Eleições gregas III


Luís Naves,

Se a Nova Democracia vencer as eleições na Grécia, haverá análises a lamentar a chantagem exercida sobre o eleitorado grego. Veremos títulos do género “A vitória do medo”, embora a melhor leitura seja a firme intenção da Grécia de permanecer na zona euro. Lendo muito do que é escrito, parece que os parceiros da Grécia não são democracias e os seus governos não respondem aos respectivos eleitorados.

O Syriza pode vencer as eleições, escolher o pragmatismo e renunciar às promessas eleitorais, aceitando o que já tem, mas em doses maiores, sobretudo maturidades mais longas para os créditos ou o não pagamento de juros sobre alguns dos empréstimos. A Grécia estava a reestruturar a dívida, como aliás Portugal está a fazer com êxito*. No entanto, se o Syriza vencer e se insistir nas promessas populistas, não será possível cumprir os termos do próximo resgate e a Grécia não receberá novo pacote de ajuda. Um governo de esquerda terá de falhar muitas promessas eleitorais. As taxas de juro estão acima de 10% e o único caminho alternativo é o da bancarrota, o que implica saída do euro, com hipotética nacionalização da banca, controlo de capitais, desvalorização abrupta e mais desemprego e sacrifício económico para a população. Na actual configuração da união monetária, a imagem que devemos usar é a dos alpinistas que sobem uma montanha seguros por uma corda. Se os últimos da corrente puserem os restantes em risco, a corda é cortada para evitar que todos caiam.

O euro tem um precedente histórico (enfim, com diferenças e semelhanças), a união monetária austro-húngara, que foi um extraordinário sucesso durante 50 anos, mas que obrigou o império a fazer cortes nos gastos militares antes da guerra de 1914, uma das razões da derrota, ou seja, o êxito esteve na origem da perdição ou, visto de outra forma, uma união monetária obriga a actualizar as ambições políticas dos seus membros, o que não aconteceu no caso austro-húngaro e não está a acontecer no caso de alguns países do euro. O fim da união, em 1918, foi uma calamidade para alguns dos envolvidos: a Hungria, por exemplo, teve a maior hiper-inflação da História. Por isso, como sugere o precedente, a saída do euro será péssima para os gregos, a reestruturação possível será insuficiente para o Syriza e o perdão de dívida parece impossível para os países credores, pois é inaceitável para a opinião pública do norte da Europa e acabaria com a credibilidade da moeda única. Onde estará o ponto de equilíbrio entre estes elementos? Estará algures, certamente, mas parece mais lúcido não testar os limites.

 

* Portugal está a financiar-se em todos os prazos e vai reembolsar os empréstimos do FMI, livrando-se da troika. Os analistas diziam que era impossível. 

0 comentários em “Eleições gregas III”

  1. como aliás Portugal está a fazer com êxito*

    Não: Portugal não está a reestruturar a dívida.

    Até agora, que eu saiba, a única (pequena) reestruturação que fez foi devolver aos credores com alguns meses de antecedência algumas obrigações que venciam em outubro passado.

    De resto, não reestruturou absolutamente nada. Uma reestruturação é uma alteração negociada ou forçada das condições da dívida já emitida, e até agora Portugal não fez nada disso (com a exceção acima referida).

    1. Está mal informado. O que Portugal anda a fazer é uma reestruturação progressiva da dívida. Sem as operações que estão a ser feitas discretamente desde 2013, Portugal pagava juros muito mais altos. Neste caso, os empréstimos do FMI são os mais dispendiosos.

      1. Se eu estou mal informado, então por favor informe-me de outros casos de reestruturação portuguesa, ou seja, de casos em que a República tenha pagado antecipadamente obrigações ou títulos do tesouro.
        Que eu tenha visto referido nas notícias, o único caso foi o das obrigações que venceram em outubro do ano passado.

  2. Vou ter curiosidade acrescida: ver o que nos aconteceria se a esquerda caviar conseguisse levar a sua ambiçâo de ver a nossa saida do euro; sem ter que pagar a factura toda (so pagamos os 1,3 mil milhoes que eles nos devem)

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