A curiosa intolerância dos liberais


Luís Naves,

 

A direita liberal é curiosamente intolerante, como se constata neste texto. Trata-se de um dos grandes enigmas da política contemporânea: quanto mais as pessoas se reclamam da liberdade, mais se insurgem contra a liberdade dos outros, neste caso a liberdade dos contribuintes de não pagarem pela estupidez alheia.

Alguém obrigou os accionistas do BES a comprar as acções cujo valor agora se perdeu? Os investidores tinham de investir daquela forma? Mas as pessoas que compram acções desconhecem os riscos?

E qual era, para o autor, a alternativa? Suspender o negócio, avançar para a falência total, prejudicando incontáveis empresas e empregos, prejudicando todos os outros bancos? O facto é que o BES já não tinha crédito em lado nenhum, ia rebentar na segunda-feira, com uma corrida aos depósitos. Era preciso agir.

Nunca percebi esta alegada direita portuguesa. Neste caso, foi aplicada a legislação europeia, cujo objectivo é evitar o colapso do sistema financeiro minimizando os custos potenciais para os contribuintes. O Banco de Portugal podia ter feito de outra forma? É evidente que não podia. Limitou-se a aplicar uma fórmula que estava politicamente definida pelos líderes europeus, usando dinheiro que tinha sido fornecido pela troika exactamente para auxiliar bancos em dificuldades. Estas são as novas regras da zona euro, estão em vigor, no âmbito da emergente união bancária.

Os accionistas do BES foram enganados? Recorram aos tribunais, como faz qualquer cidadão que seja burlado. 

Se a direita não explica o que pretendia fazer, também se verifica que a esquerda reagiu a este caso com extrema dificuldade. Os partidos mais à esquerda saíram logo aos tiros, mas sem explicarem como teriam feito; os socialistas têm o contraste do BPN, afinal ainda estamos a pagar essa brilhante factura. António Costa ficou calado (até agora), não sei a razão, talvez estas questões sejam de lana-caprina. Enfim, as críticas que tenho lido são quase incompreensíveis: como é que se fazia? Agia-se fora da legislação comunitária? Deixava-se cair o banco e provocava-se um colapso económico no País? 

A intolerância dos chamados liberais com tudo o que seja noção de Estado forte ou intervenção de bom-senso dá para pensar. O autor que citei mais acima até pretende viajar para longe (ainda bem que pode) só para não ter de votar neste Governo. Tem a liberdade de o fazer, mas teria sido melhor acompanhar a revolta com uma pequena explicação sobre o método que devia ter sido usado para salvar os depositantes, salvaguardar os trabalhadores e a economia, sem prejudicar os contribuintes.

7 comentários em “A curiosa intolerância dos liberais”

  1. é isso: tendo o incêndio chegado ao que chegou, a melhor forma de o combater e debelar terá sido a adoptada pelo BdP.
    muita gente perdeu alguma coisa neste incêndio. agora há que levar à justiça os incendários, que provocaram o incêndio,mas também “a protecção civil” – ou seja, aqueles que foram mandatados pelo povo, e para isso têm instrumentos, para proteger esse mesmo povo – que não só não souberam combater o fogo, quando ele já tinha sido detectado, como também permitiram que este alastrasse sem controlo, e que não alertaram as populações afectadas na altura própria, propagueando e difundindo, pelo contrário, que tudo estava controlado e não passava de fumaça.
    a protecção civil vem agora, em sua defesa, dizer que graças à sua acção impediu que o incêndio que começou num determinado lugar não se propagou a todo o país.
    mas tem que reconhecer que com sua acção permitiu que o incêndio alastrasse sem controlo na zona da deflaração e que induziu em erro as populações locais, pelo que deveria não só pedir desculpa por isso ao mais afectados como avançar com mecanismos que permitam a sua devida compensação.

  2. perguntas à la “luis noves-fora-nada”:

    “Alguém obrigou os accionistas do BES a comprar as acções cujo valor agora se perdeu? Os investidores tinham de investir daquela forma? Mas as pessoas que compram acções desconhecem os riscos?”

    resposta possível:
    http://www.dinheirovivo.pt/Mercados/Banca/interior.aspx?content_id=4020263

  3. Não vejo por que é que Luís Naves chama “intolerante” à Maria João. Ela apenas exprimiu desapontamento com a forma de atuação do Banco de Portugal. Acho que isso é legítimo. O BdP andou montes de tempos a procurar convencer as pessoas de que as ações do BES eram valiosas e de que o BES estava saudável, quando na verdade já havia indicações do contrário.
    De resto, a Maria João não exprimiu propriamente discordância da solução inventada no passado fim de semana.
    Quanto a haver uma solução alternativa, é evidente que havia: a solução cipriota. Se ela foi adotada no Chipre, também podia e devia ter sido adotada em Portugal. Não é? O BES falia e os depósitos até 100000 euros ficavam cobertos; tudo oresto ficava, em princípio, perdido. Seria uma solução justa, liberal, na qual as pessoas que nada têm a ver com o BES – é o meu caso – nada perderiam.

    1. O autor citado chama-se Nuno garoupa. Na minha opinião, este texto mostra uma tendência que se acentua no grupo dos chamados liberais, de ataque agressivo a todas as manifestações de estado centralizado ou regulação. Este liberalismo parece pouco liberal. A esquerda contesta a tradição, a ponto de a ridicularizar, aceitando sem debate exemplos de relativismo cultural, mas criticando os valores da maioria. A direita transformou a liberdade da economia num dogma, a ponto de execrar uma intervenção lógica do regulador.

      1. O que não é muito lógico é o regulador praticamente fazer campanha sobre a solidez do banco, dizendo que existiam acionistas interessados, que o banco estava salvaguardado, que as reservas eram iguais, se não superiores aos prejuízos, evitando que os acionistas vendessem e depois sem aviso declarou que as ações valiam zero.
        Depois disto se o Sr. Dr. Carlos Costa me disser as horas da rua, eu só acredito depois de confirmar num relógio de confiança.

      2. Depois de se ler e acreditar no que nos que chega até nós através dos mais variados meios, ainda assim fica a ingenuidade de se achar que não se encontra alguém em modo loopback, de que sosobra apenas uma parte das manigâncias.
        Há quem sacralize a propriedade privada, com base no mérito que houve para a adquirir e como tudo que é batalhado custa a todos, também é lastimado ser perdido por menos do que isso.
        Com base no talibanismo privado, há muita gente burgessa e a dar urras pelo vale tudo cegueta, como é o caso em que a ideologia se sobrepõe a qualquer critério de boa fé, mesmo que seja essa fé no lado (que nem existe, tamanho é o enigma!!!) privado da coisa, que tenha criado o problema. A cegueira e o caminho intrépido dos balanços não foram desvelados sem sangue e agora depois de tanto mal feito, o que pior nos podia acontecer seria seguir as mesmas pisadas e não separar as águas, mesmo que à força, para o excepcional não vencer o convencional. Se o regulador tivesse expulso (isso mesmo) o Presidente do BES dos créditos que lhe davam a investidura de Banqueiro há meses atrás, todos o teriam trucidado.
        Assim as notícias foram todas digeridas e bem (com tanto para avaliar!!!) e como sempre faltava o essencial (!!!) para as possiveis vítimas, que para já ficam-se pelos accionistas e obrigacionistas do Banco BES (para qualquer altura de emissão).

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