A minha vez


Luís Naves,

Ao passar duas horas no centro de emprego, vi os sinais da melancolia e do conformismo que alguns pensadores julgam ser a natureza mais profunda do povo português. Naquele grupo de uma centena de pessoas havia estrangeiros, mas a preponderância era de trabalhadores pouco qualificados e pessoas com baixa instrução, as maiores vítimas de um colapso económico que a elite nacional tarda em compreender. Digo isto porque muitos intelectuais ainda não perceberam que a crise social atinge sobretudo trabalhadores que não encontram emprego num mercado de trabalho que se tornou de súbito mais curto e exigente.

A senhora que meteu conversa comigo contou-me que muitos desempregados preferiam receber de uma vez o dinheiro a que tinham direito, para abrirem um negócio, mas aquilo tinha grande risco, disse-me ela, a acrescentar que sonhava em abrir uma tasca ali numa boa avenida da cidade. Não mencionei as minhas dúvidas nem lhe disse que as tascas na minha rua fecharam todas e que os negócios são difíceis, pois é preciso investir e fazer contabilidade, enfim, todas essas coisas, e de resto não há consumo. Ela continuou a falar do seu sonho, mas não explicou o que eu já adivinhara, que não lhe restava muito dinheiro para receber, apenas mais alguns meses, a um valor diário que não dava para uma refeição normal. Mostrou-me os papéis. No ecrã da televisão, os números avançavam devagar e as pessoas mantinham-se nos seus lugares, como acontece por vezes nos aeroportos à espera dos voos atrasados, sem grandes manifestações de impaciência, excepto no caso de um homem que entrou a falar alto, headphones ao pescoço, aspecto de já andar pela quinta dimensão. Naquela inesperada invasão, a senhora que meteu conversa aproveitou para me dizer que os números andavam devagar por eles serem “psicólogos”. Quem? Os que nos atendiam, respondeu. Eram psicólogos por ouvirem as pessoas. A senha dela estava a dois números do objectivo, mas aquilo ia “engasgar”, disse, num tom apenas factual, sem alarme ou fatalismo.

Na sala, havia o ruído de conversas em voz baixa, certa serenidade, à excepção do homem dos headphones, que acabou por sair, a ralhar com o mundo. Lembrei-me de alguém ter dito que este povo é demasiado manso, mas ali não valia a pena fazer barulho. Qualquer perturbação só iria atrasar o avanço dos números no ecrã, adiando a esperança de quem aguardava a vez. No painel electrónico prosseguia o avanço lento das senhas, por vezes engasgando-se a sua boa ordem, mas ninguém se importava muito com a demora num número: cada pessoa na sala esperava isso para si, que houvesse alguém, por uma vez, a escutar os seus problemas.

9 comentários em “A minha vez”

  1. Não acredite nisso, (as maiores vítimas de um colapso económico que a elite nacional tarda em compreender. Digo isto porque muitos intelectuais ainda não perceberam que a crise social atinge sobretudo trabalhadores que não encontram emprego num mercado de trabalho que se tornou de súbito mais curto e exigente.), Luís, porque acaba por alimentar um romance deste tipo (http://www.omirante.pt/noticia.asp?idEdicao=54&id=78582&idSeccao=481&Action=noticia#.VI9u7GyzXIV) para justificar como se queimam verbas vindas de um canto qualquer para alimentar aquilo que deu provas, desde os mecanismos criados outrora pelo Fundo Social Europeu, de estar aí para justificar ou subsidiar um não sei quê.

    O meu caro Luís tem de falar com jovens de 29/30 anos – já para não falar em trabalhadores qualificados e com experiência de uma vida, os que estão entre os 40 e 60 anos – para saber que mesmo estes são aproveitados para subsidiar o tal não sei quê e quando apanhados na malha de algumas empresas que os contratam estão aí para saciar a volúpia, ainda que temporária, de quem não sabe ou prefere não saber o que é a vida de trabalho e o sustento de uma família e de uma só pessoa.

    Não se deixe enternecer pela fachada, vá directo ao armazém e verifique o que por lá anda.
    Passa-se fome neste país e usam-se biliões que não tiram a fome e “investe-se” quase outro tanto para manter a sede nesses e saciar outros.
    Vivemos num país cujas políticas são delineadas por quem nada mais possui como referência que a miséria em que viveu e que aceitou. E como esta é a normalidade de seus valores entendem como normal não dar valor ao que tem.
    Mas para aliviar a imagem mais que a consciência lá se vão abrindo cantinas e subsidiando uma economia que de social só tem o que é anti-social.

    Tempos virão em que muitos destes experimentarão o comer que cozinham.

    1. Não percebo este comentário. O texto não é uma especulação, é autêntico. Qualquer visita a um centro de emprego ilustra bem o teor da crise social, pois os desempregados são na sua esmagadora maioria pessoas com 40 a 50 anos e baixas qualificações. Isto não é uma fantasia, quem quiser tirar as dúvidas, faça uma visita de estudo.
      As pessoas com baixas qualificações não encontram trabalho. A análise das estatísticas mostra a destruição de mais de um milhão de empregos pouco qualificados ao longo da última década, a atingir sobretudo a faixa etária intermédia. A comunicação social tem sido muito incompetente na descrição do problema e tentar contrariar os mitos torna-se complicado, como me aconteceu em vários textos que escrevi sobre o assunto.
      Fico doente ao ver a reacção dos partidos da esquerda ao pequeno êxito das políticas activas de emprego. A hipocrisia das elites é espantosa e as pessoas repetem ideias erradas e falam do que não conhecem. Há dinheiro europeu para subsidiar empregos temporários e apenas uma pequena percentagem resulta em emprego efectivo (nos outros países é menos de 10%), mas daí à crítica dos subsídios ao emprego temporário vai um abismo. Qual é a alternativa? Acabar com estes programas, destruir de vez a auto-estima das pessoas? Quando é que a opinião pública começa a entender que o nosso maior problema é “desempregados de longa duração”?

      1. As empresas adoram contratar usando o dinheiro do Estado (que somos todos nós), que paga uma boa parte do salário, efectivamente dando quase que um empregado de graça a elas. E ficam lá só o tempo enquanto esse regime dura, depois despedem-no e recomeçam. Os nossos patrões são puro lixo humano e uma das principais forças que mantém a precariedade viva em Portugal.

      2. Começo pelo fim.

        Para se defender a auto-estima dos outros é necessário possuir auto-estima. E se pegar num conjunto de relatos e notícias verificará que quem mancha a natureza de outro para fazer sobressair seus ideais não possui auto-estima. É o que acontece com os políticos que se dedicam à hipocrisia de se fazerem passar por caridosos para implementar normas de sua própria lavra.
        A questão que se coloca não pode ser vista pelas lógicas partidárias e ou ideológicas, a lógica nesta situação é o próprio Homem.

        O Luís romanceias sobre uma realidade que colheu em poucas horas e eu conheço esta realidade desde que Sócrates e os seguidores que lhe sobrevieram começaram a implementá-la.

        Um curso de formação e os gastos com essa mesma formação devem ser direccionados para objectivos concretos, isto é, PARA SUPRIR as necessidades de uma comunidade. NA VERDADE isto não acontece, o dinheiro é usado para alimentar empresas e empresários ditos de formação cujos frutos não colhem produção diante da realidade.
        Por outro lado, o dito mercado empresarial é um mercado de escravos e de preconceituosos “empreendedores” que se sentem intimidados pelo conhecimento e experiência revelados por muitos desses que se encontram em tal faixa etária.
        Mas é uma mentirosa e depravadora campanha essa em torno do desemprego e das possibilidades oferecidas a essas pessoas. E para isso, meu caro Luís, faço a ligação de um artigo que remete para fontes idóneas e para a forma como se trabalham as estatísticas.
        É este ARMAZÉM que o Luís deve consultar:
        http://expresso.sapo.pt/falemos-entao-de-emprego=f889778

        Agradeço que o Luís veja também meu comentário de hoje no poste de JAA.

      3. Não houve êxito nenhum das políticas ativas de emprego.
        O sistema funciona na generalidade dos casos desta maneira:
        Pega-se num desempregado a receber subsídio de desemprego – estar desempregado tem várias condicionantes, uma delas é que a duração do subsídio é temporária, outra é de que se tem de responder prontamente a qualquer convocatória da Segurança Social, outra é que se o desempregado protestar muito arrisca-se a ficar sem a única fonte se sustento, além disso os desempregados contam para a estatística do desemprego.
        Pega-se num organismo de Estado, numa IPSS ou numa empresa que precisa de pessoal – Precisar de pessoal tem o problema óbvio de ter de lhe pagar o vencimento, há pessoal que refila se o trabalho é duro ou mal pago.
        O que as políticas ativas de emprego fazem é juntar o útil ao agradável.
        O desempregado é colocado a trabalhar, recebendo como salário o subsídio de desemprego que auferia antes, mas tem os direitos e os deveres de um desempregado e o prazo para o cancelamento do subsídio continua a contar, embora não apareça na estatística como desempregado.
        Se trabalhar no Estado é chulado porque trabalha por um vencimento que recebe do Estado mas é tratado como desempregado.
        Se trabalhar numa IPSS ou como “estagiário” numa empresa é chulado da mesma maneira mas aqui a IPSS ou o empregador privado recebem o seu trabalho enquanto o seu vencimento vem da Segurança Social – uma dupla chulice.
        Grande parte do pessoal não docente das escolas é colocado desta maneira – recebem 2€ ou menos à hora e são trocados todos os anos para não parecer que estão a prover um posto de trabalho pago com subsídios de desemprego.
        Se põem as pessoas a trabalhar porque não chamam a isso trabalho e acabam com esta fantochada?

  2. Ler um texto assim, escrito com esta contenção e dignidade, faz perceber bem o que é a angústia de quem se vê confrontado com a situação de passar a depender de um subsídio que, ainda por cima, acaba tão depressa.

    Perto de mim, também abrem pequenas lojas em que os desempregados empenham o que recebem e que, ao fim de pouco tempo, fecham.

    Os tempos não estão bons.

    Apesar de eu ter trabalho sempre fui solidária para quem perde o emprego até porque um dia posso ser eu e até porque já vi tanta reviravolta na vida de tanta gente.

    O que é preciso é que quem se vê nesta situação nunca se deixe aniquilar. Há mais marés que marinheiros e um dia a sorte pode virar.

    Continue a escrever pois escreve muito bem e as palavras fazem mais falta na vida da gente do que muita frivolidade que por aí anda.

    Como leitora, agradeço.

  3. havia estrangeiros, mas a preponderância era de trabalhadores pouco qualificados

    Não percebo o “mas”. Grande parte dos imigrantes em Portugal também são pouco qualificados. Não há nenhuma oposição entre ser estrangeiro e ser pouco qualificado.

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