A crise do emprego


Luís Naves,

O João André escreveu mais abaixo sobre emprego e optimismo. Convém ler com atenção o texto e olhar o gráfico. Julgo que estas questões não deviam dar lugar a interpretações governamentais ou oposicionistas. Na realidade, só há lugar para interpretações honestas ou desonestas, certeiras ou ao lado. Julgo também que é preciso olhar para os números do INE usando séries longas e homólogas, sendo útil comparar o mesmo trimestre, pois as variações anuais podem ser enganadoras.

Como o número mais recente disponível é do primeiro trimestre de 2014, é possível construir uma série começando, por exemplo, em 2009, no início da crise financeira. No primeiro trimestre de 2009, havia 5099 mil pessoas empregadas em Portugal (5,099 milhões). Destas, uma estimativa de 3476 mil com escolaridade básica e 805 mil com curso superior completo. O desemprego afectava 495 mil pessoas.

Vejamos então o que aconteceu nos primeiros trimestres dos anos seguintes:

 

 

Se observarmos o número de empregados, vemos uma quebra regular. Para não encher isto de números (e como sou incompetente em gráficos) tentarei simplificar: em 2009, perderam-se quase cem mil empregos; depois, 140 mil, depois 200 mil, a seguir 300 mil. Entre o primeiro trimestre de 2013 e o primeiro trimestre de 2014, a tendência inverteu-se e foram recuperados 70 mil empregos.

Dito de outra forma: entre 2009 e 2014, a economia portuguesa perdeu quase 700 mil empregos. Na crise financeira, foram destruídos cerca de 250 mil; durante o ajustamento, perderam-se mais 500 mil e depois foram recuperados 70 mil.

Nos primeiros quatro anos desta crise, entre o primeiro trimestre de 2009 e o primeiro trimestre de 2013, a economia portuguesa perdeu postos de trabalho a um ritmo médio superior a 15 mil por mês ou de 500 por dia. Repito: isto não foi um exclusivo do período de ajustamento e da troika, mas começou em 2009 e durou quatro anos.

O desemprego obviamente cresceu, de 495 mil para um máximo de 926 mil (só estou a comparar primeiros trimestres), descendo depois para 778 mil. Quando o ajustamento começou, já havia quase 700 mil desempregados.

Os números são ainda mais esclarecedores quando percebemos que os empregos se perderam sobretudo nas camadas de população com baixas qualificações. No primeiro trimestre de 2009, quando começaram a morder os efeitos da crise internacional, havia 3476 mil trabalhadores portugueses com baixas qualificações (apenas escola básica). Quando começou o ajustamento, este grupo já tinha perdido 450 mil empregos, mas o pior estava para vir: no primeiro trimestre de 2014, havia apenas 2351 mil trabalhadores com ensino básico. A sangria foi superior a um milhão de empregos; repito, perderam-se mais de um milhão de empregos pouco qualificados em apenas cinco anos.

Isto, portanto, atingiu os mais pobres. 

 

O número revela uma transformação brutal na sociedade portuguesa, que não vejo analisada. O fenómeno foi parcialmente suavizado pela entrada no mercado de trabalho de pessoas com curso superior completo. Este número esteve sempre a aumentar (mais 200 mil ou 40 mil por ano) e o grupo superou pela primeira vez o milhão, entre 2013 e 2014.

Não é fácil tentar interpretar estes números. Julgo que é seguro afirmar que foram destruídos de forma rápida empregos pouco qualificados e que isso implicou três efeitos: regresso de imigrantes aos respectivos países, emigração de trabalhadores portugueses pouco qualificados e aumento do desemprego.

Isto sugere que os números sobre emigração que têm sido referidos estão provavelmente sobreavaliados.

Estivemos durante três anos a ouvir falar do desemprego jovem e da fuga de cérebros, mas esta foi a verdadeira crise nacional e a principal causa do aumento da pobreza. Por outro lado, a transformação da economia pode ter sido bem mais profunda do que se pensa. Em 2009, apenas 15% da mão-de-obra nacional tinha curso superior; em apenas cinco anos, esta proporção passou para 23%.

A destruição de empregos começou com a crise financeira e agravou-se durante o resgate, mas a situação inverteu-se no segundo trimestre de 2013. A recuperação do mercado de trabalho será certamente lenta, pois só está a ser criado trabalho qualificado, que depende de níveis de investimento mais elevados, mas que também implicará aumentos de produtividade.

Entretanto, o governo tem ignorado por completo esta crise, que atingiu de forma desproporcionada trabalhadores com baixas qualificações (e, já agora, com idades significativas). Esta tragédia tem também sido ignorada pelos meios de comunicação, que insistem (a meu ver, de forma preguiçosa) na tecla do desemprego jovem.

 

 

12 comentários em “A crise do emprego”

  1. Seria também útil sabermos em que sectores é que se perderam a maioria dos empregos. E depois discutirmos se muitos desses empregos teriam futuro. Quer dizer: se com crise ou sem crise, esses empregos não iriam desaparecer mais cedo ou mais tarde.
    Entretanto temos o futuro assegurado:
    http://www.jornaldenegocios.pt/economia/emprego/lei_laboral/detalhe/seguro_ashttp://observador.pt/2014/07/23/antonio-costa-falar-de-financas-fica-para-depois/sume_que_nao_vai_rever_legislacao_laboral.html

    1. Este comentário foi feito para o post do Pedro Correia sobre o Sporting e o aborto ortográfico. Mas olhando melhor, remata bem o meu comentário anterior.
      Acrescentaria apenas: até ao próximo desastre!

  2. Os números da emigração misturam, de forma pouco útil para quem se interessa por estas coisas mas de forma muito útil para quem só quer manda bitaites,
    a emigração temporária com a permanente , conceitos bem claros para quem quer fazer contas .

    Só para dar um exemplo: um filho meu passa 4 meses por ano a trabalhar no estrangeiro, todos os anos desde há 15 anos para cá e eu acho que difícilmente se pode falar de um emigrante .

    1. Do ponto de vista da economia é um emigrante. Assumindo que o trabalho que ele faz é útil e ele produz riqueza, então as mais valias do que ele produz não ficam em Portugal.
      Será um emigrante a 30% mas é um emigrante.
      Sem qualquer desprimor para a pessoa, claro.

      1. O “jo” percebeu onde eu queria chegar.

        Quando se diz que saíram 120 mil pessoas e se escamoteia que metade voltou antes de um ano (cf. os jornais de 2012 que apresentam os números , por exemplo) estão-se a deixar no ar números que só servem para baralhar e alimentar demagogias mas não para ajudar a repensar a nossa vida colectiva, convencidos muitos que não conhecem o problema por dentro que a malta sai e assim se resolvem algumas questões internas comezinhas (ainda que chorem muitas lágrimas de crocodilo).

        Quem chora lágrimas a sério são mães, conjuges e filhos porque também já tive outro filho emigrante permanente (que não estava desempregado cá) e deixei de falar nisso, cheguei a ouvir que “óptimo, resolveu melhor o problema dele e ainda deixou aí uma vaga para outro”!

        A questão é que esse meu filho (como muitíssimos outros) trabalha para uma empresa nacional o ano inteiro e o lugar dele não fica vago para outro.
        Portanto será um emigrante a 30% , concedo , conta para os números da saída e os números da entrada todos os anos mas como só os 1ºs são exibidos a tempo inteiro nos MCS, a “vox populi” mete-o nos que se foram embora, todos os anos e há 15 anos, matemáticamente já contou por 15 emigrantes .

        E como ele há uns muito bons milhares por ano .
        Mas nem toda a gente pode estar por dentro deste tipo de situações, é um facto.

        1. Em tempo .

          Escrevi que nem toda a gente pode estar por dentro desse tipo de situações no sentido que há coisas que só se compreendem na sua devida dimensão quando se está pessoalmente ou se têm familiares e conhecidos muito próximos envolvidos nelas.

          Claro que se pode ter muita informação genérica ou estatística mas isso não nos faz conhecer os meandros das situações, daí o risco de muitas situações se misturarem no mesmo saco .

          A dos trabalhadores de empresas portuguesas deslocados, por exemplo nos PALOP, não pode de um modo geral entrar no mesmo saco que os que emigram para a Europa para fugir ao desemprego ou para melhorar as condições de vida.

  3. Gostei dest início Luís,
    «só há lugar para interpretações honestas ou desonestas, certeiras ou ao lado»

    Faz-me lembrar a afirmação de Louis Armstrong sobre apenas haver boa música ou música má quando lhe falaram de jazz e outros estilos . Obviamente que poderemos colocar as coisas como estão acima, sabendo também que as interpretações honestas podem ser a favor ou contra o governo e actuais políticas. Já tivemos muitos exemplos desses. Adiante.

    Não quis ir mais longe na análise porque não gosto de estatísticas (nada tenho contra elas, apenas não gosto de as usar, questões de preferência) e sou preguiçoso para ir procurar mais dados. Também por isso não fui mais atrás que o terceiro trimestre de 2012, usei apenas o mais recente boletim do INE.

    A questão dos trabalhadores menos qualificados é certamente problemática. Pessoalmente tenho a impressão (vinda dos contactos pessoais que tenho, sem estatísticas) que muitos postos ocupados por pessoas com qualificações mais baixas estão agora ocupados por pessoas com cursos superiores, mas sem que isso implique mais responsabilidades, competências (adicionadas ao posto de trabalho) ou remuneração.

    Há ainda na questão da qualificação superior um possível duplo efeito devido ao sistema de Bolonha:
    – mais pessoas possuem o grau de bacharelato (OK, chamado provincialmente de “licenciatura”) em comparação com pré-Bolonha, o que significa que ao fim de 3 anos de universidade já se tem um canudo para entrar no mercado de trabalho.
    – muitas pessoas abandonam a universidade após o grau de bacharelato porque os custos aumentam a seguir (as universidades aumentam vertiginosamente os custos de propinas e adicionam-se 2 anos de custos familiares a um orçamento já muito esticado).
    Claro, são considerações sobre o que é possível que esteja a acontecer, não são estatísticas, mas juntamente com a perda de tecido laboral de baixas qualificações, este é um aspecto que poderia – e deveria – ser melhor analisado.

    É uma boa reflexão sobre os impactos da crise e das áreas que têm sido neglicenciadas. Deveria haver mais como esta.

    1. “(…) tenho a impressão (vinda dos contactos pessoais que tenho, sem estatísticas) que muitos postos ocupados por pessoas com qualificações mais baixas estão agora ocupados por pessoas com cursos superiores, mas sem que isso implique mais responsabilidades, competências (adicionadas ao posto de trabalho) ou remuneração.”

      Temo bem, do que posso também testemunhar, que isso seja verdade. E seja uma das perversões da nossa recuperação. E não se trata aqui necessariamente desses cursos superiores eufemisticamente chamados de “banda estreita” (na verdade, armadilhas a roçar o criminoso e tirando partido da imperiosa necessidade, por cá, de se ser Dr. . ou Eng. ., mesmo que nas coisas mais bizarras).

      E daí também a minha dificuldade em ser optimista – suscitando aliás acaloradas trocas de opinião com o autor deste post “. Onde quero chegar é simples: pode até bem ser que o caminho desgraçado que agora percorremos seja de facto inevitável e o único que alguma vez nos possa levar a uma já quase mítica recuperação. Mas é isso mesmo: um caminho desgraçado que levou – e levará ainda – muita gente à ruína, à desonra, à vergonha. Ruína, desonra, vergonha, que o serão sem pudor algum e manifestamente ajudadas por um estado que, por convicção programática ou inevitabilidade económica, não terá o menor pejo em as fazer aplicar.

      Daí que esses sinais ténues de recuperação que se possam identificar devam, quanto a mim, ser anunciados com a humildade de quem reconhece o preço – preço em pessoas, muito mais do que em dinheiro – que custaram e custam. Essa recuperação – a confirmar-se, a progredir, a consolidar-se (tudo isso bem longe de garantido) – só o foi à custa de perdas muito graves. Suponho que nenhum comandante celebrará com especial júbilo a conquista de uma pequena posição, essencial que seja para o desfecho da guerra, depois de para tanto sofrer baixas enormes.

      Mais do que celebrar sucessos e apontar o dedo acusador de pessimista inveterado e não fundamentado a quem não assinale com o mesmo fervor o surgimento desses sinais de possível recuperação, parece-me que se deverá pensar que – a acreditar no rumo seguido e com todos os custos que tem acarretado – era só o que faltava que, depois da hecatombe provocada, algo de bom não começasse a ser identificável.

      O tempo dirá se é mesmo algo de bom, em que medida e para quem (as estatísticas, todos, alguns). Os custos já os vamos conhecendo e impõem moderação, por mera questão de respeito, nos hinos e hossanas.

      Costa

  4. O desemprego é em números muitos superiores aos veiculados em forma de propaganda.

    Falo por conhecimento próprio de quem fez uma formação de 50h que foi dividida por 2 partes com 3 MESES de intervalo, a referida formação foi em programação básica (da qual não aprendi nada) e na gaveta obviamente ficaram as formações que tinha escolhido do lote de 5 que me “propuseram” no centro de emprego onde estou (penso eu) ainda inscrito, poderia optar por 2 mas tinha de indicar três, escolhi em 1º lugar: iniciação / actualização de línguas estrangeiras, em 2º introdução á gestão e por ultimo iniciação /actualização ao sistema operativo Windows e aplicativos word , excell , etc ). Na mesma reunião vi muitas pessoas a escolher outros módulos formativos pois apenas tinham a duração de 25h , eu ingénuo optei pelos maiores e mais interessantes dada a minha situação, queria solidificar ou reaprender conceitos mas nem isso consegui pois as formações ministradas não são para preparar as pessoas ou pelo menos elevar-lhes a auto-estima mas sim para apresentarem boas estatísticas de ocupados que é o termo corrente no IEFP.

    De seguida tentei fazer uma formação em electromecânica numa entidade privada associada ao IEFP e qual o meu espanto após um mês ao verificar que a mesma seria feita unicamente com base em conceitos teóricos e prática da chacha , não se desmontou um motor, não se construiu um quadro eléctrico, não se reparou nada ou se fizeram qualquer tipo de diagnósticos práticos , só teoria e uso não intensivo de software de simulação sem aplicação á prática diária, apenas á pratica teórica, obviamente fiquei frustrado não só por isso mas por ver ao lado pessoas a fazer formações mais técnicas (e com mercado de trabalho / mesmo mal pago) nas quais já sabia que não poderia inscrever-me por ter o 12º ano.

    Mas o pior foi saber que mesmo tendo deixado esse curso e tendo-o comunicado á entidade formadora, a mesma ou o IEFP não deu baixa da minha frequência no mesmo.

    Por ultimo só queria deixar uma questão ao escriba de serviço.

    Não acha bizarro que tendo sido destruídos tantos postos de trabalho supostamente desempenhados por pessoas de baixas qualificações (académicas note-se) nos últimos 4 anos, essas mesmas pessoas tenham encontrado trabalho noutros países onde supostamente as qualificações de que dispõem servem ?

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