Cadernos de um enviado especial ao purgatório (16)


Luís Naves,

O que escrevi a propósito de literatura podia ser interpretado como rejeição do contemporâneo, mas visou apenas reflectir sobre o critério que determina a escolha daquilo que é considerado arte. A minha intenção era dizer que o comércio e a exposição mediática em excesso limitam as novas ideias e sobretudo pretendi sublinhar que estes processos implicam a banalização do artista, transformado em jarrão decorativo que, quando fala, diz o que se espera dele: sempre obscuro, mas sem ser incómodo.

As elites deixaram de ler romances, que eram escritos por membros das classes altas. A literatura foi extremamente popular entre as pessoas influentes dos dois séculos anteriores, tema de conversa nos salões da aristocracia e, depois, nas festas dos burgueses da revolução industrial. O desconhecimento das novidades castigava-se com sarcasmo e a ignorância dos clássicos era impensável.

Isto já não é assim e os escritores, que no passado tinham certa fama, pelo menos na sua cidade, estão agora inteiramente proletarizados. A literatura perdeu a aura intelectual que possuía, deixando de ser um farol das consciências. O mesmo é válido para pintores, violinistas ou maestros: o impacto social dos artistas é hoje tanto maior quanto mais se massificou a arte. A cultura popular dita as regras e vive aliás um período medíocre. As massas deixaram de ter disposição para coisas estranhas, a sua reduzida exigência aceita imitações e rejeita quem tente contrariar a moda instalada. A escrita de hoje, tecnicamente excelente, mantém muitas qualidades, mas os escritores e os artistas são personagens secundárias, ao serviço de um mercado que os condena à inexistência, caso não satisfaçam as expectativas dos consumidores. Sem fazerem concessões ao gosto dominante, serão desconhecidos; se as fizerem, serão maus escritores. Um dilema difícil.

19 comentários em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (16)”

  1. Bom tema para reflexao. Na mesma linha, uma referencia para o M. Vargas Llosa que tem também alertado para esta questao da massificacao da cultura.

  2. Mas que macedónia mais usual de lugares-comuns:

    – “O que escrevi a propósito de literatura podia ser interpretado como rejeição do contemporâneo, mas visou apenas reflectir sobre o critério que determina a escolha daquilo que é considerado arte.”

    O Luís fez o que todas as pessoas, à medida que vão envelhecendo, fazem: decidiu, através duma selecção de memórias, que o passado foi uma idade de ouro em relação à idade de ferro da contemporaneidade.

    – “A minha intenção era dizer que o comércio e a exposição mediática em excesso limitam as novas ideias e sobretudo pretendi sublinhar que estes processos implicam a banalização do artista, transformado em jarrão decorativo que, quando fala, diz o que se espera dele: sempre obscuro, mas sem ser incómodo.”

    Que ridículo. Novas ideias? Pegue em 10 excelentes romances oitocentistas e compare-os: verá que todos são praticamente iguais, no estilo (provavelmente uma imitação de Flaubert), no tema e nas personagens (a incontável plêiade de Madames Bovary que Tolstoy, Eça, Fontane, etc., regurgitaram) e no moralismo de conto de fadas (todas morrem! Como é que mulheres se atrevem a ser adúlteras?)

    Pegue em 10 romances depois de 1918: Kafka, Beckett, Saramago, Nabokov, McCarthy, García Márquez, Calvino, etc.: os temas são diferentes, a voz autoral é diferente, o sentido de moral é diferente, o humor é diferente, a estrutura é diferente. Com Joyce houve uma explosão de novas possibilidades que não se via no romance desde o século XVIII, e ainda não se acabou de explorar esse potencial de liberdade formal e temática.

    O artista moderno pode ter sofrido uma banalização, mas certamente não foi por falta de novas ideias, antes se deveu a questões que estão fora do seu controle: estarem sempre a lutar contra as infindáveis formas que os homens têm de se distrair com banalidades, e de toda uma indústria que faz biliões aliementando essa antiga fome de banalidade. Esta era a premissa do livro de Huxley; não o leu?

    – “As elites deixaram de ler romances, que eram escritos por membros das classes altas. A literatura foi extremamente popular entre as pessoas influentes dos dois séculos anteriores, tema de conversa nos salões da aristocracia e, depois, nas festas dos burgueses da revolução industrial. O desconhecimento das novidades castigava-se com sarcasmo e a ignorância dos clássicos era impensável.”

    Ah, o saudosismo pelos bons velhos tempos da aristocracia; e contudo ainda estou para ler um romance dessa era dourada que, quando se debruçava sobre a aristocracia, não a pintasse como uma colecção de boçais fátuos sem uma única ideia no vasto deserto árido que ocupava o lugar dos cérebro dentro do crânio. Um caso de cães a morderem a mão que os alimentava? Deve ser isso; ou se calhar, vivendo eles na era que o Luís idealiza, eles tivessem uma percepção diferente dos donos.

    – “Isto já não é assim e os escritores, que no passado tinham certa fama, pelo menos na sua cidade, estão agora inteiramente proletarizados. A literatura perdeu a aura intelectual que possuía, deixando de ser um farol das consciências.”

    Mas foi exactamente no século XIX que a literatura ganhou uma aura intelectual; o substantivo intelectual, no sentido moderno da palavra, foi aplicado pela primeira vez a respeito do caso Dreyfus, foi a partir daí que o artista se começou a envolver activamente nos assuntos da pólis, como um ser especial detendo mais sageza do que o reles trolha. Antes, eram meros críticos e satiristas de maneiras, lugares-comuns e tradições, quando não escreviam apenas para entreter leitores. Que intelecto requer a leitura de Austen ou Fielding ou Cervantes? São autores escorreitos, directos, simples; comparados com os do século XX, com a fragmentação do tempo e mudanças abruptas de pontos de vista, simplistas até.

    Quando ao farol das consciências, depois de todos os casos documentados da ignorância político-moral dos artistas (apóstolos do império, do racismo, do colonialismo, da eugenia, do sexismo, do fascismo, do nazismo, do estalinismo, etc.,) porque é que alguém ainda acredita que os escritores nos podem ensinar algo sobre a consciência no seu sentido moral? Um escritor é apenas alguém que sabe escrever melhor do que pessoas comuns.

    1. Ainda bem que a minha salada de lugares-comuns o irritou tanto, pois isso é bom sinal. Julgo que a sua interpretação do meu texto é um pouco incorrecta, pois parece-me que leu nas minhas palavras uma tentativa de comparar o romance clássico com o romance moderno. Não foi de todo a minha intenção. A literatura reflecte a época em que é escrita, mas há períodos em que surgem produtos excelentes e períodos em que isso não acontece, por razões que podem ser discutidas. Julgo que vivemos num desses períodos medíocres, que terá começado algures nos anos 80. O facto é que se torna difícil elaborar uma lista de grandes romances dos últimos dez anos que tenham influenciado a sociedade em geral. Não quer dizer que não existam grandes romances, mas apenas que ainda foram lidos. Balzac era uma vedeta, Victor Hugo tinha dimensão mítica, Tolstoi era venerado. Claro que na época deles havia muito lixo, mas a cultura das elites era o essencial da cultura. No século XX, escritores vivos continuaram a ser muito respeitados. Eles tinham uma importância social que nitidamente se perdeu. Hoje, triunfa o troloró e os artistas perderam o seu lugar na sociedade, deixaram de ser referência intelectual, para serem produtos e marcas. Pode ser lugar-comum, mas julgo que é também um facto.

      1. Eu interpretei o último texto do Luís como uma comparação entre os romances clássico e moderno.

        Este interpretei-o, creio que correctamente, como uma idealização do passado. Parece-me que dá demasiada importância ao estatuto de certos escritores do passado (e é interessante que todos são do século XIX, como se não houvesse nada antes disso): Tolstoy era venerado, pelos seus romances ou pelas suas ideias espirituais? E que importância tiveram elas para a sua época? O seu pacifismo cristão foi assim tão importante que impediu a mortandade da I Guerra Mundial? Ambos sabemos que não.

        Os escritores levam-se a sério, muita gente leva-os a sério também, como se eles comportassem alguma grande verdade. Pensam que o facto de saberem escrever muito bem sobre sentimentos e ideias faz deles autoridades sobre os assuntos humanos. E contudo a relação dos escritores com a política frequentemente mostra como eles são ingénuos, quando não idiotas, para não dizer sanguinários e apologistas dos piores regimes.

        O Luís lamenta o fim do papel do artista na sociedade, a mim isso parece-me algo positivo; o artista agora não é um deus, é o que sempre foi, um comum mortal, que não sabe mais do que um trolha sobre os assuntos do mundo e que pode participar na res publica com a dimensão de qualquer outro cidadão, sem merecer tratamento especial. Concomitantemente, espero que isso signifique que se dê mais atenção ao que realmente importa – a obra; julgo que demasiados escritores medíocres (Jorge Amado e Hemingway vêm-me logo à memória) se tornaram grandes, não por qualquer talento artístico, mas porque propalavam certas ideias através dos seus panfletos políticos mascarados de literatura.

        O Luís que não se preocupe tanto com os romances da última década que influenciaram o mundo; preocupe-se antes com aqueles que o influenciaram.

        1. O que me influencia não está na discussão. Nem quero discutir se os escritores têm razão ou deixam de ter (geralmente não têm). O que digo é que a arte pode ou não traduzir uma verdade sobre o seu tempo. A cultura de elite perdeu o seu lugar na sociedade contemporânea e tornou-se praticamente marginal. Isso não acontecia no período moderno nem no período clássico, quando os artistas eram grandes figuras. Lembro a cena famosa do encontro de Beethoven com o imperador austríaco, que compreendia a grandeza do compositor e cujo nome, que não nos ocorre, poderemos todos procurar na wikipédia. O que existe hoje é cultura de massas e cultura de entretenimento, que não precisa de fazer uma reflexão profunda sobre o real. Os artistas de hoje que atingem a fama e a fortuna dificilmente resistem ao cruel julgamento do tempo.

      2. Balzac, Victor Hugo, e Tolstoi tem todos uma coisa em comum. Foram sucessos comerciais nos seus tempos. E é por isso que são clássicos. Tire o cavalinho da chuva se acredita que eram as “elites” que fizeram eles super estrelas, isso veio mais tarde. Os grandes autores do Século XIX, apanharam a primeira grande onda de literacia mundial, e é neste século que o Romance(Livro) como nós conhecemos efectivamente aparece, porque pela primeira vez, havia um mercado em expansão, o povo estava a aprender a ler. E como Dickens e Jules Verne iriam vir a provar, escrever deixou de ser assunto suportado por mecenas, e passou a ser uma carreira profissional.

        Os Miseraveis de Victor Hugo foi uma autentica negativa com a critica da altura e desprezado pela tal “elite”, no entanto, foi um sucesso comercial devido em parte à sua brutal campanha publicitaria, e porque não era um livro para a elite, era sim para o novo Francês educado.

        Charles Dickens não era nenhum Mestre da Literatura no seu tempo. A elite nunca esteve do lado de Dickens(A escrever sobre pobres? AH!) mas ele vendia que se fartava, os seus livros era um total sucesso com as novas massas. O homem era pago por palavra(Ai está porque os seus livros são intermináveis) e publicava em serie, tal como uma serie de TV hoje em dia, deixando os seus leitores em suspense entre publicação. Ele acabou por tornar-se rico somente a partir dos seus livros, um dos primeiros escritores profissionais. Dickens é o vendido original, ao ponto que ele mudou o final de um dos seus livros porque o publico não gostou. (Outro vendido famoso, Arthur Conan Doyle que fez Sherlock Holmes renascer porque o publico queria mais Holmes)

        Até mesmo o velho Shakespeare tornou-se imortal, não porque a gente da altura achava Hamlet intemporal, mas porque Shakespeare era o gajo das peças cheias de plot twists(Afinal Hamlet é filho de Claudius!?!? ELA BEBEU O VINHO!), do Marlowe para os burros, e das piadas sobre órgãos sexuais. E claro, propaganda Tudor. O homem escrevia blockbusters.

        Daqui a 100-200 anos, quando se estiver a olhar para a literatura do Século XX, os nomes que iram dominar(Da forma como Dickens, Verne, Wells dominam o XIX) vão ser o de Stephen King e Agatha Christie não o de Hemingway, Nabokov, McCarthy. Carrie vai ser considerado um clássico do Naturalismo Americano, e King um génio desse género apesar da pobre segunda metade de carreira.

        1. “Daqui a 100-200 anos, quando se estiver a olhar para a literatura do Século XX, os nomes que iram dominar(Da forma como Dickens, Verne, Wells dominam o XIX) vão ser o de Stephen King e Agatha Christie não o de Hemingway, Nabokov, McCarthy. Carrie vai ser considerado um clássico do Naturalismo Americano, e King um génio desse género apesar da pobre segunda metade de carreira.”

          Tudo é possível, mas duvido. Conan Doyle, Verne e Wells podem ser populares ainda hoje, como merecem, mas milhares de escritores ultra-populares no século XIX simplesmente foram esquecidos: quem lê Eugene Sue, Ponson du Terrail, Paul Feval? Eu por acaso leio, mas eu tenho pancada pelo obscuro e bizarro. E mesmo o trio supra-citado não figura entre os “grandes” desse século, são aceites, com algum desdém, porque são populares, mas professores, escritores modernos e críticos dificilmente diriam que Verne é mais importante do que Baudelaire, ou Wells do que Hardy. Para a história da literatura, no sentido de influência e abertura de novos caminhos, não tiveram importância nenhuma: um romance como Moby Dick tem mais peso no romance do século XX do que The Time Machine ou The War of the Worlds alguma vez tiveram.

          Stephen King tem boas hipóteses de se tornar um desses escritores de massas que atinge uma certa imortalidade por causa de uma ou outra obra, assim como ainda se lê The Scarlet Pimpernel (de resto que mais da Baronesa Orczy?) ou The Thirty-Nine Steps (que mais de John Buchan?), mas será um dos poucos, talvez com a Rowling, dificilmente acredito que o cânone futuro inclua James Patterson, Tom Clancy e Lee Child ou que vindouros vencedores do Pulitzer, Booker, Nobel, etc, lhes agradeçam nos seus discursos.

  3. – “O mesmo é válido para pintores, violinistas ou maestros: o impacto social dos artistas é hoje tanto maior quanto mais se massificou a arte. A cultura popular dita as regras e vive aliás um período medíocre. As massas deixaram de ter disposição para coisas estranhas, a sua reduzida exigência aceita imitações e rejeita quem tente contrariar a moda instalada.”

    Diga-me, Luís, nunca se perguntou por que motivo Eça e Ramalho se puseram a escrever O Mistério da Estrada de Sintra? Eu explico-lhe: porque no passado, como no presente, predominava um gosto pelo fácil, pelo lixo, pelo mero entretenimento entre as classes burguesas que sabiam ler e que tinham algumas pretensões culturais. O livro deles é uma directa paródia aos best-sellers da época: Ponson du Terrail , Eugéne Sue, etc. Percebeu? Já existia merda então; sempre houve merda ; as pessoas sempre quiseram merda , as pessoas sempre obtêm a merda que querem porque haverá sempre alguém disposto a ganhar dinheiro escrevendo merda populista. Os seus adorados aristocratas e burgueses não andavam a esfalfar os neurónios lendo grandes romances, eles apenas queriam passar algumas horas de lazer seguindo as aventuras de Rocambole.

    O artista sempre foi uma figura marginalizada, a sua fama sempre foi tardia, os grandes nem sempre foram grandes, muitos foram detestados na sua época e fomos nós, os medíocres de hoje, que os resgatámos do esquecimento. Mas os artistas nunca quiseram fama, nunca quiseram ter grande impacto, não é por isso que eles produzem arte, para eles é uma vocação, um modo de ser, muitos até temem a fama porque compreendem o risco de serem incorporados no mainstream.

    – “A escrita de hoje, tecnicamente excelente, mantém muitas qualidades, mas os escritores e os artistas são personagens secundárias, ao serviço de um mercado que os condena à inexistência, caso não satisfaçam as expectativas dos consumidores. Sem fazerem concessões ao gosto dominante, serão desconhecidos; se as fizerem, serão maus escritores. Um dilema difícil.”

    O dilema não é difícil de modo algum. Pessoa, Kafka, Joyce, que viveram em condições de quase pobreza, com empregos das 9 às 17, compreenderam muito bem o importante: a arte antes da cedência ao popular. O artista sabe o que deve fazer. Se está disposto a fazê-lo, é outra história.

    1. No post não mencionei a poesia, mas o esquema comercial da literatura condena a poesia à invisibilidade. Quem a publica? Quem são os poetas que vivem do que escrevem? A morte lenta da poesia é um dos grandes temas da cultura contemporânea. Vai certamente dar exemplos de um ou dois que vivem do que escrevem, mas fizeram a sua reputação quando os poetas ainda eram alguém; não haverá próxima geração, pois há poucas maneiras de um artista talentoso e inovador vender um poema que escreva hoje. Há ainda revistas literárias cheias de coragem que podem publicar esse poema, talvez o poeta até chegue às livrarias, mas a poesia é claramente um universo à beira da extinção.

      1. – “Quem são os poetas que vivem do que escrevem?”

        Quais viveram dela no passado? Pessoa? Jorge de Sena, que se lamentava nas cartas do número de filhos que tinha para alimentar? Alexandre O’Neill, que estava sempre na penúria, a pedir emprestado aos amigos e a saltar de emprego em emprego? Os poetas, a não ser que fossem aristocratas, sempre tiveram de dividir o tempo entre uma ocupação prática e o estro. O Luís continua a idealizar, a romantizar.

        “não haverá próxima geração, pois há poucas maneiras de um artista talentoso e inovador vender um poema que escreva hoje.”

        Se um poeta só escreve mediante uma previsão de lucro, então sou eu que não o quero ler. A escrita tem de ser uma vocação.

        “mas a poesia é claramente um universo à beira da extinção.”

        Parece-me ser uma previsão alarmista, mas não é impossível: a poesia é uma invenção humana, surgiu e também pode desaparecer. A poesia não é indispensável como o pão. Talvez um dia desapareça, mas se ela já não cumprir nenhuma utilidade de que servirá tê-la à nossa volta?

        1. Esta minha reflexão foi escrita em parte devido ao impacto de um livro que estou a ler, A Morte de Virgílio, de Hermann Broch, onde estas questões estão presentes.
          O poeta, como qualquer artista ou trabalhador, tem de ser remunerado. Muitas pessoas acham que neste trabalho basta carregar no botão e surge a obra de génio, mas ela exige tempo, é preciso praticar, alimentar a família, pagar as contas. A ideia do artista a passar fome é perfeitamente romântica. O artista que não se consegue sustentar nunca existiu.
          E discordo do que afirma no final. Julgo que a poesia é indispensável ao ser humano, como é aliás o impulso artístico, que existe em todas as línguas e em todas as culturas. Se é comum a todos, é indispensável.

          1. “O poeta, como qualquer artista ou trabalhador, tem de ser remunerado. Muitas pessoas acham que neste trabalho basta carregar no botão e surge a obra de génio, mas ela exige tempo, é preciso praticar, alimentar a família, pagar as contas.”

            O Luís terá notado, decerto, que eu mencionei o facto de os poetas terem sempre um emprego; eu tenho plena consciência de que eles também necessitam de sustento. Mas do que conheço dos poetas eles não escrevem com vista a ganhar dinheiro da escrita, isso apenas os obrigaria a submeter a sua inspiração e expressão aos interesses do público. É por isso que poetas e escritores em geral dão aulas, trabalham em publicidade e bibliotecas, traduzem, empregos relacionados com a literatura. Viver da escrita é mais fácil para um romancista, até para um que se nãos submeta aos desejos do público, mas até um poeta populista terá dificuldade em vender.

            Quando à indispensabilidade da poesia, existem milhões de pessoas que, depois do liceu, não voltam a ler um poema, nem um livro, nem mesmo um dos fáceis do Dan Brown, se calhar nem um jornal, com alguma sorte talvez o Destak ou o Metro. A escrita sempre foi para uma elite, não de classe, nem de educação, mas de sensibilidade, de vocação diria; há certas pessoas que tem uma propensão para o prazer da leitura. A maioria das pessoas, porém, satisfaz esse impulso artístico vendo Os Mercenários 3 ou o Mamma Mia.

  4. Quero concordar mas não sei se posso. A literatura, como outras artes, massificou-se e, ao fazê-lo, foi inundada por obras menores. É o gosto dominante – o ‘mercado’ – a funcionar, como funciona no cinema, na música ou na televisão. Apesar disso, não deixam de sair grandes obras, abordando grandes temas.(*) São mais difíceis de descobrir por entre a irrelevância dominante mas, provavelmente, acabam lidas por tanta gente como no passado. E – gosto de mostrar optimismo pelo menos uma vez por dia – a tendência até pode ser de crescimento, num processo similar ao que leva os canais generalistas a perderem público para os canais de cabo. The Wire, The Sopranos ou True Detective têm audiências suficientes para se tornarem nos clássicos que séries ou filmes menores nunca serão.

    Quanto à elites, de acordo. O sucesso é hoje medido em dinheiro e show off , não numa distinção de conhecimentos ou classe. De resto, se antes tinham educação muito diferente da dos restantes (mais baseada nos clássicos, na filosofia, nas artes), agora nem por isso.

    (*) Um exemplo, sobre o qual não tenho opinião definitiva (ainda só li um par de capítulos) mas que tem recebido críticas monumentais:
    http://www.amazon.co.uk/Light-What-We-Know/dp/1447231228/ref=sr_1_1?s=books&ie=UTF8&qid=1407766676&sr=1-1&keywords=in+the+light+of+what+we+know

    1. Como nos países de língua inglesa as traduções são em quantidade mínima, os ingleses e americanos só lêem ingleses e americanos. Um dos dirigentes do comité Nobel disse em público que na América não se fazia nada de verdadeiramente novo em matéria literária e foi um escândalo, mas o ponto de vista era válido. Concordo com o que escreve sobre as séries de televisão (The Wire era genial), mas isso só revela o estado a que chegou o cinema americano: a criatividade passa entre os pingos de chuva na direcção da TV.

        1. Hm , não sei se concordo; passo muito tempo na blogosfera inglesa, e parece-me que, apesar da língua partilhada, há uma aversão, nos EUA e RU, a livros dos países africanos, e Índia e Oceania: também são vistos como exóticos. Os americanos são mesmo muito vidrados na literatura americana, e os ingleses na inglesa. Obviamente há sempre um ou outro livro que ganha notoriedade internacional, mas a minha perspectiva é que ler um livro do Quénia ou da Nigéria é quase como praticar um acto extraordinário, que suscita admiração noutros pela coragem e originalidade da escolha.

          Nesse sentido, nós portugueses, que lemos angolanos, cabo verdianos, moçambicanos e brasileiros sem grandes complexos, com a naturalidade de quem lê livros portugueses, estamos num patamar muito mais saudável.

      1. “Como nos países de língua inglesa as traduções são em quantidade mínima, os ingleses e americanos só lêem ingleses e americanos.”

        É mais ao contrário: as traduções são poucas porque o interesse nelas é pouco. Convém notar que muita boa gente combate esta tendência, a começar pelo Three Percent (3% é a percentagem de obras traduzidas nos EUA por ano):
        http :/ http://www.rochester.edu College translation threepercent /index.php?s=about

        “Um dos dirigentes do comité Nobel disse em público que na América não se fazia nada de verdadeiramente novo em matéria literária e foi um escândalo, mas o ponto de vista era válido.”

        Na verdade Horace Engdahl disse que a literatura americana era “demasiado insular e ignorante:”
        http ://www.telegraph.co.uk/news/worldnews/northamerica/usa/3120602/Nobel-literature-prize-judge-American-authors-insular-and-ignorant.html

        O senhor sueco é o verdadeiro ignorante, e diria que também xenófobo e chauvinista; só posso depreender isso de uma afirmação como: “Of course there is powerful literature in all big cultures, but you can’t get away from the fact that Europe still is the centre of the literary world, not the United States.” Quanta arrogância, a Europa é o centro da literatura mudial, como se a literatura não fosse um diálogo transnacional que circula o globo e impregna cada canto de forma diferente. Isto pareceu-me um caso de ansiedade europeia, temerosa de perder o seu lugar num mundo que cada mais a vota à irrelevância (económica, política, militar, social, e até cultural).

        Não tenho nada contra romancistas europeus, leio-os de vez em quando, mas gostava de saber o que tem Claudio Magris, W.G. Sebald, Le Clezio, Wertha Muller, Javier Marías, que não tem Philip Roth, Alexander Theroux, William H. Gass, Thomas Pynchon, William T. Vollmann, Robert Coover, John Barth, Joseph Mcelroy; todos estes autores levaram tão longe as possibilidades do romance, completamente renovaram-no, mas não escrevem sobre multiculturalismo, nem sobre os fantasma do nazismo, nem sobre as prisões soviéticas, por isso não devem ser escritores sérios, ao gosto da Academia Real Sueca que se preocupa mais com o conteúdo (as ideias certas, com a sensibilidade certa) do que com a execução e mestria da língua (mostrem-me o europeu que consegue escrever romances aliterativos, basicamente poesia em prosa, como Gass; ele dedicou 25 anos a escrever um romance; outros 10 noutro. A sua obra é pequena porque ele leva a escrita a sério, não despacha livros às pazadas como deste lado do Atlântico).

  5. Um aspecto que não vi abordado mas que julgo ser um dos factores determinantes é a enorme facil dissiminação das obras fazendo com que a influencia externa ao artista seja permanente e terá que ter reflexos logo na fase criativa. Tambem as formas com que os diversos medias tratam a “criação” artistica condiciona muito o resultado final.
    O que vai acontecer é que cada vez mais obras que levariam longos periodos a influenciarem os outros e serem conhecidos agora espalham a sua influencia no mesmo ano =veja-se a divulgação que um nobel tem hoje, que chega da China ao Quenia duas a tres semanas depois. Com os filmes ,musica, pintura, opera é o mesmo. Eu que gosto de opera já vi realizações formidaveis da mesma obra por companhias e artistas desde Moscovo a Los Angeles que nunca imaginei poder ver. Se fosse estudioso teria um manacial de influencias que nunca ninguem tinha a trinta anos atras.

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