Penso rápido (61)


Pedro Correia,

O nosso idioma todos os dias se renova, todos os dias recebe os mais diversos contributos – uns óptimos, outros péssimos (como os que vêm do jargão económico ou são más traduções do inglês em versão americana). Mas nenhuma língua – em todas as suas componentes, incluindo a ortográfica – se impõe ou modifica por decreto. Os políticos não são linguistas nem lexicógrafos e quando se aventuram por tais vias fazem asneira grossa, como foi o caso do (des)acordo ortográfico, mal concebido e muito mal aplicado.

Passados todos estes anos (o AO já vem de 1990), ninguém sabe escrever segundo as normas acordísticas. Ninguém mesmo. Daí muita gente recorrer aos “conversores ortográficos” com matriz brasileira, que impõem a grafia de lá à revelia do próprio “acordo”. Isto gera a proliferação de  fatos, até na mais conspícua escrita jornalística.

Resultado: após o extermínio das chamadas “consoantes mudas”, segue-se agora o massacre das consoantes bem sonoras, como na palavra “bactéria”, que não tarda muito começa a ser pronunciada batéria pois vai sendo escrita assim. Alguns, com muita lata, já pronunciam láteo em vez de “lácteo”.

A “base fonológica” que servia de base ao (des)acordo emigrou para parte incerta. E a “pronúncia culta” tantas vezes invocada como fundamento da nova ortografia desapareceu sem deixar rasto.
Cereja em cima do bolo: o Diário da República tem vindo a tornar-se um espelho do analfabetismo ortográfico dominante. Sem que ninguém, nas chamadas esferas oficiais, pareça corar de vergonha.

23 comentários em “Penso rápido (61)”

  1. Eu de facto pronuncio “láteo”. “Via Látea”, por exemplo.
    Não sei se é pronúncia culta ou não, mas não me considero inculto.
    E tenho visto em livros que alegadamente seguem o Acordo Ortográfico muitas palavras com letras que eu não pronuncio. Por exemplo, escrevem “característico” mas eu sempre digo “caraterístico”.
    O facto é que há pessoas que pronunciam mais consoantes do que outras.

      1. Sem dúvida, mas, nem 8 nem 80.
        Todos estamos de acordo em que na palavra “tecto” o “c” não se pronuncia. Portanto, deve-se escrever sem “teto”.
        De qualquer forma, o que é necessário é (1) o estudo concreto de quais as pelavras onde ainda se pronunciam certas consoantes, e (2) a produção de corretores ortográficos que estejam de acordo com a pronúncia mínima.
        É como em alemão. Há palavras nas quais certos alemães lêem “ch” e outros lêem “k”. Nessas palavras concretas, e não noutras, a ortografia é com um “g”. Por exemplo, as palavras “regnen” e “rechnen” são lidas por muitos alemães da mesma forma, mas escrevem-se de formas diferentes porque há muitos outros alemães que as pronunciam de forma diferente. Não há pronúncia “culta”, há apenas diferentes formas de pronunciar entre diferentes pessoas.

        1. Luís Lavoura escreveu
          “Onde ainda se pronunciam certas consoantes”
          “Ainda”? A que propósito vem o “ainda”?
          Não há qualquer tendência para que as consoantes deixem de ser pronunciadas!
          Os brasileiros é que tinham essa crença – e por isso puseram as pessoas (eram poucos mulhares…) a dizer “anistia” por amnistia ou “indenização” por indemnização – consoantes que se mantêm no mundo culto e nas grandes línguas cultas, e isto julgando que estavam a fazer uma boa figura…
          Portugal, país europeu e, apesar de tudo moderno não se pode deixar levar pelas ultrapassadas modas brasileiras, país com dezenas de milhões de analfabetos e níveis de iliteracia estratosféricos. O Bechara, ainda há poucas semanas, dizia no senado daquele país – com um ar muito doutoral – que em Portugal se pronunciava “corrutos” por corruptos! Calinadas destas são um sintoma da falta de preparação que por ali grassa, o que contribui para que subsistam velhas crendices da linguística francesa de 1830 que eles julgam ser a crista da onda… Era o que nos faltava seguir quem ainda é mais cego – e bastante mais cego! – do que nós!
          Era o que faltava agora, os “corrutos”…

        2. ‹‹Não há pronúncia “culta”››

          Pois não. Mas todo o acordo parte muito expressa e explicitamente desse antiquado e caduco pressuposto.

    1. Não é inculto mas é insidiosamente ideológico e aldrabão. É por causa de gajos como o cavalheiro que esta merda é uma merda. Ninguém diz láteo nem via látea a não ser que esteja enganado ou a querer enganar – como me parece ser o caso. Se tem complexos coloniais ou adoração por dialectos tropicais podia pensar em emigrar para lá, porque Portugal não precisa da porcaria da lusofonia para nada e quanto mais cedo acabarmos com essa palhaçada e com o socialismo que lhe escorre das goelas mais depressa teremos futuro.

    2. Prezado Luís,
      bem… tudo depende da instrução (ou não) que a pessoa teve… o que é facto é que na dita “norma culta” em ambas as palavras que menciona se pronuncia o “c”, como confirma o Portal da Língua Portuguesa (sítio oficial do Ministério da Educação para o ensino), enquanto que “láteo” é exclusivo do Brasil (http://www.portaldalinguaportuguesa.org/index.php?action=lemma&lemma=1849).

      1. Caro João Carlos Reis,

        fixe, então se essa “norma culta” existe mesmo e se já está codificada, então basta aplicá-la à nova ortografia. Não há ambiguidades. Basta elaborar corretores ortográficos que estejam de acordo com essa norma. Prontos. Estão os problemas resolvidos e não precisamos de continuar a discutir quem sabe ou não sabe escrever corretamente. “Lácteo” escreve-se com “c” e “teto” escreve-se sem “c” e não são precisas mais discussões.

  2. E, na TV pública, a preocupação do “bom português” é com os hífenes. Hoje ensinaram que se deve escrever cana-de-açúcar, por se tratar de uma planta, enquanto, por exemplo, fim-de-semana é agora fim de semana. Bolas para a “simplificação” do NOA.

  3. Os Portugueses querem Socialismo para os outros e Capitalismo para si próprios, logo não têm de se admirar do Estado se meter em tudo.

    1. Ao contrário do que sucede em Inglaterra ou Espanha, por exemplo, em Portugal o Estado adora intrometer-se nas questões ortográficas, como se fosse uma questão de regime. Não é. É uma questão científica, que devia ser deixada aos especialistas na matéria.
      Como isso não sucede entre nós, deu grossa asneira. Só podia ter dado.

      1. Prezado Pedro,
        não é que eu admire muito os nossos políticos, mas o que é facto é que eles neste aborto até nem tiveram muita culpa…
        Os verdadeiros culpados foram os ditos “especialistas” na matéria que redigiram um documento desta importância com vinte e três (23) erros ortográficos (http://www.priberam.pt/docs/AcOrtog90.pdf), isto para não falar nas incongruências e afins que tem, e nem se deram ao trabalho (que brio profissional) de o corrigir e assim foi publicado em Diário da República (http://www.marcasepatentes.pt/files/collections/pt_PT/88/402/Decreto%20do%20PR%20N%C2%BA%2043-1991.pdf)…

  4. Eu sou contra o acordo. Ponto.
    Escrevo como aprendi. No meu tempo havia caligrafia. Era raro não se entender o que alguém escrevia. Tínhamos orgulho em escrever á mão, as palavras na nossa língua, com uma letra bonita, vaidosa até.
    Ler os escritos das nossas crianças, algumas já com cursos superiores, é um pesadelo. Para além de Incompreensíveis gatafunhos, tentamos também decifrar palavras “acordadas”e tentar perceber o sentido de um texto é tão triste que deprime.
    Bom, posso optar por ignorar e seguir em frente ou “otar” porque sou otária e apetece-me mandar a consoante às urtigas.
    Bom natal ( com letra pequena, claro)

    1. A minha caligrafia é péssima – diz-me quem me é mais próximo e reconheço-o eu -, talvez fruto de hábitos de estudo e trabalho que implicavam e implicam tomar abundantes, constantes e sempre apressadas notas. Isso, ou outra coisa qualquer. Mas boa ou má, não aceita o AO90.

      Quanto ao Natal, cuidado: do “n” minúsculo até deixar de ser Natal e passar a “festa da família” ou coisa parecida (e mesmo essa seria – será – já uma designação intoleravelmente reaccionária para alguns vanguardistas culturais), para não ofender minorias fracturantes, é apenas um passo. E nada nos garante que isso não ande já por aí a ser planeado.

      Costa

      1. Já teria acontecido se a nossa palavra para o Natal não fosse um pouco “mais neutra”que o Christmas Anglo-Saxónico. Os Ingleses têm Cristo na palavra.

        Imagine-se um membro do PSR ou PCP a escrever algo com a palavra Cristo…

        É uma das muitas tácticas da Esquerda Marxista atacar a Civilização Ocidental.
        A táctica da Esquerda é construir o Apartheid Social, dividir tudo em Grupos para poder escolher os convenientes e apropriar-se.

        Por exemplo é mau que muitas das canções de Natal modernas tenham sido escritas por Judeus.
        Se ao invés os Judeus estivessem escandalizados por um presépio teria sido muito mais util ao Projecto Marxista.

        http://www.thestar.com/entertainment/music/2014/11/30/why_so_many_christmas_songs_were_written_by_jews.html

        1. O acordismo não é um assunto esquerda/direita. O Partido Comunista não é acordista enquanto que alguma direita é grande entusiasta.
          O acordismo bebe mais nas águas dos partidários de governos mundiais e línguas mundiais e novas ordens mundiais, que faz parte do ideário maçónico.
          O ministro da cultura, Pinto Ribeiro, a propósito do acordo disse o seguinte: “Só assim poderemos participar, e a nossa participação é essencial na criação de um estado mundial de ordem baseada no direito e de progresso. (…) Por isso Portugal ratificou o acordo ortográfico da língua portuguesa e criou um fundo para o aprofundamento da língua nas regiões do mundo que contam com comunidades de portugueses e nos países da CPLP.” (sic!)
          S. Paulo | 10-06-2008 | 16:01:33 ]

      2. o Natal ainda é Natal, mas não sei por quanto tempo mais. O AO90 varre a minúsculas muito do que era capital, forma evidente de corte no riquíssimo espólio da língua portuguesa. Datas à parte, convencionou-se cristianizar a Saturnália, e é isso que comemoramos a 25 de Dezembro… nada mais fracturante para o conto da estrela que brilhava e guiou os homens sábios.
        Mas temos que aproveitar enquanto ainda temos família a quem abraçar, enquanto há sentimento, enquanto as músicas nos tocam e as luzes nos brincam no olhar… enquanto estar por cá ainda não é fracturante.
        Festas Felizes, Costa.

  5. Penso que estará a exagerar na influência da ortografia no modo de falar.
    Que eu saiba em Portugal todos seguem a mesma norma no entanto no Norte diz-se “baca” e “cabalo” e escreve-se corretamente vaca e cavalo, um lisboeta diz “caijo”, “faijão” e “coalho” (com um a brando) mas escreve queijo, feijão e coelho, os alentejanos quando falam põe o i do “lête” no “cafei”, mas escrevem leite e café. No Brasil acontece o mesmo: um brasileiro de Minas tem dificuldade em fazer-se entender por um carioca mas escrevem da mesma maneira.
    Se a ortografia tivesse tanta importância na oralidade falaríamos todos da mesma maneira.

    1. Não devia ter, mas como o linguajar do AO é o calão oficial dos retornados da SIC tornou-se lei e regra para o País todo, imposto à surrelfa e à força. A seguir vai ser a obrigatoriedade de utilizar – erradamente – adjectivos a seguir aos verbos, como fazem os comentadores desportivos e como se faz no Brasil. Enfim, toda a gente está consciente deste problema da democracia: os estúpidos e os ignorantes hão-de triunfar sempre por força do seu maior número.

  6. É espantosa, de facto, a indiferença com que é olhado o facto – que deve ser inédito no mundo inteiro – de um jornal oficial e textos legais cheios de erros de ortografia!
    Essa indiferença espalha bem o nível dos nossos políticos que, aliás, são useiros e vezeiros em grandes calinadas na língua portuguesa. A começar pelo acordista Cavaco, dos “cidadões” (!!!) ao “façarei”…

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