O fracasso do governo
Este Governo nunca quis e nunca soube conduzir a opinião pública. Foi o seu maior erro, pois não se transforma um país sem convencer as pessoas. O resultado foi a opinião publicada mais pessimista do universo e uma sociedade cuja elite não aceita a transformação em curso, embora não exista alternativa razoável a essa mudança. Depois, ouvimos os nossos amigos e a vida é sempre uma profunda desgraça (quando escavamos um bocado, a deles vai razoavelmente bem). Uma amiga deu-me uma boleia num carro caríssimo e foi o caminho todo a cascar na situação: Portugal afundava e ela guiava um carro caríssimo.
O caso BES é brutal. As notícias sobre o tema têm saído em pequenas doses homeopáticas e só hoje percebi que os pequenos accionistas do BES viram o seu investimento preservado (embora continuem a fugir da bolsa).
A comunicação governamental desta crise tem sido de uma perfeita imbecilidade, à excepção da excelente entrevista da ministra das Finanças. Aliás, gostava que alguém me conseguisse explicar a lógica de uma coisa destas ser anunciada de véspera por um comentador político e ainda não consegui perceber o que acontece ao fim de dois anos, pois quando a ministra ia dizer, o jornalista interrompeu, para fazer uma pergunta ao lado. Não admira que os investidores estejam nervosos, ninguém informa, anda tudo a banhos.
Há quem escreva que a bolsa, afinal, não existia. Outros críticos sugerem, sem o afirmar, que Portugal nem sequer tem condições para cumprir a lei em vigor na união bancária, quanto mais permanecer na zona euro. Em matéria de finanças públicas, é tudo insustentável: a dívida, que devíamos reestruturar; a austeridade, que devíamos anular; os cortes na despesa, que devíamos inverter.
Enfim, teremos talvez de continuar a manter os interesses especiais e o capitalismo da treta. A única saída que resta neste labirinto é mesmo o abandono da zona euro e o regresso ao escudo. Julgo que isto explica muitas das críticas que leio à própria União Europeia, essa coisa que para as elites nacionais passou a ser ineficaz, egoísta e nula.
Um país bipolar
Em Espanha, a imprensa é geralmente favorável à transformação necessária. Em Portugal, o contraste é evidente: os telejornais têm duas partes: a primeira é uma desgraça, com os cortes, as cabazadas ao Benfica e os protestos de funcionários públicos. Introduzi o Benfica a martelo, mas é um bom exemplo: uma equipa que ainda não fez nenhum jogo a sério já perdeu tudo.
Uma jornalista famosa chegou a confessar-me um dia que nem sempre escrevia o que pensava, pois isso era mal interpretado e perdia leitores. Por isso, suavizava algumas opiniões, tornando-as mais pessimistas.
Talvez isso explique que as informações positivas sejam transmitidas de forma a que pareçam mais negativas. No outro dia fiz uma experiência neste blog, publicando um pequeno post com uma frase verdadeira e uma ironia provocatória. Fui acusado por vários comentadores de ser propagandista. Ninguém reagiu à ironia, mas à informação verdadeira. Os comentários foram de extrema violência, pois a informação negava todos os mitos e, como sabemos, não é popular desafiar mitos entranhados. A verdade é primeiro propaganda, depois relativizada em análises que olham o copo meio vazio, por fim passa em nota de rodapé.
Na segunda parte dos telejornais, passamos do inferno ao paraíso, vamos a banhos e temos as melhores praias do mundo, as melhores pousadas, a melhor gastronomia, as melhores maravilhas naturais, entrevistas a turistas queimados como lagostas e que parecem extremamente satisfeitos, desportos de beira-mar e hotéis repletos, festivais de verão com a mais recente vedeta do pop mundial, piscinas e festas de glamour. O único problema visível é uma sombrinha no céu, que anuncia um pouco menos de insuportável calor.
É este país bipolar que parece incapaz de perceber a mudança em que vive. Um país que era governado por corporações e por um punhado de famílias, que terá, daqui para a frente, de se governar sozinho.