A Europa sem luta de classes


Luís Naves,

Vivemos num contexto pós-ideológico, em que o essencial se joga no pragmatismo do poder e dos interesses financeiros. Nas democracias, as políticas deixaram de ser de direita ou de esquerda, reflectem consensos contendo menos conflito entre classes. Aquilo que outrora foi a esquerda é hoje uma pálida sombra do passado. O comunismo deu origem a oligarquias corruptas com traços evidentes da antiga tirania. Nos países pós-comunistas, as diferenças sociais são escandalosas e as liberdades individuais continuam limitadas.

Por outro lado, nas democracias europeias, o socialismo quase desapareceu. Quando estão no poder, os partidos social-democratas aderem à ortodoxia liberal da suavização das leis laborais, do ajustamento orçamental, da redução da despesa social e da liberdade financeira. A explicação é evidente: nas sociedades industrializadas, as classes sociais esbateram-se, os operários têm boas condições de vida e a pobreza está limitada a grupos pequenos. O Estado social garante segurança para quase todos, mas exige níveis de impostos elevados, o que levou o eleitorado a defender o controlo mais apertado da despesa do Estado.

 

 

Portugal, como de costume, chegou tarde a esta transformação. Aqui, o Estado tem longa tradição de centralização. Além disso, do antigo regime ficou o vício das corporações, ou seja, grupos de interesses defendem com unhas e dentes o que consideram ser o seu direito a uma fatia do bolo orçamental. Até rebentar esta crise, antes da falência e do resgate, o dinheiro dos impostos permitia satisfazer clientelas bem instaladas. E, no entanto, se quiser controlar as contas públicas no futuro, a sociedade portuguesa terá de discutir a forma e a dimensão do Estado, o nível de impostos e a extensão da rede social. A classe política tenta fugir a esta discussão como o diabo da cruz.   

No resto da Europa, as escolhas foram feitas nos anos 80 e 90. Os aumentos de impostos são agora altamente impopulares. No sector da esquerda, a esperança de que existia uma terceira via nunca passou de ilusão e a única verdadeira renovação recente veio dos ambientalistas, que introduziram causas sociais e ambientais entretanto aceites pelas correntes dominantes. Os verdes fazem hoje parte do sistema e falharam por não terem uma alternativa ao capitalismo.

 

Na Europa, triunfou o conservadorismo da classe média. O antigo operariado foi absorvido nesse rio imenso e a pequena classe de excluídos, que equivale no máximo a 10% da população, nem sequer vota.

O recente voto de protesto europeu escolheu forças de extrema-direita ou partidos contrários a uma integração comunitária que o eleitorado pressente ser a grande movimentação do futuro. Há também grupos de indignados ou fenómenos mais raros como o Syriza, com irrepreensível retórica da esquerda tradicional, mas sem hipótese de criar um projecto de poder em países centrais.

A austeridade francesa ou italiana, executada por partidos ditos da esquerda, pouco se distingue das reformas efectuadas pela chamada direita espanhola, holandesa ou alemã. A integração europeia está a transformar-se numa gigantesca convergência política sem ideologia. É igual em todo o lado, faz o mesmo em todo o lado.

 

3 comentários em “A Europa sem luta de classes”

  1. Este post é bastante revelador do total desnorte político, intelectual e ideológico que grassa entre os arautos do “centrão político” que julgavam que o “fim da história” tinha mesmo chegado…
    Cada vez mais os supostos “analistas” do regime exibem a sua perplexidade, choque, surpresa e total ignorância face às dinâmicas políticas e sociais características desta nova fase do processo histórico em que nos encontramos.

  2. Boa reflexão Luís, que vem contribuir para vários ensaios na mesma direcção que muita gente na esquerda tem tentado. Eu diria que o Livre seria uma tentativa desastrada de fazer uma tal reflexão. Infelizmente estes debates à esquerda tendem a ser feitos nas urnas fragmentando o voto.

    Seja como for, penso que não se pode ter esta discussão sem referir um aspecto: a influência dos partidos cristão-democratas na construção do estado providência europeu.

    No espaço centro- e norte-europeu, a direito (ou centro-direita) colaborou na construção das estruturas sociais ao mesmo tempo que manteve uma mentalidade ligada à liberdade (ecónomica) individual. A social-democracia colaborou pelo lado do centro-esquerda frisando a estrutura colectiva mas tendo mais ou menos os mesmos objectivos no que ao estado social diz respeito. no sul da Europa viu-se mais ou menos o mesmo na Itália mas não em França, Espanha ou Portugal.

    Estes últimos casos foram peculiares porque tiveram as suas especificidades muito próprias. Em Espanha foi necessário agradar à direita que possuía as chaves do regime e que foi necessário cooptar para construir uma sociedade pós-franquista. Por isso mesmo, quando a social-democracia subiu ao poder, teve de manter uma relação mais estreita do que desejaria com a direita.

    Em Portugal vimos o caso oposto. A direita foi rejeitada como peste e isso levou a uma pouco saudável falta de reflexão política. A direita de então seria hoje considerada esquerda (Freitas do Amaral considera que nunca mudou de posição, mas passou da direita para a esquerda, indicando que foi a paisagem política que se moveu) e agora quando um governo implementa políticas mais tipicamente alinhavadas com a direita há falta de compreensão em relação à deriva (isto àparte qualquer consideração sobre relevância ou competência).

    Na Europa, o que vemos é ainda outra coisa: enquanto existia um bloco comunista que oferecia uma visão extremada da esquerda a opor-se à economia puramente liberal (ou libertária no jargão americano) da visão da direita (democrática) extrema, era normal a coexistência do centro-esquerda com o centro-direita. Com a falta da âncora comunista, a esquerda foi arrastada para a direita (quase como se fosse um jogo da corda político) e começou a adoptar políticas de direita. Perante a imitação e o original, o eleitorado optou pelo original.

    Não é minimamente saudável faltar uma alternativa de esquerda ao eleitorado. Em Portugal, por exemplo, o PS não é de esquerda àparte alguns soundbytes (bitaites em bom português) lançados para o ar. Noutros países o centro-esquerda vai recuando e o seu eleitorado foge para os partidos que lhe estão mais próximos (centro-direita ou esquerda pura).

    O único caminho para a esquerda (e consequentemente para uma sociedade equilibrada) é repensar correctamente os caminhos que se pretendem trilhar. Isto é válido essencialmente para o centro-esquerda, para a social-democracia, já que a esquerda pura tem valores e políticas muito bem definidas e bússolas bem calibradas. Até esta reflexão (que tem que ser profunda e ideológica, não apenas de forma) ter lugar, avançar-se-à de eleição em eleição em busca do próximo secretário-geral capaz de “herdar” o poder e que fará o mesmo que os seus antecessores da direita.

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