Cadernos de um enviado especial ao purgatório (58)


Luís Naves,

Casos judiciais em curso merecem o mínimo possível de comentários apressados, mas a investigação ao ex-primeiro-ministro José Sócrates é o quinto grande acontecimento político em apenas seis meses, o que faz de 2014 um ano invulgar. Nas eleições europeias, os maiores partidos sofreram uma valente punição e esboçou-se uma rebelião populista. Logo a seguir, houve a saída limpa do programa de ajustamento, numa altura em que já eram evidentes sinais de recuperação económica, com criação de emprego, contas externas positivas e saldo primário razoável, além do regresso do investimento externo. Passados seis meses, Portugal financia-se ainda a taxas de juro reduzidas e parece capaz de pagar a sua monstruosa dívida. Acima de tudo, o País sobreviveu à queda do Banco Espírito Santo, terramoto com contornos ainda difíceis de prever e que tem potencial para mexer com todo o regime. No meio, mudou a liderança do maior partido da oposição, dividido em relação à herança política de Sócrates, assunto que agora não pode ser evitado.

Não me lembro de seis meses tão avassaladores e tudo isto acontece no início de um período pré-eleitoral que vai durar mais de um ano, com duas eleições no caminho. Os grandes partidos nunca estiveram todos ao mesmo tempo em situação tão frágil. PSD e CDS cumpriram um ajustamento que implicou grandes sacrifícios para a população, mas o Governo também cometeu erros e comunicou de forma deficiente os motivos que justificavam a austeridade. O PS parecia em posição favorável para regressar ao poder, mas não pode a partir de agora cavalgar uma estratégia sem promessas ou explicações, baseada nas teses de que nunca houve falência em 2011 e que será possível fazer muito diferente. Sobretudo, esta parece ser a grande oportunidade para surgirem formações populistas a defender que ‘eles são todos iguais’ e é preciso limpar a política. A crispação e o aumento da temperatura serão perigosos para os três partidos tradicionais do poder.

Grande parte da opinião pública acredita que houve colapso financeiro em 2011 e que pagaram sobretudo os mais fracos. Muitos portugueses estão convencidos de que a austeridade foi injusta, desproporcionada e inútil. Ao longo dos últimos três anos, a comunicação social criou um clima neo-realista de pessimismo e descrença, com previsões de insurreição iminente e espirais recessivas. Na realidade, o País está a sair da crise e os cinco exemplos de mudança na política portuguesa mostram que os anos difíceis não comprometeram o essencial: as instituições democráticas e o Estado de Direito estão a funcionar. Isto é uma mudança, não é um lamaçal.

6 comentários em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (58)”

  1. Meu caro Luís,

    deixe-me elogiá-lo por dois motivos:
    1 – Como historiador o Luís é rigoroso, conciso e preciso;

    2 – Mas também é um excelente romancista em matéria política cá do burgo. Nesta matéria o Luís parece um alquimista.

    Deixe-me agora contestar a primeira parte de seu texto, a romanceada, com os seguintes números e estudos credíveis e rigorosos versados no relatório do CES (Centro de Estudos Sociais) da Universidade de Coimbra de 18-11-2014 (por favor, clique no Boletim “Barómetro das crises/nº 11” para abrir o ficheiro PDF):

    http://www.ces.uc.pt/observatorios/crisalt/

    Refere bem a herança política (também) de Sócrates. Mas deve referir o que os herdeiros agravaram em tudo igual ao seu antecessor. Eles sempre estiveram em competição com Sócrates, isto é, queriam demonstrar que em matéria de fazer mal eles eram bem melhores nesta arte.

    Quanto ao PS, eu sempre disse que Costa iria passar um mau bocado, porque os acontecimentos e as posições até agora não explicitadas revelam que o “cóninhas” António José Seguro estava a dar os passos correctos mesmo fazendo a travessia das pedras. Esta situação só abrirá o regresso de Seguro depois de assistirmos à formação das clivagens políticas no parlamento, com Marinho Pinto a ajudar ao pleno.

    O colapso financeiro não ocorre em 2011. Começa com Cavaco (“o pai do monstro”), com a Europa a aplaudir e a incentivar, e estoura em 2008. O que assistimos deste este momento nada mais é que terrorismo financeiro de estado perpetrado por infantes nas mãos de papões.

  2. Deixe-me acrescentar, Luís, que em matéria de comunicação social esta aparenta a propaganda dos feirantes e o carro que se desloca pelas cidades a anunciar o espectáculo de circo.

    As instituições democráticas não o são na medida em que se movimentam por inércia e sem criatividade.
    O direito não é uma Instituição democrática, ele ou ela é somente o dever de Justiça.

  3. “a saída limpa do programa de ajustamento”

    Hahah, já pagámos as Dívidas ao Programa de ajustamento?

    “Muitos portugueses estão convencidos de que a austeridade foi injusta”

    Não houve austeridade alguma, continuamos a gastar mais do que produzimos.
    Austeridade começa quando a Dívida se começar a reduzir. Ainda está a aumentar.

    “o País está a sair da crise”
    O Défice continua logo a Dívida é maior do que nunca, a única diferença é que cresce a menor ritmo que quando isto estava nas mãos dos lunáticos do PS.

  4. “ano invulgar” , aconselho quem pode a consultar um empreiteiro de obras publicas sobre os malabarismos que tem que fazer para obter a assinatura para fazer certas obras seja nas autarquias seja noutros departamentos da administração e fica a imaginar como temos antes deste, tido anos realmente e estranhamente sem casos de justiça. Foram tão atípicos que a procuradora candida até afirmou que não havia corrupção em Portugal

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