Cadernos de um enviado especial ao purgatório (24)


Luís Naves,

Esta história, que li na Economist, mostra um avanço notável na inteligência artificial e demonstra que os humanos estarão dispostos a contar os seus problemas mais íntimos a um programa de computador com elevado grau de inteligência. Esta segunda reportagem sugere que a relação entre homens e máquinas inteligentes poderá assumir formas complexas, pois teremos inibição em fazer mal a um robot que nos pareça autónomo ou capaz de raciocinar. A inteligência artificial terá de evoluir ainda muitos anos antes de atingir um nível que ultrapasse a nossa espécie, mas em breve estaremos perante grandes problemas éticos e eventualmente até perigos existenciais.

Quando li a história da psicóloga virtual lembrei-me de uma personagem de um livro de 1977, o clássico da ficção científica Gateway*, de Frederick Pohl, por sinal verdadeira obra-prima do género. Neste livro, o protagonista faz terapia com ajuda de uma máquina, Sigfrid von Shrink, psiquiatra virtual que o autor imagina com aspecto mecânico. A personagem principal é um explorador que teve sorte numa perigosa viagem espacial às cegas, espécie de lotaria baseada no uso irresponsável da tecnologia de uma espécie alienígena antiga, entretanto desaparecida, a que os humanos chamam os Heechee.

Muitos entusiastas consideram Gateway um dos melhores livros da história da ficção científica e na verdade este romance (que teve duas sequelas) coloca problemas muito interessantes sobre as consequências imprevistas do uso inconsciente da tecnologia. Trata-se de uma variação da lenda do aprendiz de feiticeiro, tendo este conto de origens antigas (talvez da Grécia clássica) inspirado um poema de Goethe, que por sua vez serviu de base para um poema sinfónico do compositor francês Paul Dukas, parte fundamental do filme de Disney, Fantasia, que talvez Frederic Pohl tenha visto, encontrando ali o tema para uma abordagem mais complexa que, por acaso, inclui um psicólogo robótico, Sigfrid von Shrink (o curioso uso do Sigfrid), antepassado literário da verdadeira máquina, que por acaso se chama Ellie, diminutivo em inglês do nome Helen, que vem do grego Helena, que segundo alguns significa luz brilhante, nome apropriado a descobertas e a grandes paixões, mas segundo outros pode estar ligado à designação grega da Lua, e assim estranhamente vamos dar aos Heechee e a Gateway, que é uma lua artificial.  

 

*Foi publicado em português na colecção Argonauta, 355 e 356, com o título A Porta das Estrelas.

Um comentário em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (24)”

  1. É um grande livro, sim senhor – com um final absolutamente inesquecível, e as mais intrigantes sessões de psicoterapia que li em ficção científica (com uma IA psiquiatra – pergunto-me se para o recente “The Zero Theorem” o Terry Gilliam foi lá buscar a inspiração para a personagem da Tilda Swinton), aquele ambiente de “fronteira”, que tantas vezes aproxima a ficção científica do western, e que tanta falta faz ao género nos dias que correm.

    Já agora, o Frederik Pohl faleceu no ano passado.

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