Cadernos de um enviado especial ao purgatório (18)


Luís Naves,

Sobretudo nos países que viveram de forma mais intensa a crise, o colapso financeiro de 2008 teve por consequência maior o fracasso da democracia liberal e o avanço de algumas ideias, ainda em gestação, que pretendem romper com o ciclo que conhecemos nos últimos 30 anos.

Em qualquer conversa encontramos a seguinte mudança: logo nas primeiras frases surgem sinais de profunda insatisfação com os partidos e com a democracia parlamentar, vistos como exemplos de corrupção e ineficácia. As pessoas estão descontentes e querem a ruptura. O socialismo falhou na geração anterior e não é resposta viável à substituição do liberalismo. Não veremos o aumento da dimensão do Estado através de nacionalizações, mas o futuro passa pelo reforço do poder do Estado, algo que a tecnologia permite inteiramente.

 

 

A opinião pública convenceu-se de que a liberdade do mercado foi um erro. Nas últimas três décadas houve um brutal aumento das desigualdades sociais, conivência entre negócios e política, abuso dos recursos. A percepção dominante é de que mercados não são livres nem racionais, pelo contrário, foram tomados por interesses, o contribuinte tornou-se refém da ganância, o Estado foi negligente na regulação, os media estão domesticados pelo dinheiro.

Os políticos tradicionais tornaram-se embaraçosos e o eleitorado das sociedades industrializadas está disponível para ilusões populistas. As pessoas vão preferir o palhaço ao dirigente sombrio, o demagogo ao líder pessimista, o vendedor de banha da cobra ao mensageiro de mais austeridade.

A mudança será acelerada pela aparente circunstância destes liberais não terem resposta para os problemas de fundo do Estado Providência: tendo em conta a pressão demográfica, como serão financiados os crescentes exércitos de aposentados e as legiões de pobres? O aumento de produtividade não é suficiente e desfazer o sistema será uma resposta impopular.

O novo ciclo tentará assim fornecer soluções controlando o capitalismo, prometendo meter o génio na garrafa. Os eleitos terão maior poder na economia e a vaga de liberalização de costumes será substituída por uma onda inversa, conservadora.

A democracia recebe a culpa pelos ‘excessos’ do liberalismo e do politicamente correcto. Os políticos vão pedir condições de estabilidade e oferecer em troca mais autoridade. Vamos ouvir falar muitas vezes em comunidade nacional, valores tradicionais, segurança. Nos próximos anos, vamos ouvir falar menos vezes em tolerância cultural e em liberdade.

 

 

Um comentário em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (18)”

  1. “A opinião pública convenceu-se de que a liberdade do mercado foi um erro.”
    A Liberdade tem como reverso da sua medalha a Responsabilidade. É interessante deixar as pessoas tomar as suas decisões, arriscarem o seu caminho e colherem os frutos da sua labuta, qualquer que seja, desde que respeitem as regras existentes na sociedade.

    Ora, o que não faltam por aí são “chicos-espertos”, prontos a vender a ‘banha-da-cobra’, desde banqueiros ao sujeito que mistura a gasolina com água para ganhar mais uns trocos em cada litro que vende. São pessoas que, na maioria dos casos, não são apanhadas na malha da justiça, pois são demasiado grandes ou as coisas prescrevem ou qualquer outra razão (como um juiz deixar ‘marinar’ milhares de processos sem nunca ter um processo disciplinar, que isso é para os outros).

    No meio disto, os políticos mostram-se incompetentes (se quisermos ser brandos) ou coniventes com as práticas lesivas da vida dos cidadãos. Mais caixa de robalos, menos Rolex, existe toda uma dinâmica política em Portugal que visa a libertinagem do mercado, onde os que têm maior poder (e dinheiro) conseguirão ficar ainda com mais (benefícios fiscais, subsídios, isenções e transferências a fundo perdido), à custa dos que menos poder têm (redução das comparticipações sociais, aumento da carga fiscal, redução dos direitos do emprego – a ponto de se discutirem indemnizações por despedimento sem justa causa!).

    “O socialismo falhou na geração anterior e não é resposta viável à substituição do liberalismo.”
    A “experiência” que a Rússia e a União Soviética tiveram apenas tem “socialismo” no nome. Podemos chamar o que quisermos, mas seria mais ‘simpático’ chamar a essa forma de governo “Comunismo”. A Europa, no pós II Guerra Mundial é que viveu uma espécie de Socialismo, no qual não foi descartada a liberdade individual, mas em que os Estados (através dos seus Governos) velavam para que se atingisse um maior grau de satisfação colectivo. Foram criadas leis e instituições para velarem por elas (como o Tribunal Europeu de Justiça, entre outros). Ao mesmo tempo, pretendia-se reconstruir a Europa a partir dos escombros onde se encontrava, bem como evitar que nacionalismos, ódios ancestrais e inveja da riqueza alheia pudessem dar origem a outro conflito à mesma escala. Ora, esta experiência foi um sucesso!

    Apesar da viragem actual, na qual nos pretendem fazer acreditar nos todos-poderosos e infalíveis mercados (que até os Economistas a sério indicam que têm falhas!) e que os Estados apenas permitem o parasitismo dos pobres (uma ideia que é refutada com os valores em questão, mas que aparece na boca dos cidadãos mais insuspeitos), a solução é Socializar novamente a Europa. Faz falta separar bem os poderes (ao contrário do que se passa actualmente na Hungria ou até da mistura pouco saudável em Portugal), dar hipóteses das pessoas se assumirem na sua liberdade da criação de valor e de orientação da sua vida (mas mantendo sempre em vista o máximo bem-estar da sociedade como princípio fundamental) e traçar regras de conduta para controlar os “chicos-espertos”. Qualquer semelhança com a Realidade é puro desejo…

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