O intenso desejo de que algo se concretize é um elemento poderoso em política, capaz de alterar a percepção do público sobre um determinado problema e de limitar as opções da respectiva resolução. O fenómeno é visível em muitas análises sobre as eleições gregas, onde o partido de extrema-esquerda Syriza está bem colocado para vencer, com um lote de promessas que passam pela expansão acentuada da despesa pública, o que será incompatível com as intenções da troika. Na comunicação social, a reacção tem sido de confusão sistemática entre desejo e realidade. Também por isso, os comentadores tendem a desvalorizar o que foi conseguido em Portugal: estamos nos mercados e as taxas de juro são invulgarmente baixas, mas isso é absurdamente considerado sem mérito e simples efeito externo.
Para alguns, a Grécia é um modelo de resistência, não o modelo a evitar. Se vencer as eleições, o Syriza pretende reestruturar a dívida, agora nas mãos de instituições europeias. Os credores europeus estarão dispostos a negociar, mas oferecendo apenas concessões que poderiam reduzir a dívida pública grega dos actuais 175% do PIB para um pouco menos de 160%. Talvez seja possível ir um pouco mais além, mas em troca Atenas teria de acelerar as reformas estruturais (que estiveram sempre atrasadas) e manter saldos primários positivos. O BCE prepara-se entretanto para um programa de estímulo monetário e não haverá mutualização da dívida, pois cada banco central será responsável pelas suas compras. Embora isto corresponda ao cumprimento dos tratados, os analistas referem o seu desapontamento.
Sobre a Grécia, omite-se geralmente que o país está fora dos mercados, que precisa de financiamento externo e que tem duas opções: sai do euro, desvalorizando a moeda e empobrecendo ainda mais depressa ou, em alternativa, mantém o programa de ajustamento (o que a simplificação jornalística designa como austeridade) e pede novo empréstimo. Caso o Syriza confirme as sondagens e vença as eleições, parece difícil evitar um choque entre os desejos e a realidade: os credores recusam assumir as dívidas gregas e um governo de esquerda terá a ilusão de poder vergar a opinião pública da Europa do Norte, sendo impossível para esse partido renegar as promessas feitas na véspera em campanha.

Os radicais de esquerda vão destruir a Grécia.
Para destruir a Grécia já chegaram atrasados.
Quem lê estas opiniões e nunca tenha ouvido falar na Grécia fica convencido que o plano de ajustamento ajustou alguma coisa.
Claro!!
Mas confesso-me curioso para ver para que lado cai este braço de ferro em caso de vitória do syriza e quais as sequelas fora da Grécia em função do lado que sair vencido.
Fiquei com a ideia que a Flexibilização do Pacto de Estabilidade está na ordem do dia em Bruxelas, com erros reconhecidos e com ideias semelhantes às do Syriza.
O que me surpreende é que isto tenha entrado na agenda somente agora. Será assim tão grave a projecção do Syriza?
Surpreende-me que os sinais de alerta surjam quando julgam ver perigo e que se mantenham cegos quando não vêem resistências.