Este poema tem história e delito, que tentarei contar:
Alguns dias antes de ser assassinado, o poeta húngaro Miklos Radnoti escreveu Razglednica-4, um dos mais extraordinários poemas que conheço. Esta é uma tradução possível:
Caí ao lado dele, o seu corpo virou-se,
tão esticado como a corda quando parte.
Tiro na nuca. “É assim que também vais acabar”,
murmurei para dentro. “Deixa-te ficar deitado, calmamente”.
A paciência agora floresce morte.
“Der springt noch auf”, ouviu-se por cima de mim.
Na minha orelha secava sangue enlameado.
Szentkiralyszabadja, 31 outubro 1944
Radnoti tinha 35 anos e cometera dois crimes: era judeu e escrevinhava coisas. Este momento em que antecipa a própria morte não tem sentimentalismo nem puxa à piedade do leitor. Aliás, os sobreviventes do Holocausto tiveram sempre dificuldade em explicar esta sensação de vazio e a resignação da vítima, como se as lágrimas fossem um estorvo que dificultava ainda mais a explicação do inexplicável.
Neste caso, é impossível transmitir o abismo contido no poema. A tradução é literal, não literária, perderam-se as subtilezas do texto, o ritmo, a musicalidade da língua húngara e a sua concisão (basta ouvir no youtube para se perceber a complexidade). Há rimas internas que se perdem, sobretudo nos dois últimos versos, e seria possível alterar certas frases. Por exemplo, ‘a paciência agora floresce morte‘ pode ser ‘a flor da paciência é agora morte’. A ideia é a seguinte: o poeta está ao lado de um homem que acabou de ser abatido e pensa, ou antes sabe, que vai morrer da mesma maneira (como aconteceu). Um dos soldados diz em alemão ‘aquele ainda anda aos saltos‘ e, nesse instante, o poeta sente, misturado com lama, o sangue seco que lhe cobre a orelha. A frase em alemão é importante, pois o soldado podia dizer ‘aquele ainda mexe’, mas trata-se de algo mais complexo, havendo aqui a sugestão de saltos, pulos, alegria, Primavera, ressurreição. Isso em contraste com o verso anterior, o da resignação e aceitação da morte.
Esta sequência de quatro poemas, Razglednica, foi escrita durante uma marcha da morte por alguém que estava a experimentar o horror. Aqui não há teorias nem impressões. Estamos perante a verdade vivida.
A terrível marcha começou na localidade da Voivodina que dá nome aos textos e envolveu 3500 prisioneiros judeus. O número quatro é o último poema da sequência e foi escrito numa aldeia húngara, a 50 quilómetros do local onde Radnoti seria morto com outras vinte pessoas. Depois da guerra, a viúva (que morreu recentemente, com 101 anos de idade) procurou o corpo do marido e encontrou a vala comum. Junto do cadáver estava o bloco de notas com os últimos poemas, contendo instruções em várias línguas sobre a sua entrega a um eminente professor de Budapeste.
Foi assim que Miklos Radnoti, já relativamente famoso antes da guerra, se tornou um dos maiores poetas húngaros. Este é também um dos grandes poemas escritos durante o Holocausto e o derradeiro do autor. Aqui, não existe ódio ou raiva, apenas Humanidade. Só por isso, pertenceria à História da Literatura.
Outro elemento trágico é que provavelmente o poeta morreu devido ao impulso de escrever. Segundo afirmaram os sobreviventes da marcha da morte, ele foi vítima do espancamento selvagem de um guarda que o viu a escrevinhar no bloco de notas e talvez este poema esteja relacionado com o episódio da brutalidade que o condenava. Talvez estivesse a escrever este poema.
A 9 de Novembro de 1944, ferido pelo espancamento, incapaz de continuar o caminho, o poeta foi abatido com um tiro na nuca. Porventura, viveu o quarto verso, onde brilha a palavra ‘nyugodtan’ (calmamente).
nota: Os dois primeiros Razglednica foram traduzidos para português pelo poeta e escritor Ernesto Rodrigues, que publicou uma antologia dos maiores poetas húngaros, onde estão incluídos outros poemas de Radnoti.


Belo poema e história marcante, especialmente porque – fora o poema – é igual à de de tantos outros nessa altura.
Quero apenas acrescentar duas coisas, já agora (ligadas entre si). A Voivodina é uma região multi-cultural no norte da Sérvia cujo território histórico abrange ainda pequenas porções do que é hoje Hungria e Croácia. Uma boa parte da população da região é etnicamente húngara ou, por exemplo, eslovaca. O título, se não me engano, está escrito em servo-croata e significará “Postal” ou algo de semelhante. Suponho no entanto que o poema original tenha sido escrito em húngaro (língua consideravelmente mais melódica que o servo-croata, na minha opinião).
Excelente poema.
Honestamente, não conhecia o poeta e o conhecimento de boa poesia nunca é demais.
Nunca entendi a conformação ao destino. Tantos milhares, tantos milhões. Sabiam que marchavam para o derradeiro ocaso como um rebanho com meia dúzia de cães a ladrar-lhes aos tornozelos e ainda assim seguiam, rumo ao fim, ‘nyugodtan’ (calmamente), como nos mostra.
Foi muito gratificante ler o poema e o texto.
Li “Para que a Terra não Esqueça” de Léon Weliczker Wells, em 72, creio ( era novinha e foi antes de 74) e a minha visão da história nunca mais foi a mesma.