Cadernos de um enviado especial ao purgatório (15)


Luís Naves,

Este barómetro publicado pelo jornal El País mostra a recuperação instantânea dos socialistas espanhóis nas intenções de voto, consequência da nova liderança de Pedro Sánchez, que foi eleito há um mês. Aparentemente, o PSOE subiu quase 50%; e, mesmo que seja menos, a recuperação é impressionante, mostrando de novo a tendência para a bipolarização. À excepção do PSOE e do PP, todos os restantes partidos caem, incluindo o movimento Podemos, que mesmo assim fica em terceiro, com 10,7%, ou o UPyD, que não descola. A situação em Espanha não tem a gravidade da portuguesa, mas este é um bom indicador de tendências, pois os dois países tendem a imitar-se. A recuperação económica parece demasiado lenta e ainda incerta. Curiosamente, lá como cá, existe modesta criação de emprego com taxas de crescimento baixas, o que sugere um efeito positivo das reformas, mas esse efeito pode ser tardio. A lição mais importante da sondagem é a que resulta da ‘limpeza do passado’ que os partidos tentam fazer. Se António Costa vencer as primárias do PS, o efeito de novidade será talvez mais importante do que foi com Sánchez. Em vez de empate, teremos os socialistas perto da maioria, a poderem governar com um ou dois movimentos populistas da esquerda, por exemplo, com Marinho Pinto e o Livre. O desvio de eleitores para as franjas será provavelmente menos acentuado e, neste cenário, a Direita precisará mesmo de apertar os cintos de segurança.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (14)


Luís Naves,

A arte deixou de ser importante na nossa vida, ela está ligada ao entretenimento, é decorativa e superficial.

A literatura morreu, pelo menos a parte exigente, pois a escrita de ficção está a tornar-se numa forma de reflexão sobre o imediato, mais próxima da crónica ou do jornalismo, que não podem mentir. Assim, ao perder universalidade, a literatura torna-se banal e servil. O escritor não pode prescindir da imagem pública, é um actor, e o romance não deve ser demasiado incómodo ou nem verá a luz do dia. Na escrita que sai das gavetas falta autenticidade e capacidade de resistir à passagem do tempo. Os leitores desistiram. Os estados de alma pós-modernos incluem anestesia geral e as pessoas já nem querem ler algo que perturbe a sua insónia, preferem traduções de livros inócuos.

O cinema é um exercício da indústria, como o fabrico de um automóvel, mas que recorre a capital de risco; complexo, sem dúvida, com exigências estéticas e técnicas, mas que sai de uma fábrica. Hollywood matou tudo o resto. A pintura é efémera e a música aproximou-se da complexidade, já suficientemente incompreensível para que possa em breve ser feita por computadores. Ninguém dará pela diferença.

A arte tem medo do risco, dispersa-se na vastidão dos pequenos eventos, na diversidade das experiências humanas e da linguagem, submete-se ao poder dos negócios, da moda e do falso exótico, reflectindo uma sociedade que declina para a irrelevância.

Navegações


Luís Naves,

Neste texto, Luís Rocha escreve o essencial sobre a actual crise financeira. O autor de Blasfémias revela uma capacidade de análise que vai faltando na blogosfera.

Sobre as perspectivas de Marinho e Pinto, o comentário de Mr. Brown e esta análise de Luís Moreira, em cheio no alvo. O populismo e a imprensa fazem um excelente casamento em momentos de crise e ainda veremos o ex-eurodeputado como fiel da balança do sistema político ou com votação que evite o bloco central.

O cenário que se avizinha está bem observado por Francisco Seixas da Costa, num texto que li depois de ler o post de Luís Moreira. O autor de Duas ou Três Coisas não é apenas bom prosador, mas também um atento cronista. Concordo com a sua conclusão sobre a direita portuguesa, que não deve ter ilusões sobre a derrota que a espera. Falta tempo, é certo, mas a distância entre o poder e o povo tem apenas aumentado. Este governo foi incapaz de explicar o que fez e por que razão.

E, finalmente, Desvio Colossal, de Pedro Pereira Romano, que tem sempre informação preciosa. Olhem com atenção para os dois gráficos. Será assim tão boa ideia uma viragem à esquerda?

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (13)


Luís Naves,

Um Homem Muito Procurado é o mais recente filme baseado num romance de John Le Carré. Ainda não vi, mas espero que faça justiça à obra literária e a escolha do falecido Philip Seymour Hoffman para o papel de Gunther Bachmann parece garantia de qualidade. Na complexa geopolítica de John Le Carré, este é o romance da guerra contra o terror, com uma curiosa legião de perdedores, incluindo o banqueiro desiludido, o fugitivo com problemas de identidade, a advogada idealista e o espião à moda antiga desadaptado à nova ordem, que parece calhar a Hoffman como uma luva. Le Carré consegue casar a guerra fria e o extremismo islâmico, mas a sua teia de intriga leva-nos aos territórios pantanosos da rivalidade internacional e da alta finança. Em música de fundo, o desconhecimento ocidental sobre os movimentos radicais islâmicos, com críticas ácidas à estratégia americana na chamada luta contra o terror. Temo que o filme possa menorizar a notável figura do banqueiro, Tommy Brue, personagem repleta de subtilezas, que enfrenta conflitos interiores difíceis de explicar em cinema, mas que o romancista transforma numa complexa filigrana de motivações pessoais e procura da redenção. No fundo, o banqueiro e o “terrorista” têm dois pontos em comum: a sombra do pai e a atracção impossível pela advogada. O jovem Issa Karpov, o homem muito procurado, vem da Chechénia, território que curiosamente deixou de ser notícia, mas onde a Rússia fez uma cruel defesa do seu império, radicalizando a população islâmica. Le Carré, um mestre da narrativa, é também um profundo conhecedor deste conflito. Os filmes baseados na sua obra costumam ser bons, mas os enredos são complexos e têm muita informação, o que não se compadece com a linguagem de Hollywood e o ritmo da hora e meia.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (12)


Luís Naves,

Escrevo “a situação não é tão má como a pintam” e logo surgem comentários que me atribuem a frase “a situação está a melhorar”. Os comentadores reagem de forma ofendida e enumeram exemplos de calamidade, como se eu negasse que a crise esteja na origem de muitos dramas na sociedade portuguesa. Nunca defendi essa ideia, nem poderia defender.

O meu País vive dentro de um fado triste, preso ao seu destino trágico. Não havia alternativa à mudança, mas tentar desfazer o mito da desgraça colectiva é um gesto condenado a esbarrar num muro de convicções. Durante três anos, foi criado um ambiente negativo que visava, de forma objectiva, limitar a extensão das reformas estruturais. No caso BES, as autoridades actuaram de forma aparentemente eficaz (foi evitado o colapso geral), mas a culpa foi de imediato atribuída ao governador do Banco de Portugal e ao Governo, os mesmos que estão a resolver o problema.

Quem tenta mudar o sistema costuma enfrentar dificuldades inesperadas, pois actuar contra os interesses que dominam a nossa sociedade tem elevados custos de reputação. Apesar de saber isso, estou surpreendido com a violência dos ataques ao governador do Banco de Portugal. 

Os acontecimentos dos últimos dias mostram que existe desta vez uma diferença: depois de conduzirem o ajustamento, os parceiros europeus estão a alterar também o nosso capitalismo da treta. Ao longo da sua História, Portugal viveu crises regulares seguidas de longos períodos de cristalização dos regimes políticos, que apodreciam na árvore. Esta estranha forma de vida acabou. Na actual crise, está a ser tentada a via reformista e pretende-se que, no final da transição, o País seja mais europeu. Os interesses instalados tentam contrariar as reformas e convencer a população a resistir à mudança. Eles sabem que a manipulação da percepção da realidade é a mais eficaz continuação da política.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (11)


Luís Naves,

Com inteligência e simplicidade, o escritor espanhol Enrique Vila-Matas coloca neste texto um problema importante das redes sociais contemporâneas. Estas tendem a afastar o pensamento original e promovem a normalização da opinião publicada. Ali prevalece um comportamento de tribo, de ‘nós contra eles‘, onde qualquer diferença é hostilizada verbalmente. De facto, perde-se demasiado tempo a explicar o que nos parecia ser claro, a desmentir o que não se escreveu, a repetir ideias evidentes, a ser ignorado ou atacado por outros autores. O pior é que este espírito das redes sociais alastrou ao jornalismo dito de referência e dá trabalho remar contra a maré das opiniões pré-fabricadas e dos freios intelectuais. Em Portugal, tornou-se quase impossível dizer que a situação do País não é tão desesperada como a pintam. Nas redes sociais, essa afirmação implica insultos imediatos, leituras enviesadas e a reputação destruída. Muitos autores não estão para isso e desistem, pelo que se agrava a tendência para certa limitação à liberdade de expressão, que alguns parecem aceitar sem problemas.    

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (10)


Luís Naves,

Leio a imprensa e a blogosfera já sem qualquer surpresa. Hoje, em poucos minutos, encontrei uma dezena de textos sobre o fim da nação. Depois, fiz a leitura dos jornais internacionais, onde se avoluma alguma preocupação com o conflito ucraniano e os efeitos das sanções à Rússia, mas sem que um único escriba reparasse que este pequeno país chamado Portugal deixou de existir.

Uma pequena pergunta: o que aconteceu à sociedade portuguesa?

 

O fracasso do governo

Este Governo nunca quis e nunca soube conduzir a opinião pública. Foi o seu maior erro, pois não se transforma um país sem convencer as pessoas. O resultado foi a opinião publicada mais pessimista do universo e uma sociedade cuja elite não aceita a transformação em curso, embora não exista alternativa razoável a essa mudança. Depois, ouvimos os nossos amigos e a vida é sempre uma profunda desgraça (quando escavamos um bocado, a deles vai razoavelmente bem). Uma amiga deu-me uma boleia num carro caríssimo e foi o caminho todo a cascar na situação: Portugal afundava e ela guiava um carro caríssimo.

O caso BES é brutal. As notícias sobre o tema têm saído em pequenas doses homeopáticas e só hoje percebi que os pequenos accionistas do BES viram o seu investimento preservado (embora continuem a fugir da bolsa).

A comunicação governamental desta crise tem sido de uma perfeita imbecilidade, à excepção da excelente entrevista da ministra das Finanças. Aliás, gostava que alguém me conseguisse explicar a lógica de uma coisa destas ser anunciada de véspera por um comentador político e ainda não consegui perceber o que acontece ao fim de dois anos, pois quando a ministra ia dizer, o jornalista interrompeu, para fazer uma pergunta ao lado. Não admira que os investidores estejam nervosos, ninguém informa, anda tudo a banhos.

Há quem escreva que a bolsa, afinal, não existia. Outros críticos sugerem, sem o afirmar, que Portugal nem sequer tem condições para cumprir a lei em vigor na união bancária, quanto mais permanecer na zona euro. Em matéria de finanças públicas, é tudo insustentável: a dívida, que devíamos reestruturar; a austeridade, que devíamos anular; os cortes na despesa, que devíamos inverter.

Enfim, teremos talvez de continuar a manter os interesses especiais e o capitalismo da treta. A única saída que resta neste labirinto é mesmo o abandono da zona euro e o regresso ao escudo. Julgo que isto explica muitas das críticas que leio à própria União Europeia, essa coisa que para as elites nacionais passou a ser ineficaz, egoísta e nula. 

 

Um país bipolar

Em Espanha, a imprensa é geralmente favorável à transformação necessária. Em Portugal, o contraste é evidente: os telejornais têm duas partes: a primeira é uma desgraça, com os cortes, as cabazadas ao Benfica e os protestos de funcionários públicos. Introduzi o Benfica a martelo, mas é um bom exemplo: uma equipa que ainda não fez nenhum jogo a sério já perdeu tudo.

Uma jornalista famosa chegou a confessar-me um dia que nem sempre escrevia o que pensava, pois isso era mal interpretado e perdia leitores. Por isso, suavizava algumas opiniões, tornando-as mais pessimistas.

Talvez isso explique que as informações positivas sejam transmitidas de forma a que pareçam mais negativas. No outro dia fiz uma experiência neste blog, publicando um pequeno post com uma frase verdadeira e uma ironia provocatória. Fui acusado por vários comentadores de ser propagandista. Ninguém reagiu à ironia, mas à informação verdadeira. Os comentários foram de extrema violência, pois a informação negava todos os mitos e, como sabemos, não é popular desafiar mitos entranhados. A verdade é primeiro propaganda, depois relativizada em análises que olham o copo meio vazio, por fim passa em nota de rodapé.

Na segunda parte dos telejornais, passamos do inferno ao paraíso, vamos a banhos e temos as melhores praias do mundo, as melhores pousadas, a melhor gastronomia, as melhores maravilhas naturais, entrevistas a turistas queimados como lagostas e que parecem extremamente satisfeitos, desportos de beira-mar e hotéis repletos, festivais de verão com a mais recente vedeta do pop mundial, piscinas e festas de glamour. O único problema visível é uma sombrinha no céu, que anuncia um pouco menos de insuportável calor.

É este país bipolar que parece incapaz de perceber a mudança em que vive. Um país que era governado por corporações e por um punhado de famílias, que terá, daqui para a frente, de se governar sozinho. 

 

Dois pesos e duas medidas


Luís Naves,

Pessoas que há uma semana defendiam a tese da responsabilidade colectiva do povo português pela dívida pública defendem agora que os accionistas do BES não podem ser responsabilizados pela dívida contraída pelo seu banco. Estes autores acharam no passado que os portugueses são colectivamente culpados pelos gastos excessivos e o modelo errado e, se isso implicava austeridade por vinte anos, pois então que assim acontecesse. Por milagre, estas regras já não se aplicam aos accionistas de um banco que, dizem, foram ‘enganados’.

A excepção é estranhíssima. Estes autores querem uma solução que não passe por austeridade durante vinte anos. A solução europeia não serve, por fazer uma ‘expropriação’, afirmam, embora não expliquem como é que se expropria massa falida. 

Há também a tese de que é injusto ser a banca a pagar. Esta tese não resiste a vinte segundos de análise: o BES estava à beira do colapso e este teria forte impacto no valor dos restantes bancos; se houvesse corrida aos depósitos e o sistema não actuasse, haveria pânico e colapso geral. Os bancos que pagam o fundo de resgate estão a defender os seus interesses. A Europa empresta o dinheiro, pois também é do seu interesse, e os accionistas perderão quase tudo, muitos deles injustamente, mas isso também se aplica a cada português que pagou o ajustamento. Não há almoços gratuitos.

A curiosa intolerância dos liberais


Luís Naves,

 

A direita liberal é curiosamente intolerante, como se constata neste texto. Trata-se de um dos grandes enigmas da política contemporânea: quanto mais as pessoas se reclamam da liberdade, mais se insurgem contra a liberdade dos outros, neste caso a liberdade dos contribuintes de não pagarem pela estupidez alheia.

Alguém obrigou os accionistas do BES a comprar as acções cujo valor agora se perdeu? Os investidores tinham de investir daquela forma? Mas as pessoas que compram acções desconhecem os riscos?

E qual era, para o autor, a alternativa? Suspender o negócio, avançar para a falência total, prejudicando incontáveis empresas e empregos, prejudicando todos os outros bancos? O facto é que o BES já não tinha crédito em lado nenhum, ia rebentar na segunda-feira, com uma corrida aos depósitos. Era preciso agir.

Nunca percebi esta alegada direita portuguesa. Neste caso, foi aplicada a legislação europeia, cujo objectivo é evitar o colapso do sistema financeiro minimizando os custos potenciais para os contribuintes. O Banco de Portugal podia ter feito de outra forma? É evidente que não podia. Limitou-se a aplicar uma fórmula que estava politicamente definida pelos líderes europeus, usando dinheiro que tinha sido fornecido pela troika exactamente para auxiliar bancos em dificuldades. Estas são as novas regras da zona euro, estão em vigor, no âmbito da emergente união bancária.

Os accionistas do BES foram enganados? Recorram aos tribunais, como faz qualquer cidadão que seja burlado. 

Se a direita não explica o que pretendia fazer, também se verifica que a esquerda reagiu a este caso com extrema dificuldade. Os partidos mais à esquerda saíram logo aos tiros, mas sem explicarem como teriam feito; os socialistas têm o contraste do BPN, afinal ainda estamos a pagar essa brilhante factura. António Costa ficou calado (até agora), não sei a razão, talvez estas questões sejam de lana-caprina. Enfim, as críticas que tenho lido são quase incompreensíveis: como é que se fazia? Agia-se fora da legislação comunitária? Deixava-se cair o banco e provocava-se um colapso económico no País? 

A intolerância dos chamados liberais com tudo o que seja noção de Estado forte ou intervenção de bom-senso dá para pensar. O autor que citei mais acima até pretende viajar para longe (ainda bem que pode) só para não ter de votar neste Governo. Tem a liberdade de o fazer, mas teria sido melhor acompanhar a revolta com uma pequena explicação sobre o método que devia ter sido usado para salvar os depositantes, salvaguardar os trabalhadores e a economia, sem prejudicar os contribuintes.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (9)


Luís Naves,

Havia três possibilidades: o BES falia e verificavam-se perdas monstruosas; alguém generoso comprava o banco; ou era aplicado um resgate. Sendo impossíveis as duas primeiras, o País foi conduzido para a terceira hipótese e, pela primeira vez, as novas regras europeias foram usadas no salvamento de uma instituição financeira.

Este é o aspecto que mais me espanta nos comentários que tenho lido e ouvido sobre o caso BES e o aparecimento do Novo Banco: os analistas evitam referir que a solução aplicada é europeia e o dinheiro vem da troika; que foi tudo negociado com a Europa, com apoio do BCE, onde o Banco de Portugal tem assento; que o dinheiro é um empréstimo temporário e remunerado; que a forma deste resgate estava escrita numa lei europeia em vigor.

No final, é bem possível que o contribuinte perca dinheiro, mas primeiro pagam os accionistas e os credores que arriscaram. A alternativa a esta intervenção era o estoiro puro e simples de um banco enorme (para a nossa dimensão), o que seria uma catástrofe económica sem precedentes.

Também me espanta a reacção partidária, sobretudo a reacção apressada do Bloco de Esquerda. À primeira pergunta (então, o que se fazia aos depósitos?), a líder do bloco começou a patinar. Os críticos desta opção têm de explicar muito bem qual era a alternativa. Como é que se salvava o banco sem aplicar a lei comunitária, em grande parte imposta pela Alemanha?

Um mito persistente afirma que a Europa é irrelevante, mas este caso prova que a zona euro começa a ter uma união bancária e mudou por completo a lógica da integração. Antes do resgate, um pequeno banco português estoirou e foi possível ao governo salvar os seus accionistas, pagando várias vezes as loucuras que tinham sido feitas (ainda estamos a pagar a conta). A intervenção seguinte, sob ajustamento, envolveu dinheiro da troika que está a ser devolvido, mas foram preservados os interesses dos accionistas e a solução leva tempo. Agora, havendo igualmente um empréstimo temporário, as regras são bem piores para os accionistas. O interesse dos contribuintes e dos depositantes conduz toda a operação, que será muito mais rápida. 

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (8)


Luís Naves,

Nos momentos em que tudo corre mal, aparecem comentários que comparam eventuais erros e omissões ‘à orquestra do Titanic’. Em certos textos, critica-se que a música continue, de forma imperturbável, exemplo de estupidez e inutilidade. Assim, lemos frases deste género: ‘O barco afundava e havia quem fizesse como a orquestra do Titanic, continuando a tocar’. As melhores prosas acrescentam detalhes de incompreensão da realidade e, além da vertigem do erro, existe igualmente uma espécie de loucura ou tolice.

No entanto, esta é uma péssima utilização de um episódio verídico. Se existe lição a extrair da orquestra do Titanic é a da espantosa coragem de oito músicos que, durante o afundamento do grande paquete, em 1912, continuaram a tocar até uma fase avançada do naufrágio: muitos sobreviventes afirmaram ter ouvido música mesmo nos instantes finais da catástrofe.

Não se sabe ao certo o que levou estes músicos a tocar até ao fim. O que se sabe é que todos ele morreram, embora não fizessem parte da tripulação e estivessem no navio com estatuto de passageiros (podiam tentar salvar-se). A intenção de acalmar os outros náufragos é conhecida, pois o chefe do grupo dissera que teria essa atitude em caso de naufrágio. Não sabemos como convenceu os restantes membros da orquestra, mas percebemos que tocar até ao fim não foi uma decisão estúpida ou inútil, mas uma escolha nobre e de grande valentia, que salvou vidas.

Nas crises, nunca é problema a existência de uma orquestra do Titanic, que continua a tocar até ao fim, sabendo que vai pagar o grande preço. Pelo contrário, o problema é a sua ausência, o salve-se quem puder, a corrida aos botes, o pânico e a cobardia.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (7)


Luís Naves,

Num dos primeiros grandes filmes da nouvelle vague francesa, Les 400 Coups, dois rapazes roubam uma fotografia da actriz sueca Harriet Andersson, num cinema onde passa o filme de Ingmar Bergman Monica e o Desejo. A película de François Truffaut, de 1959, em português Os 400 Golpes, contava a história de um adolescente e da sua busca da liberdade, mas a narrativa semi-autobiográfica usava uma nova maneira de abordar as personagens, sem lhes atribuir motivações evidentes, ao contrário da norma nas produções de Hollywood. Em resumo, a nouvelle vague utilizava um realismo próximo da vida, onde a acção era menos previsível e a complexidade das personagens mais elaborada. A arte continuava a enganar os sentidos, mas de maneira subtil. Podemos tentar explicar o motivo do furto da fotografia, homenagem ao mestre sueco, a um filme brilhante, a uma actriz devastadoramente bela, piscar de olho ao cinema europeu, anúncio de ruptura estética, o que quisermos, pouco importa, é um roubo justificado. Truffaut consegue um pequeno momento transcendente e a ligação com todos os rapazes que também um dia sonharam em roubar a fotografia de Mónica e o Desejo. Foi esta magia que se perdeu no cinema contemporâneo. Agora, não há segredos nem minúsculas preciosidades praticamente ocultas, que cabe a cada um de nós encontrar e decifrar; não há poesia, apenas citação.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (6)


Luís Naves,

Em Bloguítica, Paulo Gorjão defendera esta escolha muito antes dos outros. Carlos Moedas tem tudo para ser um bom comissário europeu. Infelizmente, tirando alguns exemplos de lucidez, o debate político gerado pelo anúncio deste nome insiste na pobreza habitual, que em vários casos revela desconhecimento do próprio funcionamento interno da União Europeia. Há pessoas que imaginam uma Europa que não existe e, por isso, continuam a não perceber a realidade. Como diria Robert Heinlein, “a vida é o que é e não perdoa a ignorância”.

O que mais me espanta, neste caso, é o argumento de que devia ter sido escolhida uma mulher e, de preferência, uma mulher socialista; a pasta atribuída ao país seria assim muito melhor. A ser verdade, isto era inadmissível, pois os comissários são escolhidos pelos governos. Existe negociação, é certo, envolve o perfil das pessoas e as suas competências, mas esta é uma atribuição dos Estados. A imposição de um perfil seria mais um passo no sentido do directório. Ninguém imagina o presidente da comissão a fazer este número com a chanceler Merkel: “envie uma mulher e recebe uma pasta melhorzinha”.

O novo presidente da Comissão, Jean-Claude Juncker, acha que é inovador, a ponto de considerar que as eleições europeias lhe davam legitimidade para o cargo, e agora queria inovar em matéria de comissários, estabelecendo quotas para género e eventualmente para credos religiosos, minorias étnicas e outras novidades. Portugal recebia um doce se enviasse uma mulher, mas apesar dos abracinhos e beijinhos, isso não era bem assim, a negociação foi mesmo sobre lugares para os países: os grandes ficam com as pastas importantes e os outros repartem o que sobra.

Os socialistas portugueses, em campanha interna, aproveitaram a escolha de Moedas para agitar o consenso europeu e defendem uma tese do outro mundo, que devia ter sido escolhida uma mulher socialista, embora o governo seja de centro-direita e tenha disponível uma pessoa competente da sua área política.

Os que criticam Passos Coelho por alegada submissão aos poderes da Europa são afinal os mesmos que queriam ver o Governo português a ceder a uma sugestão que certamente nunca foi feita aos Estados mais fortes da UE: “se mandarem uma mulher em vez de um homem, a vossa pasta é muito melhor”.  

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (5)


Luís Naves,

O capitalismo não aprendeu nada com a crise financeira de 2008. Pelo contrário, parece mais à solta, com as suas loucuras aplaudidas desmioladamente pela ortodoxia da liberdade dos mercados e os polícias sinaleiros do costume.

Um fundo chamado Elliot Management, controlado pelo milionário americano Paul Singer, comprou dívida argentina a preço de saldo e agora exige o pagamento total da dívida (entretanto reestruturada), tendo convencido um tribunal federal americano a suportar a exigência, apesar de haver um acordo com a maioria dos credores e da questão obedecer ao direito argentino.

Em resumo, Singer comprou abaixo de 170 milhões de dólares e quer agora receber 1,5 mil milhões, usando chantagem (o governo argentino fala em extorsão) sobre um país com 40 milhões de habitantes. O Fundo Elliot Management teve margens de lucro anuais médias de 14% desde 1977 (mas o que produzem? como é que isso é possível?), tendo esfolado países inteiros: pelo menos Peru e Congo pagaram a conta com margens que a Argentina não quer pagar.

A situação será provavelmente resolvida nos próximos dias, mas Buenos Aires arrisca-se a entrar em default e as tentativas de negociar a questão a nível governamental mais elevado estão a deparar com fortes críticas da direita americana. Aliás, Paul Singer é um republicano da corrente libertária que defende regulação nula dos mercados. 

Fundos financeiros com  centenas de funcionários compram dívida barata e levam ao chão países inteiros, para garantirem lucros de mil por cento, já que não lhes chega 300 %. Com a decisão do tribunal que apoia estas práticas, o poder fica todo na mão dos credores. A Argentina não é o Peru e a Europa não é a Argentina, mas o facto é que Buenos Aires está há dez anos fora dos mercados financeiros e dificilmente aceitará o preço político desta factura. O seu desafio já popularizou a expressão ‘fundos abutre’, que têm em Portugal outro potencial alvo. Como demonstra este caso, como mostra a situação do BES, o mundo das finanças não precisa de menos regulação, mas de mais regulação. Alguns capitalistas têm ganância fora de controlo e ameaçam criar nova crise, ainda pior do que a anterior. Não pode ser o poder financeiro a regular o poder dos Estados. Tem de ser ao contrário.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (4)


Luís Naves,

Carl Von Clausewitz defendia a doutrina de guerra incisiva, na qual a população do inimigo tinha de ser submetida às necessidades políticas dos beligerantes. Esta tese tornou-se dominante no século XX, sobretudo durante as duas Guerras Mundiais, onde os exércitos invasores executaram acções brutais contra populações civis. Segundo se pensava, impor o terror era uma das formas de vencer, mas na prática isso apenas aumentou a resistência, dificultando a vitória.

A forma violenta como o exército israelita está a lidar com a situação em Gaza aponta para um exemplo clássico da estratégia de Clausewitz: guerra curta, tácticas que não poupam populações, a intenção de esmagar a liderança política, neste caso, do Hamas.

Em 1804, ao saber do assassínio do Duque de Enghien (fuzilado de noite, de forma impiedosa, com uma lanterna ao peito) o ministro da polícia de Napoleão, Joseph Fouché, afirmou para a posteridade: “Pior que um crime, é um erro”. A frase é cínica, mas aplica-se ao que Israel tenta fazer na Faixa de Gaza. A brutalidade contra populações civis só vai radicalizar o Hamas e aumentar a simpatia da opinião pública por este grupo radical. Haverá vítimas inúteis em maior número e um ciclo de violência mais prolongado. Em vez da submissão, apenas se encontrará resistência redobrada.

O Hamas pode ser esmagado, mas se isso acontecer, vão crescer como cogumelos novas organizações ainda mais radicalizadas. Os EUA, que fornecem as munições, terão dificuldade em manter as suas alianças no Médio Oriente. Em Israel, um quinto da população é árabe, mas alguns políticos extremistas israelitas defendem um Estado exclusivamente judaico, há até quem queira a expulsão de cidadãos.

De facto, pior que um crime, tudo isto parece ser um monstruoso erro.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (3)


Luís Naves,

Nas redes sociais encontram-se textos muito violentos contra Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Sousa Tavares, por nenhum deles ter condenado publicamente o banqueiro Ricardo Salgado. São variações de um artigo do cómico João Miguel Tavares, que insistia na mesma tecla: devido às suas ligações de amizade, os dois comentadores recusaram criticar em público o amigo banqueiro. Portugal procura um bode expiatório para os seus problemas e já escolheu aquele que serve às mil maravilhas. Quem no passado opinou que Ricardo Salgado tinha charme (rigorosa verdade) é agora insultado nas redes sociais e equiparado a traidor da Pátria. Os comentadores que evitaram falar do seu amigo, esses, embora revelassem carácter, são agora fustigados por alegada omissão. E depois surgem os heróis que ninguém viu, mas que agora reivindicam denúncias corajosas. Repito: um comentador ou jornalista que evita falar dos seus amigos revela dignidade. Marcelo Rebelo de Sousa e Miguel Sousa Tavares evitaram criticar o banqueiro Ricardo Salgado, avisando que não se pronunciavam devido à ligação que tinham com ele. Compreendo: também não critico os meus amigos em público. Aliás, este problema da amizade em contraste com a verdade pode ser levado mais longe: em última análise, um comentador teria de vergastar publicamente as pessoas que ama. Toda a gente tem defeitos e, levando a tese ao absurdo, sendo a crítica um dever, o hipócrita terá a suprema obrigação de lançar a primeira pedra. Vivemos nos tempos do purgatório, ninguém pode ter amigos e há até quem se gabe de não os ter.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (2)


Luís Naves,

Evito escrever sobre questões internacionais, mas não é falta de assunto, é perplexidade. As revoluções árabes falharam quase todas, com particular estrondo no Egipto, e nasceu um califado no Iraque a na Síria (imagine-se, um recuo de mil anos). A civilização ocidental entrou numa fase estranha, incapaz de controlar os excessos ou de reduzir um sistema de consumo que ameaça a estabilidade do próprio clima do planeta. Alguns Estados caem fora do ninho e condenam-se à extinção; há milhões de pessoas sem qualquer futuro visível. E esta exclusão também ocorre dentro dos países chamados ricos, onde as desigualdades podem destruir democracias construídas com labor e sacrifício. Muitos pobres ficarão no exterior das classes consideradas humanas e, assim condenadas à pobreza e à incultura, deixarão simplesmente de existir, ignoradas por meios de comunicação obcecados apenas pelo espectáculo. O capitalismo é insaciável. Cada um fecha-se nas suas razões: estamos a construir um mundo de condomínios privados que bombardeiam faixas de gaza

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (1)


Luís Naves,

Não se pense que é tudo mau por aqui. Temos sol e certa tranquilidade, obesos e diabéticos, mulheres bonitas, bronzeadas, o céu azul-marinho, a brisa meio envergonhada, sopa de marisco e novela da tarde, craques de futebol comprados nos saldos, ex-banqueiros a afundar a bolsa, pessimistas no comentário matinal, jornais sem notícias e o país sem pressa, porventura está um poucochinho de calor, a procissão sai ainda do adro e requer certa paciência na calma. Aqui é tudo verde e sedoso, prolongado e contido, cheio de esperança, mas nada de especial, sempre à espera não se sabe bem de quê. Que o tempo passe, talvez, que tudo escorregue sem passar, que o comboio chegue. Há quem esteja pior, nem a dormir nem acordado, preocupado com a mera preocupação, não sendo infecção nem alergia, mas estado de alma em fase aguda. Aqui, onde me encontra o crepúsculo, posso afirmar, com a certeza típica de um enviado especial que entrevistou a sua dose de taxistas: este é o País mais banal do mundo.

 

Incerteza


Luís Naves,

Na sociedade portuguesa instalou-se um mal-estar que está a levar os políticos a ensaiar a fuga para a frente, feita de promessas que não poderão ser cumpridas. O País empobreceu e está crivado de dívidas que não consegue pagar. Os Portugueses adquiriram uma profunda noção de humilhação nacional e o pior é que a doença não passa, os sintomas não aliviam, gritam-se diagnósticos alucinados.

O clima de incómodo insustentável não se limita a dividir a sociedade, mas cria na vida uma sensação de falta de soluções. Portugal tem hoje uma política mais crispada, crescente descrédito das instituições e da democracia. Já ninguém discute o futuro, pois ninguém acredita que ele exista. O declínio parece irreversível.

O País continua a enfrentar problemas recorrentes. As crises do último século estiveram ligadas a desequilíbrios orçamentais ou problemas financeiros com base em incerteza nas contas públicas. Foi o que nos afundou também desta vez e é o que ninguém deseja debater de forma séria.

No actual regime democrático tem aumentado a estabilidade do sistema (os governos parecem sobreviver mais tempo), mas no passado, quando se deparou com crises difíceis, Portugal escolheu caos ou ditadura, matando à nascença qualquer ímpeto reformista.

Não teremos contas públicas equilibradas sem a reforma corajosa do Estado Providência, mas se todos os nossos problemas forem encarados como enigmas insolúveis, não haverá saída. O mal-estar pode conduzir ao impasse, levar a escolhas erradas, populismo ou revolução, que implicam o isolamento do País e a sua condenação à pobreza por muitas décadas.