Parece um absurdo. Com as legislativas à porta o assunto quente é a eleição que se segue. O BE e o PCP bem reclamaram, argumentando com lógica que isto interessa sobretudo ao governo, que vê o debate sobre o deve e o haver de fim de ciclo ser eclipsado pelas análises apaixonadas dos perfis dos candidatos e putativos candidatos e não candidatos a PR. Mas por muito que o spinning governamental tenha manipulado a agenda mediática, esta mudança de foco foi cavalgada por jornalistas, opinadores e as mais diversas figuras públicas com um entusiasmo inusitado.
Não faz sentido. O contrário, ou seja, umas legislativas abafarem umas presidenciais seria mais natural, pois num regime semipresidencialista como o nosso, são mais decisivas para o futuro do país.
Esta espécie de fuga para a frente, que pôs o país inteiro a discutir, quase em registo futebolístico, quem vai a jogo para ganhar a taça de Belém deve ter a ver com o tão comentado horror da política ao vazio. O debate sobre governação só galvaniza os partidos de protesto. Não certamente um governo desgastado, ou um povo escaldado e descrente. Aparentemente a António Costa interessa, mas pouco. A sua reserva arrefeceu a esquerda do centrão, que há tanto suspirava por um primeiro ministro socialista. Se havia uma réstea de esperança era entre este eleitorado flutuante que se encontrava. No eleitorado que votou Passos quando se desiludiu com Sócrates e que agora se preparava para acreditar em Costa como alternativa à política da troika. Mas o líder da oposição fez exactamente o que não podia: desiludiu. O povo já se habituou às desilusões pós-eleitorais, mas cansado como está, não aguenta desiludir-se antes do tempo.
De modo que neste quadro é natural que não apeteça falar, nem ouvir falar do que interessa. Falar o quê? Prometer o quê? Acreditar em quê? Mais vale entrar de cabeça no campeonato das presidenciais, alinhar no foguetório e esquecer o resto. Afinal o que não tem remédio, remediado está.


O coitado do Costa tem responsabilidades na coisa, ao ter desafiado explicita ou implicitamente vários camaradas seus a candidatarem-se a Belém, e ao permitir agora que um novo Sampaio sem comparação com o original se cole a tudo o que seja cerimónia pública do PS e assim se vá tornando (tortuosamente) conhecido…
Ele lá saberá porquê.
Talvez porque as eleições abertas a simpatizantes no PS (e a sua previsível vitória) foram anunciadas vai para um ano (foi no final de Maio de 2014) e até agora Costa foi um completo vácuo (digo eu).
Sim, a meu ver também Costa tem interesse nestas manobras de diversão. Suponho que na sua óptica isto lhe servirá para ganhar tempo…
God is love! :heart: Catholic blogwalking 🙂 http://emmanuel959180.blogspot.in/
Inteligente análise, Teresa. De facto o país está às avessas e vai votar do mesmo modo…
É a feira cabisbaixa no seu melhor, Helena.
um regime semipresidencialista como o nosso
O nosso regime estava planeado pela Constituição de 1976 ser semipresidencialista. Porém, desde a revisão constitucional de 1982, deixou claramente de o ser e passou a ser um regime parlamentarista usual. Desde essa revisão constitucional que o nosso Presidente da República ficou praticamente sem poderes reais; é apenas uma figura protocolar.
De facto, para o regime político que hoje temos, constitui uma perda de tempo e dinheiro pôr o povo a votar para o Presidente da República. Mais valia que ele fosse eleito pela Assembleia da República ou por um outro órgão qualquer.
Formalmente ainda lhe chamamos semipresidencialista, na prática é como diz.
Exatamente. Mas penso que seria bom adequarmos o discurso à realidade e passarmos decididamente a designar o nosso regime por parlamentarista, que é aquilo que ele é.
Falso. O Presidente Sampaio fez um Golpe de Estado – só quando explicar aos Portugueses porque o fez se pode aferir da legitimidade do seu acto- demitindo o Primeiro Ministro Santana Lopes.
Nunca num regime parlamentarista isso seria permitido.
Aleluia, Lucky! Por uma vez de acordo consigo.
O Sampaio não demitiu o Santana. Em Portugal, desde 82 o presidente da república não pode demitir o 1º ministro, mas, dissolver a assembleia da repúlbica. Se Santana tivesse ganho, o Sampaio teria de lhe dar posse.
Tem razão legal thy mas o argumento permanece . O Parlamento tinha sido eleito. Para o dissolver, o Presidente tem de justificar a dissolução. Não o fez.
Vivemos num país de opereta! Pouco importa que assistamos ao "enredo" desde início ou que nos sentemos após um intervalo ou somente no decorrer do segundo acto.
As marcações estão pre-determinadas, os atores escolhidos e o corpo de baile dançará ao ritmo da charanga, conforme a melodia.
Todos sabem que quem mais aplausos receber será 1ª figura. Os outros, cordatos, aplaudirão diplomaticamente dobrando a espinha (os que ainda a tenham) numa obrigatória vénia para logo "corrido o pano" criticarem entre si quem ganhou, e logo ali começarem a "preparar-lhe a cama".
Estranhamente ainda há quem compre bilhetes para assistir a este espectáculo.
Cumprimentos.
Tem toda a razão, é o que se chama de Democracia.
Depreendo pelo seu texto que no resto da Europa a coisa se passe de uma maneira completamente diferente…
Os nossos ilustres e respectivas muletas querem calibrar o que e quando nos ocupa o pensamento. Só cá falta uma lei da rolha de duplo efeito para boca e testa.
Não lhes dê ideias…
Quando eu era pequeno, lá para cima na minha aldeia vi algumas corridas de burros. O espectáculo da preparação com massagens e palha no largo da feira, não era menos ilustrativo da paródia que a própria cavalgada. Até óculos verdes punham nos desgraçados asnos para devorarem melhor palha seca.
Não percebo o espanto. Desde o “pantano” pelo menos que o país vem a fugir de si próprio. E desde o 25 de Abril que vem a fugir da Aritmética.
Já discordo de si que a sobrevalização das presidenciais tenha que ver com o Governo.
Tem mais que ver com António Costa.
A galáxia mediática chuta para o lado com as Presidenciais para não obrigar António Costa a ter de escolher, a dizer o que fará se for PM.
Está também obvimente ligado ao que passa na Grécia, é preciso que Costa não cometa os passos em falso que fez a quando da eleição do Syriza. Só quando existir alguma definição teremos declarações.
Tanto o governo como o António Costa tiram vantagem do desvio do debate público para as presidenciais. Mas concordo quando associa as hesitações do Costa à evolução da situação na Grécia.
Concordo plenamente !
Esta “barulheira” só serve quem actua por omissão e se a principio Costa estava um pouco relutante em ir na cantiga do governo, depressa percebeu que o melhor era mesmo alinhar, pois enquanto se fala dos “presidenciáveis”, não se fala na vacuidade de algumas das suas propostas, mesmo sabendo que quem mais tem ganho tem sido o PSD e o CDS que até agora e estando no governo e em coligação já deveriam ter clarificado há muito, se vão em coligação ou optam por acordos parlamentares uma vez que SEGUNDO ELES o período de emergência já passou.
Creio que o CDS será quem mais pagará a factura nas legislativas porque foi ultrapassado pela direita e permitiu que muitos dos seus bastiões eleitorais (os reformados, os contribuintes, as famílias e a classe média fortemente instruída) fossem completamente obliterados por uma politica de remendos e sem qualquer tipo de reformas a médio prazo, pensadas com bom senso e executadas com o mesmo.
A única reforma estrutural do governo actual foi ter desequilibrado fortemente as relações do trabalho entre empresas e trabalhadores e nem assim conseguiu resolver nada pois segundo consta por aí, as empresas continuam pouco competitivas e o seu tecido dirigente ou é composto por chico espertos encostados em rendas estatais ou ladrões que as levam á falência de propósito.
Os restantes que sobrevivem ou têm negócios ligados a produtos de 1ª necessidade ou então têm uma quota de mercado nacional suficientemente grande para acomodar as quebras no consumo interno sem “grandes” desesperos.
O nicho das empresas exportadoras, é isso mesmo um nicho e que já estava materializado antes da entrada da Troika e o que aproveitou para fazer foi o mesmo que já fazia antes mas agora com menores custos e que nem assim (menores custos) decidiu aumentar a produção, aliás eu se fosse empresário nessa situação faria o mesmo.
É do interesse dos principais partidos que a situação se mantenha pelo menos até ás legislativas, aliás a esmagadora maioria dos jornalistas, comentadores e analistas de que falas, serve de uma maneira ou outra esta situação.
Não é também por acaso que a coligação PSD/CDS não ata, nem desata.
Uma coligação agora que não resolve nada no futuro, não é boa ideia.
Estaremos perante uma futura aliança, formal ou informal, entre PS/PSD?
As eleições legislativas, serão a chave de tudo, até lá navegamos á vista.
Até porque se é verdade que o António Costa não abre o livro, não é menos verdade que o Passos Coelho continua a prometer mais do mesmo e isso:
– No more Prime Minister, we can´t take it no more.
É do interesse dos principais partidos e dos eleitores que perderam a confiança nos partidos de governo e que por isso já não têm paciência para os ouvir, Zé. Neste contexto, discutir perfis presidenciáveis sempre é mais divertido.
Sim, totalmente de acordo no que respeita ao publico votante…
As percentagens de abstenção, devem dizer qualquer coisa, mas ainda não percebi exatamente o quê.
Apesar de tudo os Portugueses, ao contrário de outros Europeus, não estão a utilizar o voto de protesto só porque sim.
Veremos. A politica do € e do BCE irá tornar-se central na definição futura das posturas Politicas e Sociais.
Para já o povo é sereno, este é sem dúvida um dos momentos da história, em que muito terá de mudar para que o essencial fique na mesma.