Leio a imprensa e a blogosfera já sem qualquer surpresa. Hoje, em poucos minutos, encontrei uma dezena de textos sobre o fim da nação. Depois, fiz a leitura dos jornais internacionais, onde se avoluma alguma preocupação com o conflito ucraniano e os efeitos das sanções à Rússia, mas sem que um único escriba reparasse que este pequeno país chamado Portugal deixou de existir.
Uma pequena pergunta: o que aconteceu à sociedade portuguesa?
O fracasso do governo
Este Governo nunca quis e nunca soube conduzir a opinião pública. Foi o seu maior erro, pois não se transforma um país sem convencer as pessoas. O resultado foi a opinião publicada mais pessimista do universo e uma sociedade cuja elite não aceita a transformação em curso, embora não exista alternativa razoável a essa mudança. Depois, ouvimos os nossos amigos e a vida é sempre uma profunda desgraça (quando escavamos um bocado, a deles vai razoavelmente bem). Uma amiga deu-me uma boleia num carro caríssimo e foi o caminho todo a cascar na situação: Portugal afundava e ela guiava um carro caríssimo.
O caso BES é brutal. As notícias sobre o tema têm saído em pequenas doses homeopáticas e só hoje percebi que os pequenos accionistas do BES viram o seu investimento preservado (embora continuem a fugir da bolsa).
A comunicação governamental desta crise tem sido de uma perfeita imbecilidade, à excepção da excelente entrevista da ministra das Finanças. Aliás, gostava que alguém me conseguisse explicar a lógica de uma coisa destas ser anunciada de véspera por um comentador político e ainda não consegui perceber o que acontece ao fim de dois anos, pois quando a ministra ia dizer, o jornalista interrompeu, para fazer uma pergunta ao lado. Não admira que os investidores estejam nervosos, ninguém informa, anda tudo a banhos.
Há quem escreva que a bolsa, afinal, não existia. Outros críticos sugerem, sem o afirmar, que Portugal nem sequer tem condições para cumprir a lei em vigor na união bancária, quanto mais permanecer na zona euro. Em matéria de finanças públicas, é tudo insustentável: a dívida, que devíamos reestruturar; a austeridade, que devíamos anular; os cortes na despesa, que devíamos inverter.
Enfim, teremos talvez de continuar a manter os interesses especiais e o capitalismo da treta. A única saída que resta neste labirinto é mesmo o abandono da zona euro e o regresso ao escudo. Julgo que isto explica muitas das críticas que leio à própria União Europeia, essa coisa que para as elites nacionais passou a ser ineficaz, egoísta e nula.
Um país bipolar
Em Espanha, a imprensa é geralmente favorável à transformação necessária. Em Portugal, o contraste é evidente: os telejornais têm duas partes: a primeira é uma desgraça, com os cortes, as cabazadas ao Benfica e os protestos de funcionários públicos. Introduzi o Benfica a martelo, mas é um bom exemplo: uma equipa que ainda não fez nenhum jogo a sério já perdeu tudo.
Uma jornalista famosa chegou a confessar-me um dia que nem sempre escrevia o que pensava, pois isso era mal interpretado e perdia leitores. Por isso, suavizava algumas opiniões, tornando-as mais pessimistas.
Talvez isso explique que as informações positivas sejam transmitidas de forma a que pareçam mais negativas. No outro dia fiz uma experiência neste blog, publicando um pequeno post com uma frase verdadeira e uma ironia provocatória. Fui acusado por vários comentadores de ser propagandista. Ninguém reagiu à ironia, mas à informação verdadeira. Os comentários foram de extrema violência, pois a informação negava todos os mitos e, como sabemos, não é popular desafiar mitos entranhados. A verdade é primeiro propaganda, depois relativizada em análises que olham o copo meio vazio, por fim passa em nota de rodapé.
Na segunda parte dos telejornais, passamos do inferno ao paraíso, vamos a banhos e temos as melhores praias do mundo, as melhores pousadas, a melhor gastronomia, as melhores maravilhas naturais, entrevistas a turistas queimados como lagostas e que parecem extremamente satisfeitos, desportos de beira-mar e hotéis repletos, festivais de verão com a mais recente vedeta do pop mundial, piscinas e festas de glamour. O único problema visível é uma sombrinha no céu, que anuncia um pouco menos de insuportável calor.
É este país bipolar que parece incapaz de perceber a mudança em que vive. Um país que era governado por corporações e por um punhado de famílias, que terá, daqui para a frente, de se governar sozinho.


Tirado do estudo do Geert Hofstede(http://geert-hofstede.com/portu gal.html), depois basta comparar com Espanha ou outro pais.
“Portugal’s score on this dimension (63) reflects that hierarchical distance is accepted and those holding the most powerful positions are admitted to have privileges for their position. Management controls, i.e. the boss requires information from his subordinates and these expect their boss to control them. A lack of interest towards a subordinate would mean this one is not relevant in the Organization. At the same time, this would make the employee feel unmotivated. Negative feedback is very distressed so for the employee it is more than difficult to provide his boss with negative information. The boss needs to be conscious of this difficulty and search for little signals in order to discover the real problems and avoid becoming relevant…. Portugal, in comparison with the rest of the European countries (except for Spain) is Collectivist (because of its score in this dimension: 27). This is manifest in a close long-term commitment to the member ‘group’, be that a family, extended family, or extended relationships. Loyalty in a collectivist culture is paramount, and over-rides most other societal rules and regulations. … In collectivist societies offence leads to shame and loss of face, employer/employee relationships are perceived in moral terms (like a family link), hiring and promotion decisions take account of the employee’s in-group, management is the management of groups. … If there is a dimension that defines Portugal very clearly, it is Uncertainty Avoidance. Portugal scores 99 on this dimension and thus has a very high preference for avoiding uncertainty. Countries exhibiting high uncertainty avoidance maintain rigid codes of belief and behaviour and are intolerant of unorthodox behaviour and ideas. In these cultures there is an emotional need for rules (even if the rules never seem to work)…A low score of 28 shows that Portuguese culture prefers normative thought over pragmatic. People in such societies have a strong concern with establishing the absolute Truth; they are normative in their thinking. They exhibit great respect for traditions, a relatively small propensity to save for the future, and a focus on achieving quick results… A relatively low score of 33 indicates that Portugal has a culture of restraint. Societies with a low score in this dimension have a tendency to cynicism and pessimism. Also, in contrast to indulgent societies, restrained societies do not put much emphasis on leisure time and control the gratification of their desires. People with this orientation have the perception that their actions are restrained by social norms and feel that indulging themselves is somewhat wrong.”
Este estudo é incrível; é como se alguém tivesse posto um microfone dentro da nossa mente colectiva.
Sim, e onde estão os links dessa “dezena de textos sobre o fim da nação?” Não que não acredita no Luís – já se anda a anunciar o fim de Portugal desde antes de Oliveira Martins e Eça -, mas concorda certamente comigo que afirmações devem vir revestidas de evidências.
De resto, eu não vejo qual é a contradição entre a primeira e a segunda parte do noticiário; a primeira tem que ver com o que se passa nos níveis político, económico, bancário, europeu e até desportivo se quiser. Por outras palavras, questões longe do controlo do cidadão comum.
A segunda parte tem que ver com questões que não têm grande dependência de nada: as prais, maravilhas naturais e o clima não foram feitos por nós, simplesmente existem; a boa gastronomia é uma ciência de séculos, popular, orgânica, que não tem nada que ver com política e economia; pousadas e hotéis tem que ver com negócios privados, que às vezes sobrevivem apesar da economia e da política, apesar dos aumentos do IVA para a restauração. Os turistas, vindo cá de férias, obviamente não têm motivos para estar insatisfeitos, não têm de cá viver, de arranjar empregos precários com salários baixíssimos, de ser esmifrado em centenas de impostos.
Quanto aos festivais, festas, desportos à beira-mar, etc., compreendo que o Luís gostaria que os portugueses carregassem os problemas da austeridade e do lento destruir da sociedade com mais caramunha, de cenho carregado, de rosto enlutado em todos os momentos do dia, mas é um simples facto da natureza humana que as pessoas não conseguem viver sem diversão e prazer por muito tempo antes de começarem a produzir sintomas graves de saúde mental. Esta leviandade não significa que somos nefelibatas, apenas prova que somos pessoas normais que precisam de escapes das vidinhas de merda que andam a construir para nós e que vão montando cerco a qualquer ilusão de algum dia se poder viver dignamente neste país.
Não coloco links de textos que considero muito maus, não sou polícia sinaleiro da blogosfera. O último parágrafo do seu comentário faz uma consideração errada, pois não desejo nada do que ali esta escrito, pelo contrário, só quero que as pessoas sejam coerentes.
PEC I …PEC II …PEC III…Troika I…destruição do maior grupo económico-financeiro português com o apoio Europeu!
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A Europa já deu o que tinha a dar ! Quando é que Portugal sai do Euro…A ecónomia portuguesa em ruinas e sem liquidez…quando é que Portugal sai do Euro!!??
Vamos sair do euro quando a loucura atingir níveis terminais
então já falta pouco…Obrigado, sr. Governador do Banco de Portugal!
“O caso BES é brutal. As notícias sobre o tema têm saído em pequenas doses homeopáticas e só hoje percebi que os pequenos accionistas do BES viram o seu investimento preservado (embora continuem a fugir da bolsa).”
importa-se de repetir????
http://www.dinheirovivo.pt/Mercados/Banc a/interior.aspx?content_id=4066991
“…a alínea que se refere à transferência dos depósitos para o banco mau ter sido alterada a 1 de agosto para se “limitar apenas aos acionistas com participação qualificada”. É que antes disso, a lei não fazia distinção entre pequenos acionistas e quem tinha uma participação qualificada. Ou seja, seriam colocados no BES-mau todos os depósitos de todos os acionistas.
“Isso seria um escândalo. Já não bastava os pequenos investidores perderem as ações e ainda ficariam sem os depósitos”, afirmou uma fonte do sector financeiro ao Dinheiro Vivo.”
seria muito justo, que um accionista com meia dúzia de acções (investimento) viesse também a perder os seus depósitos (poupança) por possuir apenas isso, meia dúzia de (más) acções…
Não escrevi nada sobre a justiça ou injustiça da questão, mas sobre um pormenor destes ser conhecido ao quarto dia por uma pessoa pouco informada, como e o meu caso.
Não acha que uma coisa destas devia constar nas informações iniciais? Não será um exemplo de comunicação desastrosa, preguiça jornalística e negligência mediatica?
as notícias chegam atrasadas aí ao purgatório…
já vai perceber porque só agora isso foi conhecido. acontece que foi inscrito no DL 114 – A/2014, no Artigo 145º H, 2-a), que foi promulgado (imagine!) na sexta-feira 31 de julho de 2014, e publicado no DR em 1 de agosto, ainda com o mercado de valores em horário de funcionamento normal.
e, outro aspecto a reter, as informações do governador do BdP e dos governantes que se pronunciaram publicamente sobre este assunto, foi sempre no sentido de que os depósitos estariam sempre garantidos, nunca tendo associado essa garantia ao facto dos depositantes serem ou não, em simultâneo, accionistas com mais ou menos de 2%.
o limite dos 2%, confesso, só soube hoje, mas isso significa que muitas pessoas sem grande informação também souberam dias depois, o que pode ter alterado a sua visão do problema.
“Uma amiga deu-me uma boleia num carro caríssimo e foi o caminho todo a cascar na situação: Portugal afundava e ela guiava um carro caríssimo.”
Sendo certo – convirá (muito convenientemente acontece ignorá-lo; mas decerto o autor não o terá feito) não ignorar – que uma generosa porção dos “carros caríssimos” em Portugal são-no em consequência da absolutamente imoral e indomável actuação criminosa do fisco. Ou seja, o que por cá se chama “carro caríssimo” -, numa bem lusa prática de querer nivelar por baixo a todo o custo – é por esse mundo fora, frequentemente, não mais do que um bom automóvel. Mas não necessariamente um símbolo de riqueza indevida.
De resto, talvez seja de admitir que essa sua amiga, mau grado conduzir um “carro caríssimo”, tenha olhos e ouvidos funcionais e suficiente alfabetização para, tendo a felicidade ou o mérito (desejavelmente ambos),de estar bem na vida – e onde está necessariamente o crime de lesa-pátria nisso? -, constatar que à sua volta decorre um implacável processo de empobrecimento severíssimo e generalizado, de privação ou confisco de riqueza, tomado como Grande Desígnio Nacional, castigando uma enorme multidão de inocentes, enquanto os culpados lá vão vivendo impunes. Constatar isso e temer pelo seu futuro. Isto é, temer que a sua vez chegue.
Insisto (já o escrevi, creio, nas trocas de opinião consigo): pode bem ser que não haja alternativa, que tívessemos – tenhamos – mesmo de passar por isto. Mas “isto” significa a desonra, a pobreza, o ruir de vidas construídas ou projectadas de boa boa fé, largamente (bem sei que nem sempre) com base em pressupostos que a exigível diligência de um comum cidadão permitia considerar sólidas. É absolutamente deplorável encarar “isto” como um abstracto caso de academia. O respeito pela sorte dos caídos neste processo, inevitável que fosse, mandaria que se moderasse a linguagem optimista.
Costa
Portanto, deixo de escrever o que penso…
Isso será consigo. E sinceramente espero que não vá por aí. Afinal, e muito egoisticamente o digo, se o fizer acabo eu por fazê-lo também. E aquilo que aqui fazemos vai sendo – acalorada que momentaneamente seja – uma troca civilizada de opiniões; um privilégio, a cultivar e defender em cada dia,nunca o esqueçamos, bem mais do que um sólido direito.
Impressiona-me apenas, nas suas palavras, a perspectiva incondicionalmente optimista e uma aparente leveza – sê-lo-á apenas aparente, decerto – na forma como encara os terríveis custos (conceder-me-á isso: que o foram, são e ainda vão ser).
É que não estivemos a jogar monopólio nos últimos anos, as ruínas, as falências, as desonras, as esperanças e vidas desfeitas não o foram num tabuleiro, sobre uma mesa, entre uns refrigerantes e umas piadas, logo esquecidas quando o jogo acaba, ou sujeitas a promessas de inofensivas desforras. Foram, são e ainda vão ser reais; foram, são e ainda vão ser o tremendo preço a pagar para – espera-se – salvar o país. E foram, são e ainda vão ser tão mais penosas quanto os responsáveis pelo estado a que isto chegou, com o ocasional sacrífico do ocasional cordeiro (o idiota útil do momento) se passeiam, prosperam e peroram com solenidade e impunidade.
Por isso, se há sinais de melhoria eu não me alargo em hinos e louvores. Por respeito a quem caíu, quanto muito registo-os. E envergonho-me de termos chegado aqui.
Costa