Recomendo a leitura deste espantoso texto sobre os estranhos habitantes do terminal ultra-moderno do aeroporto de Barajas, em Madrid. Para além da escrita brilhante de Daniel Verdú, que evita as armadilhas do sentimentalismo, esta reportagem de El Pais mostra a fauna de um eco-sistema secreto. Os protagonistas (da ordem de três dezenas) são invisíveis a quem por ali passar, apesar de comerem os restos que os passageiros deixam nas mesas do fast-food e de usarem os lavabos, apesar de andarem pelo terminal como se fossem apanhar algum avião, até arrastando malas vazias. Para os ver, é preciso estar atento, por isso ninguém repara neles. Nunca levantam voo, nunca chegam ao destino, pois não têm propriamente um destino. Um destes fantasmas diz receber uma pequena pensão de 300 euros, o que o dispensa de comer restos; e até usa computador portátil, navegando no sistema wi-fi do sofisticado terminal de 6200 milhões de euros, considerado espaço público. Nem todos conseguem esta camuflagem perfeita, mas os viajantes do vazio andam limpos, parecem passageiros em trânsito, escondem-se entre a multidão, passam ali os dias e as noites, protegidos do frio, sem jamais embarcarem em qualquer um dos mil voos diários. Alguns usam truques para pedir esmola, geralmente envolvendo complicações com o passaporte. Neste aeroporto, não há nenhuma vedeta de Hollywood que nos provoque simpatia especial, apenas gente incorpórea e anónima, os de nenhum lugar.
Os habitantes do aeroporto
Luís Naves,

Estes passageiros são espanhóis, logo são dum país onde vigora o estado de direito. Pergunta-se: onde está o direito desta gente que deambula pelo aeroporto, se não têm meios para terem casa, nem alimentos, ou seja, uma vida digna de qualquer cidadão. Parece que quanto mais evoluímos, mais exploramos o outro e lhe negamos tudo a que têm direito, em contra partida, os ricos, cada vez aumentam mais os seus tesouros, à custa desses mesmos. É este o mundo dos espanhóis e dos portugueses, governados por gente em que a ganância impera e o desprezo pelo outro abunda em catadupas.
São sem abrigo e há pessoas assim em muitas cidades do mundo, só que os aeroportos não serão ali espaços públicos. Estes sem abrigo não fazem mal a ninguém, nem se dá por eles, a alternativa era ficarem no exterior, ao frio. Isto não e um exclusivo da sociedade espanhola, não me parece que se aplique alguma lição sobre a sociedade portuguesa nem sobre o capitalismo. Em aeroportos do outrora denominado terceiro mundo há eco sistemas de aeroportos ou de centros de transportes, com regras tribais e códigos próprios. Isto e muito mais humano do que no cairo ou em lagos, Nigéria, ou Bissau ou dakar.