Anatomia de um afogamento


Luís Naves,

 

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Na política europeia, os partidos do governo e da oposição tinham o cuidado de não criticar as posições das delegações portuguesas nas cimeiras. O recente episódio grego acabou com esta regra informal. Um político-comentador com suposta informação privilegiada, Marques Mendes, criticava ontem a ministra das finanças por (pasme-se!) ter falado com o seu homólogo alemão. Um dirigente socialista, João Galamba, quer saber o que se passou exactamente no Eurogrupo, apesar de existir comunicado e de ali ter sido tomada uma decisão com desenvolvimentos na segunda-feira. O deputado está a tentar fazer um ataque político sem explicar ao seu eleitorado que Portugal aprovou a decisão. Sim, a avaliar pelo que tem sido publicado, até parece mentira, mas Portugal votou a favor da decisão.

O PS tenta passar a ideia de que houve uma oportunidade para reduzir a austeridade e que isso só não aconteceu devido à intransigência da ministra Maria Luís Albuquerque. A ausência de comunicação no Governo ajuda: o espaço de debate é dominado por pessoas que falam da falta de dignidade do governo, do alinhamento alemão da ministra, do fim imediato da Europa e das vantagens de sair do euro. É espantoso o silêncio do PSD enquanto a ministra das finanças é atacada por causa de um alegado alinhamento com a Alemanha, como se isso agora fosse crime de lesa-Pátria. Ninguém explica que Portugal nunca esteve isolado, enquanto a Grécia esteve sempre isolada. O ministro grego teve a suprema lata de dizer à RTP que a delegação portuguesa foi mais alemã do que a alemã, declaração pouco diplomática e até hostil, com a insinuação de que os portugueses não estão a defender os interesses do seu país, mas os da Alemanha. Portugal e Espanha estiveram sempre lado a lado, mas o grego não se atreveu a atacar os espanhóis. E dou de barato a intervenção de um dirigente do Syriza no comício do Bloco, onde há uma clara ameaça ao governo português (nunca antes tinha visto nada parecido, pois os dirigentes partidários abstêm-se de fazer este tipo de ataques quando participam em comícios de partidos homólogos).

Na opinião pública infiltra-se lentamente uma ideia perigosa: o patriotismo grego é coisa boa; o patriotismo português é coisa má; negociar com o governo alemão é subserviência se o ministro for português, mas é resistência se for grego.

 

A narrativa da intransigência portuguesa visa obter efeitos de política interna. A favor da maior dureza com a Grécia estavam pelo menos nove países: Espanha, Portugal, Eslováquia, Alemanha, Holanda, os três bálticos, Finlândia; Itália e Áustria deram uma no cravo e outra na ferradura. Pelo que tudo indica, o maior apoio a um compasso de espera veio da França e também da Comissão. Entretanto, os gregos diziam uma coisa lá dentro e duas cá fora, conforme em inglês ou em grego.

Antes da cimeira, a Grécia tentou objectivamente entalar Portugal, apostando no aumento das taxas de juro das obrigações portuguesas para pressionar a zona euro e obter cedências, provocando o pânico. Recusando o abraço do afogado, Portugal conseguiu evitar o aumento das taxas de juro, sendo bem sucedido na sua estratégia de se demarcar da Grécia. Caso Portugal tivesse tentado apoiar Atenas (tese da oposição), as taxas de juro tinham disparado, dificultando o financiamento externo da república.

Acho estranho que João Galamba não perceba isto e também acho estranho que Marques Mendes não o veja, embora o ataque a Maria Luís Albuquerque, percebida como delfim de Passos Coelho, seja relativamente compreensível num contexto de política interna. O PS quer ganhar as eleições e agarra-se a qualquer argumento, no PSD afiam-se as facas para a Era-pós Passos. Mas voltemos à decisão do Eurogrupo: a Grécia vai executar as reformas exigidas pelos parceiros, mantendo o essencial das medidas do governo anterior, e não tenho dúvidas de que a delegação grega, copiosamente derrotada na negociação, tenha agido por patriotismo, embora de forma inábil. No entanto, os interesses da Grécia não coincidiam com os nossos. Portugal já se livrou da troika e não quer novo resgate, está a pagar a dívida e financia-se nos mercados com juros historicamente baixos. A Grécia tem problemas muito diferentes, precisa de ajuda externa e vai para o terceiro resgate.

 

Sempre com dignidade


Luís Naves,

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No início do filme Serenata à Chuva, numa espécie de noite dos óscares, uma das vedetas explica à rádio, antes de entrar no teatro, como ascendeu a pulso em Hollywood fazendo cenas “sempre com dignidade”. Como se fosse a sua memória, vemos em imagens rápidas o esboço da carreira: o herói substitui um duplo que ficou desmaiado numa cena de pancadaria, depois é esmurrado, faz-se explodir, cai num precipício, lança um avião contra uma casa, odeia a actriz principal e tem discussões horríveis com ela, mas percebemos que os sucessivos filmes são cada vez mais importantes e a relação do casal maravilha mais catastrófica. Corte, regressamos ao presente, e ele diz, sorrindo imenso: “Sempre com dignidade!”

Em política, a dignidade também é uma grande farsa, como explica Pedro Correia, um pouco mais abaixo neste blogue. Ontem, numa das duas hipóteses que lhe restavam, o governo grego guardou a viola no saco e reclamou o fim da austeridade, enquanto começava a redigir a lista das medidas que prometeu cancelar. O memorando já não se chama assim e a troika muda de nome, mas Atenas tem a corda na garganta e quatro meses para negociar o terceiro resgate, enquanto cumpre o essencial do segundo, sempre com dignidade.

Nas duas semanas de crise, e com rasgado entusiasmo da nossa imprensa, o novo governo grego tentou criar uma situação de ruptura iminente na zona euro, que provocasse um pânico nos mercados e o aumento das taxas das obrigações portuguesas, italianas e espanholas. Só assim haveria condições para uma rebelião anti-alemã na zona euro. A estratégia era um bluff mal feito e pior executado, mas muitos analistas em Portugal consideraram que havia ali muita dignidade e rejeitaram a reacção defensiva do governo português. A nossa imprensa chegou a criar uma narrativa que não se encontra em nenhum jornal estrangeiro.

Não admira que parte substancial da opinião pública acredite que a delegação grega nas conferências do Eurogrupo quisesse defender os nossos interesses e que, pelo contrário, o governo português tenha agido contra os interesses nacionais. A realidade é que a Grécia prejudicou Portugal e Espanha, pois será mais difícil flexibilizar as medidas de rigor orçamental num ambiente onde a confiança entre os países da zona euro ficou seriamente abalada.

Napoleão dizia que não se deve interromper o erro de um adversário. Neste contexto, a esquerda portuguesa está a cometer um erro que o governo não tentará interromper: ao elogiar os desmiolados novos dirigentes gregos, a esquerda terá dentro de alguns meses de explicar por que razão eles fazem o mesmo que Antonis Samaras. Os indignados que batiam no peito e afirmavam que havia outro caminho, terão de explicar que caminho era esse, já que os radicais gregos também não o encontraram. Os que acham, subitamente muito patrióticos, que o governo português comprometeu a dignidade da nação, terão de explicar por que razão o terceiro resgate da Grécia lhes parece mais digno do que o financiamento nos mercados.

Mudança na Europa


Luís Naves,

A decisão que o Eurogrupo tomará amanhã sobre a Grécia representa um momento de viragem na zona euro. No auge da crise das dívidas soberanas, foi concebido o Tratado Orçamental e desenvolvida a união bancária, mas faltava criar o terceiro pilar da estabilização, a união política, que envolveria provavelmente impostos de nível europeu, mutualização da dívida e controlo democrático desse dinheiro. É evidente que a Europa não está preparada para dar esse salto, pelo que o controlo dos orçamentos nacionais e das dívidas será, no mínimo, difícil de realizar por meios políticos. Assim, a união monetária não possui nenhum mecanismo que obrigue os Estados soberanos a cumprir as regras do clube.

Entretanto, surgiu esta nova crise grega. Amanhã, Atenas terá duas opções, sem meio termo: ou aceita as condições impostas pelo segundo resgate, passo político quase impossível para o Syriza, ou abandona a zona euro. A introdução do conceito de saída, só por si, constituirá uma espécie de bomba de neutrões que obriga cada um dos membros da zona euro a cumprir o Tratado Orçamental, isto sem qualquer necessidade de união política. Esta nova situação permite credibilizar a moeda única, aumenta os poderes do Eurogrupo e altera toda a política nacional (o PS tem aqui o enorme desafio de se diferenciar do governo). No futuro, um país que não cumpra as regras ou que tente enganar os outros será duramente penalizado pela realidade. Não haverá “leituras inteligentes” do Tratado Orçamental. A partir de agora, todos os líderes compreenderam que devem fazer o que estiver lá escrito. Não haverá renegociações de dívida sem consenso entre ministros das finanças do euro nem chantagens de países endividados. A cláusula de saída é o grande incentivo ao rigor, bem mais forte do que a utopia da união política e do federalismo.

 

Os comentários do presidente da comissão estão obviamente a criar ruído. Chama-se a isto tentar tirar o cavalinho da chuva ou as castanhas do assador. A imprensa europeia tem dado conta da crescente animosidade entre Berlim e Jean-Claude Juncker, que reivindica uma legitimidade que não possui. A sua “eleição” nas europeias não tem qualquer fundamento nos tratados. Aliás, quem decide a estratégia é o Conselho Europeu, ponto final parágrafo, e em questões de dinheiro quem decide são os países que pagam a conta.

Não está prevista a possibilidade de saída de um membro da zona euro, mas esse é um cenário sobre a mesa. Até agora, as uniões monetárias não podiam incluir a saída de um membro, pelo que tudo isto é experimental. Por outro lado, a saída da Grécia da zona euro parece ser conveniente para as duas partes. Liberto dos constrangimentos impostos pela moeda única, um governo de esquerda em Atenas poderá cumprir o seu programa radical; do ponto de vista dos credores, não vale a pena estar a insistir numa fórmula sem viabilidade, pois a Grécia não consegue fazer as reformas e não vai pagar a dívida, sendo um problema para os outros; se não sair agora, sai daqui a seis meses. 

 

 

Insensatez


Luís Naves,

Nas redes sociais encontramos em cada dia dezenas de exemplos de insinuações maldosas e pura má-língua, visando atingir a reputação de quem tenha uma opinião politicamente incorrecta. À medida que a campanha eleitoral se aproxima (e só faltam sete meses para as eleições) o tom das críticas torna-se mais agressivo. No fundo, instalou-se uma nova forma de censura: a incorrecção política está a ser progressivamente afastada dos média tradicionais, onde os comentadores apoiados por claques escrevem apenas o que se espera deles. São raros os que se atrevem a sair da linha justa. Por exemplo: criticar os actuais dirigentes da Grécia tornou-se um exercício inútil, pelo que terá de ser a realidade a curar as ilusões da opinião pública. Este texto de José Manuel Fernandes, no Observador, recebeu insultos furiosos, apesar de ser um dos mais lúcidos que li na imprensa nacional sobre este tema. Os leitores comentam a despropósito: alguns consideram que o bom governo é o de Atenas e que todos os outros estão errados; há quem já queira sair da zona euro e surgem inclusivamente comentários espontâneos a defender o fim da própria União Europeia ou a insultar o autor, lembrando o que ele escreveu há dez anos, exercício que ninguém faz aos colunistas que se enganaram na semana passada. Entretanto, no Eurogrupo, a negociação correu muito mal e temo que a insensatez grega seja irremediável. Tentei explicar o problema neste texto. Se não têm paciência para me ler, aproveitem para seguir o link que leva à opinião de Mario Vargas Llosa, no El Pais: está lá tudo. 

Divisões na Europa


Luís Naves,

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Após trinta anos sem perturbações de maior, o consenso nacional em torno da política europeia foi ontem desfeito. Uma carta assinada por notáveis provocou mais barulho do que a análise serena dos factos. O texto era suficientemente lírico e impreciso, mas levou a um enorme clamor de críticas contra o Governo. Os signatários não tinham elementos sobre o plano grego (se aceita ou não o resgate) ou sobre os pormenores dos bastidores, mas presumiram que a posição portuguesa em Bruxelas era errada. Chegou a parecer neste debate que os nossos interesses na cimeira seriam defendidos com maior eficácia por uma delegação estrangeira.

Nas últimas duas semanas, a estratégia portuguesa foi a de separar o problema da Grécia do problema português. A estratégia de Alexis Tsipras e do seu ministro das Finanças foi a inversa: ligar o problema de Atenas aos restantes países resgatados, incluindo o nosso. Os dirigentes gregos fizeram declarações hostis, susceptíveis de criar excitação nos mercados e de fazer subir o custo do financiamento da dívida portuguesa. Lisboa respondeu com dureza semelhante, deixando bem claro que o problema grego não era o nosso e que tinha de ser discutido isoladamente.

 

 

O problema grego é mesmo diferente do nosso e foi discutido isoladamente. Atenas está a negociar um eventual terceiro resgate e, mais tarde ou mais cedo, terá talvez de negociar uma saída da zona euro, calamidade que equivale à melhor maneira de cumprir um programa radical de esquerda. A Grécia não consegue regressar aos mercados, não consegue pagar as dívidas nem fazer as reformas exigidas, embora tenha obtido substanciais descontos e complacência dos credores. O dinheiro que recebe dos europeus mantém o Estado a funcionar, mas sem alterações de fundo. Não será o novo governo a fazer as reformas, pelo que o problema não tem solução visível. Para os europeus, existe também um dilema: mantém-se o país a flutuar ou faz-se a ruptura? A segunda hipótese pode resolver de vez a crise de confiança no euro, mas também pode afundar a moeda única. O risco é substancial e há indicações de que alguns países querem tentar esta possibilidade.

Ao longo da crise, sempre com enormes sacrifícios, Portugal conseguiu demonstrar que tem uma situação diferente da grega: terminou com êxito o programa de ajustamento e a sua dependência da troika é ligeira (continuam credores, mas há margem de manobra para lhes desobedecer). Portugal financia-se nos mercados a baixo custo, ou seja, a estratégia da credibilidade funcionou e pode prolongar-se por anos, até que o crescimento seja substancial e reduza o rácio da dívida. No ano passado, a economia portuguesa cresceu 0,9%. O valor vai acelerar este ano.

Lembro-me do tempo em que a Grécia recebia sempre mais dinheiro em subsídios europeus do que Portugal. Aliás, a Grécia recebia sempre mais dinheiro per capita do que qualquer outro país. Lembro-me do tempo em que a lamentável classe política grega, não contente por ter levado o seu país à falência, travou todas as reformas exigidas por quem lhe emprestava dinheiro. Lembro-me do perdão de dívida, dos sinais de corrupção, da histeria dos mercados, dos governos instáveis, da incerteza política e do efeito de arrastamento do Sul com que os gregos sempre sonharam. Tudo isto foi esquecido ontem em Portugal, no dia em que as tácticas e as ambições internas acabaram com um consenso de 30 anos na política europeia do país.

 

O momento decisivo


Luís Naves,

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Mario Vargas Llosa escreve neste texto uma crítica lúcida sobre a crise da zona euro e o momento decisivo que se avizinha. O autor peruano lança uma pergunta crucial: por que razão teriam os espanhóis de pagar pelos erros dos políticos gregos, para além de estarem a pagar os erros dos seus próprios políticos? Esta questão aplica-se também aos portugueses, vítimas dos desvarios que conduziram o país até à beira da bancarrota e à necessidade de um resgate.

Após várias versões, sempre muito elogiadas pelos comentadores nacionais, a Grécia pretende convencer a Europa a aprovar um empréstimo que permitiria congelar a situação até à conclusão de um plano de reestruturação da dívida. Entretanto, não se aplicavam as medidas de austeridade, as quais, ao contrário da lenda, deram origem em 2014 a um orçamento com excedente primário e a uma economia que começa a crescer. Atenas anunciou um programa com medidas de emergência, que pretende acabar com a austeridade, contratar funcionários e devolver verbas cortadas. O plano de Alexis Tsipras é claro: inclui mais despesa pública, reverte o que já foi conseguido e acaba de vez com as reformas estruturais e com as privatizações. Além disso, os políticos gregos culpam a Alemanha por todos os males e pedem uma indemnização que já foi perdoada em tratado internacional (por razões ligadas à Guerra Fria) e que por isso não passa de um argumento de transferência de culpa, para consumo interno. O plano grego pode ser descrito desta forma: não queremos dinheiro ligado ao resgate, queremos dinheiro incondicional, só depois conversamos; prometemos cumprir as regras, mas nas calendas gregas; até lá, não cumprimos.

Se isto fosse aprovado pelos europeus, só os gregos ganhavam. Para os outros, as consequências seriam desastrosas. O euro perderia credibilidade e nenhum país teria motivos para cumprir o tratado orçamental. Os efeitos políticos levariam, a prazo, ao estilhaçar da UE. Nos países resgatados, os respectivos governos teriam mentido aos eleitores. Passos Coelho e Mariano Rajoy perderiam as eleições de forma catastrófica. O público iria concluir que Podemos e Bloco de Esquerda tinham razão, que era possível acabar com a austeridade e expulsar a troika, renegociar a dívida e não pagar. No fundo, todos os sacrifícios eram reversíveis e teriam sido inúteis. Em França, Marine Le Pen veria confirmadas as suas teses anti-europeias e anti-austeridade. Os esforços dos reformistas eram derrotados, o Reino Unido antecipava a sua saída da UE. O princípio do benefício do infractor, inaceitável num simples jogo de futebol, era aplicado numa zona monetária sem união política. A zona euro estava condenada.

 

 

Como lembra Vargas Llosa no texto de El Pais, a Alemanha absorveu a RDA sem ajuda. O autor podia ter acrescentado que nos anos 90 ninguém auxiliou a Finlândia a sair da brutal recessão em que tinha caído. No futuro, ambos seriam forçados a pagar as dívidas de países terceiros, mas sem controlarem as condições dessa ajuda ou sem poderem mudar as elites políticas corruptas e incompetentes dos devedores. Tudo se invertia: os credores não teriam maneira de impor rigor orçamental aos deficitários e estes tinham maneira de impor aos credores o perdão das suas dívidas. Na crise seguinte, os resgates seriam impossíveis, pois nenhum governo ajuizado iria entregar dinheiro a governos sem vontade de devolver os empréstimos.

Holanda, Alemanha ou Áustria seriam progressivamente vítimas de rebeliões populistas e anti-euro, alimentadas pelo descontentamento do eleitorado, que não aceitaria pagar pelos erros de uma classe política estrangeira, ainda por cima irresponsável. Se ratificasse tal acordo, o governo finlandês perdia as eleições. Na Eslováquia e nos países bálticos haveria crises políticas, pois o salário médio local equivale a metade do futuro salário mínimo da Grécia. Os países mais competitivos teriam forte incentivo para abandonar a zona euro. Mais tarde ou mais cedo, um cenário de capitulação europeia daria origem à saída da própria Alemanha. O pesadelo tornava-se francamente mau a partir desse ponto. Para evitarem uma Europa liderada pelos alemães, os críticos da austeridade teriam uma espécie de ‘Europa’ sem a Alemanha.

 

Considerando o risco de desagregação da UE associado a uma das opções sobre a mesa, julgo que nos próximos dias o plano grego deverá ser rejeitado pelo Eurogrupo e pelo Conselho Europeu. Não se vislumbra um eventual compromisso. O governo Tsipras não quer recuar e não poderá aplicar as medidas do governo anterior, nem sequer numa versão suavizada. A rejeição do resgate é a sua única opção e tem uma implicação simples: com as taxas de juro a 20%, sem acesso aos mercados e sem financiamento a partir de Março, com a bolsa em queda e os bancos arruinados, Atenas terá de sair da zona euro, a única forma do Syriza aplicar o seu programa radical e da Grécia resolver o insustentável problema da dívida. Com excedente primário e balança corrente positiva, é possível um default organizado e com ajuda europeia, esta última amplamente justificada com o risco sistémico de tal escolha.

O Syriza é um partido de extrema-esquerda, que acredita na mitologia ideológica do seu discurso. A saída da zona euro não faz parte do programa da campanha, pelo que existe a possibilidade alternativa deste governo cair, logo que Bruxelas rejeite a posição grega. No entanto, avaliando o tom dos discursos, parece evidente que Tsipras já tem na cabeça o abandono do euro: só precisa de um bode expiatório e de criar um clima que propicie a saída. Quanto aos europeus, entre o mau e o péssimo, a escolha é evidente.

 

As vozes moderadas


Luís Naves,

Livros como Os Sonâmbulos, de Christopher Clark, ou The War that Ended Peace, de Margaret MacMillan, mostram que no período anterior ao início da Primeira Guerra Mundial foram criados climas beligerantes que tornaram difícil a tarefa dos governos. Políticos demagogos e movimentos nacionalistas agitaram a opinião pública, atribuindo todos os males da sociedade a questões territoriais ou à competição com potências vizinhas. Lentamente, foi subindo o tom dos insultos e houve uma corrida aos armamentos. A retórica racista e patriótica conduziu à mentalidade de tudo ou nada. Antes de 1914 houve várias crises, nomeadamente nos Balcãs, mas sempre por razões que hoje nos parecem irrelevantes. Em certa medida e com temas alternativos, a situação parece hoje repetir-se: num ambiente de histeria que se torna mais intenso, as vozes da moderação são abafadas pela gritaria dos radicais, levando o discurso moderado a adoptar a própria linguagem extremista.

Tal como aconteceu no período que levou ao suicídio da Europa, os agitadores das consciências e os autores mais indignados tentam convencer a opinião pública de que os problemas só podem ser solucionados por uma ruptura da ordem estabelecida. As sociedades contemporâneas não são imunes a vagas de mudança impostas por grupos radicais, mas o sistema democrático é resistente e a retórica nacionalista não cabe num contexto de integração europeia. No entanto, em muitos comentários sobre a crise do euro, é espantoso verificar que a ideia do combate até à última gota de sangue está bem viva. Nos últimos dias, os argumentos extremaram-se. Defender, por exemplo como propõe a Alemanha, que a Grécia deve cumprir as regras da zona euro e as promessas anteriores de continuar as reformas, merece textos indignados, com críticas semelhantes aos apelos patrióticos de recuperação imediata da Alsácia-Lorena.

Começam a ser raros os autores que defendem a União Europeia ou a estratégia de permanência na moeda única. Em breve, haverá quem afirme que todos os problemas são criados pela Alemanha e que esta deve ser a primeira a sair da Europa. O facto é que, na crise das dívidas soberanas, Berlim cedeu em todas as suas linhas vermelhas e, desta vez, a pressão parece de novo irresistível. A reestruturação da dívida grega já atingiu os limites e não parece possível um novo perdão sem união política. Provavelmente, os gregos querem mesmo sair do euro e culpar a Alemanha pelo desenlace. Essa será a única forma de cumprirem o programa radical de nacionalizações e aumento da despesa, mas o jogo de culpas só pode dividir irremediavelmente o bloco europeu. Rússia e EUA não desejam outra coisa, sobretudo Moscovo, que continua a transformar o leste ucraniano numa espécie de balcânia sem solução.

Nem liberal nem social


Luís Naves,

Os jovens não encontram trabalho e não descontam para a segurança social. Muitos emigram, aproveitando a liberdade proporcionada pela Europa. Na prática, recusam os trabalhos enfadonhos da geração anterior e as vidas aborrecidas dos pais. Estes, se não forem desempregados de longa duração, pagam impostos tão altos que não lhes sobra poupança para assegurar uma velhice decente. Sabem também que, quando se reformarem, terão direito a pensões mínimas. A sua preocupação aumenta quando olham para os pais. Nos depósitos de velhos morre-se devagar. Não é assim nos mais caros, que custam os olhos da cara, mas onde as reformas dos utentes raramente cobrem a despesa. As famílias da classe média não têm condições para tratar dos seus velhos ou para os colocar nestes lares de qualidade. Não há dinheiro suficiente nem tempo disponível. Assim, uma geração inteira vive na culpa de não estar a fazer o suficiente, enquanto outra geração vai morrendo, meio atarantada pelo abandono.

Era costume haver certezas: as pessoas casavam, por vezes separavam-se, viviam as suas vidas com expectativas de melhorar. Hoje, já não é nem assim: quem quiser casar não tem dinheiro suficiente, pelo menos sem ajuda dos pais, não pode comprar casa e lançar uma família; ter muitos filhos é uma condenação à pobreza; o cidadão médio enfrenta incertezas na educação e na saúde, nas hipotecas, nos horários de trabalho impossíveis, na precariedade, na hipótese iminente de queda e proletarização. Acontece por vezes que as pessoas ficam presas a casamentos infelizes, sem dinheiro sequer para um divórcio. As separações implicam a falência e a pobreza, sobretudo para a mulher e para as crianças. Não falo de sofrimento, de amores desencontrados, mas de algo prosaico, que entra na vida das pessoas como se fosse um vendaval: já não conseguimos financiar a vida antiga.

Não vivíamos acima das posses, aquele mundo é que acabou. A sociedade contemporânea não é liberal nem social, é algo de intermédio sem palavra ajustada. Se fosse liberal, tinha menos impostos; se fosse social, havia serviços públicos, creches e lares; havia locais de trabalho produtivos, em vez de purgatórios repletos de conflitos e que nos roubam todo o tempo livre. A Grande Recessão só acelerou a ruptura, tornando-a mais cruel, com a família em crise e o colapso da classe média. Sim, porque os pobres não mudaram de vida e os ricos nem dão por tudo isto, não fazem a mínima ideia.

Os populistas


Luís Naves,

O Podemos mostrou hoje a sua força em Madrid, numa marcha que atraiu uma multidão. À frente em várias sondagens, a poucos meses das legislativas, o novo partido não é apenas um protesto resultante da frustração dos espanhóis com a crise, mas uma revolução no sistema político. Há diferenças entre Podemos e Syriza, mas um elemento em comum: ambos absorveram o eleitorado comunista e estão a conquistar o espaço político dos socialistas. Na Grécia, as primeiras vítimas foram PASOK e KKE, que em 2009 somaram mais de metade do eleitorado grego e agora têm apenas 9,5% (somados). Em Espanha, a IU ameaça implodir e o PSOE surge nas sondagens em terceiro lugar, com uma votação muito inferior aos valores tradicionais.

Sem experiência de governação, os políticos de protesto apostam na retórica e nas fórmulas simples para resolver os problemas. Estas pessoas parecem muito diferentes do que a lamentável classe política que presidiu aos anos da Grande Recessão. O Syriza está a tentar uma ruptura com a União Europeia, enquanto o Podemos, mais cerebral, centra o seu programa no combate à corrupção. As eleições gregas sugerem que a franja mais à esquerda do sistema partidário está a sofrer uma convulsão inédita. O eleitorado de esquerda parece recusar as posições tradicionais de comunistas e socialistas, preferindo o tom mais utópico das novas formações populistas, que não hesitam em culpar a Europa pelas dificuldades, propondo soluções nacionais.

Em Portugal, comentadores de esquerda estão já a adoptar estes temas, atribuindo todos os problemas à adesão europeia. Segundo dizem, o país empobreceu (é extraordinário que culpem a Europa, mas é isso que está a acontecer nos espaços de debate público) e perdeu margem de manobra. Para além de imaginar uma UE que nunca existiu, esta elite continua a ignorar o que nos levou à falência e ao resgate.

Há duas formas dos movimentos populistas conseguirem engolir a esquerda: formando novos partidos que cilindrem os existentes ou conquistando os que existem. A primeira forma parece ter falhado em Portugal, a segunda está em marcha.

Sair do euro


Luís Naves,

Não é preciso muito esforço para compreender que o novo governo de Alexis Tsipras pretende levar a Grécia a abandonar a zona euro, não hesitando em fazer exigências que os europeus não podem cumprir. Esqueçam as declarações piedosas, em política só interessa o que se faz. Na primeira semana de actividade foram tomadas decisões que já impossibilitam o cumprimento das metas acordadas com os credores. A Grécia recusa-se a negociar com a troika, ameaça torpedear as sanções europeias à Rússia e, cereja em cima do bolo, aprovou um salário mínimo que torna impossível a assinatura de empréstimos europeus por vários países onde os salários médios são muito inferiores. As pessoas já se esqueceram, mas um governo eslovaco foi derrubado num resgate anterior à Grécia.

O problema do Syriza é que três em cada quatro eleitores dizem estar contra a saída da zona euro. A única maneira de atingir o objectivo é convencer os europeus a empurrarem a Grécia para fora. O governo grego dirá que defendeu os interesses do país e a culpa tem de ser atribuída com clareza aos europeus, incluindo os do Sul, que obviamente recusam a ideia peregrina de serem arrastados para uma renegociação quimérica da sua dívida, algo que nem os gregos querem fazer.

Do ponto de vista de Atenas, sair do euro permitiria não pagar a maior parte da dívida. O dracma sofreria uma brutal desvalorização e o governo nacionalizava a banca ou, no mínimo, controlava a saída de capitais. Haveria inflação, mas é preciso não esquecer que Tsipras lidera um partido radical de esquerda, pelo que, recuperada a soberania monetária, seria possível aplicar um programa de nacionalizações e de expansão da despesa. O parceiro de coligação, um partido ultra-nacionalista, não foi escolhido ao acaso, mas por ser o único que poderia concordar com uma estratégia anti-euro. Em relação aos europeus, a situação não é tão clara, mas há vários países que provavelmente não se importam com a saída, haverá até quem deseje esse resultado, de preferência depressa. Assim, o único elemento em negociação é a ajuda europeia crucial para que tudo isto possa funcionar.

Momentos decisivos II


Luís Naves,

Em texto anterior, escrevi que a União Europeia enfrenta um ano decisivo, não em 2015, mas em 2017. Esta circunstância obriga as potências a manter a actual estratégia ao longo dos próximos dois anos, pelo que a vitória do Syriza não poderia provocar uma mudança radical a nível europeu. Ainda este ano, vota-se no Reino Unido, onde se agiganta a incógnita do UKIP. Os conservadores parecem em condições de vencer, mas os eurocépticos ameaçam criar um parlamento instável. No final de 2015, votam Espanha e Portugal, com o centro-direita desgastado. Se em Madrid se formar uma coligação PSOE-Podemos, haverá incerteza; entretanto, em Portugal, deve manter-se estabilidade relativa, talvez com uma coligação de bloco central.

Nada disto é decisivo. Estamos ainda nos primeiros capítulos de um drama mais vasto e só em 2017 serão escritos os três episódios verdadeiramente importantes: referendo britânico, presidenciais francesas e legislativas alemãs. O calendário favorece os partidos tradicionais, que têm dois anos e meio para arrumar a casa.

Se David Cameron vencer, haverá  referendo em 2017 sobre a manutenção do Reino Unido na UE, mas serão os partidos do poder a conduzir o debate. Caso Londres opte por sair, Paris e Berlim tentarão aprofundar a parte política da zona euro, embora isso dependa das presidenciais francesas, onde Marine Le Pen surge nas sondagens com um quinto do eleitorado. Apesar destes números, as suas hipóteses de vencer são mínimas, pois a UMP está a unir-se em torno de Sarkozy e os socialistas terão tempo para recuperar a popularidade de Hollande.

Após a decisão francesa, votam os alemães, que escolhem entre o actual rumo europeu da Alemanha e um caminho autónomo. A chanceler Merkel deverá renunciar ao quarto mandato e escolher sucessor, mas a maior incógnita tem a ver com a evolução do partido anti-euro, o AfD. Se houver muitas concessões ao Syriza, essa formação, Alternativa para a Alemanha, vai subir nas sondagens e começará a ameaçar o projecto europeu dos partidos tradicionais. Cada avanço do populismo, seja na Grécia, Espanha ou França, é um desaire para os alemães federalistas e um contributo para fortalecer os eurocépticos que querem o isolamento de Berlim. Em Portugal, há quem ainda não tenha percebido o verdadeiro perigo dos partidos populistas*: o que ajuda a desligar a Alemanha da Europa é um pesadelo para todos.

 

* Partidos populistas aqui definidos como formações radicais, à esquerda e à direita, geralmente eurocépticas, que estão a ameaçar os partidos tradicionais. 

Momentos decisivos I


Luís Naves,

As discussões em Portugal tendem para variantes do fim do mundo e a reacção dos analistas à vitória do Syriza na Grécia está a seguir o guião. Veremos ao longo dos próximos meses se, ao contrário da tradição, um pequeno país consegue alterar a estratégia das potências, neste caso da Alemanha, cujas intenções são sistematicamente caricaturadas pelos comentadores. Lendo certos textos, parece que os alemães enlouqueceram.

Como acontece com outros credores, a Alemanha tem sido coerente na crise das dívidas soberanas: as ajudas aos endividados estão ligadas a reformas internas que permitam resolver os problemas estruturais na origem dessas dívidas. Ou seja, um eventual novo resgate a Atenas será condicionado a reformas; pagar as contas sem mudar significa a repetição da crise daqui a cinco anos. Se a extrema-esquerda não aceitar as condições, não há dinheiro e coloca-se o cenário de bancarrota, pois o país não se financia sozinho. Aliás, isso pode não ser uma catástrofe, pois a Grécia tem balança corrente e saldo primário positivos, embora ninguém deseje fazer a experiência e tudo indique que esta hipótese seja pior do que prosseguir o actual caminho.

Ainda há muitas incógnitas na equação: os gregos não querem sair do euro, o eleitorado é volátil, o mandato do vencedor é curto para decisões drásticas e o Syriza tem contradições internas. Pelo seu lado, os países do norte não podem fazer demasiadas cedências, pois em todos eles borbulham revoltas contra os partidos tradicionais. Sobretudo, este não é o momento adequado para mudar de rumo. Na Europa, o jogo decisivo será em 2017. Ou seja, estamos apenas no prólogo do drama ou na fase eliminatória.

Eleições decisivas?


Luís Naves,

A Grécia vota hoje e as sondagens indicam uma provável vitória da extrema-esquerda, o que muitos analistas em Portugal consideram um evento que abre caminho a uma mudança drástica na Europa. Muitas análises que tenho lido revelam puro desejo dos autores. Sempre que um pequeno país da União Europeia votou contra os planos dos grandes, a consequência foi uma nova votação ou uma negociação que levou esse país a sair das políticas que o eleitorado rejeitava. Basta ver durante dez minutos o que se diz nas televisões mais influentes (BBC ou CNN) ou ler os jornais estrangeiros para compreender que nada de importante vai mudar na Europa, talvez nem sequer na Grécia.

Se o Syriza vencer, haverá uma negociação para os dois lados salvarem a face e Atenas terá de aceitar a estratégia das grandes potências, ou seja, o princípio de que sem reformas não há dinheiro. Isto é válido para a Itália e para a Espanha, é válido para Portugal e para a Grécia. Os membros da zona euro vão continuar a controlar as contas públicas e a reduzir as dívidas, vão aprovar todas as reformas estruturais necessárias à modernização das suas economias. A dose de austeridade foi excessiva na Grécia? Claro. Isso é reconhecido por todos os intervenientes, mas os europeus acham que estão a fazer a sua parte, pagaram os resgates e há ajudas disponíveis, nomeadamente o estímulo monetário do BCE ou os fundos europeus. A Grécia é que se endividou de forma irresponsável e terá de aceitar as condições dos empréstimos ou escolher sair do euro, caminho que representa uma calamidade bem maior do que os actuais sacrifícios. É assim que a Europa do norte vê a questão e não compreendo o argumento de que, no caso das exigências gregas serem rejeitadas, está em causa a democracia. Seria viável sobrepor a vontade dos gregos à da opinião pública dos países credores? Afinal, o governo alemão também responde perante os seus eleitores e enfrenta os seus próprios desafios populistas, precisa de ter extremo cuidado com as cedências que está disposto a fazer.

Eleições gregas III


Luís Naves,

Se a Nova Democracia vencer as eleições na Grécia, haverá análises a lamentar a chantagem exercida sobre o eleitorado grego. Veremos títulos do género “A vitória do medo”, embora a melhor leitura seja a firme intenção da Grécia de permanecer na zona euro. Lendo muito do que é escrito, parece que os parceiros da Grécia não são democracias e os seus governos não respondem aos respectivos eleitorados.

O Syriza pode vencer as eleições, escolher o pragmatismo e renunciar às promessas eleitorais, aceitando o que já tem, mas em doses maiores, sobretudo maturidades mais longas para os créditos ou o não pagamento de juros sobre alguns dos empréstimos. A Grécia estava a reestruturar a dívida, como aliás Portugal está a fazer com êxito*. No entanto, se o Syriza vencer e se insistir nas promessas populistas, não será possível cumprir os termos do próximo resgate e a Grécia não receberá novo pacote de ajuda. Um governo de esquerda terá de falhar muitas promessas eleitorais. As taxas de juro estão acima de 10% e o único caminho alternativo é o da bancarrota, o que implica saída do euro, com hipotética nacionalização da banca, controlo de capitais, desvalorização abrupta e mais desemprego e sacrifício económico para a população. Na actual configuração da união monetária, a imagem que devemos usar é a dos alpinistas que sobem uma montanha seguros por uma corda. Se os últimos da corrente puserem os restantes em risco, a corda é cortada para evitar que todos caiam.

O euro tem um precedente histórico (enfim, com diferenças e semelhanças), a união monetária austro-húngara, que foi um extraordinário sucesso durante 50 anos, mas que obrigou o império a fazer cortes nos gastos militares antes da guerra de 1914, uma das razões da derrota, ou seja, o êxito esteve na origem da perdição ou, visto de outra forma, uma união monetária obriga a actualizar as ambições políticas dos seus membros, o que não aconteceu no caso austro-húngaro e não está a acontecer no caso de alguns países do euro. O fim da união, em 1918, foi uma calamidade para alguns dos envolvidos: a Hungria, por exemplo, teve a maior hiper-inflação da História. Por isso, como sugere o precedente, a saída do euro será péssima para os gregos, a reestruturação possível será insuficiente para o Syriza e o perdão de dívida parece impossível para os países credores, pois é inaceitável para a opinião pública do norte da Europa e acabaria com a credibilidade da moeda única. Onde estará o ponto de equilíbrio entre estes elementos? Estará algures, certamente, mas parece mais lúcido não testar os limites.

 

* Portugal está a financiar-se em todos os prazos e vai reembolsar os empréstimos do FMI, livrando-se da troika. Os analistas diziam que era impossível. 

Eleições gregas II


Luís Naves,

A esquerda europeia defende que os países credores devem pagar a dívida dos endividados, mas essa possibilidade tem sido recusada por países como Alemanha, Finlândia ou Holanda, que pensam estar a pagar a factura dos resgates. Se houvesse perdão de dívida, dizem os credores, não haveria mais reformas e o problema era apenas empurrado com a barriga, pois assim garantia-se a manutenção de modelos de sociedade fracassados.

Desde que a crise começou, a Grécia já recebeu ajudas de 380 mil milhões de euros, incluindo perdas privadas de 100 mil milhões de euros e 240 mil milhões emprestados pela troika, o que inclui dinheiro português. Isto salvou os bancos alemães e franceses, é um facto, mas a dívida foi criada pela irresponsabilidade dos governos gregos e as reformas exigidas em troca destes empréstimos foram sendo adiadas devido a vários momentos de alta instabilidade política na Grécia.

Muitos comentadores argumentam que a Alemanha tem sido a maior beneficiária da crise das dívidas soberanas e que houve perdão de dívida aos alemães, nos anos 20 e depois da II Guerra. Têm razão, mas o primeiro argumento esquece que não haveria euro sem os alemães (a valorização do franco suíço mostra o que estaria a acontecer se o marco existisse). O segundo argumento é mais subtil e esquece o contexto do perdão de dívida no pós-guerra. A criação da República Federal da Alemanha foi uma decisão política e visou conter o então gigante soviético. Uma Alemanha pobre teria sido o palco ideal da Guerra Fria. Esta questão estratégica está ausente no caso da Grécia.

Em notícia recente e mais entusiasmada, onde era bem visível o desejo do redactor, dizia-se que a votação grega podia mudar a Europa. A ingenuidade mistura-se com o desconhecimento do funcionamento da União Europeia, que não se altera com uma votação nacional: não resiste a cinco segundos de reflexão imaginar que a opinião pública alemã mudava por causa dos eleitores gregos. Os países defendem os seus interesses e é para isso que servem os governos. Os países do norte da Europa não vão aceitar de um dia para o outro a ideia de pagarem a dívida dos seus parceiros da zona euro.

Eleições gregas I


Luís Naves,

O intenso desejo de que algo se concretize é um elemento poderoso em política, capaz de alterar a percepção do público sobre um determinado problema e de limitar as opções da respectiva resolução. O fenómeno é visível em muitas análises sobre as eleições gregas, onde o partido de extrema-esquerda Syriza está bem colocado para vencer, com um lote de promessas que passam pela expansão acentuada da despesa pública, o que será incompatível com as intenções da troika. Na comunicação social, a reacção tem sido de confusão sistemática entre desejo e realidade. Também por isso, os comentadores tendem a desvalorizar o que foi conseguido em Portugal: estamos nos mercados e as taxas de juro são invulgarmente baixas, mas isso é absurdamente considerado sem mérito e simples efeito externo.

Para alguns, a Grécia é um modelo de resistência, não o modelo a evitar. Se vencer as eleições, o Syriza pretende reestruturar a dívida, agora nas mãos de instituições europeias. Os credores europeus estarão dispostos a negociar, mas oferecendo apenas concessões que poderiam reduzir a dívida pública grega dos actuais 175% do PIB para um pouco menos de 160%. Talvez seja possível ir um pouco mais além, mas em troca Atenas teria de acelerar as reformas estruturais (que estiveram sempre atrasadas) e manter saldos primários positivos. O BCE prepara-se entretanto para um programa de estímulo monetário e não haverá mutualização da dívida, pois cada banco central será responsável pelas suas compras. Embora isto corresponda ao cumprimento dos tratados, os analistas referem o seu desapontamento.

Sobre a Grécia, omite-se geralmente que o país está fora dos mercados, que precisa de financiamento externo e que tem duas opções: sai do euro, desvalorizando a moeda e empobrecendo ainda mais depressa ou, em alternativa, mantém o programa de ajustamento (o que a simplificação jornalística designa como austeridade) e pede novo empréstimo. Caso o Syriza confirme as sondagens e vença as eleições, parece difícil evitar um choque entre os desejos e a realidade: os credores recusam assumir as dívidas gregas e um governo de esquerda terá a ilusão de poder vergar a opinião pública da Europa do Norte, sendo impossível para esse partido renegar as promessas feitas na véspera em campanha.

Borgen


Luís Naves,

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A série dinamarquesa Borgen faz uma das melhores abordagens sobre a política que já vi em ficção. Os actores são óptimos, a escrita é perfeita, o ritmo, a música, enfim, todos os aspectos técnicos funcionam. Ao contrário do que sucede em séries americanas que abordam política ou jornalismo, aqui não há situações exageradas nem maniqueísmo nas personagens. O que mais atrai em Borgen é a forma exacta como ali se expõe a realidade da democracia parlamentar, nomeadamente a necessidade de negociar, o carácter inesperado das crises, a inevitabilidade das concessões, o poder dos interesses especiais, a linha fina que separa lealdade e traição, a escassez do tempo, a não repetição das oportunidades ou ainda a crueldade de certas decisões, como deixar cair alguém de quem se gosta, enfim, o carácter solitário da política que, paradoxalmente, não pode ser praticada sem convencer muita gente através da palavra.

A dramatização e a criação de um fluxo narrativo obrigam por vezes a situações onde se desafia a suspensão da descrença, mas genericamente os autores conseguiram esboçar personagens semelhantes a jornalistas e políticos reais. A história mostra correctamente a existência de um triângulo entre três vectores inseparáveis: a política, o jornalismo e a comunicação (ou spin). Nenhum deles vive sem os outros. O spin doctor não é alguém que esconda os factos, mas um gestor de crises, com importância na explicação das decisões (veja-se por exemplo o carácter central da escrita dos discursos). Os jornalistas nem sempre procuram a verdade, muitas vezes têm motivos egoístas ou seguem pistas falsas. Os políticos, tratados pelos autores sem demagogia, vivem no medo de perder tudo por causa de uma trivialidade e nem sempre fazem o que gostariam de fazer. Borgen mostra a força das democracias parlamentares europeias e é uma crítica demolidora às simplificações populistas.

Na primeira série, Birgitte Nyborg, vítma das circunstâncias, tornou-se uma primeira-ministra mais pragmática e insensível; a personagem de maior complexidade, Kasper Jull, ganhou em cinismo e manipulação; Katrine Fonsmark tornou-se menos idealista, vítima dos seus momentos de ingenuidade.

A hipocrisia do pessimismo


Luís Naves,

Durante os três anos do programa de ajustamento foi criado um clima de pessimismo que será difícil desfazer. Muitos jornalistas, políticos e comentadores destruíram a auto-estima dos portugueses. As boas notícias foram sistematicamente apresentadas na sua pior vertente, quando a veracidade não era logo posta em causa. Enfim, a ideia da desgraça do País entrou nas consciências e autores de artigos de opinião que não acertaram uma única vez durante esta crise continuam tranquilamente a espalhar o derrotismo e a exercer a sua liberdade de expressão sem um mínimo de responsabilidade.

Um bom sítio para ver os efeitos deste problema é num curso para desempregados de longa duração. Sou testemunha. As pessoas deixaram de acreditar nas suas forças e dizem que é impossível o regresso ao mercado de trabalho. No grupo onde participo, há trabalhadores com excelentes qualificações, mas sobretudo trabalhadores indiferenciados, cujo desespero é evidente. Estas pessoas estão marcadas pela hipocrisia da sociedade e foram vítimas de demasiados gestos de indiferença. O pior, do seu ponto de vista, é a noção clara de não haver qualquer esperança. Segundo acreditam, a situação do País não tem saída e qualquer tentativa para incentivar o ânimo é vista como optimismo inútil.

O clima de catástrofe criado pela comunicação social vira-se também contra a própria. Os leitores perderam a confiança e recusam este massacre inesgotável, mas os autores com acesso a colunas de opinião não vão mudar, o que só prolongará a mentalidade da crise. Quem tenta sair da narrativa oficial da calamidade é imediatamente atacado pela brigada dos fatalistas, cujos membros falam sempre do alto dos seus empregos seguros e das suas opiniões superficiais.

O mundo complicado


Luís Naves,

Quando o sistema mundial tem muitos protagonistas torna-se difícil manter a estabilidade das alianças e gerir a ascensão ou o declínio relativo de uns e outros. Foi o que aconteceu nas duas décadas anteriores à Primeira Guerra Mundial, quando os impérios europeus estavam fragmentados em cinco potências principais (Grã-Bretanha, França, Rússia, Alemanha e Áustria-Hungria) e surgiam novos poderes ambiciosos (EUA e Japão), enquanto outros se debatiam com a consciência do declínio acentuado (Império Otomano e Itália). Na altura, havia nove actores principais, uma multidão. Depois da guerra, o cenário mudou, com a subida rápida dos EUA e a recuperação meteórica da Alemanha. Nos anos 30, havia quatro potências europeias, cinco se contássemos a Itália, mais a América e o Japão, o que dava sete, criando um conjunto ainda muito instável.

A Guerra Fria simplificou o cenário, mas progressivamente ascenderam novas potências, sobretudo Europa, Japão e China, mas igualmente outras com ambições, embora mais modestas, como Irão, Índia ou Brasil. O facto é que neste momento o sistema internacional tem excesso de participantes, pelo menos cinco principais e três secundários. Não há recursos para todos e alguns vão entrar em declínio e alta ansiedade. Para evitar a decadência, a Europa vai provavelmente acelerar a integração, porventura sem o Reino Unido. O Japão parece ter entrado num confortável ocaso, a China continua a ganhar dimensão, a Índia tem decepcionado. EUA, Europa e Japão são aliados firmes e formam um bloco poderosíssimo. Rússia e China tendem a ficar do mesmo lado, mas isso nunca é assim tão líquido. Há outras potências emergentes, (Índia, Brasil ou Irão), mas julgo que tudo isto somado aponta para um mundo instável, onde os conflitos serão cada vez mais complicados.

Também publicado aqui.

A guerra contra o terror


Luís Naves,

À primeira vista, a brutalidade dos terroristas radicais islâmicos sugere uma ameaça existencial para o Ocidente e os seus valores. A barbárie também se manifesta em zonas de guerra onde reina o terror, como no norte da Nigéria, na Síria/Iraque, na Líbia e Somália ou em territórios substanciais do Afeganistão. E, no entanto, quando temos uma visão mais abrangente do conflito, são os radicais que enfrentam uma óbvia ameaça existencial. As principais potências do mundo (EUA, Europa, Rússia e China) concordam entre si num único ponto, a necessidade de combater o radicalismo islâmico, seja na sua forma de grupos terroristas ou de movimentos separatistas. Os islamitas são perseguidos em todos os países estáveis do mundo muçulmano e estão a ser presos ou eliminados em todas as regiões onde existam grupos extremistas. As zonas dominadas pelos radicais são pobres ou palco de intermináveis guerras civis.

O extremismo islâmico combate os valores ocidentais e todas as suas manifestações, das caricaturas aos bonecos de neve, das representações divinas às taxas de juro, do cinema à educação das mulheres. Os radicais islâmicos dizem que não são precisos mais livros, pois o que não está no Corão é inútil ou errado. A vida quotidiana dos ocidentais, que se infiltra em todos os países, vai conquistando as pessoas para ideias diferentes, do casamento por amor à libertação das mulheres, que até começam a conduzir automóveis. A banal televisão ou uma simples canção na rádio representam o horror e um ataque à interpretação fundamentalista da religião. Para estes fanáticos, o ocidente está todo errado, não apenas a sua laicidade e o direito à blasfémia, mas também os valores da liberdade, dos direitos humanos e da convivência de culturas. Ou seja, o conflito entre radicais islâmicos e civilização ocidental não tem qualquer espaço para a reconciliação. Os extremistas só têm a opção de radicalizar o seu movimento, o que produzirá uma reacção cada vez mais violenta e concertada das potências do mundo contra grupos que serão isolados, caçados e destruídos.