Cadernos de um enviado especial ao purgatório (29)


Luís Naves,

No mundo em que vivemos (não aquele em que imaginamos viver), a discriminação é um dado presente, como se vê neste texto de Paulo Pinto ou neste outro de Filipe Nunes Vicente.

Nos países industrializados existe uma prática de discriminação silenciosa, que ajuda a explicar os fanáticos, os radicais e o descontentamento larvar.

Estas sociedades criaram uma extensa classe média que tem o terror do empobrecimento súbito, seja ele real ou imaginário, terreno fértil para os populistas que tentam explorar a ideia da insegurança. As pessoas vivem no medo profundo de cair ao longo da escada social.

A ordem liberal que triunfou nos últimos 30 anos criou uma sensação de crescente desigualdade e alienou os fracassados do ensino de massas que, sem lugar na economia, sem trabalho e sem qualificações, parecem só possuir o recurso à proletarização extrema.

As minorias não têm lugar nesta situação de desemprego elevado e de redução do Estado social. O sentido de injustiça alastra um pouco por todo o lado, entre os ciganos da Europa Central, nos subúrbios das grandes cidades europeias, nos negros americanos sem voz política, em todos os grupos cujo acesso aos meios de comunicação é feito em doses cuidadosas e filtradas.

Dominadas pela correcção política, pelos partidos burgueses tradicionais e pela defesa da ordem liberal que provocou a crise financeira, as democracias não parecem ter uma resposta viável para os problemas colocados por minorias presas no fundo da pirâmide.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (28)


Luís Naves,

Tal como Pedro Correia escreveu mais abaixo, o mundo contemporâneo parece autocentrado, repleto de frivolidade e niilismo. E, no entanto, nunca houve tanta abundância, nem tal sensação de infelicidade. Nas sociedades industrializadas, toda a gente vive na angústia de cair para a base da pirâmide social, onde existe a minoria do gueto e a discriminação silenciosa.

Os ciclos políticos são cada vez mais efémeros, os casamentos mais curtos, há também a ideia de que a vida passa depressa, comprimida de forma frenética em dias que deixam poucas recordações.

Depois, há tantos objectos nas lojas, que nenhum deles se torna especial. As interrupções sistemáticas de aparelhos de comunicação não deixam tempo para pensar. De certa forma, estes aparelhos dificultam a comunicação humana: vivemos em rede, como as abelhas; e, paradoxalmente, o espaço em que nos movemos é cada vez menos público. Nas cidades, cada pessoa habita a sua solidão, o seu carro, a sua música, a sua minúscula casa. Não há tempo e não se conversa (aliás, ninguém o deseja).

Temos uma ideia mítica sobre o passado, que parece ter sido mais glorioso do que foi na verdade, e já não existe o povo de antigamente, pois também temos uma ideia falsa sobre o que somos. Agora, a vida é superficial e veloz, pessimista e obcecada com a beleza do corpo (que devia ser mera questão estatística).

O mundo tornou-se ruidoso, impaciente, e acima de tudo insatisfatório: obsceno nos seus desperdícios, decadente na sua arte, capaz de oferecer a abundância mais sufocante e o inverso, o sufoco da escassez para todos os que tombarem da horrível mediania.

 

O poder do Sol (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

Em Março de 1951, o presidente da Argentina, general Juan Perón, anunciou ao mundo que o seu país conseguira o extraordinário feito tecnológico de obter “libertação controlada de energia atómica”, o que significava o domínio da mesma energia produzida no interior do Sol. Perón era um dos líderes mais admirados no mundo, um populista que fazia uma equipa imbatível com a sua mulher, Eva, mais conhecida por Evita Perón, actriz que, seis anos antes, salvara a carreira política do marido convocando um protesto popular que lhe abriu caminho à presidência. O casal tinha carisma invulgar e tentava criar uma potência sul-americana, rival dos dois grandes, misturando políticas sociais, independência económica, nacionalizações, corporações, acções de massas e uma boa dose de autocracia.

Quando o general anunciou que o seu país domara a energia das estrelas, a notícia era credível, pois se havia alguém capaz desse milagre era mesmo Perón. A Argentina teria acesso a energia barata e abundante, seria uma potência industrial, mas infelizmente o anúncio foi prematuro e a notícia era falsa: em vez de conseguir a fusão termonuclear, Perón embarcara num dos episódios mais bizarros e dispendiosos da história da ciência.

 

 

A quimera nuclear argentina teve uma personagem principal, Ronald Richter, o austríaco a quem chamavam ‘El Alemán’ e que montou um ambicioso programa de investigação atómica na ilha de Huemul, no lago Huapi, perto de Bariloche, local paradisíaco que o próprio Richter escolhera em 1948, após ter convencido Perón de que seria possível obter energia termonuclear barata. Richter, de 39 anos, estudara física em Praga. Fora apresentado a Perón por um dos refugiados nazis que a Argentina acolheu por esta altura, o engenheiro aeronáutico Kurt Turk, que viria a desenhar o primeiro jacto de caça de concepção argentina e que nunca chegou à produção.

Embora não tivesse trabalho científico publicado, Richter passava por génio da física: os relatos que existem sobre a sua personalidade sugerem um homem calado e pensativo, capaz de dizer de súbito coisas espantosas, que entusiasmavam qualquer interlocutor. A sua ideia era produzir energia a partir da fonte inesgotável do hidrogénio, usando fusão nuclear, através de um processo teorizado por cientistas alemães, com base na concentração de ondas de choque e que, segundo pensavam erradamente estes teóricos, poderia ocorrer a temperaturas e pressões acessíveis à tecnologia existente. 

 

Provavelmente, foi desta forma que Richter convenceu o líder argentino e o seu núcleo restrito de militares, fazendo aprovar um projecto nuclear de onde estavam à partida excluídos os cientistas do próprio país, que teriam desacreditado facilmente os planos do austríaco, caso os pudessem ter estudado. A fusão nuclear necessitava de temperaturas e pressões elevadíssimas, que não podiam ser obtidas com a metodologia indicada, mas esta possibilidade coincidia com os planos de Perón, que procurava levar a Argentina por uma via alternativa aos dois lados da Guerra Fria. O general pretendia autonomia económica, criando uma sociedade com mais justiça social e amplo apoio popular.

Com este contexto, o projecto de Huemul foi envolvido numa atmosfera de conspiração e paranóia. Os contratempos eram atribuídos a sabotagem e o trabalho tornou-se progressivamente mais secreto e restrito, devido ao medo dos espiões. Talvez para ganhar tempo, Richter mandou desfazer o sarcófago de betão do reactor, para poder recolocar tubagens que considerou mal executadas. Os equipamentos eram caros e os custos não paravam de aumentar. Para os recursos do país, o projecto estava a ficar demasiado dispendioso.

Quando finalmente se realizou a primeira experiência, houve uma forte explosão que afectou a própria estrutura do reactor. Richter reclamou imediatamente ter atingido o objectivo e o próprio Perón fez um sensacional anúncio público, com repercussão mundial. Finalmente, concretizava-se o sonho da energia barata e virtualmente ilimitada.

Em 1951, ainda havia apenas três potências atómicas (EUA, URSS e Grã-Bretanha) e os próprios Estados Unidos estavam a dois anos de conseguir detonar a sua primeira bomba termonuclear. Aparentemente, a Argentina conseguira uma ruptura tecnológica que a colocava décadas à frente dos países mais poderosos do mundo.

Embora fosse notícia de primeira página, o anúncio da fusão termonuclear controlada foi recebido com cepticismo pela comunidade científica, incluindo pelos mais destacados cientistas argentinos. A experiência parecia ter falhas e, acima de tudo, não havia provas concludentes do resultado. O triunfalismo transformou-se em preocupação e o governo formou uma comissão científica independente para analisar o projecto.

Logo após a primeira inspecção, Richter caiu em desgraça. A sua reclamação não passava de uma fraude científica. As condições de temperatura eram milhões de graus inferiores às necessárias. Fora gasta uma fortuna e os militares livraram-se do embaraçoso cientista. Não se sabe por onde andou nos anos seguintes, havendo rumores de que passou pela Líbia. Tendo regressado à Argentina, Ronald Richter faleceu em 1991, praticamente esquecido.

 

Juan Perón, que estivera nos píncaros do poder, foi reeleito com facilidade, mas o projecto da fusão coincidiu com o início do seu declínio político. Evita estava debilitada por um cancro e morreria em 1952. O general era um político hábil, mas foi perdendo o controlo, sempre muito contestado pelos conservadores. Em 1955, seria derrubado, num golpe com episódios de grande violência. Perón escapou com dificuldade e passou os 18 anos seguintes no exílio, tendo regressado à Argentina em 1973, fazendo-se eleger para um terceiro mandato, que durou apenas dez meses. O general morreu na presidência, em 1974, e foi substituído pela mulher, Isabel, por sua vez derrubada dois anos mais tarde num novo golpe militar que deu origem a um período de terror, ‘a guerra suja’, durante a qual os militares tentaram decapitar os movimentos da esquerda peronista e comunista, fazendo mais de 30 mil vítimas.  O peronismo sobreviveu à ditadura militar e domina ainda hoje a política argentina, mantendo a sua forma populista, com elementos de socialismo e doutrina social católica.

Huemul deu origem a projectos de investigação séria, mas permanece como um símbolo das quimeras pseudo-científicas e um aviso para os perigos de confundir a política com os desejos mais profundos.

 

Passados 60 anos, o sonho da energia barata e abundante não desapareceu. No sul de França está em construção um protótipo de central de fusão termonuclear, o projecto ITER, que junta as maiores potências mundiais.

O objectivo é criar uma máquina complexa, usando ideias apenas testadas em escalas muito menores. No centro, está uma câmara (Tokamak) onde o combustível é aquecido a 150 milhões de graus centígrados, transformando-se em plasma, que não poderá tocar nas paredes da máquina. Para se ter um termo de comparação, as temperaturas atingidas por Richter, na sua experiência em Huemul, foram 1500 vezes inferiores. O ITER tem custo de 13 mil milhões de euros e visa provar a viabilidade desta tecnologia, que será então desenvolvida numa nova geração de centrais, capazes de multiplicar por dez a energia necessária para conseguir a fusão controlada. Se isto será possível, só saberemos na próxima década. 

  

 

   

 

Navegações


Luís Naves,

Tenho a mesma perplexidade de Rui Bebiano, neste post em A Terceira Noite. O conflito israelo-palestiniano desperta paixões terríveis e análises pouco ponderadas. Concordo com cada linha deste post, que considero ser um dos textos mais brilhantes que li sobre o tema.

A autora de Bomba Inteligente, Carla Quevedo, lembra aqui os dois mil anos da morte do imperador Augusto, incluindo um excerto da memorável série da BBC Eu, Cláudio. Gosto destes momentos de nostalgia: vi esta série por duas vezes, a primeira com grande impacto na minha maneira de compreender o mundo. Já não se fazem coisas destas.

Não sabia desta história. Concordo com Filipe Nunes Vicente. É indigno, não tem explicação.

Este post de Tavares Moreira, em Quarta República, merece ser lido com atenção. As contas externas mostram degradação em relação ao ano passado, mas continuam a ser (pelo menos até agora) um dos principais triunfos do período de ajustamento. No entanto, a ligeira recuperação da economia é demasiado frágil. Muita gente continua a não ver o filme.

Ana Matos Pires, em Jugular, repõe alguns factos sobre os salários dos médicos, isto a propósito de uma notícia que colocava esses salários muito acima da realidade.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (27)


Luís Naves,

Há autores para quem o mundo é a preto e branco e que defendem essa ideia simples chamando idiotas aos que discordam. Deviam olhar para o caso do Estado Islâmico (ou Estado Islâmico do Iraque e do Levante ou Califado). Vejo comentadores que defenderam a invasão do Iraque a defenderem agora que esta é uma ameaça existencial de um grupo terrorista. E, no entanto, a organização tem ideologia e capacidade de conquista, ocupa território e recruta simpatizantes, funcionários e soldados. O conflito subiu de patamar e estamos perante um Estado que mantém fronteiras, exército e financiamento.

A estratégia do EI passa por atrair o máximo de americanos ao combate no terreno, onde haveria inúmeras baixas. Na realidade, o EI é muito mais perigoso para o Ocidente do que os talibãs do Afeganistão, que tinham formado um pequeno Estado radical, mas muito pobre, e que, após uma interrupção armada de 13 anos, estão de novo prontos para tomar o poder naquele país.

Os americanos perderam o Iraque e a intervenção de 2003 foi um erro crasso, como preveniram autores então acusados de idiotas. Ironicamente, os melhores amigos da América na região, os sauditas, ajudaram a financiar este grupo, pelo menos no seu início. O Estado Islâmico do Iraque e do Levante era potencialmente útil para os interesses da monarquia saudita, pois punha em causa o poder de Bachar al-Assad na Síria. Claro que o génio saiu da lâmpada e, como na história de Aladino, é preciso ter cuidado com o que se deseja. Bombardeando o EI na Síria, a América vai agora ajudar Bachar, aliando-se a Teerão, outro inimigo, para ser possível salvar ainda alguma coisa no Iraque, que se prepara para um conflito de anos. O mundo islâmico que conhecemos está a mudar de forma imprevisível e no meio de um banho de sangue.

Ferocidade


Luís Naves,

Se o autor não é vedeta da TV ou poeta fofinho, a assinatura é provavelmente irritante. Falo por mim, o que escrevo não é dirigido a leitores que partem para a leitura com preconceitos inabaláveis. Li um texto muito inteligente de uma autora que escreve no Jornal de Negócios, Eva Gaspar, e ela falava deste maldizer pouco informado que tomou conta do espaço mediático e que se espalha nas redes sociais como uma infestação de cogumelos tóxicos. Há pessoas que não entendem a diferença entre discordar com argumentos e discordar sem eles. Há comentadores que dão palpites sobre tudo e mais alguma coisa, com sentenças definitivas sobre temas que desconhecem, ideias vagas sobre coisas complexas; há também muitos que contestam o outro apenas pela cor da gravata, pelo respectivo lado na trincheira e por julgarem o opositor irritante ou ainda porque lhes apetece, por terem acordado com os pés fora da cama e com azia no estômago. Não faltam razões para a maledicência superficial e cruel, mas julgo que um dos motivos da crispação é razoavelmente racional: foi criado um clima pessimista e negativo, as notícias trazem sistematicamente o lado mau da sociedade e visam sempre a vertente escandalosa dos supostos factos. Algumas pessoas acreditam ingenuamente que, sendo o mundo assim, a liberdade de expressão deve funcionar como valor absoluto, incluindo apenas a irresponsabilidade e o vazio.

 

Um insulto a Gengis Khan (episódio da História do Fracasso)


Luís Naves,

Na história universal do fracasso, o Xá da Corásmia permanece como um dos grandes exemplos trágicos de monarcas que, num único erro, perderam tudo o que tinham, neste caso um império que podia ter sido marcante e que, por um azar incrível, merece lugar eterno nos anais do esquecimento.

Hoje poucos sabem o que foi o Império Corásmio, mas na época em que Portugal se formou, esta era uma das forças políticas mais importantes da Ásia Central e talvez uma das mais promissoras em todo o mundo conhecido. Em 1218, foi ali que ocorreu um dos grandes ‘ses’ da História. E se Mohamed II não tivesse insultado o grande Gengis Khan? Quando se verificou este funesto episódio, o império tinha dois séculos de fértil existência e ocupava o actual Irão, parte do Afeganistão e do Cazaquistão e a totalidade do Uzbequistão e Turquemenistão. Era, pois, um território enorme para o seu tempo, governado por uma dinastia sunita de língua turca, que descendia de um antigo escravo. Tudo acabou muito depressa, como se fosse engolido pelas areias do deserto e pelo recuo do Mar Aral.

 

O último monarca da dinastia, Ala ad-Din Mohamed II, devia rondar os 50 anos quando cometeu o seu maior erro. Era um líder dominador, que fizera conquistas recentes, incluindo Samarcanda, onde uma revolta fora sufocada com 10 mil mortos, no que talvez seja exagero das crónicas da época. Esta famosa cidade centro-asiática, hoje no Uzbequistão, era já na altura tema de lendas. Há uma história muito antiga, provavelmente persa, sobre o encontro com a morte em Samarcanda: um homem poderoso tinha um escravo que, ao passear no mercado, viu a morte, que lhe fez um sinal significativo; assustado, contou ao seu amo e este ordenou-lhe que fugisse para Samarcanda, para longe, onde a morte não o encontraria. Dias depois, o amo encontrou-se com a morte no mercado e esta ficou surpreendida de o ver: ‘É estranho encontrar-te nesta cidade, pois tenho um encontro marcado com o teu escravo, amanhã, em Samarcanda’, disse a morte. A história tem várias versões, mas em todos os casos mantém-se o nome da cidade e a expressão encontro marcado.

Mas voltemos ao império Corásmio. No final do século XII, nas planícies da Mongólia, estava a formar-se uma nova entidade política resultante da união entre tribos guerreiras, um império agressivo especialmente interessado em expandir-se para a China. Segundo os historiadores modernos, o seu líder, Gengis Khan, não tinha ambições sobre o império Corásmio, mas Mohamed II não acreditou nas boas intenções desse perigoso vizinho, que na altura estava envolvido numa guerra contra os chineses.

Em 1218, uma caravana com 500 comerciantes, proveniente da Mongólia, foi interceptada por um governador corásmio, que acusava os seus membros de espionagem. Para tentar resolver o assunto a bem, Gengis Khan enviou três embaixadores a Mohamed II, com um pedido de livre comércio. Desconfiando de alguma armadilha, o Xá reagiu sem diplomacia e com violência. O muçulmano da delegação de embaixadores foi decapitado e aos dois mongóis cortaram o cabelo, o que constituía um insulto (há fontes que garantem a morte dos três embaixadores). Os comerciantes anteriormente detidos foram massacrados, embora o número de vítimas varie conforme as crónicas.

Um ponto é certo: o líder mongol viu neste episódio uma humilhação intolerável. Muito irritado, Gengis Khan reuniu um exército de 150 mil homens e invadiu o Império Corásmio, onde pela primeira vez usou tácticas de destruição sistemática. O enorme território foi conquistado em apenas 3 anos. As principais cidades foram aniquiladas, incluindo a capital, Urgench (ou Gurjandj, em persa), da qual restam vestígios no actual Turquemenistão. Em Samarcanda, após um cerco que culminou numa falsa retirada, foram mortos todos os habitantes que se tinham refugiado na mesquita e na cidadela. Os restantes terão sido poupados, o que não impediu a eliminação da elite local, que levou um século a recuperar deste golpe.

Ala ad-Din Mohamed II morreu em fuga, numa ilha do mar Cáspio (a imagem retrata o fim do Xá), e a poeira do seu império foi espalhada aos sete ventos. Quanto ao líder mongol, não se sabe até que ponto esta campanha inesperada mudou os seus planos de domínio, mas tudo indica que o azar da Pérsia foi a sorte da China. A sua intenção inicial seria apenas manter boas relações comerciais com o vizinho, mas após a campanha militar, Gengis controlava o vasto território da Ásia Central e as principais rotas da ligação entre Oriente e Ocidente, que assim ficaram interrompidas durante séculos.

Embora o império mongol tivesse o seu próprio padrão de conquista, destruição, união efémera e colapso, houve nesta parte do mundo um processo distinto daquele que ocorreu nas restantes civilizações. O historiador britânico John Darwin explica, em After Tamerlane, que o domínio das hordas nómadas “impediu no mundo islâmico aquilo que aconteceu na Europa: a consolidação gradual do território dos Estados cuja população foi submetida a um controlo feudal mais intenso”. Estes impérios efémeros durariam até ao século XV, após a morte de Timur, o Coxo, conhecido por Tamerlão, outro grande senhor de Samarcanda. Em resumo, este episódio teve enorme importância para o posterior triunfo do Ocidente e ajuda a explicar a fragmentação e fraqueza das nações muçulmanas, mesmo as contemporâneas.

 

Não há verdadeiros diários


Luís Naves,

Não há verdadeiros diários, apenas o impulso de escrever todos os dias. Não seria possível colocar a verdadeira existência nestas linhas, embora seja possível tentar a representação aproximada de certas impressões e detalhes – o mapa do metro de Londres; um dicionário de língua húngara, daqueles com ilustrações de objectos; o capitão Haddock a espreitar pelo ombro de Tintim, num avião que vai a cair; pilhas de livros mal arrumados; longos cabelos castanhos da beldade burguesa numa gravura barata (como é que se chama o quadro original?); a pintura em seda que comprei em Islamabad, sobre as delícias do vinho, em pseudo-estilo Mogul; a minha gata de três cores que interrompe estas linhas (acho que está com fome ou a pedinchar carinho) – pois, não há verdadeiros diários, só combates com as palavras, a busca dos rumores do mundo, a insensatez das coisas, vozes na multidão, o romance que não anda, dúvidas, as dúvidas. Só há fragmentos do dia, livros fabulosos que outros escreveram, há hipócritas, azarados e bondosos, há o que não vale a pena e o que interessa, memórias desencontradas, murmúrios e conversas, amores e desilusões, tragédia e continuidade. Há textos insuficientes e títulos impossíveis, pois não se resume assim, dia a dia, o que nos passa pela cabeça.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (26)


Luís Naves,

Este comentário de Helena Matos mostra como se discute nas trincheiras. A notícia está errada, é verdade, mas não é esse o ponto. Acima de tudo, o facto de haver notícias erradas sobre um problema não nos diz que o problema seja inexistente. As informações incorrectas podem ser corrigidas. No domingo, Morel Malka, judia, convertida ao Islão, casou-se com o árabe israelita Mahmoud Mansour, na localidade de Rishon Letzion, em Israel. Este casamento tornou-se notícia por ter surgido uma organização de extrema-direita, Lehava, a protestar contra a realização do inofensivo matrimónio.

Este Lehava organizou uma manifestação e tentou perturbar o casamento, insultando os convidados, acusando a noiva de “traição”. Para os extremistas, que diziam falar em “nome de Deus”, o casamento destas duas pessoas era uma “abominação”. A tentativa de perturbar a cerimónia provocou forte polémica, levando parte da opinião pública israelita a classificar de “vergonhosa” a actuação dos racistas.

Os casamentos entre pessoas de religiões diferentes representam em Israel um pesadelo para os noivos e isto aplica-se a todas as comunidades, incluindo a casamentos entre judeus e cristãos. A situação é mais grave se envolver um muçulmano, sobretudo do sexo masculino, mas os jornais israelitas dizem que o clima de intolerância piorou. Helena Matos tem o direito de não escrever sobre isso e preferir a notícia defeituosa, mas o problema não vai desaparecer apenas pelo facto de haver um texto mal escrito: o radicalismo não existe só num dos lados do conflito, existe em ambos. E o mundo muda e mudará de muitas maneiras, não necessariamente como os radicais desejam.    

 

O piquenique que mudou a Europa


Luís Naves,

No dia 19 de Agosto de 1989 uma pequena multidão de alemães-orientais juntou-se nos arredores de Sopron, na fronteira austro-húngara, num local chamado Sopronpuszta, onde dois meses antes os ministros dos negócios estrangeiros húngaro e austríaco tinham simbolicamente cortado o arame farpado da cortina de ferro.
Para dia 19, um eminente político europeu, Otto Habsburgo (descendente da família que governara o império austro-húngaro) tinha organizado um piquenique entre duas aldeias, uma húngara a outra austríaca. Tudo estava no plano simbólico, mas um rumor espalhou-se entre turistas alemães-orientais: havia a oportunidade de fugir. Na altura, a Hungria era um popular destino para turismo alemão. As famílias separadas pela cortina de ferro encontravam-se nas margens do lago Balaton, mas o bloco socialista atravessava uma crise e, sobretudo, havia a consciência crescente de que o regime tinha de fazer qualquer tipo de abertura. Muitos não acreditavam nisso e não queriam esperar.
O que sucedeu a 19 de Agosto de 1989 em Sopronpuszta estava além dos sonhos mais desvairados de qualquer crítico dos regimes comunistas. A fronteira era agora uma simples cancela e os alemães orientais que tinham acorrido ao local limitaram-se a puxar a barreira, enquanto os polícias austríacos e húngaros olhavam, espantados. Depois, foi o caos: as pessoas correram, atropelaram-se e, em minutos, tinham escapado mais de 600, que largaram tudo para trás. Há pouquíssimas fotos do acontecimento (a de cima é uma das raras), talvez por isso este momento crucial da história da Europa seja pouco conhecido.
Os leitores sabem o que sucedeu a seguir: no dia 23, foram removidas as barreiras na fronteira austro-húngara e milhares de turistas fugiram; nos dois meses seguintes, alemães-orientais de férias escaparam em vários pontos da fronteira austro-húngara ou refugiaram-se nas embaixadas da Alemanha em Praga e Varsóvia. O regime da RDA entrou em colapso rápido e o Muro de Berlim não resistiu, caindo a 9 de Novembro, poucas semanas depois do piquenique que mudou a Europa.

 

Publiquei este texto em 2009. O episódio raramente é referido, embora não tenha dúvidas de que constará dos livros de História. Em tempos de mudança, basta uma pequena faísca. Passaram 25 anos e como o mundo mudou. A fuga dos alemães aconteceu depois do piquenique pan-europeu, cuja intenção não era esta. As pessoas largaram mesmo tudo e a cena ficou cheia de carros, no lado húngaro. Muitos jornalistas já tinham abandonado o local e há poucas fotografias do acontecimento, que deve ter durado dois ou três minutos. Na imagem pode ver-se um polícia austríaco a rir e um húngaro com ar preocupado; estão prestes a ser atropelados por um grande grupo de alemães-orientais, mas isto é depois de terem passado muitos refugiados. A cancela está aberta e julgo que o fotógrafo se encontra em solo austríaco, apontando a câmara para o lado húngaro.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (25)


Luís Naves,

Não, não é nada disto. Há autores que gostam de criticar a União Europeia sem dizer como é que faziam. Se a Europa não se mexe, é uma menoridade política; no caso de se mexer, é um monstro burocrático.

Aqui, não estão em causa os “joguinhos de poder da baronesa Ashton”: nem são joguinhos, nem são da baronesa. O que está em causa é a liberdade dos europeus de não serem vítimas de intimidação. Devido à crise na Ucrânia, houve sanções contra a Rússia e esta respondeu, proibindo a importação de certos produtos agrícolas. A UE tem 28 países e a resposta russa não atinge todos por igual, tem um impacto na Polónia, na Hungria ou na Lituânia muito superior ao impacto que terá no Reino Unido ou em Portugal. Este é o problema da política externa dos europeus: quando querem falar a uma só voz, têm interesses diferentes.

Neste contexto, a UE tem a obrigação de actuar e de compensar os produtores agrícolas dos Estados membros mais afectados, sobretudo tendo em conta que existe uma política agrícola comum a absorver 40% do orçamento comunitário. Aqui não se pode aplicar a cartilha liberal, pois os mercados agrícolas não são livres, por decisão soberana dos 28 e por razões históricas cuja explicação é complexa. Se Bruxelas nada fizesse, as sanções de Moscovo tinham mais efeito e, na próxima ronda de eventual agravamento desta crise, os países mais expostos à resposta russa seriam obviamente contra novas sanções. Neste caso, com a inacção dos europeus, a Ucrânia seria retalhada às postas. E o autor não tem de se preocupar com a sua parte nos impostos que estão a ser gastos, pois Portugal recebe muito mais dinheiro do que paga para os cofres comunitários. Sim, é verdade, recebemos uma pipa de massa.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (24)


Luís Naves,

Esta história, que li na Economist, mostra um avanço notável na inteligência artificial e demonstra que os humanos estarão dispostos a contar os seus problemas mais íntimos a um programa de computador com elevado grau de inteligência. Esta segunda reportagem sugere que a relação entre homens e máquinas inteligentes poderá assumir formas complexas, pois teremos inibição em fazer mal a um robot que nos pareça autónomo ou capaz de raciocinar. A inteligência artificial terá de evoluir ainda muitos anos antes de atingir um nível que ultrapasse a nossa espécie, mas em breve estaremos perante grandes problemas éticos e eventualmente até perigos existenciais.

Quando li a história da psicóloga virtual lembrei-me de uma personagem de um livro de 1977, o clássico da ficção científica Gateway*, de Frederick Pohl, por sinal verdadeira obra-prima do género. Neste livro, o protagonista faz terapia com ajuda de uma máquina, Sigfrid von Shrink, psiquiatra virtual que o autor imagina com aspecto mecânico. A personagem principal é um explorador que teve sorte numa perigosa viagem espacial às cegas, espécie de lotaria baseada no uso irresponsável da tecnologia de uma espécie alienígena antiga, entretanto desaparecida, a que os humanos chamam os Heechee.

Muitos entusiastas consideram Gateway um dos melhores livros da história da ficção científica e na verdade este romance (que teve duas sequelas) coloca problemas muito interessantes sobre as consequências imprevistas do uso inconsciente da tecnologia. Trata-se de uma variação da lenda do aprendiz de feiticeiro, tendo este conto de origens antigas (talvez da Grécia clássica) inspirado um poema de Goethe, que por sua vez serviu de base para um poema sinfónico do compositor francês Paul Dukas, parte fundamental do filme de Disney, Fantasia, que talvez Frederic Pohl tenha visto, encontrando ali o tema para uma abordagem mais complexa que, por acaso, inclui um psicólogo robótico, Sigfrid von Shrink (o curioso uso do Sigfrid), antepassado literário da verdadeira máquina, que por acaso se chama Ellie, diminutivo em inglês do nome Helen, que vem do grego Helena, que segundo alguns significa luz brilhante, nome apropriado a descobertas e a grandes paixões, mas segundo outros pode estar ligado à designação grega da Lua, e assim estranhamente vamos dar aos Heechee e a Gateway, que é uma lua artificial.  

 

*Foi publicado em português na colecção Argonauta, 355 e 356, com o título A Porta das Estrelas.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (23)


Luís Naves,

No segundo texto da sua coluna, Alberto Gonçalves considera idiota a indignação com a Faixa de Gaza enquanto houver jihadistas a degolar curdos no Iraque. Ele usa mesmo esta expressão, idiota. O segundo texto da coluna (Onde fica a Embaixada da Letónia?) usa o método retórico da ironia para defender a tese de que há graus de mal e não faz sentido a crítica aos graus menores enquanto persistem os maiores.

Hoje assisti a um assalto na minha rua, um matulão a bater numa velhinha e, quando pensei em intervir, moderei a indignação e pensei nos curdos degolados por jihadistas; a velhinha ficou maltratada, mas julgo que fiz bem em não travar o assalto, por causa dos jihadistas que degolam curdos.

Aliás, aposto que nas próximas semanas Alberto Gonçalves deixará de escrever, por falta de material, ou teremos muitas colunas sobre jihadistas. Nem compreendo que se indigne com Marinho e Pinto, no primeiro texto da sua coluna, tendo em conta que Marinho e Pinto é um mal menor. Os russófonos da Letónia são discriminados? Quem quer saber disso? É apenas um país da União Europeia e, entretanto, no Iraque, há jihadistas a degolar curdos.

Os colunistas de jornal que gostam de policiar o pensamento dos outros têm noção clara das prioridades sociais e tratam os assuntos apenas quando eles atingem a relevância conveniente, que lhes permita confirmar as conclusões pré-fabricadas dos seus textos. Quando for mais difícil manter a argumentação, então haverá sempre um jihadista a degolar curdos.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (22)


Luís Naves,

Neste texto, Filipe Nunes Vicente cita um autor que eu desconhecia, Curt Meyer-Clason, e encontra a expressão feliz e certeira da “velha guilda da revolta mansa”. Alguns romances com 40 anos mostram essa elite inconsequente, que discute alta filosofia política nos salões da gente que conta (Sem Tecto, Entre Ruínas, de Augusto Abelaira, é um exemplo que me ocorre de imediato, pois o livro começa com a longa discussão de um grupo idêntico ao descrito por Meyer-Clason). 

A elite nacional já não é tão fina e tão pequena como era em 72 ou 82, nem o povo português é hoje tão pouco instruído como nesse tempo. Ele tornou-se mais europeu, os seus filhos estudaram, o rendimento das famílias aumentou. Apesar disso, muitos intelectuais continuam a desprezar a ignorância das classes menores, sem perceberem que imaginam uma realidade inexistente; por outro lado, os pobres que ascenderam à classe média perderam a paciência para a mansidão pedante destes visionários míopes, que parecem ignorar todas as transformações. As novas fórmulas infalíveis para o futuro falam para um País que já não existe há pelo menos uma geração e que, no essencial, se está nas tintas para utopias, agitações revolucionárias e cultura obrigatória.         

Na Europa persiste a imagem de um Portugal pobre e quase analfabeto, mas as classes sociais dominantes no País partilham dessa opinião distorcida e consideram que o seu próprio povo forma um rebanho com a qual não se consegue fazer qualquer mudança.  As altas conversas incluem grandes estratégias e nobres desígnios, gentilmente fornecidos à população sem que alguém se lembre de perguntar o que ela deseja. É por isso que, sempre que surge um problema, a discussão morre no início, para não sair dos círculos certos. Os meios de comunicação, os partidos, os escalões mais altos da administração e da economia, enfim, todos os patamares instalados exibem um desprezo permanente pela autêntica ascensão social, que tem cada vez mais a forma de diluição de classes.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (21)


Luís Naves,

Um texto brilhante de João Gonçalves, a propósito de personagens de John Le Carré. A traição, o grande tema do escritor britânico, é um enigma difícil de compreender e reproduzo a impressionante frase de George Smiley, citada no texto: “Você é uma boa pessoa, leal e discreto, como é que não o demitiram?”

Excelente pergunta. Através de Smiley, Le Carré capta o mundo de sombras onde a lealdade foi sacrificada a cálculos distorcidos, onde trair se tornou um jogo trivial e a verdade se esconde no nevoeiro de mil enganos. Mas este mundo de espiões não é mais do que uma analogia do nosso próprio mundo. A ambiguidade e o efémero comandam as relação entre as pessoas. Valores como lealdade são hoje pouco valorizados, os nossos amigos são descartáveis, em nome das vantagens tácticas e da visão de curto prazo. Enganar tornou-se um vício, o desprezo pelo outro é a norma, até à desumanização, se isso for necessário para preservar as pequenas ilusões do poder.

Smiley é um símbolo daqueles, raros, que sendo traídos buscam mesmo assim fragmentos de uma verdade. “São homens de mundos abolidos”, escreve João Gonçalves, “ainda há alguns, poucos, por aí dispostos a tentar e a fracassar. E a tentar de novo e a fracassar melhor”.

Tal como esses poucos, julgo que as personagens desencantadas de John Le Carré acabam por ter razão. Perdem perante os hipócritas, perdem sempre, mas no fundo também vencem. A realidade é mais forte do que a mentira, a traição e o engano não passam de doenças contagiosas que, depois de enfraquecerem a sociedade, acabam por se extinguir, num fútil apodrecimento.

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (20)


Luís Naves,

Os críticos da União Europeia insistem na ideia da mediocridade política da Europa e os exemplos parecem confirmar a tese. Israel ignora as opiniões europeias e até as desdenha; durante a intervenção da Líbia faltaram munições; e, mais recentemente, foi difícil concordar nas sanções contra a Rússia, com os 28 divididos entre pombas e falcões, com a Alemanha no meio.

O caso da Rússia é exemplar: este império em declínio hostiliza um país vizinho com quem tem afinidades e confia na fraqueza da resposta europeia. E ocorre o seguinte paradoxo: embora a Rússia tenha uma economia 12 vezes inferior à da UE, as sanções decididas pela Rússia contra interesses europeus tiveram forte impacto mediático.

Na Ucrânia, país europeu entre a Rússia e a UE, trava-se de novo uma guerra, aliás a poucas centenas de quilómetros da região onde há cem anos, em Agosto e Setembro de 1914, combateram enormes exércitos, tendo os russos batido os austro-húngaros de forma tão completa que a Áustria nunca recuperou.

Muitos observadores aproveitam para antecipar a possibilidade de um novo conflito entre europeus e russos, mas seria mais correcto afirmar que a fraqueza da UE vem da sua percepção de não ter inimigos externos.

A Europa transformou-se num império pós-moderno, com sentimento de culpa pelo anterior imperialismo e extrema relutância em exercer o poder que devia resultar da sua força económica. O facto é que não existe ameaça evidente, comum aos 28, ou igualmente urgente para todos. A Europa não tem inimigos, mas apenas alianças cuja ruptura seria impensável (não é o mesmo que dizer impossível). A Rússia de 2014 tem pontos em comum com a de 1914, o sentimento de insegurança e a inflexibilidade dos líderes. A UE também tem semelhanças com o Império Austro-húngaro, mas são gritantes as diferenças: não há ameaça existencial, vocação ofensiva ou incapacidade de diálogo.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (19)


Luís Naves,

O País terá dificuldade em atingir as metas impostas pelo Tratado Orçamental, que exigem redução regular da dívida pública, o que implicará saldos primários positivos. Dito de outra forma, cumprir o tratado significa défice nominal próximo do zero (e, para isso, falta um ajustamento de 6 mil milhões de euros).

Infelizmente, Portugal entrou num período de paralisia, pois as instituições parecem incapazes de compreender o problema e estão a fazer as manobras políticas a que se habituaram no passado, posicionando-se para uma longa luta pelo poder.  As últimas decisões do Tribunal Constitucional fazem parte desse jogo político, mas tornam quase impossível o cumprimento do Tratado Orçamental, forçando o Governo a uma crise, a um aumento de impostos que não deseja e que o condena a uma derrota nas urnas.

As consequências são ainda mais vastas, pois como demonstram os números do INE, o crescimento económico é demasiado frágil e será facilmente anulado por qualquer aumento de impostos. Não parece existir saída simples: cortar mais na despesa parece impossível, novos impostos anulam o crescimento incipiente, mas sem novos impostos não teremos contas equilibradas, a dívida continuará a crescer e Portugal verá o seu financiamento externo dificultado, com taxas de juro mais altas. Estas vias convergem no mesmo precipício, o abandono da zona euro.

Discutindo os próximos anos, alguns acham que não é preciso fazer reformas significativas na despesa pública. Outros imaginam que será possível alterar um tratado europeu cujos termos foram exigidos pela Alemanha. Há ainda quem pense em estratégias que excluem do debate questões de finanças públicas, onde por sinal reside o problema orçamental que criou toda esta crise. Vamos de fantasia em fantasia, elevando ao nível de arte as tácticas de ‘chutar para canto’, ‘empurrar com a barriga‘ e ‘passar entre as gotas de chuva’.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (18)


Luís Naves,

Sobretudo nos países que viveram de forma mais intensa a crise, o colapso financeiro de 2008 teve por consequência maior o fracasso da democracia liberal e o avanço de algumas ideias, ainda em gestação, que pretendem romper com o ciclo que conhecemos nos últimos 30 anos.

Em qualquer conversa encontramos a seguinte mudança: logo nas primeiras frases surgem sinais de profunda insatisfação com os partidos e com a democracia parlamentar, vistos como exemplos de corrupção e ineficácia. As pessoas estão descontentes e querem a ruptura. O socialismo falhou na geração anterior e não é resposta viável à substituição do liberalismo. Não veremos o aumento da dimensão do Estado através de nacionalizações, mas o futuro passa pelo reforço do poder do Estado, algo que a tecnologia permite inteiramente.

 

 

A opinião pública convenceu-se de que a liberdade do mercado foi um erro. Nas últimas três décadas houve um brutal aumento das desigualdades sociais, conivência entre negócios e política, abuso dos recursos. A percepção dominante é de que mercados não são livres nem racionais, pelo contrário, foram tomados por interesses, o contribuinte tornou-se refém da ganância, o Estado foi negligente na regulação, os media estão domesticados pelo dinheiro.

Os políticos tradicionais tornaram-se embaraçosos e o eleitorado das sociedades industrializadas está disponível para ilusões populistas. As pessoas vão preferir o palhaço ao dirigente sombrio, o demagogo ao líder pessimista, o vendedor de banha da cobra ao mensageiro de mais austeridade.

A mudança será acelerada pela aparente circunstância destes liberais não terem resposta para os problemas de fundo do Estado Providência: tendo em conta a pressão demográfica, como serão financiados os crescentes exércitos de aposentados e as legiões de pobres? O aumento de produtividade não é suficiente e desfazer o sistema será uma resposta impopular.

O novo ciclo tentará assim fornecer soluções controlando o capitalismo, prometendo meter o génio na garrafa. Os eleitos terão maior poder na economia e a vaga de liberalização de costumes será substituída por uma onda inversa, conservadora.

A democracia recebe a culpa pelos ‘excessos’ do liberalismo e do politicamente correcto. Os políticos vão pedir condições de estabilidade e oferecer em troca mais autoridade. Vamos ouvir falar muitas vezes em comunidade nacional, valores tradicionais, segurança. Nos próximos anos, vamos ouvir falar menos vezes em tolerância cultural e em liberdade.

 

 

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (17)


Luís Naves,

Visto a partir da segurança do extremo ocidental da Europa, o Médio Oriente parece uma zona de desastre e colapso. A tragédia em Gaza é quase inexplicável: os habitantes daquele território vivem como autênticos prisioneiros num campo de concentração; as poucas indústrias foram destruídas, não há água ou electricidade, a reconstrução será inútil, centenas de milhares perderam a casa ou ficaram traumatizados. Em cada novo espancamento, Gaza radicaliza-se um pouco mais. Aliás, a radicalização dos perdedores ajuda talvez a explicar a insanidade do Estado Islâmico do Iraque e Síria. Esta organização fez milhões de pessoas recuar um milénio, conquistou um território assinalável e combate todas as outras forças da região. O EIIS conseguiu a coisa espantosa de unir  americanos, iranianos, sauditas, curdos e ainda o regime sírio. A América, que está a perder o Iraque, alia-se ao Irão para combater estes radicais extremos, que matam ou expulsam todos os membros das outras comunidades religiosas. O grupo quer criar um califado e conquistou com rapidez fulgurante um espaço significativo, embora ainda sem ameaçar o fluxo do petróleo. Aliás, não adianta defiinir o EIIS como “grupo terrorista”, pois este é já um embrião de Estado, capaz de se expandir por meios militares convencionais.

A América, no caso do Iraque, cometeu um erro tremendo em 2003, alterando o equilíbrio que existia entre as três potências regionais inimigas (Iraque, Irão e Arábia Saudita) que controlavam dois terços das reservas petrolíferas do planeta. Os problemas do Islão político vão ainda mais fundo: há uma guerra civil na Síria que já matou 200 mil pessoas, a Líbia encontra-se à beira da fragmentação total, o Iémen mergulha no caos, todo o Sara está em rebelião, os vencedores da revolução egípcia foram aprisionados e o descontentamento e a repressão alastram na Ásia Central, da Chechénia a Xinjiang. Estaremos a assistir ao estertor da própria civilização islâmica? É bem possível.

Cadernos de um enviado especial ao purgatório (16)


Luís Naves,

O que escrevi a propósito de literatura podia ser interpretado como rejeição do contemporâneo, mas visou apenas reflectir sobre o critério que determina a escolha daquilo que é considerado arte. A minha intenção era dizer que o comércio e a exposição mediática em excesso limitam as novas ideias e sobretudo pretendi sublinhar que estes processos implicam a banalização do artista, transformado em jarrão decorativo que, quando fala, diz o que se espera dele: sempre obscuro, mas sem ser incómodo.

As elites deixaram de ler romances, que eram escritos por membros das classes altas. A literatura foi extremamente popular entre as pessoas influentes dos dois séculos anteriores, tema de conversa nos salões da aristocracia e, depois, nas festas dos burgueses da revolução industrial. O desconhecimento das novidades castigava-se com sarcasmo e a ignorância dos clássicos era impensável.

Isto já não é assim e os escritores, que no passado tinham certa fama, pelo menos na sua cidade, estão agora inteiramente proletarizados. A literatura perdeu a aura intelectual que possuía, deixando de ser um farol das consciências. O mesmo é válido para pintores, violinistas ou maestros: o impacto social dos artistas é hoje tanto maior quanto mais se massificou a arte. A cultura popular dita as regras e vive aliás um período medíocre. As massas deixaram de ter disposição para coisas estranhas, a sua reduzida exigência aceita imitações e rejeita quem tente contrariar a moda instalada. A escrita de hoje, tecnicamente excelente, mantém muitas qualidades, mas os escritores e os artistas são personagens secundárias, ao serviço de um mercado que os condena à inexistência, caso não satisfaçam as expectativas dos consumidores. Sem fazerem concessões ao gosto dominante, serão desconhecidos; se as fizerem, serão maus escritores. Um dilema difícil.