Envelhecimento


Luís Naves,

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Os partidos discutem envelhecimento do País e a baixa natalidade e logo o debate produz argumentos que explicam o fenómeno com a crise financeira. A tese é de que as pessoas querem ter filhos, mas não há condições: faltam creches e empregos, habitação, educação de qualidade, transportes e prestações sociais.

A baixa fertilidade tem certamente motivos ligados à qualidade de vida, mas isso não explica que o indicador tenha caído ao longo de 40 anos. As mudanças sociais em Portugal foram talvez demasiado rápidas, pelo que o seu impacto é mais visível do que em outros países: as famílias são exigentes em relação à educação dos filhos, as pessoas casam tarde e os casamentos duram menos tempo (apesar desta crise ter aumentado o tempo médio de duração dos casamentos). Em resumo, há factores sociais poderosos que não se resolvem com medidas fiscais, subsídios ou novas infra-estruturas. Não digo que isso não seja feito, mas não há leis que convençam as mulheres a casar mais cedo ou que convençam as famílias a ter outro filho.

Os portugueses de hoje têm mais instrução do que em 1970, mas a natalidade continua a cair. Eles são muito mais ricos do que os pais e avós, têm qualidade de vida superior, mas a natalidade continua a baixar. O desemprego dos jovens só aumentará o problema, mas mesmo que a falta de perspectivas da nova geração se resolva, haverá mesmo assim uma crise de fertilidade, pois muitas mulheres quererão optar pelas carreiras e os casais continuarão a achar que a família ideal é pequena. Enfim, assistimos a discussões sobre medidas que podem aumentar em algumas décimas a taxa de fertilidade, mas nenhum político confessa que é necessário discutir outra abordagem, tratando o envelhecimento das sociedades como um fenómeno natural. Por isso, precisamos de aceitar a emigração, mesmo que mude substancialmente a nossa cultura. Portugal teve a vantagem da coesão linguística, étnica e religiosa, mas esse pensamento tornou-se uma desvantagem.

As sociedades adaptam-se às mudanças naturais. No futuro, o País terá menos estudantes e mais idosos, as despesas de saúde serão diferentes e, com o actual sistema de pensões, as pessoas vão trabalhar durante mais tempo, o que por sua vez exige das empresas uma mentalidade que valorize a experiência. Quando era rara, a velhice foi associada à sabedoria. Agora, que se tornou comum, é vista como um problema. No entanto, os países envelhecidos deviam ser vistos como potencialmente mais sábios, pacíficos e prósperos.

A agonia da Grécia


Luís Naves,

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Quanto mais a Grécia se afunda, mais parece inverosímil o argumento de que estamos perante um colossal erro alemão. Em boa verdade, o governo grego, liderado por um partido radical, não consegue (ou não quer) apresentar aos seus parceiros um plano credível de reformas. A margem de manobra já era estreita e está a esgotar-se a cada dia. Atenas não tem dinheiro para pagar salários e pensões e, apesar dos desmentidos, dificilmente cumprirá os compromissos internacionais previstos para as próximas semanas. Terminado o prazo limite no dia 24, estaremos em território desconhecido, provavelmente num ‘Grexident’, ou saída acidental da zona euro.

Por aqui, circularam várias narrativas para explicar esta crise. Primeiro, a vitória do Syriza foi apresentada como um triunfo do bom senso: a estratégia da chanceler Merkel sofrera uma derrota e a ‘austeridade‘ ia acabar. Quando isto não se concretizou, o governo português foi acusado de falta de patriotismo pelos comentadores, por não ter apoiado as pretensões gregas, o que na prática acabou com o consenso partidário nacional em torno das nossas políticas europeias. Na realidade, o Syriza conseguiu hostilizar os parceiros e nunca foi credível. Talvez obtenha um acordo de última hora, talvez acabe por sair do euro, a única forma de aplicar o seu programa radical. A segunda hipótese, cada vez mais provável, será uma calamidade para os gregos e levará décadas a superar.

 

O euro tem um problema estrutural: a ausência de união política impede transferências directas entre ricos e pobres. Assim, o que cada país fizer de errado afecta os vizinhos. Com esta deficiência, cresce a tensão entre a democracia e o interesse colectivo, pois pode não ser possível a um governo eleito cumprir o seu programa eleitoral, sobretudo no caso da aplicação desse programa resultar em consequências graves para os outros.

Isto explica que não haja dinheiro para a Grécia sem a chamada austeridade, nem sequer os 7,2 mil milhões necessários para manter a flutuação até ao final de Maio. Dinheiro sem contrapartidas significaria colapso do euro, pois os países que fizeram sacrifícios seriam ridicularizados e a punição dos mercados era imediata. Na ausência de união política, as futuras transferências entre credores e devedores estarão ligadas a mudanças internas (solidariedade nos dois sentidos). Se a Grécia sair do euro, a ameaça de expulsão para quem não cumpra o Tratado Orçamental passa a ser um risco insuportável, o que terá exactamente o mesmo efeito de uma utópica união política.

Em Portugal, toda a gente quer evitar esta discussão. Sabendo que não chegam ao poder, os partidos mais à esquerda defendem a renegociação da dívida, o que daria um cenário grego; os socialistas dizem que vão acabar com a austeridade, mas não explicam como é que isso é compatível com o cumprimento do Tratado Orçamental; e a coligação também não pode esperar vencer eleições a dizer que vai fazer mais do mesmo. Depois, quando estiver esgotada a fanfarronice eleitoral, haverá muitas queixas de que a Europa não respeita o veredicto da democracia portuguesa, mas ninguém se lembrará que os eleitores foram enganados.

Como se viesse aí uma grande trovoada


Luís Naves,

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Acumula-se na atmosfera uma excitação eléctrica em torno do ano eleitoral. Os comentários sobre os candidatos mencionam os eventuais apoios partidários, como se essa contagem de espingardas fosse linear, ou seja, como se os partidos fossem donos dos votos e o apoio das direcções resultasse no automático entusiasmo popular.

Quando as pessoas votam num candidato fazem duas perguntas: a primeira é simples e tem a ver com interesse, o que fará este candidato por mim? A segunda está relacionada com a confiança (posso confiar nele?) e, a partir daqui, a pergunta pode tornar-se mais complexa e variada: posso confiar nele para mudar o País? Para defender os meus interesses? Para acabar com a austeridade? Para nos tirar do buraco?

Os Estados-maiores dos partidos ou os jornalistas de política têm dificuldade em perceber que os eleitores possuem motivações de interesse e confiança. Torna-se penoso assistir à preferência do pequeno mundo partidário e mediático pelas manobras de intriga, a retórica balofa e o curto prazo. Quem votar nas legislativas de Outubro vai perguntar-se o que é que estes potenciais eleitos farão pelos seus interesses e se é possível confiar naquilo que eles dizem. O mesmo se aplica às presidenciais de Dezembro: o que este tipo diz é só conversa, ou posso confiar nele?

As pessoas já não suportam ouvir falar de crise e já não toleram a fulanização da política e as notícias enviesadas; estão fartas de corruptos e das elites que se apoderaram do Estado e que nos levaram à pré-bancarrota e ao resgate. Muitos portugueses estão desempregados ou temem pelos seus empregos; ninguém pode ignorar o tsunami da emergência social; e não há pachorra para a conversa marciana e para aqueles que tentam sacudir a água do capote. Quem fizer contas de cabeça percebe que nem em cinco ou seis anos terá o nível de salários anterior à crise, com a respectiva reposição de cortes ou redução de impostos. Sobretudo, os portugueses não entendem para que serviram tantos sacrifícios, não encontram quem lute pelos seus interesses e já perderam a confiança.

Contraste


Luís Naves,

Existe aquele lugar comum meio irritante segundo o qual as sondagens valem o que valem, que é a maneira da política fugir às perguntas. Também há más interpretações de sondagens: os preguiçosos não se dão ao trabalho de olhar para o mais importante, que são as tendências, e os tendenciosos gostam de confundir a árvore com a floresta. Tendo isto em conta, são curiosas as sondagens em Espanha, embora duvide que em Portugal alguém retire delas lições úteis.

Em Espanha, neste momento, há quatro partidos bem colocados para vencer as eleições autonómicas e legislativas. O bipartidarismo está condenado e os cenários de governo estável parecem complicados, o que levará a coligações. Um partido centrista, Cidadãos, irrompe na política espanhola de maneira espectacular e, em apenas dois meses, passou de menos de 13% das intenções de voto para mais de 19%. Este partido sem  militância nacional teve um resultado notável na Andaluzia e está a absorver uma formação centrista que nunca se afirmou. Entretanto, o Podemos entrou em queda acentuada, talvez vítima do seu apoio demasiado efusivo ao novo governo grego.

Na nossa Imprensa, há escassas hipóteses de ser referido um aspecto importante do cenário espanhol: o centro-direita recuperou 5 pontos percentuais em apenas dois meses e a esquerda tem caído de forma regular, apesar da subida do PSOE. A economia espanhola está a dar a volta, com perspectivas de crescimento que podem rondar 3% em 2015, e essa é a grande mudança.

Portugal e Espanha tendem a imitar-se, mas desta vez é diferente: as movimentações políticas espanholas contrastam fortemente com o cenário de imobilidade em Portugal. As nossas sondagens são eloquentes e nada muda nas perspectivas de voto, excepto em escassas décimas, com os partidos do costume a discutirem os candidatos do costume e a merecerem a falta de entusiasmo do costume. Estamos num impasse, numa modorra.

Navegações


Luís Naves,

 

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Um belo texto de Henrique Fialho, em Antologia do Esquecimento. Trata-se de um excelente blogue, veterano da blogosfera, que merecia ser citado mais vezes.

Em Malomil, António Araújo lembra Vasco Granja. Vale a pena ler a justa referência e lembrei-me logo da importância que Granja teve nas revistas de banda desenhada Tintim e Spirou e na importância que estas tiveram para mim.

Num registo diferente, a hipocrisia militante de alguns políticos mediáticos começa a ser penosa de ver, como muito bem assinala Filipe Nunes Vicente. Erros sistemáticos são repetidos com ar doutoral. Na questão da Grécia, a realidade tem desmentido todos os dias estes comentadores infalíveis. Eles nunca compreenderam a questão e disseram as maiores barbaridades, enganando a opinião pública, mas continuam a falar como se fossem oráculos. Estão sempre certos, os factos é que erram.

Aqui está um texto factual sobre a Grécia, de Tavares Moreira. O autor de Quarta República explica as consequências trágicas de uma fantasia política e lembra uma das excitações nacionais do ano passado, da qual nos livrámos com dificuldade. O governo do Syriza ia entrar a matar, não era? Tsipras e Varoufakis aterrorizavam a Europa, os alemães capitulavam e Portugal devia imitar estas luminárias. Era tudo uma questão de dignidade, não era?

Navegações


Luís Naves,

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Uma história muito saborosa, da autoria de Rentes de Carvalho, escrita com gosto e classe.

Sempre achei que a blogosfera era um meio ideal para publicar textos literários, opiniões e crónicas. É um meio ideal de aproximação aos leitores e serve para experimentar coisas novas, enfim, para a oficina do artesão. Alguns escritores usam muito bem o meio, incluindo aqui no delito. Margarida Rebelo Pinto escreve regularmente num blogue com o seu nome. Outros exemplos de autores com grande produção: Bruno Vieira Amaral, Paulo Moreiras, Ana Cássia Rebelo e Eduardo Pitta. A lista não é exaustiva, mas para alguns a blogosfera trouxe notoriedade.

Sobre outros temas, no plano da política, deve ser lido com atenção este texto de Pedro Romano, em Desvio Colossal. E sobre o mesmo tema dos cofres cheios, também este texto de Mr. Brown, em Os Comediantes, sempre muito lúcido.

Muito me surpreendia a mudança


Luís Naves,

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Se tivesse nascido em 1861, seria agora 1915 e o mundo era muito diferente daquele em que eu nascera. Era talvez agricultor não muito alfabetizado, com uma vida típica das pequenas comunidades. Acho que antes dos 30 anos teria emigrado para o Brasil, ou tentado, mas o mais certo era já ter morrido, das febres tropicais na tal aventura brasileira, ou algures no início do século, de apoplexia. Se por sorte ainda vivesse, era mais baixo do que sou e muito mais pobre. Antes dos meus 30 anos, Portugal endividara-se, entrando numa longa crise financeira que tornou mais difícil a vida dos miseráveis: o desemprego era terrível e havia forte mortalidade; em 1910, quando fiz 49 anos, a monarquia foi derrubada e vivíamos desde então numa convulsão política que abalava muitos costumes. Felizmente, essa agitação era mais ruidosa nas cidades. Segundo relatavam os jornais de Lisboa, na Europa alastrava uma guerra de grandes dimensões, na realidade uma carnificina, e soavam as vozes dos que se queriam juntar ao morticínio, pois os portugueses, ainda neutros, já tinham combatido em África contra soldados alemães.

Aos 53 anos, eu sabia bem que o mundo era inteiramente dominado por potências imperiais cristãs e provavelmente concordava com os sermões sobre a superioridade da minha maneira de viver. De resto, sentia que estava tudo em transformação à minha volta: até já vira um avião a passar ao longe, com muito espanto meu; os carros já não surpreendiam ninguém, mas ainda era incrível todo aquele ruído que faziam; e a electricidade, essa, era uma maravilha; o cinema, nem me digam, tudo mexia à nossa frente, um verdadeiro susto. As melhores ideias do meu tempo demoravam a chegar ao nosso país, quanto mais à província, e sendo improvável que um ignorante como eu se interessasse pelo romance ou pela pintura, dificilmente poderia conhecer as novidades, os modernistas e os impressionistas, que faziam coisas horrivelmente distorcidas. Aliás, o mundo que aí vinha era todo ele horrível, bastava ver o que faziam as máquinas voadoras e os grandes canhões de aço. Sim, estaria quase a fazer 54 anos, estávamos em Março de 1915, ano difícil; no entardecer instável da serra diluía-se a palidez do dia e já era hora de acender o meu candeeiro de querosene.

O gene português defeituoso


Luís Naves,

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Quando falam do atraso português, alguns intelectuais tendem a analisar apenas o curto prazo. Outros autores, de forma mais ou menos velada, atribuem ao povo todos os males nacionais, como se houvesse um gene português defeituoso. Nem se apercebem da presunção com que falam. O tom de desprezo, impossível de encontrar em França em relação aos franceses, tem sido recorrente em Portugal, onde os nativos são descritos pela sua própria elite como manhosos e velhacos, incultos e pobres, mansos e cobardes. Estes retratos são falsos, mas repetem modelos comuns na nossa literatura.

Portugal nunca percebeu as razões de não ser respeitado pelas outras potências: a ideia do nosso atraso tem séculos e a figura do intelectual estrangeirado que se confronta com a choldra é uma constante em várias épocas. O poder foi invulgarmente centralizado em poucas famílias, que controlavam as diferentes instituições, corte, igreja, exército, banca e funcionalismo. As diferenças sociais permitiram que se instalasse o tráfico de influências, a necessidade de protecção, as invejas e a mediocridade.

Os privilegiados nunca precisaram de se esforçar muito, mas nos últimos 40 anos, com o fim do império e a integração europeia, a sociedade mudou de forma drástica. Em apenas uma geração, as mulheres emanciparam-se e as diferenças sociais esbateram-se. As pessoas são hoje muito mais instruídas, saudáveis e ricas do que eram há 40 anos. Hoje, é difícil dizer que o maior problema seja o fosso social ou que haja costumes invulgarmente machistas, o que torna mais impressionante a sobrevivência desta narrativa do povo defeituoso.

O atraso português deixou de ser tão evidente, mas permanece na nossa cultura e confirma a baixa auto-estima de quem olha para si próprio como incompreendido e melancólico. O que mais nos ficou do passado foi o provincianismo. O confronto com o exterior origina duas atitudes contraditórias: somos os melhores ou os piores. O que vem de fora é mal compreendido e muitas vezes mal intencionado, mas é também inimitável. Por outro lado, o que fazemos será puro génio ou não possui qualquer valor quando comparado com o que vem de fora. Este caldo de cultura inseguro e sem meio termo torna injusta a invisibilidade do país e, de forma paradoxal, cria uma mentalidade periférica. Enfim, já não somos o centro do império, mas ainda desconfiamos da Europa; estamos no meio do caminho, sem saber o que fazer.

Ninguém deseja imitar a Irlanda


Luís Naves,

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Para o governo de Atenas, há duas hipóteses: avançam as reformas que a esquerda radical sempre recusou ou a alternativa será o abandono da moeda única, calamidade que implica um recuo de 30 anos. Ministros cheios de estilo, que entraram a matar, já enfiaram a viola no saco, mas os analistas nacionais continuam a detectar vitórias esmagadoras em todas as patéticas provocações que ajudam a empurrar aquele país para a porta de saída da zona euro. Aqui, os comentadores andam obcecados com a beleza e a dignidade do exemplo grego, mas nenhum deles explica que Portugal tem apenas de imitar a Irlanda. Quem não aceite as regras do Tratado Orçamental terá financiamento mais caro, não conseguindo pagar as suas dívidas. Todas as fantasias conduzem ao cenário grego da dependência externa. Pelo contrário, quem optar pelo rigor poderá recuperar a riqueza perdida durante a crise. Irlanda, Espanha e Portugal já desmentem as previsões económicas e, com substancial ajuda externa, inverteram a tendência de queda, obtendo crescimento e criação de emprego.

No entanto, em jornais e televisões, os comentadores que diziam que isto era impossível não alteraram um milímetro do seu discurso. A Imprensa esteve três anos a evitar a discussão central, confundindo desejos com realidade e sintomas com causas. Agora, sem leitores (os jornais perderam 40% da circulação em dez anos), a comunicação social não permitirá uma discussão política exigente, pois isso tornaria irrelevantes todas as análises nunca concretizadas: o País enfrentava a insurreição, a ruptura violenta, depois a espiral recessiva, mais tarde a necessidade de reestruturar a dívida e até a conveniência de sair do euro, a impossibilidade de terminar o programa de ajustamento, o horror social e a miséria eterna. A conversa mantém-se imperturbável, insistindo que os parceiros europeus erraram em toda a linha e que o nosso problema nunca foi causado por ilusões de megalomania, mas pela intransigência da Alemanha.

Imperialismo e estado estacionário


Luís Naves,

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Destreza das Dúvidas é uma das mais estimulantes leituras da blogosfera portuguesa actual e ali encontrei este texto de José Carlos Alexandre, que a meu ver resume alguns dos mitos recorrentes no debate nacional sobre União Europeia. O autor lança a sua reflexão partindo da análise que John Stuart Mill fazia do contexto internacional em meados do século XIX. Num livro publicado em 1856, Mill temia que a Europa entrasse num “estado estacionário” semelhante ao da China. Dificilmente podemos admitir que a observação tenha sido exacta: a Europa conquistou o planeta e a China não vivia num “estado estacionário” com séculos, pelo contrário, mergulhara num acentuado declínio que o imperialismo britânico tinha exacerbado na década anterior à da publicação do livro. Em causa, nos conflitos de que a China foi vítima, estava a ideia de liberdade de comércio, nomeadamente de vender ópio, cujo consumo minou a sociedade chinesa. Os chineses tinham sido copiosamente derrotados na Primeira Guerra do Ópio e seriam de novo derrotados ainda a tinta de On Liberty estava fresca. Nos anos seguintes, o “estado estacionário” deu nisto.

É pois difícil aceitar parte da argumentação e a análise que Mill fazia sobre a China sua contemporânea, nomeadamente a ideia do esmagamento do indivíduo como a causa da suposta inferioridade chinesa em relação à Europa. Qual a razão do triunfo britânico? Essa é outra questão, havendo várias teorias sobre o tema e talvez o esmagamento da China se explique pelo casamento feliz que ocorreu na Europa entre capitalismo, império e ciência, ou seja, os europeus tinham disciplina táctica, tecnologia naval, armamento mais eficaz, ambição financeira e o respaldo ideológico do liberalismo.

Em relação ao tema do texto de José Carlos Alexandre, o suposto “estado estacionário” da Europa actual, o diagnóstico parece pouco evidente. A burocracia central de Bruxelas é menos poderosa do que sugere o autor (afinal, dispõe apenas de 1% do PIB total da UE). Na realidade, a União Europeia é uma aliança de nações soberanas, antigos impérios em declínio, e o órgão decisivo é o Conselho Europeu, onde se reúnem os líderes eleitos, cada um deles a defender o interesse do seu próprio país. O resto, no essencial, consiste basicamente na tentativa de criar um vasto mercado comum e isso só será possível com certa uniformização de leis e de práticas administrativas, daí a necessidade de uma burocracia em Bruxelas, que funciona como uma espécie de fábrica de salsichas legais. As pessoas tendem a ridicularizar as tentativas de uniformização disto e daquilo, mas como seria possível um mercado europeu sem haver regras comuns definidas através de um processo político relativamente bizantino? Apesar de tudo, julgo não ser adequado falar em “estado estacionário” na Europa ou de “esmagamento do indivíduo”. Os cidadãos europeus gozam de amplas liberdades e têm uma segurança invulgar no gozo dos seus direitos. Isso, sim, deveria surpreender John Stuart Mill.

Navegações


Luís Naves,

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Rui Ângelo Araújo, autor de Os Canhões de Navarone, tem razão nos dois textos que escreve sobre o tema político da semana. A questão está na hipocrisia e ainda bem que João Gonçalves se lembrou de citar Medeiros Ferreira, pois o que resulta destes pecados é a superficialidade da discussão e a fraqueza dos eleitos. Filipe Nunes Vicente, sempre incisivo, acrescenta uma ideia que convém não esquecer.

Admiro o romance de Karl Ove Knausgard, mas gostei de ler o excelente texto de Gonçalo Mira, em Orgia Literária. Revejo-me neste modelo de crítica com elegância e cultura, onde se procura compreender as intenções do autor e as dificuldades da escrita.

Aproveito para destacar outro excelente magazine cultural, Máquina de Escrever, onde encontro as ilustres assinaturas de alguns amigos. E há ainda as boas crónicas de mestre Pedro Rolo Duarte, a simplicidade e beleza de Cair em Tentação ou a sagaz amenidade de Nuno Costa Santos.

Mudança em Espanha


Luís Naves,

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A sondagem que o El Pais publica hoje justifica três conclusões: os espanhóis queriam uma renovação dos partidos e ela aí está; com a bipolarização ameaçada, haverá talvez uma fase de governos de coligação; existe grande descontentamento à esquerda e à direita. Faltam oito meses e estas observações são óbvias, pois dentro da margem de erro há quatro partidos que podem vencer as eleições, mas olhando para as tendências verifica-se um fenómeno menos evidente: apesar das dificuldades do PP, o centro-direita está a crescer depressa, talvez um efeito da viragem económica.

Em Janeiro, segundo o mesmo instituto de pesquisa, a esquerda somava 57% dos votos e a direita apenas 29,3%. A inversão está a ser rápida. A soma de PP, Cidadãos e UpyD dá neste momento 40,6% das intenções de voto, enquanto o somatório Podemos, PSOE e IU baixou quase 10 pontos, para 48,3%. O que pesará mais, os escândalos de corrupção ou a queda do desemprego? Esta dúvida talvez explique a extrema indecisão do eleitorado, traduzida em fortes oscilações mensais de todos os partidos.

Se o cenário em Espanha é de mudança radical, em Portugal temos um descontentamento que deixa tudo na mesma. Fala-se muito em renovação dos partidos, mas esta não se vislumbra. Faltam sete meses para as eleições, contando três de férias de Verão, e os partidos estão mais ou menos nas mesmas posições, apesar do inaturável clima de pessimismo que tomou conta da sociedade portuguesa. Sobretudo continua a não surgir qualquer desafio de direita à coligação de governo, algo de estranho, tendo em conta as críticas constantes de sectores social-democratas ao longo de três anos de ajustamento. Ao contrário do que acontece em Espanha, os políticos nacionais parecem conhecer uma única via para o poder: a dos partidos instalados. A estratégia mais comum é torcer por uma derrota, para depois substituir o líder.

Quando a democracia se torna obesa


Luís Naves,

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Há crescentes sinais de problemas na democracia americana, sobretudo a paralisia que resulta da crescente intransigência das facções extremistas dos dois grandes partidos e a lenta formação de uma oligarquia que impede a renovação mais rápida do Congresso. As trincheiras ideológicas em torno do porte de armas ou da imigração estão a aprofundar-se e os políticos americanos tratam com pinças temas que na Europa seriam triviais, por exemplo, se há vantagens em vacinar as crianças, se acredita na teoria da evolução ou na tese das alterações climáticas. As campanhas tornaram-se de tal forma caras que os candidatos ficam reféns dos seus financiamentos.

Estes textos de Paul Krugman (aqui em castelhano e aqui numa versão diferente em inglês) são, no mínimo, preocupantes. O autor baseia-se neste artigo, onde são referidos os valores das contribuições políticas da indústria de pizzas. Como se pode ler, os estados mais obesos da América tendem a votar no Partido Republicano e Krugman afirma existir uma correlação entre estilo de vida e opções partidárias, algo que estará talvez ligado ao facto da indústria de junk food contribuir fortemente com dinheiro para as campanhas de candidatos republicanos.

A indústria do tabaco também interferiu na política, como fazem hoje a banca, os produtores de petróleo ou os fabricantes de armas, defendendo o livre arbítrio dos cidadãos e a liberdade dos mercados. Com esses argumentos, atrasam os avisos aos consumidores sobre os efeitos dos produtos que vendem ou hostilizam qualquer político que queira alterar comportamentos ou regular o seu sector. No caso das pizzas, a indústria quer apenas impedir a obrigação de etiquetas com informação sobre o conteúdo do alimento ou contestar decisões das autoridades no sentido de excluir este tipo de comida dos menus escolares. Quando a obesidade ou o fenómeno das alterações climáticas se tornam questões de opção partidária, todo o debate fica inquinado.

Civilização


Luís Naves,

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A revista The Economist afirmava na sua capa da semana passada que, em 2020, 80% dos adultos terão um supercomputador no bolso, ou seja, um smartphone. Este número traduz a extensão do processo a que chamamos globalização e que consiste numa vaga particularmente intensa de unificação da humanidade. Não há canto do mundo imune aos efeitos das tecnologias que caracterizam o nosso tempo. As pessoas de hoje inserem-se em redes complexas e sobrepostas, onde se transmitem tremendas quantidades de informação. A internet transformou-se numa imensa biblioteca dominada pela língua franca, o inglês, que talvez acabe por absorver partes de espanhol e mandarim. Nas últimas três décadas foi criada a infra-estrutura que permitirá agora acelerar a mais veloz transformação a que a humanidade já assistiu. O planeta está a unir-se como nunca antes foi possível.

As paisagens urbanas de Blade Runner, o visionário filme dos anos 80, começam a ser relativamente comuns. Já não nos parece estranha a fusão de elementos asiáticos e ocidentais no interior de megacidades com uma profusão de estilos de arquitectura e de raças. A cultura contemporânea é mestiça, consistindo numa amálgama cada vez mais agregada de ideias com diversas proveniências. Vistos a certa distância, todos os processos são de junção, das raças à economia, da linguagem às obras de arte, da gastronomia ao comércio. Está a ser criada a primeira civilização perfeitamente global, onde se aglutinam valores dominantes comuns, e não seria espantoso que dentro de cem anos houvesse uma moeda única planetária, o embrião do governo mundial, até um sistema judicial idêntico para todos os humanos, pois há esboços destes desenvolvimentos, sobretudo na União Europeia que, ao contrário do que muitos pensam, não está em declínio nem a implodir, mas será provavelmente o principal modelo político do futuro.

Claro que há movimentos fundamentalistas, sociedades em fragmentação, Estados falhados, tiranias e autoridade, crises capitalistas, demasiados países sem tolerância para a diferença, mas trata-se de reacções à mudança. Alguns grupos tentam travar o que consideram ser maléfico, contestando a ciência, o humanismo ocidental ou os direitos das mulheres, mas os seus esforços estão condenados ao fracasso: a democracia e a justiça, o consumo, a busca da felicidade ou o casamento romântico são ideias demasiado poderosas, difíceis de arrumar numa gaveta.

Escaqueirávamos museus…


Luís Naves,

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Entre outras passagens fantásticas, encontrei num livro a referência a uma das mensagens mais antigas da humanidade. Não há ali grandes ideias filosóficas nem se trata de um testemunho incrível sobre o passado, nem sequer de algum poema sublime. Numa simples tábua de argila cozida pode ler-se, em escrita cuneiforme, o seguinte texto: “29086 medidas cevada 37 meses kushim”. Segundo a interpretação dos peritos, no documento diz-se que foram recebidas 29086 medidas de cevada ao longo de 37 meses, segue-se a assinatura do funcionário. Assim, Kushim seria contabilista sumério e um dos primeiros nomes registados pela História. Ele anotava cuidadosamente a colecta de impostos obtida há 5 mil anos na cidade de Uruk, mais tarde engolida pela areia do deserto iraquiano.

De uma civilização posterior da mesma região, a Mesopotâmia, foram entretanto destruídos no museu de Mossul artefactos com mais de 3 mil anos, para efeitos de propaganda do grupo extremista Estado Islâmico. Como se refere aqui, entre as estátuas destruídas havia reproduções, mas também objectos assírios originais, perdidos para sempre. O Estado Islâmico vende antiguidades no mercado negro, para comprar armas, e deverá estar a preparar novas atrocidades, visando corpos em carne e osso, pois entretanto capturou centenas de reféns cristãos.

Daqui a cinco mil anos talvez não sobre muita coisa do nosso tempo e seria bem estranho que, perante esse improvável vazio, se encontrassem por sorte apenas as sensacionais imagens de uns loucos a destruir estátuas antigas, sem motivo aparente, ou a mensagem enigmática de algum funcionário das finanças a contabilizar a receita do IVA. Alguém iria concluir que éramos assim: escaqueirávamos museus e cobrávamos impostos.

Onde estão os descontentes?


Luís Naves,

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Em texto anterior tentei defender a tese de que o próximo ciclo político deveria concentrar-se na crise social e nas dificuldades dos mais vulneráveis. O país concluiu a parte difícil do ajustamento, mas agora é a vez das pessoas. Não vale a pena ter ilusões: a campanha eleitoral será imprópria para discussões sérias e haverá quem prefira discutir minuciosamente todas as pequenas distorções da realidade. A esquerda que agora aplaude a resistência grega terá más surpresas e a maioria de direita tenciona chegar às próximas eleições a dizer que vai fazer mais do mesmo.

O que surpreende nas sondagens é a ausência dos descontentes. Onde vão votar os mais de 2 milhões de portugueses que se abstiveram nas europeias do ano passado e que não costumam faltar nas legislativas? Os inquéritos de opinião não os conseguem detectar, exceptuando ligeiras oscilações entre PS e coligação e também transferências de voto entre Bloco e PCP, parecendo espantoso que os novos partidos anti-sistema somem apenas 4,5% das intenções de voto. Coligação e socialistas conquistam 70% do eleitorado, ou seja, Portugal prepara-se para votar na continuidade ou no passado recente.

O contraste com a Europa é extraordinário. Na Grécia, os radicais anti-partidos-do-costume conquistaram o poder. Entretanto, enfiaram a viola no saco e preparam-se para negociar o terceiro resgate, mas houve uma insurreição nas urnas, tal como se ameaça na França, onde as sondagens para as regionais de 29 de Março colocam a Frente Nacional em primeiro lugar, com 30% dos votos, mais um ponto do que o centro direita da UMP e dez pontos percentuais à frente do PS, que se prepara para uma humilhação histórica. A abstenção será elevada, mas estas eleições podem mudar a política local. O mesmo se aplica a Inglaterra, onde os partidos não-tradicionais podem alterar o equilíbrio parlamentar. Em Espanha, dá-se o mesmo fenómeno: os descontentes da direita preferem os Cidadãos e os da esquerda optam pelo Podemos, mas os dois, somados, podem atingir 40% do eleitorado, o que acabará com a hegemonia da dupla PSOE e PP. Isto, no fundo, foi o que já aconteceu na Grécia, embora numa escala mais calamitosa para os partidos tradicionais. Até na Alemanha há descontentes: a CDU foi esmagada nas recentes eleições de Hamburgo, com a formação anti-euro (AfD) a recolher 6,1% dos votos e os dois partidos da grande coligação a perderem mais de 8 pontos. Nos países do sul, as insurreições são de um terço do eleitorado, mas Portugal é a grande excepção e não existe razão clara. O sistema eleitoral parece imune ao descontentamento ou então o que vemos nos números será volátil.

Isto, claro, não acaba aqui: a má discussão dos assuntos sérios facilita uma campanha eleitoral cheia de demagogia, pessimismo e golpes baixos, o que favorece as formações que contestam o sistema partidário vigente. Para os grupos políticos tradicionais, o pior cenário será um mau resultado em Outubro, que os obrigue a formar um bloco central instável, com a oposição totalmente dominada por radicais.

A crise dos vulneráveis


Luís Naves,

Admitindo que nos anos do ajustamento era prioritário resolver a crise financeira, o governo precisa agora de reconhecer que em consequência da longa recessão se acentuou a crise social. O desemprego de longa duração atinge talvez mais de meio milhão de trabalhadores com escassas possibilidades de encontrar trabalho, sobretudo os menos qualificados. Portugal é hoje um país onde há níveis absurdos de violência doméstica e onde muitos velhos vivem em situações precárias, com rendimentos que não chegam para pagar remédios e até, em certos casos, que não chegam para uma alimentação normal. Este é também um país onde se ouvem apenas os protestos de alguns sectores, para os quais cada pequeno sacrifício se transformou no horror mais insustentável.

Portugal tem uma elite política hipócrita, incapaz de ver além dos seus próprios interesses. A oito meses de eleições, as sondagens sugerem que o eleitorado vai votar ao centro, que a direita tem pouco mais de um terço do voto e a esquerda pode conquistar quase 60% do parlamento. O grande mistério destes inquéritos de opinião é o facto de nenhum deles mostrar para onde vai o voto de protesto. O PS ainda não se definiu e talvez esteja a captar a simpatia de muitos descontentes, mas parece demasiado tímida a inclinação do eleitorado para os partidos que contestam o poder, tal como ele existiu na última década: em Espanha, o universo da contestação aos partidos tradicionais representa metade do eleitorado; na Grécia, é maioritário; na Itália, chega a um terço; aqui, parece não ultrapassar os 16%.

Não se ganham eleições a dizer que isto terá de continuar. Os vencedores propõem a mudança, embora para os partidos do poder, em 2015, isso seja o mesmo que enganar os eleitores, pois a margem de manobra do próximo governo será mínima. A questão está no Tratado Orçamental, que não tem ambiguidades e que todos os membros da zona euro que não desejem estar sob resgate terão de cumprir em 2018. Isto significa que haverá mais cortes na despesa pública e que as grandes tarefas políticas do próximo ciclo serão a reforma do Estado e da segurança social. Não há futuro sem crescimento económico nem se pagam dívidas, o que exige investimento, que só ocorre se houver estabilidade política e financeira, o que implica a perspectiva de cumprimento do Tratado Orçamental (ou seja, não se espere grande ajuda do investimento público).

Ora, num contexto de aperto será mais difícil resolver a crise dos vulneráveis. Como é que os desempregados de longa duração voltam ao trabalho e como é que se protegem os idosos que passam fome? Na campanha, vamos ouvir muita demagogia da esquerda em volta disto, mas se a direita reagir de forma autista, recusando a existência do problema, então não merece governar.

O calendário político foi ignorado


Luís Naves,

Passamos o tempo em querelas estéreis. Ontem, nem sequer percebi as notícias sobre as advertências da Comissão Europeia ao governo português, que me pareceram muito semelhantes às que surgiram no ano passado, já depois de terminado o memorando da troika. Tive de ler o jornal Le Monde para compreender que o alvo de Bruxelas era a França: Paris pedira para abrandar o ritmo de cumprimento das metas orçamentais, mas a Comissão recusou, pois havia países com números semelhantes aos franceses a cumprir calendários apertados. Um deles era Portugal. No editorial do jornal francês referia-se que Portugal, Espanha e Irlanda fizeram “esforços consideráveis” que custaram “dolorosos sacrifícios à sua população e classe política”. A França não podia deixar de ser “chamada à ordem” e não poderia beneficiar de “novos adiamentos”, acrescentou o editorialista.

A análise das críticas de Bruxelas ao governo português permite perceber que a comissão contesta o valor governamental do défice deste ano, considerando que a meta de 2,7% é optimista e prevendo um valor mais elevado, de 3,2%. Se o governo português estiver errado, haverá portanto medidas adicionais, mas a notícia foi transformada num psicodrama, com reacções histéricas e explicações que envolviam catástrofes iminentes. O facto é que a Comissão mantém críticas que já fez antes e a novidade era que Paris tem apenas dois anos para trazer o défice orçamental (4,1% em 2015) abaixo dos 3% do PIB, o que obriga a medidas difíceis no período anterior às presidenciais de 2017. O calendário político foi ignorado e os países tiveram tratamento semelhante.

O mal prussiano


Luís Naves,

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Comentadores que até há pouco tempo diziam não haver liderança na Europa mostram agora a sua profunda indignação com a liderança alemã da Europa. Um governo que pareça colar-se à influência da Alemanha será imediatamente criticado (até pela própria imprensa alemã), enquanto que um governo que insulte abertamente as autoridades prussianas gozará da maior imunidade, recebendo elogios pela sua resistência.

Sendo a maior economia da zona euro e o maior credor dos países endividados, a Alemanha terá uma palavra decisiva em todo o processo da actual crise grega, que está longe de terminar. A dívida grega ficou na posse dos contribuintes; as taxas de juro da dívida a 10 anos subiram de 6,5% em Setembro para mais de 10%, tornando improvável um programa cautelar. Ou seja, a Grécia continua insolvente, vai para o terceiro resgate e Portugal será chamado a contribuir.

Na Europa, os partidos eurocépticos acham que a Alemanha manda demasiado e as elites federalistas sempre acusaram os alemães de excesso de timidez, devido à culpa em relação ao passado. Agora, todos perguntam quem deu autorização a Berlim para mandar, ainda por cima com excesso de franqueza e de forma pouco paciente. Em Portugal, onde já começou a campanha para as eleições de Outubro, este problema está a ser usado para ataques políticos internos: a partir de agora, os governantes portugueses que quiserem falar com os seus homólogos alemães terão o maior cuidado de o fazer por vídeo-conferência e em segredo, para não haver fotografias da traição à pátria. Bater o pé à Alemanha dará votos, concordar com Berlim tornou-se politicamente tóxico e fere a dignidade da nação.

Basta ler alguns dos artigos que têm sido publicados ou ouvir os principais comentadores na TV. Muitos pensam que a Alemanha não tem qualificações para liderar a Europa, por não ter razão nas teses que defende, mas esta teoria da burrice alemã nunca conduz os autores às questões que deviam ser inevitáveis: Afinal, tem a Europa falta de liderança ou excesso dela? E quem manda, se não for a Alemanha? Os dirigentes portugueses devem aparecer ao lado de quem? Deve Portugal colar-se à Grécia, apesar de não estar insolvente e de não ter os mesmos problemas de Atenas? Devemos continuar nos mercados e cumprir o Tratado Orçamental? É possível o primeiro objectivo sem o segundo? Era bom que a oposição começasse a responder a estas perguntas.