O atentado de Paris contra o jornal satírico Charlie Hebdo foi também um ataque brutal às elites intelectuais francesas. A emoção da frase “somos Charlie” será inconsequente se não for acompanhada de uma reflexão. Os dois primeiros suspeitos do tiroteio chamam-se Cherif e Said Kouachi (à hora a que escrevo ainda não foram capturados). Os dois irmãos franceses de origem magrebina estavam referenciados pelas autoridades policiais, combateram na Síria e, no entanto, estes soldados do Califado regressaram tranquilamente a França, onde aparentemente obtiveram armamento de guerra. A ser verdade, como é que isto foi possível?
O ataque não visou exactamente a liberdade de expressão, pois os terroristas estão-se nas tintas para quem criticar a República ou o presidente Hollande. O ataque foi contra o direito de criticar o Islão, norma que não sabemos exactamente onde começa, embora seja nítido onde acaba. Os dois terroristas simbolizam o desprezo que o Islão radical tem pelo Ocidente, mas também a forma benevolente como a elite intelectual francesa (à excepção porventura de jornais como Charlie) tem tratado esse mesmo Islão radical.
Os intelectuais franceses e europeus continuam a afirmar que não existe um problema de imigração, continuam a achar que a intolerância religiosa dos radicais é uma reacção à crise económica, mas o facto é que as democracias permitiram o crescimento de um tumor que parece ser difícil de extirpar: muitos jovens muçulmanos foram radicalizados por imãs que aproveitaram as amplas liberdades da sociedade francesa, nomeadamente a liberdade religiosa. O desprezo pelos valores do Ocidente fez o resto. A França é o país europeu com mais combatentes na Síria, onde se formou uma espécie de brigada internacional, sobretudo de europeus que vão dedicar as suas vidas, previsivelmente curtas, à destruição do Ocidente.
O Islão radical é uma ideologia fanática com escassas hipóteses de triunfar no mundo, mas a sua ascensão deve-se em grande parte à ingenuidade das elites intelectuais do Ocidente, sempre velozes a condenar uma inquietação popular que é fácil classificar de “xenofobia”. Os movimentos populistas e a extrema-direita têm aproveitado habilmente o conflito social e cultural que decorre no interior dos bairros mais pobres. Quando vivi em França, nos anos 80, já era insuportável a hostilidade dos árabes em relação à população não-muçulmana e ocorreu um fenómeno que os sociólogos da época tinham dificuldade em compreender: os operários, que votavam no PCF, passaram directamente para a Frente Nacional, grupo então associado apenas aos chamados ‘pieds noir’ (retornados da Argélia) e que teve os seus primeiros verdadeiros êxitos nestes anos. Nas décadas seguintes, muitas famílias muçulmanas integraram-se na sociedade francesa, mas uma parte significativa foi radicalizada quase em silêncio e as liberdades republicanas acabaram por ser suprimidas em muitos locais onde a polícia não entra e onde mandam os fanáticos.

Quase ninguém é Charlie apesar das palavras.
Conta-se pelos dedos de uma mão aqueles que colocaram um cartoon do Charlie como protesto.
Eu não coloco. Não gosto de ofender muçulmanos.
Nem judeus, nem protestantes, nem católicos, nem budistas…
Eu também não gosto de matar ninguém, mas se estiver numa Guerra terá de ser.
Se não accionar os seus direitos, num combate, perde-os para sempre.
São coisas básicas que não entendem.
“Combateram na Síria”. Onde é que o autor do post foi buscar esta?…
Foram lá apanhar sol…
Indique, por favor, a fonte onde recolheu tal informação.
A história está em evolução. Aparentemente, os suspeitos pertenciam a um grupo radical perfeitamente identificado. De início, quando escrevi o texto, circulava a informação de que tinham estado na siria. O ponto essencial e que estamos perante uma acção do califado. Estas são as suas tropas.
Nicolau Maquiavel
“Lembre-se que Deus é terminantemente contra a guerra, mas protege quem atira bem”
“Quero ir para o inferno, não para o céu. No inferno, gozarei da companhia de papas, reis e príncipes. No céu, só terei por companhia mendigos, monges, eremitas e apóstolos.”
“Aos amigos os favores, aos inimigos a lei.”
“Os preconceitos têm mais raízes do que os princípios.”
“Creio que seriam desejáveis ambas as coisas, mas, como é difícil reuni-las, é mais seguro ser temido do que amado.”
“Quem num mundo cheio de perversos pretende seguir em tudo os ditames da bondade, caminha inevitavelmente para a própria perdição.”
“Os fantasmas causam maior medo de longe do que de perto.”
regressaram tranquilamente a França […] como é que isto foi possível?
Bem, se são cidadãos franceses – e é bom que o sejam, dado que nasceram e foram educados em França – têm o direito de regressar tranquilamente ao seu país. Não cometeram nenhum crime pelo qual tenham sido indiciados enquanto estiveram no estrangeiro, pois não?
Num país liberal, os cidadãos são livres de viajar ao estrangeiro e, se nele não tiverem cometido nenhum crime pelo qual estejam a ser perseguidos, regressar tranquilamente aos seus países. Não é?
Nasceram em França mas não são Franceses, são muçulmanos.
nos anos 80, já era insuportável a hostilidade dos árabes em relação à população não-muçulmana
!!!
Todos os árabes franceses eram hostis à população não-muçulmana?! Como assim? Nem todos os árabes franceses são muçulmanos, e mesmo aqueles que o são, não são necessariamente (eu diria mesmo: maioritariamente) hostis aos não-muçulmanos.
Zinédine Zidane é hostil aos não-muçulmanos?
Não percebo o comentário. Estou a falar de bairros pobres onde vivia malta da pesada. Estou a falar de uma coisa que vivi. Isto não é teoria.
O Islão radical é um problema. Já ligar esse problema diretamente à emigração é errado e xenófobo. Aliás diz isso no seu post implicitamente, se pessoas nascidas no ocidente se radicalizam então o problema não é de emigração.
Fala-se muito dos radicais portugueses por ex., esses são emigrantes portugueses em Inglaterra e França, sem antecedentes islâmicos, devemos considerá-los radicais de 2ª ou dizer que a emigração de portugueses para França e Inglaterra deve ser proibida?
O perigo da abordagem que faz reside não em dizer que o procedimento inqualificável dos radicais deve ser combatido, mas em sugerir que a xenofobia e a radicalização de posições da nossa parte é a solução.
Temos doidos que dizem que todos os ocidentais são alvos a abater, não é uma boa resposta dizer que todos os árabes e muçulmanos são alvos a abater. Quanto mais não seja pela dificuldade de definição. Um assassino deixa de ser assassino conforme a religião que professa? E um muçulmano convertido ao cristianismo é bom ou mau? Incluímos as crianças e dizemos que são alvos legítimos de represálias? Ou há uma idade a partir da qual um muçulmano é mau?
Claro que se a solução para o problema do terrorismo fosse fácil já teria sido tomada, qualquer que ela fosse. Mas a Europa tem obrigação de saber que há caminhos que levam a aberrações piores do que o terrorismo. E o facto dos outros serem criminosos não nos dá licença para praticar crimes, pelo menos foi o que me ensinaram no catecismo (o católico), e não pretendo converter-me ao catecismo deles.
Excelente texto, com o qual concordo.
A cegueira com que o mundo ocidental se recusa a acreditar que, de facto, existe uma guerra de civilizações em curso é inquietante. Não é uma guerra económica, não é de emigração,nem é religiosa. É de civilização.
A cada um destes eventos a primeira coisa que ouvimos dizer é que o Islão não é isto, que o Islão é paz. Ora, citando o comediante Bill Maher, “Islam is not a religion of peace. It’s a religion of pieces.”
Qualquer incursão mais ou menos demorada no Youtube permite verificar que o Islão do Norte de África e Médio Oriente (retiro o restante mundo islâmico que, de facto, é moderado) tem como mantra espiritual dois aspectos (i) destruição do mundo ocidental, em particular de EUA e Inglaterra e (ii) imposição da agenda islâmica (radical), com a sharia, nestes países e (iii) para uma franja muito grande dos islâmicos residentes no mundo ocidental, o Corão sobrepõe-se às respectivas constituições e é, de facto, o verdadeiro orientador da sua conduta.
Em relação a isto, o ocidente tem cometido alguns erros que têm custado caro, a saber:
1) Destruição de governos e estados seculares (ou religiosamente moderados) nos países do médio oriente (vide Iraque, Líbia, Síria, etc…) com apoio forte a grupos extremistas que, mais tarde, se voltam contra nós;
2) Continuar a tolerar a Israel uma conduta imprópria e continuar a ignorar os direitos dos palestinianos. Este facto contribui para uma radicalização dos palestinianos moderados e cria capital de queixa para o restante mundo islâmico;
3) O ocidente descura a segurança dos seus cidadão e actua com tibieza face a casos de combatentes já identificados. Em França já estão identificados algumas centenas de combatentes do EI, porque razão mantêm a cidadania francesa? E os portugueses que lá estão, porque mantêm a cidadania? Porque é que lhes é permitido voltar ao seu país? Porque não são impedidos de entrar? As pessoas que fizeram este ataque já estavam identificadas e sabia-se que tinham estado na Síria a combater pelo EI. Então porque razão os deixaram entrar em território francês? É inacreditável esta permissividade.
4) A resposta do estado Francês (e do mundo Ocidental) deveria ser brutal, demonstrando a inaceitabilidade destes ataques. Defendo que o estado Francês deveria fazer um comunicado: Os atacantes têm 24h para se entregar (ou serem entregues) às autoridades francesas. No final do prazo, caso tal não aconteça, começam os bombardeamentos a Raqqa. Se os radicais querem ser um Estado e até têm capital, devem começar a sofrer as consequências das suas opções.
É duro, mas não vejo alternativas.
40 anos de paninhos quentes deram nisto.
o número de mortos nos países muçulmanos vitimas dos terroristas é cerca de 200 vezes maior do que na UE que nada faz para o travar- é justo que confronte isso com as adjectivações que faz e corrija o que nitidamente é incorrecto.
Um documentário interessante:
https://www.youtube.com/watch?v=-t2gzOCS HRk
Eu não sou Charlie e não quero ser. E continuo a sentir-me livre para expressar minhas ideias e contrariar o que devo. Só não ofendo o que é sagrado para os outros e nem tampouco os ridicularizo por suas opções sociais, religiosas ou de qualquer outra natureza.
Nos anos 80 encontrava-me junto ao café da ópera em Paris para apanhar um táxi. à minha frente estavam três pessoas, uma delas uma rapariga que vim a saber ser marroquina. Os táxis foram chegando e parando para apanhar os passageiros. Quando chegou a vez da moça passaram dois táxis que paravam e imediatamente avançavam quando se apercebiam que era esta rapariga que tomaria o táxi. Por detrás de mim alguém sorria cinicamente. Apercebendo-me desta situação, apresentei-me à moça dizendo que eu era um estrangeiro em negócios na cidade e solicitei-lhe que permitisse que eu tomasse seu lugar. Anuiu. Logo que o táxi parou abri a porta para ela entrar e pedi ao motorista que a conduzisse aonde ela pretendia.
Tomei meu lugar na ordem que me competia e aguardei por comentários do filho da puta que anteriormente cinicamente sorria. Não houve comentários, cuspi aos pés dele e deixei o lugar.
Ainda nesta ocasião reuni-me no bar do Hotel Concorde La Fayette com judeus, turcos, franceses e árabes. Falámos sobre tudo e sobre religião sem qualquer vislumbre de hostilização.
A sociedade francesa, fraccionando-se, tem vindo a permitir graves rupturas com a conversa da “liberdade” e da supremacia moral e cultural. Criou ghettos que agora são usados também por radicais para recrutamento.
Quando recebo visitas em minha casa procuro ir ao encontro de seus gostos e sensibilidades, proporcionando-lhes conforto. Dou-lhes também a conhecer os hábitos do país e a cultura, mas nunca lhes imponho comportamentos. Fanaticamente, a França não só quis fazer isso com as burkas e meias burkas como também de forma inquisitória censura costumes de visitantes que ela mesma aceita e de quem também colhe dividendos, directos e indirectos. E esquece que ela mesma faz parte de uma coligação que incendiou o médio oriente em nome de uma dita exportação democrática.
No que respeita a Charlie Hebdo sei que desde antes de 2009 a comunidade muçulmana intentou acções em tribunal para pôr termo a ridicularizações e humilhações. E parece-me que a parada foi aumentando. Charlie Hebdo colocou-se a jeito. E não só colocou-se a jeito como também colocou outros tantos nessa mesma situação. O infeliz resultado está à vista. Se a teoria do olho por olho continuar o mundo ficará cego.
A falecida menina cigana, que foi impedida de ser enterrada num cemitério francês, não foi suficiente para mobilizar as autoridades francesas no sentido de impedir a continuidade do autarca no posto que ocupa.
Está aberta a reflexão.
Seguir a relacionar um credo(islão) com terrorismo bárbaro além de intelectualmente reprovável é ofensivo para quem se sinta parte dum grupo(islamitas). Calculo que quem tenha um credo(catolico, judeu, budista..) se sinta revoltado se um energúmeno qualquer começar a generalizar a pedofilia com os padres ou católicos, o segregacionismo com os judeus…
Terroristas são terroristas ponto.
Não é por o Bush e Blair serem uns criminosos invasores mentirosos que todos os ocidentais merecem o titúlo de ladrões criminosos como na UE felizmente sabemos distinguir.
Com tempo concordo que se debata com grande pormenor os credos, as suas regras na UE, mas nunca numa base tribal, asquerosa de generalizar, criando isso sim ódios torpes e cegos próprios das sociedades onde o fanatismo tem campo para crescer- que felizmente não tem sido nem será Portugal ou a UE.