Atrocidades de guerra


Luís Naves,

Um avião comercial foi abatido por um míssil no leste da Ucrânia e morreram três centenas de pessoas, vítimas acidentais de uma guerra civil que não lhes dizia respeito. Até agora, o conflito era descrito em muitos artigos como opondo ‘ucranianos e russos’, o que permitia interpretações que desculpavam a evidente intervenção de Moscovo. Perante a nova atrocidade, a terminologia apaziguadora desapareceu de repente e isso diz alguma coisa sobre a forma como poderá evoluir a guerra.

 

Na realidade, as forças em confronto são o governo ucraniano e milícias separatistas pró-russas, que defendem o afastamento de uma parte do território (o Donbass) e a respectiva adesão à Rússia. A questão é um pouco mais complexa, pois há russófonos que não desejam a separação, mas estatuto federal ou de autonomia, sem partilha da Ucrânia. Parece ser essa a intenção de Moscovo. Por seu turno, o governo ucraniano resulta de eleições parlamentares, de protestos pró-democracia e de uma eleição presidencial que foi boicotada pelos separatistas, mas que se realizou na maior parte do território. Não faz sentido referir aqui divisões étnicas, embora exista divisão linguística, sendo que parte significativa da população é bilingue, falando russo e ucraniano.

A Ucrânia é um país reconhecido internacionalmente e a sua soberania está a ser posta em causa pela Rússia, que ocupou e anexou a península da Crimeia, sem qualquer motivo ou aviso. A anexação violou as leis internacionais e foi uma acção militar de carácter tipicamente imperial. Na altura, foram feitas comparações com o Kosovo, mas o facto é que quando foi anexada pela Rússia, a Crimeia estava em paz.

Entretanto, a Rússia deu apoio material aos separatistas do Donbass, cujas milícias atraíram combatentes estrangeiros: entre as actuais chefias, há russos anteriormente ligados aos serviços de segurança de Moscovo. Segundo informações independentes, nas regiões rebeldes ocorreram atrocidades contra civis que discordavam da violência. Em Sloviansk, por exemplo, estas milícias tinham prisões e fuzilaram pessoas acusadas de pequenos crimes ou por motivos políticos. Entre as suas vítimas, estavam jornalistas, activistas e autoridades eleitas.

A Rússia não chegou a ocupar o território do leste da Ucrânia, como se temia, mas forneceu aos rebeldes armas sofisticadas. Caso se prove que o avião comercial malaio foi abatido por um míssil disparado pelas milícias, Moscovo estará numa situação delicada. Nos meios de comunicação internacionais, a linguagem mudou de um dia para o outro. Agora, estamos perante uma agressão externa e as milícias deixaram de ser ‘russas‘ para serem de ‘separatistas pró-russos’, como aliás deviam ter sido descritas desde o início deste conflito.

Caso se confirme a origem separatista do disparo, a estratégia de Moscovo foi abatida em pleno voo. Agora, este conflito é um enorme embaraço para a Rússia e um motivo para sanções internacionais que vão isolar ainda mais o regime de Vladimir Putin. A opinião pública russa verá de forma crítica o apoio adicional aos rebeldes, que têm aqui uma oportunidade para se livrarem dos radicais que estão a conduzir toda a região para um beco sem saída. Se conseguir dividir os separatistas, o governo ucraniano pode tentar negociar um acordo político que permita encerrar o capítulo da violência.

A destruição de um avião comercial cheio de passageiros sem ligação a este conflito foi um crime chocante e uma barbaridade que não dá margem de manobra aos que pretendem continuar esta guerra civil fabricada. As manipulações propagandísticas, que pintam a Ucrânia como agressora, não fazem sentido. Kiev não pode perder o Donbass, pois ali está a sua base industrial. Além disso, as potências ocidentais estão irritadas com Moscovo e essa irritação vai aumentar depressa.

 

5 comentários em “Atrocidades de guerra”

  1. “Caso se confirme a origem separatista do disparo, a estratégia de Moscovo foi abatida em pleno voo. Agora, este conflito é um enorme embaraço para a Rússia e um motivo para sanções internacionais que vão isolar ainda mais o regime de Vladimir Putin.”

    Que ilusão do mundo actual. Você julga que o Ocidente consegue isolar a Rússia mesmo que quisesse? E não quer, Porta Helicópteros fabricados em França vão ser entregues…
    Julga que a China, Índia, Brasil vão fazer alguma coisa?

    Não parece conhecer ainda o que é jornalismo nacional/internacional e como continua a deferir para Moscovo direitos que mais ninguém tem.
    A Rússia é o único país que pode usar a violência e nos jornais se escreve para respeitosamente sobre violência.
    E além deste bias o Kremlin não treme com os estados de alma de jornalistas como um Governo Ocidental treme.

    “A anexação violou as leis internacionais”
    Mais, violou para começar os tratados que a própria Rússia assinou a quando da Indpendência da Ucrânia.

    Ou seja você analisa o caso pela sua referência cultural e aplicada a um Governo Ocidental.

  2. Infelizmente não vejo as coisas assim tão simples, nem o ocidente, sobretudo através da liderança alemã, está assim tão isento de culpas neste conflito, nem acredito que os russos e pró-russos de repente se solidarizem com os ocidentais por revanche a este abate de civis.
    Uma coisa é certa, a política e guerra na Europa já está a provocar mortes de civis de cidadãos na UE e isso é algo de novo desde da II guerra mundial.

    1. Agora a culpa é da Alemanha. Olha que surpresa…

      Novo? Terrorismo esquerdista durante décadas na Europa. Irlanda do Norte. O voo de Ustica, Lockerbie, atentados de Londres e Madrid. Balcãs.

      1. A culpa não é só da Alemanha, mas também, e enquanto só se vir culpas nos outros nunca a UE se corrigirá dos seus erros estratégicos. Nem na política de influências, nem na de economia para com os países periféricos.
        Balcãs, sim também a UE tem culpas e muitas, talvez não menores.
        Lockerbie foi fruto de um combate que extravasava a Europa e era mais liderado pelos EUA e Madrid depende, se for o 11 de março cai nesta ultima situação.
        http://cefariazores.wordpress.com/2014/07/18/o-conflito-da-ucrania-o-acidente-da-malaysia-airlines-reflexoes-para-a-europa/

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