Quanto mais a Grécia se afunda, mais parece inverosímil o argumento de que estamos perante um colossal erro alemão. Em boa verdade, o governo grego, liderado por um partido radical, não consegue (ou não quer) apresentar aos seus parceiros um plano credível de reformas. A margem de manobra já era estreita e está a esgotar-se a cada dia. Atenas não tem dinheiro para pagar salários e pensões e, apesar dos desmentidos, dificilmente cumprirá os compromissos internacionais previstos para as próximas semanas. Terminado o prazo limite no dia 24, estaremos em território desconhecido, provavelmente num ‘Grexident’, ou saída acidental da zona euro.
Por aqui, circularam várias narrativas para explicar esta crise. Primeiro, a vitória do Syriza foi apresentada como um triunfo do bom senso: a estratégia da chanceler Merkel sofrera uma derrota e a ‘austeridade‘ ia acabar. Quando isto não se concretizou, o governo português foi acusado de falta de patriotismo pelos comentadores, por não ter apoiado as pretensões gregas, o que na prática acabou com o consenso partidário nacional em torno das nossas políticas europeias. Na realidade, o Syriza conseguiu hostilizar os parceiros e nunca foi credível. Talvez obtenha um acordo de última hora, talvez acabe por sair do euro, a única forma de aplicar o seu programa radical. A segunda hipótese, cada vez mais provável, será uma calamidade para os gregos e levará décadas a superar.
O euro tem um problema estrutural: a ausência de união política impede transferências directas entre ricos e pobres. Assim, o que cada país fizer de errado afecta os vizinhos. Com esta deficiência, cresce a tensão entre a democracia e o interesse colectivo, pois pode não ser possível a um governo eleito cumprir o seu programa eleitoral, sobretudo no caso da aplicação desse programa resultar em consequências graves para os outros.
Isto explica que não haja dinheiro para a Grécia sem a chamada austeridade, nem sequer os 7,2 mil milhões necessários para manter a flutuação até ao final de Maio. Dinheiro sem contrapartidas significaria colapso do euro, pois os países que fizeram sacrifícios seriam ridicularizados e a punição dos mercados era imediata. Na ausência de união política, as futuras transferências entre credores e devedores estarão ligadas a mudanças internas (solidariedade nos dois sentidos). Se a Grécia sair do euro, a ameaça de expulsão para quem não cumpra o Tratado Orçamental passa a ser um risco insuportável, o que terá exactamente o mesmo efeito de uma utópica união política.
Em Portugal, toda a gente quer evitar esta discussão. Sabendo que não chegam ao poder, os partidos mais à esquerda defendem a renegociação da dívida, o que daria um cenário grego; os socialistas dizem que vão acabar com a austeridade, mas não explicam como é que isso é compatível com o cumprimento do Tratado Orçamental; e a coligação também não pode esperar vencer eleições a dizer que vai fazer mais do mesmo. Depois, quando estiver esgotada a fanfarronice eleitoral, haverá muitas queixas de que a Europa não respeita o veredicto da democracia portuguesa, mas ninguém se lembrará que os eleitores foram enganados.


Bem, eu não sou nenhuma autoridade no assunto, mas a entrada na (a adesão à) UE implicam a perda de grande parte da soberania dos aderentes, pelo que pretender praticar políticas nacionais como se essa adesão não se tivesse verificado (E NÃO SE PRETENDESSE CONSERVAR) é de rematada loucura. Mas bastaria a globalização para que, nos tempos correntes, a independência “à antiga” tivesse ido por água abaixo. E não se pretenda que é tudo culpa da teimosia e muito menos do “nazismo” de Merkel…
http://www.zdf.de/ZDFmediathek#/beitrag/v ideo/2373814/Vorurteile-und-Bilanzen
Infelizmente só em alemão, mas quem falar a língua pode saber aqui a verdade sobre a Grécia, sobre a Troika, etc e isto num programa satírico…
“O euro tem um problema estrutural: a ausência de união política impede transferências directas entre ricos e pobres.”
O Euro tem um problema, foi mal concebido, condena-nos a uma zona monetária manca, que a prazo provoca inevitáveis gangrenas nos seus membros mais frágeis.
Admitindo pelo menos parte disto, o Luis Naves parece incapaz de conceder que a posição do governo grego é a de que não é fechando os olhos ao que está mal que as coisas vão ficar bem. E se o governo grego tentar resolver o que está mal no seu país (coisa que os governos supervisionados pela troika foram incapazes de fazer, e que não é necessariamente a legislação laboral ou a protecção social), a Europa deveria também tentar resolver o que está mal com o Euro.
Em vez disso agarra-se a uma espécie de Realpolitik suicidária. Isto é para mim um mistério.
É persisitir em dizer “Sim, está mal, construimos um edifício em cima dum pântano, mas é o que temos e não vamos mexer nas fundações. Os do andar de baixo que se afoguem, que aqui da Penthouse ainda temos uma boa vista.”
O euro tem um problema estrutural
Parece que toda a gente já percebeu isso.
E é evidente que a saída da Grécia nada fará para remediar esse problema estrutural. Ele permanecerá.
Pelo que, com ou sem saída da Grécia, seria bom todos os restantes países da Zona Eurro decidirem abandoná-la. Porque, se essa zona tem um problema estrutural, e se parece não haver vontade política de remediar esse problema, então a única solução é desfazer a Zona Euro.
O que me faz confusão é que, toda a gente reconhecendo que há um problema estrutural, ninguém faça nada para alterar a situação.
Não me fiz entender. A união política não será possível nos próximos 20 anos, mas a possibilidade de um país sair da zona euro terá o mesmo efeito da união política. Ninguém precisa de andar a meter o nariz nas contas dos outros e não haverá mais equívocos, pois quem tentar andar à boleia com défices insustentáveis acaba em situação catastrófica. Toda a gente tem incentivo para cumprir o tratado orçamental e com esta solução inédita de permitir expulsões, a união monetária europeia obtém uma estabilidade de aço. O euro não vai desaparecer, pelo contrário. Em paralelo, existe uma questão jurídica e os tratados têm de ser ajustados ao que vai acontecer, mas a Grécia vai pedir para sair, é muito evidente.
” …mas ninguém se lembrará que os eleitores foram enganados.”
Ao fim de estes quase 40 anos só é enganado quem quer.
Esperar que as mesmas circunstâncias, eleitorais, o sistema eleitoral, e não só, resultem em algo diferente (e melhor), é doentio.
Este sistema só é capaz de gerar Estado, País, falido e penhorado (3), desigualdades sociais, desemprego jóvem e não só, greves dos que ainda têm (bons) empregos, corredores de hospitais socialistas …
O texto não faz sentido algum. Nem sequer está errado. É pior.
“O euro tem um problema estrutural: a ausência de união política impede transferências directas entre ricos e pobres. Assim, o que cada país fizer de errado afecta os vizinhos.”
Então a subsidiação directa não afecta os vizinhos?
Estamos num mundo mágico fantástico onde a Lógica e a Aritmética não entra?
O autor lamenta que não haja transferências de dinheiro para os “pobres” – pelos vistos é pobre quem tem 20000 Euros per capita – mente ou esqueceu-se, que existem subsídios.
Mas a lógica do socialistas é sempre pedir mais.
Afinal que queremos nós, moralistas? Queremos matar os mais fracos, para favorecer os mais ricos? Queremos paz, humanismo, ajuda ou queremos vingança, desespero e uma Europa pior que o terceiro mundo? Porque criticamos os países do terceiro mundo, com as suas políticas desumanas se aqui, nesta Europa que se uniu, para que houvesse ajuda dos mais poderosos aos mais fracos e que afinal tudo fazem menos isso. Se a Grécia prevaricou e gastou mais do que podia, foi porque a UE, BCE, Eurogrupo e FMI consentiram e deram sempre o amém aos seus pedidos. Não foi o Syriza que esbanjou, estragou, gastou, corrompeu, mas é o Syrisa que tudo tenta fazer, para dar dignidade, ao seu povo que não tem culpa, dos actos dos seus governantes que a tudo isto, ficam impunes e no fim paga o povo pelos erros dos abutres que os governaram. É isto que queremos? Se é isto que queremos, podemos preparar-nos para o inevitável que será muito mau, nas pelos vistos já lá vão 70 anos e queremos mais……..
“mas ninguém se lembrará que os eleitores foram enganados”
Pois alguma razão deverá ter você, afinal sabe da poda….
Os gregos escolheram morrer de pé, escolheram outro caminho que não uma morte lenta e agonizante como País e povo, aqui em Portugal vai acontecendo o mesmo, só é menos dramático, é um processo mais lento mas o resultado será o mesmo.
Quando o siryza ganhou as eleições você disse que a Grécia seria empurrada borda fora, agora já lhe chama acidente…
Embora não tenha muita fé nisso creio que os gregos ficarão na zona euro e espero ver muitos dos que defendem as politicas seguidas na europa a cantarem loas ao empenhamento de toda a europa ” na salvação da Grécia e de outros em estado igual (como Portugal, Itália, Espanha e demais).
Patético.
A ganância dos Gregos fez destruir os compromissos “sociais” que fizeram com meio mundo.
E foi a mesma ganância que fez os Gregos votarem no Syriza, fizeram-no para continuar as políticas do PASOK e da Nova Democracia: Défice Permanente.
Que nem você se apercebe. Aliás como podia…
E você apoia, como certamente apoia o que fez Sócrates/PS e o que fazem os outros partidos socialistas: PSD,CDS, PCP etc. A diferença entre eles é apenas de grau.
Não há nenhum que seja contra o aumento da dívida. Tal como você não é contra o aumento da dívida.
Morrer de pé ou nas esplanadas à beira-mar?
Nenhuma reforma apresentada pela Grécia e imposta pelos credores será credível, Luís. Porque nenhuma dessas reformas alcançará o objectivo que se pretende. Simplesmente pelo facto desse objectivo não ser credível.
De tudo, retiro uma frase: “Dinheiro sem contrapartidas significaria colapso do euro, pois os países que fizeram sacrifícios seriam ridicularizados e a punição dos mercados era imediata.”
O Luís mistura duas coisas: a auto-percepção dos povos e decisões de agentes económicos ditos “especuladores”.
Quanto à primeira, nem o FMI acredita nas políticas que impõe. As análises feitas “a posteriori”, bem medidas e enquadradas com números, são unânimes na afirmação que a austeridade piorou as condições económicas dos países que a impuseram. Porém, os governantes e governados, talvez com medo da vergonha de que se enganaram (ou andaram a mentir descaradamente) durante estes últimos anos, prefere ignorar as análises e insistir no erro.
Já no que respeita à segunda, os “especuladores” tendem a não ser estúpidos: isso custa-lhes muito caro. O actual governador do Banco Central Europeu anda a fazer o trabalho de casa – e até Portugal conseguir um ‘spread’ nas taxas de juro a dois anos com valores negativos! (a procura foi inferior ao esperado, mas o BCE desequilibrou a favor de Portugal). Em termos económico-monetários, faz sentido os “especuladores” esperarem para ver o perdão da dívida grega e para apostarem fortemente no desmembramento da União Europeia caso a Grécia abandone (ou seja forçada a abandonar) o grupo.
Finalmente, o caso grego: o objectivo da actual União Europeia é obrigar a Grécia a jogar pelas actuais regras (as tais que deixaram um rasto de fome e miséria por lá, num continente tão civilizado como a Europa…), ou não cede liquidez suficiente para o normal funcionamento da máquina estatal (e, por arrasto, de todo o país). Isto tem um nome: chantagem. Tenho muita pena que pessoas que dizem ser europeias aceitem esta situação.