Zombies da Al-Qaeda


Luís Naves,

Escrevi em texto anterior que os autores do atentado de Paris tinham ligações ao Estado Islâmico. Esse texto, Soldados do Califado, baseava-se em primeiras informações, que não se confirmaram. Afinal, os dois terroristas não estiveram na Síria e, aparentemente, não tiveram contacto directo com o chamado Califado. No final da sua extraordinária fuga, já cercado, um dos irmãos Kouachi fez uma breve declaração pelo telefone a um jornalista e sabe-se agora que pelo menos Said Kouachi esteve no Iémen sob a tutela de um dos principais líderes da Al-Qaeda, Anwar al-Awlaki, o imã americano, que era então considerado um dos dirigentes mais perigosos da organização. Kouachi esteve no Iémen em 2011, no mesmo ano em que Al-Awlaki foi morto com alguns dos seus companheiros pelo disparo de um drone americano. Assim, não sendo propriamente soldados do Califado, os três radicais franceses puderam preparar a vingança durante três anos, sem serem detectados. É possível que haja outras redes adormecidas, prontas para a acção. O aparecimento de um terceiro terrorista só aumentou a confusão e tornou mais difícil a captura dos dois irmãos que mataram os membros da redacção do Charlie Hebdo. Seguiu-se um ataque puramente racista, que acabou em banho de sangue numa loja de produtos kosher, embora provavelmente o alvo fosse uma escola judaica próxima. Isto serve de aviso: a Al-Qaeda parecia ultrapassada, mas tem raízes fundas; o Estado Islâmico, talvez ainda mais perigoso, tentará certamente a mesma estratégia de preparar grupos que actuam após anos de clandestinidade e silêncio. O terrorismo contemporâneo é um pouco como os filmes de zombies, haverá sempre mortos-vivos a saírem das tumbas.

 

Na blogosfera portuguesa foram publicadas boas reflexões sobre este caso, mas recomendo sobretudo a leitura de dois textos notáveis, de Pedro Picoito e de Rui Ângelo Araújo. 

0 comentários em “Zombies da Al-Qaeda”

  1. O texto do Rui que publica é excelente, ainda que eu não veja nenhuma heroicidade na questão de Charlies Hebdo. Nenhuma mesmo de parte a parte.

    Pedro Picoito entende que não ser crente traduz-se num expoente alado de liberdade. Também devo afirmar que o verdadeiro crente vive descomplexado e liberto de lugares-comuns e é conhecedor do que é ser livre. E quem é crente e está neste caminho, se não estiver amarrado a moralismos e lugares-comuns como também está a grande maioria dos não crentes, também conhecerá esta liberdade.
    Quanto à pertença a uma qualquer organização por parte desses irmãos, aguardo que se publiquem as gravações integrais para me pronunciar.
    Que eles receberam treino militar eu não tenho dúvidas. As imagens do ataque e a postura revela que eles estavam preparados para um golpe de mão, o que significa treino de elite; e os contornos em torno da fuga também revela que eles estavam preparados para morrer só depois de deixarem a “assinatura”.

  2. Muito bem pela correcção.

    Mas mais significativo que a ligação ao Iémen de um deles, é saber que a radicalização dos outros dois terá acontecido na prisão, sob tutela de Djamel Beghal.

  3. Eu não percebo porque as pessoas ligam tanto a grupos. O grupo não é importante, é Ideologia Politico-Religiosa Muçulmana: Um totalitarismo que se arroga de controlar todos os aspectos da vida humana.

    Como tal tem vastas ajudas intelectuais na Históriua e Instituições do Totalitarismo Ocidental: Comunismo.
    Os mecanismos de defesa de há 30 anos atrás estão todos aí a serem usados.

    Estes são os que continuam as FP-25, as Brigadas Vermelhas etc. para um único comportamento tolerado, puritano, púdico, logo totalitário da sociedade.

    Amanhã teremos um atentado contra as ofensas da pornografia ou ataque de ácido nas pernas à mostra de uma mulher. E teremos estes mesmo marxistas, a responderem conforme lhes for conveniente para o seu projecto de poder.

    Poderão tanto adoptar a tese pacifista ou rasgarem as vestes de indignação.

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