Cadernos de um enviado especial ao purgatório (29)


Luís Naves,

No mundo em que vivemos (não aquele em que imaginamos viver), a discriminação é um dado presente, como se vê neste texto de Paulo Pinto ou neste outro de Filipe Nunes Vicente.

Nos países industrializados existe uma prática de discriminação silenciosa, que ajuda a explicar os fanáticos, os radicais e o descontentamento larvar.

Estas sociedades criaram uma extensa classe média que tem o terror do empobrecimento súbito, seja ele real ou imaginário, terreno fértil para os populistas que tentam explorar a ideia da insegurança. As pessoas vivem no medo profundo de cair ao longo da escada social.

A ordem liberal que triunfou nos últimos 30 anos criou uma sensação de crescente desigualdade e alienou os fracassados do ensino de massas que, sem lugar na economia, sem trabalho e sem qualificações, parecem só possuir o recurso à proletarização extrema.

As minorias não têm lugar nesta situação de desemprego elevado e de redução do Estado social. O sentido de injustiça alastra um pouco por todo o lado, entre os ciganos da Europa Central, nos subúrbios das grandes cidades europeias, nos negros americanos sem voz política, em todos os grupos cujo acesso aos meios de comunicação é feito em doses cuidadosas e filtradas.

Dominadas pela correcção política, pelos partidos burgueses tradicionais e pela defesa da ordem liberal que provocou a crise financeira, as democracias não parecem ter uma resposta viável para os problemas colocados por minorias presas no fundo da pirâmide.

 

2 comentários em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (29)”

  1. A formação dos preços circunstancial e não funcional tambem explica alguma coisa. Havendo muita oferta para a mesma procura os preços tendem a baixar(podemos comprar um smartfone por 16$ quando está para chegar o novo modelo).
    Como para os indeferenciados existem muitos milhares de milhoes disponiveis neste mundo globalizado -no Alentejo temos equipas de tailandeses – os salarios tendem a ser mais baixos para trabalhos que eram mais bem pagos antes.
    Os mais habilitados ainda vão resistindo com menos quebra mais porque parte da decisão lhes cabe; mas onde a crise ainda não chegou e talvez nem chegue é nos top -precisamente porque as decisoes são deles mesmos.

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