O piquenique que mudou a Europa


Luís Naves,

No dia 19 de Agosto de 1989 uma pequena multidão de alemães-orientais juntou-se nos arredores de Sopron, na fronteira austro-húngara, num local chamado Sopronpuszta, onde dois meses antes os ministros dos negócios estrangeiros húngaro e austríaco tinham simbolicamente cortado o arame farpado da cortina de ferro.
Para dia 19, um eminente político europeu, Otto Habsburgo (descendente da família que governara o império austro-húngaro) tinha organizado um piquenique entre duas aldeias, uma húngara a outra austríaca. Tudo estava no plano simbólico, mas um rumor espalhou-se entre turistas alemães-orientais: havia a oportunidade de fugir. Na altura, a Hungria era um popular destino para turismo alemão. As famílias separadas pela cortina de ferro encontravam-se nas margens do lago Balaton, mas o bloco socialista atravessava uma crise e, sobretudo, havia a consciência crescente de que o regime tinha de fazer qualquer tipo de abertura. Muitos não acreditavam nisso e não queriam esperar.
O que sucedeu a 19 de Agosto de 1989 em Sopronpuszta estava além dos sonhos mais desvairados de qualquer crítico dos regimes comunistas. A fronteira era agora uma simples cancela e os alemães orientais que tinham acorrido ao local limitaram-se a puxar a barreira, enquanto os polícias austríacos e húngaros olhavam, espantados. Depois, foi o caos: as pessoas correram, atropelaram-se e, em minutos, tinham escapado mais de 600, que largaram tudo para trás. Há pouquíssimas fotos do acontecimento (a de cima é uma das raras), talvez por isso este momento crucial da história da Europa seja pouco conhecido.
Os leitores sabem o que sucedeu a seguir: no dia 23, foram removidas as barreiras na fronteira austro-húngara e milhares de turistas fugiram; nos dois meses seguintes, alemães-orientais de férias escaparam em vários pontos da fronteira austro-húngara ou refugiaram-se nas embaixadas da Alemanha em Praga e Varsóvia. O regime da RDA entrou em colapso rápido e o Muro de Berlim não resistiu, caindo a 9 de Novembro, poucas semanas depois do piquenique que mudou a Europa.

 

Publiquei este texto em 2009. O episódio raramente é referido, embora não tenha dúvidas de que constará dos livros de História. Em tempos de mudança, basta uma pequena faísca. Passaram 25 anos e como o mundo mudou. A fuga dos alemães aconteceu depois do piquenique pan-europeu, cuja intenção não era esta. As pessoas largaram mesmo tudo e a cena ficou cheia de carros, no lado húngaro. Muitos jornalistas já tinham abandonado o local e há poucas fotografias do acontecimento, que deve ter durado dois ou três minutos. Na imagem pode ver-se um polícia austríaco a rir e um húngaro com ar preocupado; estão prestes a ser atropelados por um grande grupo de alemães-orientais, mas isto é depois de terem passado muitos refugiados. A cancela está aberta e julgo que o fotógrafo se encontra em solo austríaco, apontando a câmara para o lado húngaro.

4 comentários em “O piquenique que mudou a Europa”

  1. Caro Luís Naves,

    Muitas das vezes são coisas pequenas, ridiculamente pequenas. Relembro – até porque foi recente – que a Primavera Árabe começou com um protesto (admito que violento, de auto-imolação) de um jovem comerciante tunisino contra a prepotência das autoridades municipais. E veja-se no que deu e está a dar…

  2. Na semana passada o canal (cabo) Arte emitiu um programa de 1 hora sobre esse convívio e o que originou depois. Era documentário alemão e voz-off francesa para a gente perceber. O piquenique era já tradicional e as imagens reportavam-se até 1974/75, depois outras mais recentes. Em 1989 também passaram imagens e o que sucedeu na fronteira, embora poucas imagens, foram mais as memórias do salto em frente com a liberdade ali ao pé. Cabe dizer que o lago Balaton ainda fica a uns 100 e tal quilómetros de Sopron, esta pequena cidade junto à fronteira com a Áustria, uma espécie de enclave ou apêndice se olharem para o mapa.

    O piquenique tinha, acima de tudo, o picante de reunir alemães de cá e de lá. Daí o interesse alemão pelo documentário, muitas imagens a preto e branco dos anos 70. Apesar da rivalidade ideológica fomentada do lado de lá, denunciando o diabo do lado de cá, os convívios terminavam invariavelmente em choro e abraços fraternos na despedida até ao ano seguinte. Essa reunião entre alemães dos dois lados é que foi precursora da dissuasão ideológica que os de Leste passaram a cultivar. Até poderem dar o salto, inesperadamente, por um lapsus linguae de um ministro alemão em Berlim Oriental que tanto balbuciou que, sim, disse que naquela noite não haveria barreiras mesmo na capital da RDA e passaram a Porta de Brandenburgo.

  3. Não quiseram ficar no lado “certo” da História,no paraíso dos povos.Esqueceram o
    Homem Novo.Preferiram o secular capitalismo.Hoje estão arrependidos,querem regressar,querem as cancelas repostas.Mais os Lada,os Trabants,as Stasis e os kgbs.Ouve-os?Já se manifestam.

  4. Duas correcções:

    – o piquenique estava previsto começar pelas 15 horas. A “cancela” estaria aberta até às 18 horas. A fuga começou pouco antes das 15, quando os guardas fronteiriços se preparavam para receber as delegações dos dois países.

    – no primeiro plano da fotografia estão dois oficiais húngaros. O do centro é Árpád Bella, o herói do dia.

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