Neste texto, Filipe Nunes Vicente cita um autor que eu desconhecia, Curt Meyer-Clason, e encontra a expressão feliz e certeira da “velha guilda da revolta mansa”. Alguns romances com 40 anos mostram essa elite inconsequente, que discute alta filosofia política nos salões da gente que conta (Sem Tecto, Entre Ruínas, de Augusto Abelaira, é um exemplo que me ocorre de imediato, pois o livro começa com a longa discussão de um grupo idêntico ao descrito por Meyer-Clason).
A elite nacional já não é tão fina e tão pequena como era em 72 ou 82, nem o povo português é hoje tão pouco instruído como nesse tempo. Ele tornou-se mais europeu, os seus filhos estudaram, o rendimento das famílias aumentou. Apesar disso, muitos intelectuais continuam a desprezar a ignorância das classes menores, sem perceberem que imaginam uma realidade inexistente; por outro lado, os pobres que ascenderam à classe média perderam a paciência para a mansidão pedante destes visionários míopes, que parecem ignorar todas as transformações. As novas fórmulas infalíveis para o futuro falam para um País que já não existe há pelo menos uma geração e que, no essencial, se está nas tintas para utopias, agitações revolucionárias e cultura obrigatória.
Na Europa persiste a imagem de um Portugal pobre e quase analfabeto, mas as classes sociais dominantes no País partilham dessa opinião distorcida e consideram que o seu próprio povo forma um rebanho com a qual não se consegue fazer qualquer mudança. As altas conversas incluem grandes estratégias e nobres desígnios, gentilmente fornecidos à população sem que alguém se lembre de perguntar o que ela deseja. É por isso que, sempre que surge um problema, a discussão morre no início, para não sair dos círculos certos. Os meios de comunicação, os partidos, os escalões mais altos da administração e da economia, enfim, todos os patamares instalados exibem um desprezo permanente pela autêntica ascensão social, que tem cada vez mais a forma de diluição de classes.

Até porque a mudança , com excepções ( a nobreza polaca depois da queda de Metternich por ex), quase nunca vem das elites centrais, Luís.