Civilização


Luís Naves,

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A revista The Economist afirmava na sua capa da semana passada que, em 2020, 80% dos adultos terão um supercomputador no bolso, ou seja, um smartphone. Este número traduz a extensão do processo a que chamamos globalização e que consiste numa vaga particularmente intensa de unificação da humanidade. Não há canto do mundo imune aos efeitos das tecnologias que caracterizam o nosso tempo. As pessoas de hoje inserem-se em redes complexas e sobrepostas, onde se transmitem tremendas quantidades de informação. A internet transformou-se numa imensa biblioteca dominada pela língua franca, o inglês, que talvez acabe por absorver partes de espanhol e mandarim. Nas últimas três décadas foi criada a infra-estrutura que permitirá agora acelerar a mais veloz transformação a que a humanidade já assistiu. O planeta está a unir-se como nunca antes foi possível.

As paisagens urbanas de Blade Runner, o visionário filme dos anos 80, começam a ser relativamente comuns. Já não nos parece estranha a fusão de elementos asiáticos e ocidentais no interior de megacidades com uma profusão de estilos de arquitectura e de raças. A cultura contemporânea é mestiça, consistindo numa amálgama cada vez mais agregada de ideias com diversas proveniências. Vistos a certa distância, todos os processos são de junção, das raças à economia, da linguagem às obras de arte, da gastronomia ao comércio. Está a ser criada a primeira civilização perfeitamente global, onde se aglutinam valores dominantes comuns, e não seria espantoso que dentro de cem anos houvesse uma moeda única planetária, o embrião do governo mundial, até um sistema judicial idêntico para todos os humanos, pois há esboços destes desenvolvimentos, sobretudo na União Europeia que, ao contrário do que muitos pensam, não está em declínio nem a implodir, mas será provavelmente o principal modelo político do futuro.

Claro que há movimentos fundamentalistas, sociedades em fragmentação, Estados falhados, tiranias e autoridade, crises capitalistas, demasiados países sem tolerância para a diferença, mas trata-se de reacções à mudança. Alguns grupos tentam travar o que consideram ser maléfico, contestando a ciência, o humanismo ocidental ou os direitos das mulheres, mas os seus esforços estão condenados ao fracasso: a democracia e a justiça, o consumo, a busca da felicidade ou o casamento romântico são ideias demasiado poderosas, difíceis de arrumar numa gaveta.

0 comentários em “Civilização”

  1. Assustador, um elogio ao Totalitarismo.

    “não seria espantoso que dentro de cem anos houvesse uma moeda única planetária, o embrião do governo mundial, até um sistema judicial idêntico para todos os humanos”

    Não não seria espantoso, seria Tirânia, seria Opressão.

    Uma sociedade com tanto poder vai destruir a diferença.

    Será totalitária e logo sem redundância.

    Tal como os socialistas fizeram em Portugal. Quer os da oposição quer os do Governo.

  2. Sim, sim, até talvez tenha uma certa razão mas eu acho que o que descreve é mais ao estilo de Total Recall (versão 2012)…

  3. Aquando da questão em torno de Charlie Hebdo tive oportunidade de referir que o mundo caminhará para a Universalidade na diferença, e afirmei que os obstáculos que encontramos pelo caminho não se devem tanto à ciência, ao seu desenvolvimento, àquilo que o Homem é capaz de inventar e de saber, mas ao facto de a ética não acompanhar esse saber e esse desenvolvimento. A crise do humanismo ocidental deve-se ao descentrar o olhar da pessoa, do individuo. O humanismo ocidental traduz-se num pedaço de história. A história revela-nos que a técnica não compreende o todo, funciona na parte.
    O Homem comporta-se ainda como um animal territorial: mija em seu terreno e no terreno que não lhe pertence, impõe sua força, organiza-se em facções, amedronta-se com o desconhecido; e, sempre que pode, impõe suas regras, e ameaça a estabilidade dos demais. Julga ainda que é o mais forte que sobrevive, e despreza o débil. E encontra sempre a debilidade como herança.

    Continuo a afirmar que a grande revolução de que carece a humanidade é centrar-se em si mesmo. Desviamos o olhar noutras direcções para disfarçar a nossa fraqueza em nos transformarmos.
    Inventámos a lei, emolduramo-la e esquecemo-nos que somos a Lei.

      1. Não é ridicularização — mas estou um bocado farto de sociologias à jornalista — à Alvin Toffler. A transformação social é mais profunda (ou não) do que o aparato tecnológico. No seu texto há premissas demasiado rápidas como por exemplo associar “extremismo” a “reacções à mudança”, quando toda a história do Islão é uma história de totalitarismo e violência. Pequenas coisas que dizem mais sobre o orador do que sobre aquilo a que se pretende referir. A globalização não começou com a internet, começou após a 2ª guerra mundial e potenciou-se com os movimentos juvenis dos anos 60 e com a expansão da cultura anglo-saxónica da qual a internet é o RESULTADO e não a CAUSA. A cultura contemporânea não é “mestiça” (isso queriam vocês para justifcar de forma esquisita os vossos complexos colonialistas que dominam o discurso na comunicação social portuguesa e que descambou na imbecilidade profunda que é o Acordo Ortográfico) é uma amálgama compartimentada (conhecida em meios eruditos como pós-modernismo) onde facilmente se confunde informação com conhecimento. Etc Etc. Fico por aqui porque já estou a ferver de irritação e não tarda começo a espingardar a sério.

        1. Afirma que “a transformação social é mais profunda (ou não) do que o aparato tecnológico”. Decida-se lá. E onde é que no meu texto se admite que a transformação social não seja profunda? Afirma que “toda a história do Islão é uma história de totalitarismo e violência”, mas isto não passa de um mito. A intolerância desta religião não é diferente da intolerância manifestada por outras religiões, basta mencionar a Guerra dos Trinta Anos, e entre os mais de mil milhões de muçulmanos haverá certamente algumas pessoas pacíficas. Afirma que “a globalização não começou com a internet, começou com a 2ª Guerra Mundial”, mas esta é uma leitura muito restrita de um processo que tem pelo menos 500 anos. E o que será uma “amálgama compartimentada”? Ou é amálgama ou não é. Indigna-se com a expressão “cultura mestiça”, que atribui aos “vossos complexos colonialistas”, suponho que meus e de outras pessoas, arrumando-me numa classificação qualquer que não compreendo, atribuindo-me a autoria de um acordo ortográfico (?!) que nem sequer cumpro neste blogue. Enfim, para um comentário de quem está a “ferver de indignação”, mais valia que tivesse espingardado a sério.

  4. Para esta utopia resultar teríamos de eliminar fisicamente os defendores do AO, os socialistas e o Islão. Ñ vai ser fácil.

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