Na brilhante Novela de Xadrez, a derradeira obra de Stefan Zweig, paira a ideia de que há matérias sobre as quais mais vale não falar. O narrador conhece um terrível segredo e a personagem do campeão é sinistra, ou seja, o mal triunfa e possui uma inteligência impossível de bater. O escritor austríaco viria a suicidar-se pouco depois de escrever esta novela.
Quando o xadrez era popular, os autores gostavam de usar este jogo como metáfora, mas o xadrez já não se joga. No império do espectáculo em que vivemos, tornou-se uma habilidade para máquinas. As pessoas que conhecem as regras praticam sozinhas: sou regularmente batido pelo meu computador e confesso que tento fazer ligeira batota, colocando o grau de dificuldade em mínimos humilhantes. A máquina não se importa e é implacável. Ela não possui emoções e eu enervo-me com a ausência de erros, fazendo movimentos estupidamente impulsivos. Se existe aqui uma sugestão é de que a humanidade está pronta para ser ultrapassada. Eu, pelo menos, já fui ultrapassado.
As metáforas do futebol são mais seguras. Este desporto ainda não tem máquinas e tornou-se global, inspirando histórias que as pessoas contam em numerosas variações. Por exemplo, esta:
No Natal de 1914, houve na Frente Ocidental umas tréguas informais entre soldados, sobretudo entre ingleses e alemães, com troca de presentes e confraternização na terra de ninguém. A guerra parou alguns dias em vários locais e conta-se que houve pelo menos um jogo de futebol anglo-germânico, que os oficiais interromperam com um bombardeamento (a imagem mostra um jogo entre ingleses, longe da frente). As tréguas são históricas, envolveram provavelmente mais de cem mil soldados, mas o jogo de futebol de Natal continua a ser considerado lendário, pois não existem imagens ou provas documentais de que tenha ocorrido, apenas testemunhos de sobreviventes.
É uma bela história, que merece ser verdade, das muitas que existem sobre este belo jogo. Por estes dias, temos o campeonato do mundo, que juntará mais alguns contos a esta narrativa sempre em construção. A proeza da Costa Rica, por exemplo, seria digna de adjectivos bíblicos e o guarda-redes americano certamente vinha de Marte. Também se devia mencionar o grande Di Stefano, que pertence ao panteão dos heróis deste desporto.
Nos últimos dias, temos aprendido sobre a importância do guarda-redes e a linha fina que separa a tragédia da glória. Os remates quase perfeitos, as defesas miraculosas, o pequeno receio que comprometeu o êxito, a hesitação interpretada como desistência, essa misteriosa componente da sorte, que alguns jogadores tentam atrair com rezas dirigidas aos deuses, os quais, pelo que consta, gostam deste desporto.
O mais notável tem sido o voo dos guarda-redes, mas há quem prefira a lei do mais forte, as quedas fingidas ou os jogos mentais dos tácticos, todos eles peritos em xadrez e que transformam atletas em peças com funções, aquele limitado a bispo, outro a rainha imperial, o terceiro um esforçado peão.
Tudo é também dissecado ao pormenor e, no final, ficaremos com novos mitos, todos eles recontados mil vezes, até já não recordarmos se aquela finta notável foi em certo jogo ou no anterior, se a defesa extraterrestre ocorreu no momento do triunfo ou antes. Anestesiados pelas emoções, poderemos concluir, como provavelmente chegou a pensar o narrador da Novela de Xadrez, que vimos aquele momento breve, de milagre, em que a ordem humana pairou sobre a opressão do mundo, tal como aconteceu naquela trégua lendária, em que o mal apesar de tudo acabou por triunfar de novo.


Comprei a Novela de Xadrez no último Natal, e à medida que ia lendo fiquei com aquela sensação de “déjà lu” e tive a certeza que já a tinha lido na juventude.
Li-a num ápice, é um daqueles livros imparáveis.
Quanto ao episódio do Natal de 1914, que eu desconhecia até ver o filme “Joyeux Nöel” do Christian Carion (nomeado para Oscar de melhor filme estrangeiro em 2006).
É realmente uma história extraordinária e um filme que deve ser visto.
Eu vi num daqueles dvd da série ípsilon, quem estiver interessado talvez ainda encontre.
Resumindo, gostei imenso deste seu post!
Antonieta
Muito bom.
Também sou fã de xadrez, mas ainda não percebi completamente o que mais gosto no jogo. De tempos em tempos, perco-me nos jogos online.
É sempre algo frustrante, porque dificilmente sabemos se estamos a jogar contra uma máquina disfarçada de humano.
A sistematização do xadrez irrita-me, mas por outro lado, não deixo de enfiar os truques sistemáticos, para ver se cai.
O que mais gosto mesmo, é quando se gera uma situação de equilíbrio, e por momentos basta uma intuição certa, e segue-se uma sequência fantástica de lances… quase como se tivéssemos previsto tudo aquilo.
Imagino que o adversário pense nessa altura que estava a jogar com uma máquina.
Mas deixei de me interessar quando precisava de saber as múltiplas variantes de todas as aberturas principais. Prefiro errar até aprender, do que assumir algo como certo.
É engraçado, porque ainda ontem estive a ver um vídeo do Seventh Seal, do Ingmar Bergman, em que a Morte joga xadrez com um Cruzado.
De facto, os generais franceses e alemães na 1ª Guerra andaram praticamente a jogar xadrez com os batalhões, que iam visitando a Morte em cada jogada.
Uma coisa que me irrita especialmente nos franceses, e que não é nada comparável aos britânicos, é a glorificação da 1ª GG, como se houvesse alguma glória em tanta chacina.
Há um ponto muitíssimo importante, e para o qual a humanidade não foi minimamente educada em condições… e tem a ver com o xadrez.
É sempre preciso saber se estamos a lutar contra máquinas, ou contra humanos.
Porque, estupidamente, por regras inquestionadas, é habitual ver muita gente seguir o percurso do peão que quer ser promovido a rainha, sem perceber que tudo isso serve apenas parte de um jogo muito mais complicado, do qual são apenas peças, e cujo significado lhes escapa por completo… até ao rei.