Vivemos num contexto pós-ideológico, em que o essencial se joga no pragmatismo do poder e dos interesses financeiros. Nas democracias, as políticas deixaram de ser de direita ou de esquerda, reflectem consensos contendo menos conflito entre classes. Aquilo que outrora foi a esquerda é hoje uma pálida sombra do passado. O comunismo deu origem a oligarquias corruptas com traços evidentes da antiga tirania. Nos países pós-comunistas, as diferenças sociais são escandalosas e as liberdades individuais continuam limitadas.
Por outro lado, nas democracias europeias, o socialismo quase desapareceu. Quando estão no poder, os partidos social-democratas aderem à ortodoxia liberal da suavização das leis laborais, do ajustamento orçamental, da redução da despesa social e da liberdade financeira. A explicação é evidente: nas sociedades industrializadas, as classes sociais esbateram-se, os operários têm boas condições de vida e a pobreza está limitada a grupos pequenos. O Estado social garante segurança para quase todos, mas exige níveis de impostos elevados, o que levou o eleitorado a defender o controlo mais apertado da despesa do Estado.
Portugal, como de costume, chegou tarde a esta transformação. Aqui, o Estado tem longa tradição de centralização. Além disso, do antigo regime ficou o vício das corporações, ou seja, grupos de interesses defendem com unhas e dentes o que consideram ser o seu direito a uma fatia do bolo orçamental. Até rebentar esta crise, antes da falência e do resgate, o dinheiro dos impostos permitia satisfazer clientelas bem instaladas. E, no entanto, se quiser controlar as contas públicas no futuro, a sociedade portuguesa terá de discutir a forma e a dimensão do Estado, o nível de impostos e a extensão da rede social. A classe política tenta fugir a esta discussão como o diabo da cruz.
No resto da Europa, as escolhas foram feitas nos anos 80 e 90. Os aumentos de impostos são agora altamente impopulares. No sector da esquerda, a esperança de que existia uma terceira via nunca passou de ilusão e a única verdadeira renovação recente veio dos ambientalistas, que introduziram causas sociais e ambientais entretanto aceites pelas correntes dominantes. Os verdes fazem hoje parte do sistema e falharam por não terem uma alternativa ao capitalismo.
Na Europa, triunfou o conservadorismo da classe média. O antigo operariado foi absorvido nesse rio imenso e a pequena classe de excluídos, que equivale no máximo a 10% da população, nem sequer vota.
O recente voto de protesto europeu escolheu forças de extrema-direita ou partidos contrários a uma integração comunitária que o eleitorado pressente ser a grande movimentação do futuro. Há também grupos de indignados ou fenómenos mais raros como o Syriza, com irrepreensível retórica da esquerda tradicional, mas sem hipótese de criar um projecto de poder em países centrais.
A austeridade francesa ou italiana, executada por partidos ditos da esquerda, pouco se distingue das reformas efectuadas pela chamada direita espanhola, holandesa ou alemã. A integração europeia está a transformar-se numa gigantesca convergência política sem ideologia. É igual em todo o lado, faz o mesmo em todo o lado.


Este post é bastante revelador do total desnorte político, intelectual e ideológico que grassa entre os arautos do “centrão político” que julgavam que o “fim da história” tinha mesmo chegado…
Cada vez mais os supostos “analistas” do regime exibem a sua perplexidade, choque, surpresa e total ignorância face às dinâmicas políticas e sociais características desta nova fase do processo histórico em que nos encontramos.
Tem razão. Há imensas soluções de esquerda e a luta de classes está a estender-se a todos os países europeus.
Boa reflexão Luís, que vem contribuir para vários ensaios na mesma direcção que muita gente na esquerda tem tentado. Eu diria que o Livre seria uma tentativa desastrada de fazer uma tal reflexão. Infelizmente estes debates à esquerda tendem a ser feitos nas urnas fragmentando o voto.
Seja como for, penso que não se pode ter esta discussão sem referir um aspecto: a influência dos partidos cristão-democratas na construção do estado providência europeu.
No espaço centro- e norte-europeu, a direito (ou centro-direita) colaborou na construção das estruturas sociais ao mesmo tempo que manteve uma mentalidade ligada à liberdade (ecónomica) individual. A social-democracia colaborou pelo lado do centro-esquerda frisando a estrutura colectiva mas tendo mais ou menos os mesmos objectivos no que ao estado social diz respeito. no sul da Europa viu-se mais ou menos o mesmo na Itália mas não em França, Espanha ou Portugal.
Estes últimos casos foram peculiares porque tiveram as suas especificidades muito próprias. Em Espanha foi necessário agradar à direita que possuía as chaves do regime e que foi necessário cooptar para construir uma sociedade pós-franquista. Por isso mesmo, quando a social-democracia subiu ao poder, teve de manter uma relação mais estreita do que desejaria com a direita.
Em Portugal vimos o caso oposto. A direita foi rejeitada como peste e isso levou a uma pouco saudável falta de reflexão política. A direita de então seria hoje considerada esquerda (Freitas do Amaral considera que nunca mudou de posição, mas passou da direita para a esquerda, indicando que foi a paisagem política que se moveu) e agora quando um governo implementa políticas mais tipicamente alinhavadas com a direita há falta de compreensão em relação à deriva (isto àparte qualquer consideração sobre relevância ou competência).
Na Europa, o que vemos é ainda outra coisa: enquanto existia um bloco comunista que oferecia uma visão extremada da esquerda a opor-se à economia puramente liberal (ou libertária no jargão americano) da visão da direita (democrática) extrema, era normal a coexistência do centro-esquerda com o centro-direita. Com a falta da âncora comunista, a esquerda foi arrastada para a direita (quase como se fosse um jogo da corda político) e começou a adoptar políticas de direita. Perante a imitação e o original, o eleitorado optou pelo original.
Não é minimamente saudável faltar uma alternativa de esquerda ao eleitorado. Em Portugal, por exemplo, o PS não é de esquerda àparte alguns soundbytes (bitaites em bom português) lançados para o ar. Noutros países o centro-esquerda vai recuando e o seu eleitorado foge para os partidos que lhe estão mais próximos (centro-direita ou esquerda pura).
O único caminho para a esquerda (e consequentemente para uma sociedade equilibrada) é repensar correctamente os caminhos que se pretendem trilhar. Isto é válido essencialmente para o centro-esquerda, para a social-democracia, já que a esquerda pura tem valores e políticas muito bem definidas e bússolas bem calibradas. Até esta reflexão (que tem que ser profunda e ideológica, não apenas de forma) ter lugar, avançar-se-à de eleição em eleição em busca do próximo secretário-geral capaz de “herdar” o poder e que fará o mesmo que os seus antecessores da direita.