Onde estão os descontentes?


Luís Naves,

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Em texto anterior tentei defender a tese de que o próximo ciclo político deveria concentrar-se na crise social e nas dificuldades dos mais vulneráveis. O país concluiu a parte difícil do ajustamento, mas agora é a vez das pessoas. Não vale a pena ter ilusões: a campanha eleitoral será imprópria para discussões sérias e haverá quem prefira discutir minuciosamente todas as pequenas distorções da realidade. A esquerda que agora aplaude a resistência grega terá más surpresas e a maioria de direita tenciona chegar às próximas eleições a dizer que vai fazer mais do mesmo.

O que surpreende nas sondagens é a ausência dos descontentes. Onde vão votar os mais de 2 milhões de portugueses que se abstiveram nas europeias do ano passado e que não costumam faltar nas legislativas? Os inquéritos de opinião não os conseguem detectar, exceptuando ligeiras oscilações entre PS e coligação e também transferências de voto entre Bloco e PCP, parecendo espantoso que os novos partidos anti-sistema somem apenas 4,5% das intenções de voto. Coligação e socialistas conquistam 70% do eleitorado, ou seja, Portugal prepara-se para votar na continuidade ou no passado recente.

O contraste com a Europa é extraordinário. Na Grécia, os radicais anti-partidos-do-costume conquistaram o poder. Entretanto, enfiaram a viola no saco e preparam-se para negociar o terceiro resgate, mas houve uma insurreição nas urnas, tal como se ameaça na França, onde as sondagens para as regionais de 29 de Março colocam a Frente Nacional em primeiro lugar, com 30% dos votos, mais um ponto do que o centro direita da UMP e dez pontos percentuais à frente do PS, que se prepara para uma humilhação histórica. A abstenção será elevada, mas estas eleições podem mudar a política local. O mesmo se aplica a Inglaterra, onde os partidos não-tradicionais podem alterar o equilíbrio parlamentar. Em Espanha, dá-se o mesmo fenómeno: os descontentes da direita preferem os Cidadãos e os da esquerda optam pelo Podemos, mas os dois, somados, podem atingir 40% do eleitorado, o que acabará com a hegemonia da dupla PSOE e PP. Isto, no fundo, foi o que já aconteceu na Grécia, embora numa escala mais calamitosa para os partidos tradicionais. Até na Alemanha há descontentes: a CDU foi esmagada nas recentes eleições de Hamburgo, com a formação anti-euro (AfD) a recolher 6,1% dos votos e os dois partidos da grande coligação a perderem mais de 8 pontos. Nos países do sul, as insurreições são de um terço do eleitorado, mas Portugal é a grande excepção e não existe razão clara. O sistema eleitoral parece imune ao descontentamento ou então o que vemos nos números será volátil.

Isto, claro, não acaba aqui: a má discussão dos assuntos sérios facilita uma campanha eleitoral cheia de demagogia, pessimismo e golpes baixos, o que favorece as formações que contestam o sistema partidário vigente. Para os grupos políticos tradicionais, o pior cenário será um mau resultado em Outubro, que os obrigue a formar um bloco central instável, com a oposição totalmente dominada por radicais.

0 comentários em “Onde estão os descontentes?”

  1. O sistema eleitoral português está bloqueado(como se ainda estivessemos em 1975 de alguma forma)pois temos vários partidos de “esquerda” a dividir votos que seriam importantes para um partido de real alternativa “abater” o actual pântano.Em que país desses referidos há um pc a alienar(desde 1989)uma boa percentagem do eleitorado(cá anda entre 7 e 10%)para simplesmente ter alguns individuos a protestar no parlamento??

  2. Se enganam os povos.Antes de mais deveriam ser repescadas as declarações de Ferreira do Amaral,o cavaleiro do Escudo,sobre o que ele previa serem os primeiros dois ou três anos depois de abandonarmos o Euro,em especial para os que já não têm capacidades físicas de se defenderem nem sequer conseguem ir procurar comida…Lembro-me disto,entre muitas outras previsões dele:—A democracia vai estar seriamente em risco.Estas entrevistas devem estar arquivadas algures.Porque o debate vai passar por aqui.E só demagogos o poderão escamotear.

  3. Juncker apercebeu-se disso, e sua mensagem só peca por tardia. A direita só procura endireitar-se quando tem fogo no cuzito. Mas o que mais me surpreende nos movimentos de direita é o radicalismo que surge na direita dita cristã. Estes, em regra, mas não únicos, são também causadores das perturbações e rupturas sociais fazendo com que o que devia ser também a sua base eleitoral migre noutras direcções. Os partidos ditos cristão europeus sempre estiveram e estão longe da realidade que dizem defender. A sua governação, tal como a de outras forças também à direita e à esquerda, fundamenta-se numa postura farisaico-legal, fortemente moralista, sem que se entenda a raiz das perturbações existentes e das que eles mesmo potenciam e agravam.
    Perante tal encruzilhada, é meu entender que Costa, não obstante a deslealdade para com Seguro, que também foi derrubado pela direita, deva ser puxado para a liderança do próximo governo e levado a inclinar-se o necessário à esquerda de sua esquerda.

  4. Governar em alturas de crise como um judeu e folgar em alturas de prosperidade como um árabe.

    Já agora, lembra-se do PREC? É que muita gente lembra e ainda bem.

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