Acumula-se na atmosfera uma excitação eléctrica em torno do ano eleitoral. Os comentários sobre os candidatos mencionam os eventuais apoios partidários, como se essa contagem de espingardas fosse linear, ou seja, como se os partidos fossem donos dos votos e o apoio das direcções resultasse no automático entusiasmo popular.
Quando as pessoas votam num candidato fazem duas perguntas: a primeira é simples e tem a ver com interesse, o que fará este candidato por mim? A segunda está relacionada com a confiança (posso confiar nele?) e, a partir daqui, a pergunta pode tornar-se mais complexa e variada: posso confiar nele para mudar o País? Para defender os meus interesses? Para acabar com a austeridade? Para nos tirar do buraco?
Os Estados-maiores dos partidos ou os jornalistas de política têm dificuldade em perceber que os eleitores possuem motivações de interesse e confiança. Torna-se penoso assistir à preferência do pequeno mundo partidário e mediático pelas manobras de intriga, a retórica balofa e o curto prazo. Quem votar nas legislativas de Outubro vai perguntar-se o que é que estes potenciais eleitos farão pelos seus interesses e se é possível confiar naquilo que eles dizem. O mesmo se aplica às presidenciais de Dezembro: o que este tipo diz é só conversa, ou posso confiar nele?
As pessoas já não suportam ouvir falar de crise e já não toleram a fulanização da política e as notícias enviesadas; estão fartas de corruptos e das elites que se apoderaram do Estado e que nos levaram à pré-bancarrota e ao resgate. Muitos portugueses estão desempregados ou temem pelos seus empregos; ninguém pode ignorar o tsunami da emergência social; e não há pachorra para a conversa marciana e para aqueles que tentam sacudir a água do capote. Quem fizer contas de cabeça percebe que nem em cinco ou seis anos terá o nível de salários anterior à crise, com a respectiva reposição de cortes ou redução de impostos. Sobretudo, os portugueses não entendem para que serviram tantos sacrifícios, não encontram quem lute pelos seus interesses e já perderam a confiança.


Mais um texto em que o Estado-Governo-Política é o centro do bem estar, ou seja do dinheiro.
Depois o texto manifesta choque pelas “Elites” que se apoderam do Estado…
O nível de salários “anterior à crise” foi o que provocou a crise, pois tal só foi possível com muito crédito.
Para o nível de salários voltar é preciso que os portugueses façam outras coisas, coisas diferentes, mudar, bons produtos, bons serviços.
No entanto, entendo que não serão precisos grandes conhecimentos para se saber que o modelo social europeu pifou — só era viável com o crescimento que deixou de existir –, que a longevidade aumentou, que a natalidade baixou, que se foi deslizando para uma sociedade do lazer e da satisfação imediata, que o mundo mudou e se globalizou, que se virmos as etiquetas de praticamente tudo o que compramos vem lá escrito “Made in PRC”…
Nenhuns futuros eleitos tugas virão mudar nada disso… e quem afirmar que o vai fazer engana-se e engana-nos.
Se se reduzirem as negociatas, a corrupção, as apostas em elefantes brancos, o compadrio e outros males que continuam a grassar, se se aumentar a equidade e a justiça e o Estado conseguir um funcionamento mais eficiente, já não será mau.