quase 25 mil milhões de euros em impostos e reduções da despesa pública, mas prosseguirá nos próximos três anos, com cortes adicionais de 5 mil milhões. Entretanto, o que foi feito terá de se tornar sustentável, os impostos precisam de diminuir: isso implica mudanças adicionais na segurança social, no sistema político e nas funções do Estado, matérias que exigem acordos interpartidários.

O País precisa de compreender isto, em vez de continuar a chorar o leite derramado, para mais chorando a perda sem compreender devidamente o que levou a que ela acontecesse.

 

Delitos poéticos (11)


Luís Naves,

Este poema tem história e delito, que tentarei contar:

Alguns dias antes de ser assassinado, o poeta húngaro Miklos Radnoti escreveu Razglednica-4, um dos mais extraordinários poemas que conheço. Esta é uma tradução possível:

 

 

Caí ao lado dele, o seu corpo virou-se,

tão esticado como a corda quando parte.

Tiro na nuca. “É assim que também vais acabar”,

murmurei para dentro. “Deixa-te ficar deitado, calmamente”.

A paciência agora floresce morte.

“Der springt noch auf”, ouviu-se por cima de mim.

Na minha orelha secava sangue enlameado.

 

Szentkiralyszabadja, 31 outubro 1944

 

Radnoti tinha 35 anos e cometera dois crimes: era judeu e escrevinhava coisas. Este momento em que antecipa a própria morte não tem sentimentalismo nem puxa à piedade do leitor. Aliás, os sobreviventes do Holocausto tiveram sempre dificuldade em explicar esta sensação de vazio e a resignação da vítima, como se as lágrimas fossem um estorvo que dificultava ainda mais a explicação do inexplicável. 

Neste caso, é impossível transmitir o abismo contido no poema. A tradução é literal, não literária, perderam-se as subtilezas do texto, o ritmo, a musicalidade da língua húngara e a sua concisão (basta ouvir no youtube para se perceber a complexidade). Há rimas internas que se perdem, sobretudo nos dois últimos versos, e seria possível alterar certas frases. Por exemplo, ‘a paciência agora floresce morte‘ pode ser ‘a flor da paciência é agora morte’. A ideia é a seguinte: o poeta está ao lado de um homem que acabou de ser abatido e pensa, ou antes sabe, que vai morrer da mesma maneira (como aconteceu). Um dos soldados diz em alemão ‘aquele ainda anda aos saltos‘ e, nesse instante, o poeta sente, misturado com lama, o sangue seco que lhe cobre a orelha. A frase em alemão é importante, pois o soldado podia dizer ‘aquele ainda mexe’, mas trata-se de algo mais complexo, havendo aqui a sugestão de saltos, pulos, alegria, Primavera, ressurreição. Isso em contraste com o verso anterior, o da resignação e aceitação da morte.

 

Esta sequência de quatro poemas, Razglednica, foi escrita durante uma marcha da morte por alguém que estava a experimentar o horror. Aqui não há teorias nem impressões. Estamos perante a verdade vivida.

A terrível marcha começou na localidade da Voivodina que dá nome aos textos e envolveu 3500 prisioneiros judeus. O número quatro é o último poema da sequência e foi escrito numa aldeia húngara, a 50 quilómetros do local onde Radnoti seria morto com outras vinte pessoas. Depois da guerra, a viúva (que morreu recentemente, com 101 anos de idade) procurou o corpo do marido e encontrou a vala comum. Junto do cadáver estava o bloco de notas com os últimos poemas, contendo instruções em várias línguas sobre a sua entrega a um eminente professor de Budapeste.

Foi assim que Miklos Radnoti, já relativamente famoso antes da guerra, se tornou um dos maiores poetas húngaros. Este é também um dos grandes poemas escritos durante o Holocausto e o derradeiro do autor. Aqui, não existe ódio ou raiva, apenas Humanidade. Só por isso, pertenceria à História da Literatura.

Outro elemento trágico é que provavelmente o poeta morreu devido ao impulso de escrever. Segundo afirmaram os sobreviventes da marcha da morte, ele foi vítima do espancamento selvagem de um guarda que o viu a escrevinhar no bloco de notas e talvez este poema esteja relacionado com o episódio da brutalidade que o condenava. Talvez estivesse a escrever este poema.

A 9 de Novembro de 1944, ferido pelo espancamento, incapaz de continuar o caminho, o poeta foi abatido com um tiro na nuca. Porventura, viveu o quarto verso, onde brilha a palavra ‘nyugodtan’ (calmamente).

  

nota: Os dois primeiros Razglednica foram traduzidos para português pelo poeta e escritor Ernesto Rodrigues, que publicou uma antologia dos maiores poetas húngaros, onde estão incluídos outros poemas de Radnoti.

Cabazada de realidade


Luís Naves,

Os portugueses defendem partidos fortes, mas não estão dispostos a participar neles; querem uma sociedade civil pujante, mas ficam sentados à espera que ela apareça; queixam-se da política, mas não gostam de chatices, excepto no caso de subida rápida. As pessoas exigem serviços públicos impecáveis, mas têm dúvidas sobre a ideia de pagar impostos; querem a comunidade segura, mas não lhes importa a do vizinho; e o atendimento tem de ser perfeito, mesmo quando não se paga. A cultura será gratuita; os artistas são maus, sobretudo quando não são conhecidos lá fora; e os escritores não podem ser incómodos, pelo contrário, devem limitar-se a afirmações fofinhas e politicamente correctas.

A elite de pessimistas na imprensa e blogosfera pensa que os governantes e os partidos seriam perfeitos se fossem outros, mas nenhum destes autores se interroga como se faz uma democracia sem partidos. Quando aparece um novo, como aconteceu recentemente, os mesmos observadores escrevem, nos seus sofás, que estas iniciativas dividem e estão longe do ideal. Ainda não era bem isto.

Os políticos mais citados são os que estão nas alas, à espera de oportunidade, enquanto aproveitam para marcar posição sentada e fazer corajosas críticas à governação, típicas de quem nunca se chegou à frente. Quando alguém tenta ser líder, lá está uma nova divisão. E se o poder não é entregue de mão-beijada, ai, ai.

 

 

Os intelectuais dizem que a Europa parece em colapso, mas a realidade é diferente: Reino Unido e Alemanha estão a entrar numa fase de euforia económica; a Polónia encontra-se num ciclo de expansão que poderá durar décadas; Itália, Espanha e Holanda saíram de recessões violentas, já têm crescimento e estão a criar emprego. Dos seis maiores, só a França continua em dificuldades!

Pessoas que ao longo de toda esta crise estiveram erradas continuam a debitar conselhos e a fazer conjecturas sobre o nosso desaire, sempre adiado. Agora, dizem que não houve reformas, mentira mil vezes repetida, quando deviam tentar explicar à opinião pública que ainda falta fazer parte das reformas de que o País precisa.

Admitindo por um minuto que têm razão, se não houve reformas, o que estivemos a fazer todo este tempo? Eles têm a resposta na ponta da língua: cortes cegos. E ninguém lhes pergunta qual era a alternativa e onde é que se devia ter cortado. Se não era nos salários e pensões, então onde era? Temos menos cem mil funcionários públicos, mas não houve reformas. Cumprimos o que exigia o memorando, mas não houve reformas, apenas cortes cegos.

 

Nunca percebi o que querem os pessimistas, mas temo que os credores e parceiros europeus tenham escassa paciência para aturar o choro convulsivo de quem levou uma cabazada de realidade.

Precisamos de acordar, de sair desta pasmaceira. Temos de mudar a conversa dos coitadinhos, de que a crise nos foi imposta de fora, que os emigrantes são vítimas, os desempregados têm lepra, a mudança é impossível. É que depois das lamentações da praxe continuamos a vidinha burguesa (sim, os estádios estão cheios para os festivais de verão, os restaurantes e as praias andam repletos, os hotéis funcionam com normalidade, a venda de automóveis anda parva). A verdade é que a neurastenia é uma conversa para inglês ver, a crise está a acabar para a maioria das pessoas e é tempo de começarmos a pensar nos problemas a sério do futuro do país, e estes não estão nos partidos e na democracia, nem no governo ou nos europeus, mas no egoísmo e na improvisação, na hipocrisia e falta de visão de quem acha que o tempo ainda pode andar para trás.

Querem uma analogia futebolística? Falta-nos organização e vontade, temos uma visão distorcida das nossas capacidades e a preparação foi insuficiente. Levámos quatro a zero, mas a vida continua, vem aí outro apuramento, temos de levantar a cabeça. Alguns acham que o mundo lá fora é perigoso e preferiam jogar sozinhos na praia, tipo brinca-na-areia, mas é fácil perceber que essa opção já não existe e que temos de jogar com a fasquia mais alta.

 

 

Metáforas e lendas


Luís Naves,

Na brilhante Novela de Xadrez, a derradeira obra de Stefan Zweig, paira a ideia de que há matérias sobre as quais mais vale não falar. O narrador conhece um terrível segredo e a personagem do campeão é sinistra, ou seja, o mal triunfa e possui uma inteligência impossível de bater. O escritor austríaco viria a suicidar-se pouco depois de escrever esta novela.

Quando o xadrez era popular, os autores gostavam de usar este jogo como metáfora, mas o xadrez já não se joga. No império do espectáculo em que vivemos, tornou-se uma habilidade para máquinas. As pessoas que conhecem as regras praticam sozinhas: sou regularmente batido pelo meu computador e confesso que tento fazer ligeira batota, colocando o grau de dificuldade em mínimos humilhantes. A máquina não se importa e é implacável. Ela não possui emoções e eu enervo-me com a ausência de erros, fazendo movimentos estupidamente impulsivos. Se existe aqui uma sugestão é de que a humanidade está pronta para ser ultrapassada. Eu, pelo menos, já fui ultrapassado.

As metáforas do futebol são mais seguras. Este desporto ainda não tem máquinas e tornou-se global, inspirando histórias que as pessoas contam em numerosas variações. Por exemplo, esta:

No Natal de 1914, houve na Frente Ocidental umas tréguas informais entre soldados, sobretudo entre ingleses e alemães, com troca de presentes e confraternização na terra de ninguém. A guerra parou alguns dias em vários locais e conta-se que houve pelo menos um jogo de futebol anglo-germânico, que os oficiais interromperam com um bombardeamento (a imagem mostra um jogo entre ingleses, longe da frente). As tréguas são históricas, envolveram provavelmente mais de cem mil soldados, mas o jogo de futebol de Natal continua a ser considerado lendário, pois não existem imagens ou provas documentais de que tenha ocorrido, apenas testemunhos de sobreviventes. 

 

 

É uma bela história, que merece ser verdade, das muitas que existem sobre este belo jogo. Por estes dias, temos o campeonato do mundo, que juntará mais alguns contos a esta narrativa sempre em construção. A proeza da Costa Rica, por exemplo, seria digna de adjectivos bíblicos e o guarda-redes americano certamente vinha de Marte. Também se devia mencionar o grande Di Stefano, que pertence ao panteão dos heróis deste desporto.

Nos últimos dias, temos aprendido sobre a importância do guarda-redes e a linha fina que separa a tragédia da glória. Os remates quase perfeitos, as defesas miraculosas, o pequeno receio que comprometeu o êxito, a hesitação interpretada como desistência, essa misteriosa componente da sorte, que alguns jogadores tentam atrair com rezas dirigidas aos deuses, os quais, pelo que consta, gostam deste desporto.

O mais notável tem sido o voo dos guarda-redes, mas há quem prefira a lei do mais forte, as quedas fingidas ou os jogos mentais dos tácticos, todos eles peritos em xadrez e que transformam atletas em peças com funções, aquele limitado a bispo, outro a rainha imperial, o terceiro um esforçado peão.

Tudo é também dissecado ao pormenor e, no final, ficaremos com novos mitos, todos eles recontados mil vezes, até já não recordarmos se aquela finta notável foi em certo jogo ou no anterior, se a defesa extraterrestre ocorreu no momento do triunfo ou antes. Anestesiados pelas emoções, poderemos concluir, como provavelmente chegou a pensar o narrador da Novela de Xadrez, que vimos aquele momento breve, de milagre, em que a ordem humana pairou sobre a opressão do mundo, tal como aconteceu naquela trégua lendária, em que o mal apesar de tudo acabou por triunfar de novo.

 

 

 

Um erro de grandes consequências


Luís Naves,

Existe em certos círculos políticos uma ilusão federalista que está a contribuir para uma perigosa crise na Europa. O Conselho Europeu deverá discutir nos próximos dias a escolha do candidato a Presidente da Comissão e a insistência em Jean-Claude Juncker ameaça afastar mais um pouco o Reino Unido da UE. Esta escolha sempre foi feita entre os líderes, e por consenso, mas o primeiro-ministro britânico, David Cameron, ameaça desta vez forçar a votação, provável indicação de que dispõe de minoria de bloqueio.

Isto exige mínimo de quatro países com 35% da população. O Reino Unido parece ter apoio de Suécia, Holanda, Itália e Hungria, combinação que estará nos limites, mas a vitória inglesa seria vista como humilhação de Paris e Berlim.

Londres já antes se estava a afastar do núcleo duro da UE e o processo deverá continuar. Juncker não será mais do que uma nova gota de água a fazer transbordar o copo da impaciência inglesa. As três maiores potências não concordam com a actual evolução da organização, mas este conflito em torno de um nome não tem qualquer função e só pode aumentar as divisões, abrindo caminho à perversão dos tratados europeus.

  

Juncker surgiu nas eleições europeias como o “candidato a presidente da Comissão” pelo Partido Popular Europeu. Na altura, estava a colocar-se em bicos de pés, mas agora reivindica o lugar, em nome da sua “vitória eleitoral”. A imprensa tablóide alemã argumenta que a escolha de Juncker é a única saída democrática, havendo políticos, sobretudo na esquerda, que concordam com a tese, mesmo que ela seja potencialmente prejudicial para os pequenos países, como Portugal.

Os Tratados estabelecem com clareza que a escolha do candidato é feita pelo Conselho Europeu, ou seja, pelos líderes de governos, que têm de levar em consideração “os resultados das eleições europeias”, sendo esta uma formulação relativamente ambígua. Só depois vai a votação no parlamento. Assim, os ingleses têm toda a razão, ao dizerem que o aparecimento de um nome imposto pelo parlamento ao conselho é uma subversão dos tratados.

Para mais, Juncker não ganhou as eleições europeias, pelo contrário, o seu grupo parlamentar foi aquele que perdeu mais deputados. Levar em consideração o resultado eleitoral é difícil, pois os grupos maiores perderam votos, tendo crescido os radicais das franjas e os eurocépticos. A composição política do parlamento afastou-se ainda mais da composição do Conselho e se o eleitorado disse alguma coisa foi que deseja uma figura centrista, que faça pontes para conservadores e socialistas, que seja relativamente independente em relação aos países grandes e tenha prestígio à prova de bala. Ou seja, o eleitorado não quer uma figura como Juncker, federalista ligado à eurocracia, dado a gafes e que nunca contestará o directório das potências.

 

Se escolherem uma figura tão fraca em nome de uma suposta afirmação democrática, os governos estarão a desrespeitar a vontade do eleitorado (que rejeita avanços federalistas) e a alienar o Reino Unido. Neste último ponto, a Alemanha é o país que tem mais a perder, pelo que a chanceler Angela Merkel parece à beira de cometer um grave erro, que terá consequências durante anos.

Para os pequenos países, nem se fala: um futuro que tenha o parlamento fragmentado a escolher o Presidente da Comissão será sempre dominado pelo directório dos grandes. Os comentadores que tenho ouvido sobre este tema cometem outro aparente erro de análise, quando dizem que a democracia está no Parlamento Europeu. Ora, ela está claramente também no Conselho Europeu, cujos líderes são eleitos em votações muito mais significativas, representando Estados soberanos, que formam o verdadeiro conteúdo desta aliança de países.

 

Vantagens da ruptura


Luís Naves,

Acumulam-se sinais de ruptura política iminente. O País não sairá do seu labirinto se não conseguir criar saldos orçamentais primários significativos, o que implica cortes adicionais da despesa não inferiores a 4 ou 5 mil milhões de euros nos próximos três anos. O Governo não tem força política para concluir as reformas. Na prática, pode esperar durante um ano e será cilindrado pela oposição, entretanto renovada com uma liderança que beneficiará do efeito do homem providencial; em alternativa, pode criar a ruptura e avançar para a clarificação política, com algumas hipóteses de vencer as legislativas, que seriam em Outubro.

 

O problema central é que os juízes do Tribunal Constitucional (TC) permitiram certas medidas de consolidação orçamental durante um período de emergência que consideram terminado. Isso significa que as novas medidas de cortes na despesa serão inconstitucionais, o que impedirá a obtenção de saldos primários positivos, excepto na hipótese de aumento de impostos. Não estamos a falar de um único aumento de impostos, mas de vários, se continuar a ser pedida a fiscalização no TC de diplomas ligados a orçamentos. Ou seja, não existirá qualquer recuperação económica. Um governo que vá por esta via estará condenado a pesadas derrotas e à impaciência dos credores.

Em termos simplificados, o cenário que tentei descrever significa que Portugal não terá condições políticas para satisfazer os seus compromissos internacionais. Sem cortes adicionais, a partir de meados de 2015 o País também se arrisca a perder o acesso a financiamento nos mercados (acaba-se o dinheiro e ninguém nos emprestará), tornando mais provável a saída da zona euro. Evitar este desenlace implica um acordo político de salvação nacional,  improvável devido à crise do PS. A segunda hipótese será de eleições que resultem num bloco central cuja legitimidade tornaria mais difíceis os conflitos institucionais. 

 

Se fizerem uma ruptura agora, os partidos do governo terão um brinde: a crise interna no PS. Se o governo se demitisse nas próximas semanas, as eleições seriam em Outubro, não dando tempo aos socialistas para arrumarem a casa. António Costa teria de desistir da sua candidatura e não haveria hipótese de eleições primárias no partido nem tempo para realizar um congresso electivo. Aliás, não faria sentido substituir o líder semanas antes de eleições, pois é preciso fazer listas e preparar a campanha. Também não há congressos em Agosto.

Nas eleições, seria Passos contra Seguro, este último fragilizado pelas recriminações que lhe foram feitas por vários destacados militantes socialistas. As manifestações de unidade soariam a falsas. À esquerda do PS, o grande beneficiado seria o PC, que podia finalmente engolir o bloco, embora sem atingir valores extraordinários, pois em voto de protesto os comunistas não foram além de 12,7%, mostrando que o eleitorado não quer aventuras.

Os novos partidos que se desenham, sem tempo para consolidar ganhos, teriam contra si a lei eleitoral, com a repetição da escandalosa trapalhada da falta de cobertura televisiva e, acima de tudo, a impossibilidade de entrarem em distritos do interior. A lei eleitoral discrimina os pequenos partidos e, na prática, o eleitor de Bragança não é igual ao de Lisboa. Nas europeias, a lista nacional torna todos iguais, mas em legislativas na maioria dos distritos existe voto útil nos partidos principais.

 

Em resumo, a demissão do governo seria a melhor solução para o centro-direita. Daria tempo para criar um executivo mais forte que pudesse convencer os mercados, evitando uma nova crise de financiamento em meados do próximo ano. Com um bloco central o país teria dois anos para concluir a consolidação orçamental e a reforma do Estado sem a qual as contas públicas não estarão equilibradas.

Ao longo da sua História, Portugal teve problemas orçamentais crónicos e regular paralisia institucional que criou pântanos políticos sem saída. Desta vez, isso não é possível: a participação na moeda única europeia, num contexto de aceleração da integração, muda os dados do problema e impede que a nossa vida seja a do costume.

 

Navegações


Luís Naves,

Luís Aguiar-Conraria, em Destreza das Dúvidas, faz este comentário pertinente sobre um exemplo de exagero pedante. A língua como ciência terá interesse, mas o excesso de conceitos que nada dizem aos estudantes mata o gosto das novas gerações pela literatura. Os burocratas não gostam de livros, detestam escritores e odeiam a poesia.

Este brilhante texto de Rui Ângelo Araújo, em Os Canhões de Navarone, refere a ligeireza de tantos comentadores do espaço público no uso da boa escrita. A situação pode piorar, sobretudo se houver insistência na aprendizagem de conceitos dispensáveis à clareza da linguagem que devia ser um dos objectivos do ensino da língua, sendo o outro despertar o interesse dos estudantes pelos clássicos. 

Um excelente texto de JM Ferreira de Almeida, em Quarta República, onde o autor explica a forma como as formações tradicionais da esquerda e da direita têm convergido em políticas pragmáticas. Concluo, da leitura, que o mundo está em mudança, não sendo sensato insistir nas divisões ideológicas entre esquerda ou direita, pois as diferenças entre os dois estão a esbater-se.

Recomendo a leitura cuidadosa desta reflexão de Pedro Romano, em Desvio Colossal. O autor tenta explicar que o cumprimento das regras impostas pelos credores parece mais fácil do que a resistência ao ajustamento, que implicará eventualmente o regresso ao escudo. Ou seja, a dívida pública será sustentável, como aliás indicam as taxas de juro. O respectivo pagamento é do interesse do País.

     

Quando em 2005 comecei a escrever na blogosfera, num obscuro blog literário chamado Prazeres Minúsculos, a Bomba Inteligente já era um clássico. Este blog habituou-nos à boa escrita e ao bom gosto. Há vida inteligente na blogosfera.

A guerra do futebol (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

Estava a ver um jogo entre o Equador e as Honduras quando me lembrei que este último país esteve envolvido num dos mais bizarros incidentes da História recente, conhecido por ‘Guerra das 100 Horas’ ou ‘Guerra do Futebol’. O conflito foi travado em Julho de 1969 e envolveu dois países vizinhos da América Central: El Salvador e Honduras. Nos combates e bombardeamentos, que duraram apenas quatro dias, morreram mais de 3 mil pessoas e tudo começou com um simples jogo de futebol entre selecções que procuravam classificar-se para o Campeonato do Mundo do ano seguinte.

Na origem do conflito esteve uma rivalidade regional que se alimentou de um problema económico profundo: as Honduras (dispondo de mais território) tinham na altura 350 mil imigrantes salvadorenhos, sobretudo na zona de fronteira, e estes camponeses estavam a ser maltratados pelo regime do general Lopez Arellano, que era sustentado por grandes proprietários agrícolas, entre estes a poderosa multinacional United Fruit Company, que possuía 10% do território hondurenho. 

A questão da emigração salvadorenha para as Honduras tornara-se um assunto muito emocional dos dois lados, para mais alimentado por histerias nacionalistas. A 8 de Junho de 1969, os dois países enfrentaram-se na ronda de qualificação para o Campeonato do Mundo que se realizaria no México. No primeiro jogo, em Tegucigalpa, as Honduras venceram por 1 a zero, mas houve violência contra cidadãos salvadorenhos. A resposta, a 15 de Junho, em San Salvador, envolveu grande brutalidade: os adeptos hondurenhos foram espancados em plena rua e os jogadores foram vítimas de ameaças físicas. No final do encontro, os jogadores da equipa diziam ter sido uma sorte a derrota por 3 a zero. Seguiu-se um jogo de desempate, em terreno neutro, na Cidade do México, e El Salvador venceu por 3 a 2, após prolongamento.

 

Entretanto, o futebol servira de pretexto para criar um clima de extrema tensão entre os dois governos. No próprio dia do terceiro jogo, a 26 de Junho, El Salvador cortou relações diplomáticas com as Honduras. Os dois vizinhos estavam a mobilizar soldados e a adquirir armas, sobretudo aviões americanos comprados no mercado privado, para contornar o embargo que existia à compra de armamentos. Os aviões utilizados eram da Segunda Guerra Mundial e bastante obsoletos, o que contribuiu para que não houvesse ainda mais vítimas.

El Salvador atacou as Honduras a 14 de Julho. O país mais pequeno dispunha de uma força militar numerosa e bem comandada. A invasão visou zonas montanhosas de fronteira, a norte do país invadido, e pretendia obter ganhos territoriais também no Golfo de Fonseca, partilhado pelos dois países.

Este golfo da Costa do Pacífico tem o nome de um arcebispo espanhol do século XVI, Rodriguez de Fonseca, que foi confessor de Isabel a Católica e famoso adversário de Cristóvão Colombo, além de ter sido o homem que financiou a expedição de Fernão de Magalhães. Fonseca tinha origem portuguesa e pertencia a uma família nobre que se refugiara em Castela por ter apoiado o lado vencido na batalha de Aljubarrota.

O Golfo de Fonseca e os territórios da fronteira foram ocupados facilmente pelos salvadorenhos logo nas primeiras horas da Guerra do futebol, mas seguiu-se a ressaca da falta de estratégia. Incapaz de usar a sua aviação demasiado primitiva, o exército salvadorenho começou a enfrentar o problema da falta de munições e de combustível, sobretudo após um eficaz ataque da aviação hondurenha a uma das suas bases.

Com os dois lados num impasse, a 18 de Julho de 1969 foi negociado o cessar-fogo, mas o tratado de paz só seria concluído em 1980.

 

As consequências do conflito foram terríveis. Do lado hondurenho houve mais de duas mil vítimas, sobretudo civis. Os salvadorenhos tiveram menos baixas, mas os efeitos a prazo foram bem mais pesados.

Os militares tinham ganho uma influência desmedida nos dois países. Honduras e El Salvador envolveram-se depois numa dispendiosa corrida aos armamentos. Centenas de milhares de imigrantes salvadorenhos foram expulsos das Honduras, na conclusão rápida  de um processo que começara anos antes. O regresso destes refugiados representou uma desestabilização económica irremediável para El Salvador. Quando se deu o choque petrolífero, em 1973, a subida dos preços aumentou o descontentamento, que se tornaria insustentável após fracassar uma tentativa de fazer a reforma agrária. Em 1977, um general de linha dura, Carlos Romero, venceu as eleições com apoio americano e uso extenso de fraude eleitoral. No dia 28 de Fevereiro desse ano, um protesto pacífico na capital foi reprimido pelo exército salvadorenho, com um balanço de 1500 mortos. A violência intensificou-se e dois anos depois, El Salvador mergulhou numa longa guerra civil na qual morreram mais de 75 mil pessoas.

Dizem que a bola é redonda e que o futebol tem certa lógica, mas este episódio sugere o contrário. A guerra talvez pudesse ter sido evitada, se El Salvador e Honduras não tivessem jogado a ronda de qualificação naquelas datas e num momento de grande tensão política. Ou talvez a luta não pudesse ser evitada e o futebol tenha sido apenas o rastilho que incendiou a pólvora. O pretexto de um jogo era demasiado útil para acender as brasas das paixões nacionais. A guerra foi usada cinicamente por políticos que nunca quiseram resolver uma questão que diplomatas medianos teriam solucionado com facilidade.

 

Desabafo


Luís Naves,

Teria bastado um diiscreto pedido de desculpas, mas saiu isto. A blogosfera portuguesa revela por vezes um grau de infantilidade e disparate que me deixa louco.

Sou um autor não pago, cuja opinião neste blog, ou em outros, constitui uma manifestação de liberdade que as pessoas têm o privilégio de ler ou de não ler. Além disso, quem me convidou para escrever aqui não precisa certamente de polémicas destas. 

Pergunta um comentador por que razão perco tempo com estas pessegadas. Tem razão. Perco muito tempo e o retorno é frustrante. Por isso, deixo o terreno para os donos da blogosfera e as suas preciosas audiências. Aturar garotos não é a minha especialidade.

Escreverei menos aqui, mais para mim. Regressarei devagarinho, quando me esquecer da pessegada, daqui a umas semanas.

O polícia sinaleiro


Luís Naves,

Na blogosfera portuguesa há uma pseudo-direita que acha que basta abanar os braços para ter razão. É uma direita que pensa frequentemente mal e geralmente pensa pouco. O post de O Insurgente era para mim, mas não quero saber. Na hipótese remota de não ser eu o coitadinho, o recado é igualmente inaceitável. Na realidade, estou-me a borrifar, mas também acho que há na blogosfera portuguesa uns autores armados em polícias sinaleiros, com uma opinião demasiado lisonjeira da sua importância.

Escrevi um post a levantar uma questão e o autor não tem de responder, mas depois não me digam que são intelectuais e, sobretudo, não façam estas fitas de rapazes da selecção nacional, ainda por cima em português deficiente. Fiquem em silêncio ou guardem a má educação para as vossas discussões marcianas.

   

Tempos difusos


Luís Naves,

Ao ler este texto de Mário Amorim Lopes, em O Insurgente, dei-me conta de uma polémica sobre a existência de intelectuais de direita em Portugal. Como a outra polémica disponível, sobre a selecção de futebol, é mais bizantina, optei pela simples.

O autor de Insurgente pergunta, cheio de razão, “que ideias verdadeiramente originais, para lá de uma ou outra histeria transitória movida a causas, tem a esquerda tido”? A pergunta devia estender-se às ideias da direita, mas o autor logo esclarece que a esquerda “sente-se ameaçada (…) pelo liberalismo, desde sempre novo e cosmopolita”. 

Algo me tem escapado. Podia concluir que os países avançados foram varridos pela novidade do liberalismo e que está em curso uma revolução no mundo. O poder americano decorre provavelmente de uma ordem liberal e serão liberais o poder financeiro e o do petróleo, o poder das oligarquias das potências não democráticas, como também é liberal o poder da FIFA ou o avanço dos fundamentalismos. 

 

O problema é que o mundo em que vivemos já não se divide em direita e esquerda, a não ser em simplificação jornalística. Aliás, nos últimos anos, todas as ideologias sofreram derrotas, tanto os socialistas como os conservadores, que se viram forçados a concordar com certas liberdades. Os próprios liberais caminham para derrotas, por não aceitarem discutir o problema das mudanças climáticas e os limites da ausência de regulação do capitalismo financeiro.

Tentei explicar neste post que vivemos num mundo pós-ideológico, ou se quiserem, pós-moderno, numa nova ordem onde não é possível dizer com certeza que algo é só bom ou apenas mau, pois desapareceu a simplicidade dualista do mundo antigo, com as suas barricadas definidas.

Até meados do século passado, as escolhas eram sempre fáceis, entre direita e esquerda, conforme a origem social da pessoa. E acrescente-se: não havia neutralidade.

Como é que a escolha se faz agora, quando viemos todos da mesma classe média? O que separa os nossos dirigentes, sejam eles definidos nos jornais como de esquerda ou de direita, mas todos envolvidos na mesma política pragmática? E se fazem todos os mesmo por quererem sobreviver num contexto de globalização acelerada, o que é essa globalização?

A minha resposta é que a globalização continua a ser o exercício do poder dos mais fortes. Sem mais. No mundo real, o campo está inclinado, há países pobres e países ricos, exploração dos recursos dos primeiros pelos segundos, nomeadamente através da eleição de elites corruptas. A única via para os pobres é aderir ao sistema e quem resistir será um Estado falhado. Os ricos, por seu turno, consomem demasiados recursos. Isto não é liberalismo, mas um caminho para o desastre.

 

Esta ordem aparentemente cosmopolita e nova não passa da reciclagem dos velhos estilos da política antiga, um pouco mais fragmentada, é certo. Além disso, é anti-intelectual, hostil às elites e às simplificações ideológicas. O mundo hiper-industrializado em que vivemos é populista na alma e estabilizado pelo controlo mediático e pelo triunfo de uma cultura popular que idealiza o consumo, usando o inglês como língua franca e as convenções estéticas de Hollywood para alimentar as massas.

 

 

Navegações


Luís Naves,

Este texto de Pedro Rolo Duarte explica muito bem a crise da comunicação social e, em particular do DN, onde trabalhei 21 anos. As vítimas são os suspeitos do costume, em muitos casos trabalhadores com salários baixos e sem responsabilidade nos erros identificados no texto e que comprometeram a credibilidade de uma instituição centenária com imenso valor cultural.

Luís Moreira em Banda Larga toca numa ferida que se repete até à náusea: sistematicamente, o copo desta crise tem sido visto meio vazio. E a recuperação não começava nas exportações e continuava no investimento? É o que está a acontecer, estamos a entrar na segunda fase.

 

Luís Rocha, um dos melhores autores de Blasfémias, analisa as dificuldades que qualquer governo enfrentaria na redução das rendas excessivas das parcerias público-privadas. Este texto faz um resumo brilhante de um problema cuja responsabilidade principal está nos governos que contrataram estas loucuras. Embora as reduções de encargos para o Estado sejam importantes, o FMI já manifestou alguma frustração, mas acima de tudo o debate está inquinado pela demagogia.

Bela crónica de Rui Bebiano, que pode ser lida em A Terceira Noite.

Fantasias


Luís Naves,

Em posts anteriores, procurei demonstrar que existe na sociedade portuguesa uma substancial incapacidade para enfrentar os verdadeiros problemas. A troika, o governo e a austeridade transformaram-se nos simpáticos bodes expiatórios de limitações nacionais muito mais vastas e a imprensa tem acentuado a dissociação entre factos e realidades, ao promover nas suas interpretações jornalísticas a lenda conveniente de que há saídas fáceis.

Hoje de manhã, ao ler este texto, a minha tese tornou-se um pouco mais evidente.

O autor do artigo do DN, André Macedo, defende uma alternativa e fala de empresas que podem fazer o inverso daquilo que a troika fez. O texto parece sustentar uma crítica à estratégia económica do país e da troika, que passa pela contenção de salários, redução da dívida e aumento das exportações. Basta ler os comentários. E, no entanto, o artigo torna-se incompreensível tendo em consideração esta outra notícia. Ou seja, no próprio dia em que o texto é publicado, a empresa de Macedo despede 160 trabalhadores. 

A indústria do calçado fez uma reestruturação dolorosa no início da década de 2000. Fecharam centenas de fábricas e houve milhares de despedimentos. Neste momento, é porventura o sector mais competitivo da nossa economia, pelo que algumas empresas se podem dar ao luxo de criar dívida, aumentar salários e comprar máquinas avançadas, ao mesmo tempo que gastam dinheiro em design e inovação.

Infelizmente, o País não é todo igual à indústria do calçado e o bom exemplo de Felgueiras não serve para o sector da comunicação, onde há sobretudo serviços que dependem da venda de publicidade e da credibilidade perdida. São empresas que dão prejuízo, não exportam e tiveram grandes quebras nas vendas, com acumulação de gigantescas dívidas. Estes títulos perderam milhares de leitores e concorrem com plataformas gratuitas.

No dia em são despedidos 160 camaradas seus, André Macedo fala de um exemplo de Felgueiras que, na realidade onde vive o autor, não passa de uma pequena fantasia.

 

Nota: trabalhei durante 21 anos no Diário de Notícias e o meu coração sangra. Deixo aqui um abraço de amizade e de solidariedade a todos os meus amigos que serão vítimas deste despedimento colectivo.  

Publique-se a lenda


Luís Naves,

O consumidor de informação deve ter presente uma das melhores deixas do cinema, no final de O Homem que Matou Liberty Valance, de John Ford:

Segundo pensam os habitantes de uma pequena cidade do Oeste, um distinto senador interpretado por Jimmy Stewart matou anos antes, em duelo leal, um facínora chamado Liberty Valance. O filme começa quando este senador, já idoso, comparece no funeral de um homem praticamente anónimo cuja vida correu bastante mal. Este interesse desperta a curiosidade de um jornalista a quem a personagem de Jimmy Stewart decide contar a história autêntica, enquanto espera pelo comboio. No entanto, a história afasta-se de tal forma da narrativa conhecida, que o jornalista recusa publicar a verdade e esclarece:

“Isto é o Oeste, senador. Quando a lenda se transforma em facto, publique-se a lenda”.

 

Portugal está há três anos numa situação semelhante a esta. Os factos positivos são desvalorizados e os efeitos da pobreza crónica do País tendem a ser confundidos com a crise. Existe uma lenda conveniente que obriga à omissão das circunstâncias que nos levaram à falência e depois ao resgate. Essa lenda atribui todos os males a um governo incapaz, o actual, e não reconhece nenhum erro político anterior.

O resultado desta incapacidade de contar a verdadeira história é a crispação invulgar da política e a vertigem de querer repetir os erros que nos condenam ao endividamento insustentável e à baixa competitividade.

O episódio da Guarda, com a total falta de respeito pelo Presidente da República (dos mesmos hipócritas que espumam quando surgem críticas a decisões de juízes) é apenas outro sintoma de uma tontura política sem qualquer relação com eventuais desordens na sociedade. Isto é tudo artificial: pela cabeça do cidadão comum jamais passaria a ideia peregrina de continuar a protestar após a indisposição do Presidente.

As fantasias políticas e as zangas da treta vão desaparecer durante quatro meses. A partir dos próximos dias, o país só estará interessado no ludopédio, depois segue para banhos, regressando em Setembro. A crispação desaparecerá até do facebook, onde veremos sugestões dos melhores restaurantes e praias de Cancún. 

O que preocupa é o regresso do fim do mundo. Haverá então bom-senso para um acordo político entre os partidos? Será difícil, como explica Paulo Gorjão neste texto em Bloguítica. 

O Banco de Portugal divulgou entretanto números que deviam fazer pensar os mais excitados e os mais impacientes. Os próximos governos terão de continuar o ajustamento, cortando mais 6,7 mil milhões de euros, o que é pior do que eu admitia neste texto, onde não estava incluída a redução obrigatória da dívida pública. Cumprir o Tratado Orçamental só se conseguirá com crescimento económico (moderado até 2019) e com reformas adicionais, nomeadamente no sistema político, no Estado e na segurança social. Enfim, haverá sempre a hipótese de mais impostos, do segundo resgate ou ainda da saída do euro. Felizmente, há toda uma rica paleta de opções. 

Após três anos a ouvir a história do Homem que matou Liberty Valance, a opinião pública não aceita que a realidade seja bem diferente da lenda. Infelizmente, muitos intelectuais activos no espaço de comentário preferem fazer como o jornalista do velho Oeste.

A Europa sem luta de classes


Luís Naves,

Vivemos num contexto pós-ideológico, em que o essencial se joga no pragmatismo do poder e dos interesses financeiros. Nas democracias, as políticas deixaram de ser de direita ou de esquerda, reflectem consensos contendo menos conflito entre classes. Aquilo que outrora foi a esquerda é hoje uma pálida sombra do passado. O comunismo deu origem a oligarquias corruptas com traços evidentes da antiga tirania. Nos países pós-comunistas, as diferenças sociais são escandalosas e as liberdades individuais continuam limitadas.

Por outro lado, nas democracias europeias, o socialismo quase desapareceu. Quando estão no poder, os partidos social-democratas aderem à ortodoxia liberal da suavização das leis laborais, do ajustamento orçamental, da redução da despesa social e da liberdade financeira. A explicação é evidente: nas sociedades industrializadas, as classes sociais esbateram-se, os operários têm boas condições de vida e a pobreza está limitada a grupos pequenos. O Estado social garante segurança para quase todos, mas exige níveis de impostos elevados, o que levou o eleitorado a defender o controlo mais apertado da despesa do Estado.

 

 

Portugal, como de costume, chegou tarde a esta transformação. Aqui, o Estado tem longa tradição de centralização. Além disso, do antigo regime ficou o vício das corporações, ou seja, grupos de interesses defendem com unhas e dentes o que consideram ser o seu direito a uma fatia do bolo orçamental. Até rebentar esta crise, antes da falência e do resgate, o dinheiro dos impostos permitia satisfazer clientelas bem instaladas. E, no entanto, se quiser controlar as contas públicas no futuro, a sociedade portuguesa terá de discutir a forma e a dimensão do Estado, o nível de impostos e a extensão da rede social. A classe política tenta fugir a esta discussão como o diabo da cruz.   

No resto da Europa, as escolhas foram feitas nos anos 80 e 90. Os aumentos de impostos são agora altamente impopulares. No sector da esquerda, a esperança de que existia uma terceira via nunca passou de ilusão e a única verdadeira renovação recente veio dos ambientalistas, que introduziram causas sociais e ambientais entretanto aceites pelas correntes dominantes. Os verdes fazem hoje parte do sistema e falharam por não terem uma alternativa ao capitalismo.

 

Na Europa, triunfou o conservadorismo da classe média. O antigo operariado foi absorvido nesse rio imenso e a pequena classe de excluídos, que equivale no máximo a 10% da população, nem sequer vota.

O recente voto de protesto europeu escolheu forças de extrema-direita ou partidos contrários a uma integração comunitária que o eleitorado pressente ser a grande movimentação do futuro. Há também grupos de indignados ou fenómenos mais raros como o Syriza, com irrepreensível retórica da esquerda tradicional, mas sem hipótese de criar um projecto de poder em países centrais.

A austeridade francesa ou italiana, executada por partidos ditos da esquerda, pouco se distingue das reformas efectuadas pela chamada direita espanhola, holandesa ou alemã. A integração europeia está a transformar-se numa gigantesca convergência política sem ideologia. É igual em todo o lado, faz o mesmo em todo o lado.

 

Desta vez é diferente


Luís Naves,

Na última década, Portugal tem vivido surtos de euforia e momentos de total desalento, sendo muitas vezes difícil perceber as razões que justificam variações de humor tão bruscas. Há pouca distância entre optimismo, pessimismo e mitomania. Desta vez, estamos cair numa estranha fase de desânimo, que contrasta com a verdadeira situação do País.

No mês passado, foi concluído com êxito um difícil programa de ajustamento que obrigou a duros sacrifícios durante três anos. Sem resgate, teria havido bancarrota e um cenário semelhante ao da Argentina em 2001. E, no entanto, no próprio momento em que nos salvamos, parece que se abateu uma desgraça sobre a nação.

A pré-falência incluiu um memorando mal negociado e que tinha metas iniciais improváveis e, por isso, forçou a dose excessiva de austeridade. Por outro lado, existe o mito persistente de que este Governo não fez reformas, tese bem difícil de entender à luz da conclusão do programa, que teve 12 avaliações.

São repetidas mil vezes as afirmações de que só houve cortes, os ricos não pagaram e foi tudo baseado em impostos, mas os críticos nunca explicam como é que se reduz a despesa do Estado sem cortar nas maiores verbas, salários e subsídios. O facto, impossível de desmentir, é que a despesa pública diminuiu: em 2010, o Estado gastou quase 90 mil milhões de euros; este ano, a factura deve atingir 78 mil milhões. Isto foi conseguido apesar do aumento do custo dos juros (que quase duplicou). 

Também foram feitas as reformas estruturais exigidas e o Estado encolheu em cem mil funcionários (são 550 mil), sem que houvesse despedimentos em massa.

Isto devia merecer satisfação, mas até se intensificou o discurso negativo. O futuro parece agora mais ameaçador do que nunca e em cada momento surgem novas vozes a pedir a desistência. A tempestade começa a dissipar-se, mas os que anunciaram o naufrágio iminente não aceitam ser desmentidos pela realidade. 

 

E, no entanto, se quiser manter-se na zona euro, Portugal terá de cumprir o Tratado Orçamental que obriga os Estados da zona euro a contas públicas equilibradas (défice estrutural de 0,5% do PIB). Isso só será conseguido em 2017, pois o défice estrutural deste ano (sem contar com o buraco que o Tribunal Constitucional criou) atingirá ainda 2,1%. Faltam portanto 1,6 pontos percentuais de PIB em cortes adicionais, nos próximos três anos, e que terão de ser feitos independentemente de quem estiver no Governo.

A União Europeia não é uma federação e os Estados que a constituem não têm obrigação de tolerar as dívidas dos parceiros. Para compensar os países que sejam afectados pelo mercado único, há fundos comunitários, dos quais recebemos 3% do PIB anualmente, durante três décadas. Não sendo um país, a UE não precisa de ajudar um Estado que, por exemplo, não cumpra o Tratado Orçamental. Esse membro relapso terá de sair da zona euro.

 

Por isso, são perigosos os mitos nacionais de que podemos encontrar soluções fáceis e mágicas para as dificuldades do futuro. Os problemas orçamentais crónicos de Portugal estão ligados à satisfação de interesses especiais que, conseguindo controlar um Estado demasiado centralizado e uma comunicação social domesticada, ganharam hábitos de se sentar à mesa do orçamento.

Só que desta vez é diferente.

A avidez dos interesses especiais (e não estou apenas a falar das clientelas partidárias) foi travada durante três anos, enquanto estivemos sob vigilância da troika. Agora, basta abrir os jornais e ouvir as declarações dos protagonistas para perceber que não há fome que não dê em fartura. Todos estes grupos tentam ganhar de novo um lugar à mesa, embora desta vez não haja bolo que chegue. Além disso, a Europa está a iniciar uma profunda mudança. A crise foi mais brutal por culpa dos líderes que ignoraram avisos sobre comportamentos irresponsáveis de alguns países, preferindo olhar para o outro lado. Esses tempos também acabaram.