Na terça-feira, nos Estados Unidos, os candidatos republicanos deverão conquistar o Senado e alargar a sua maioria na Câmara dos Representantes, o que radicalizará a política americana nos próximos dois anos. A crescente impopularidade do presidente Obama é um dos motivos desta provável vitória, mas os analistas mencionam o profundo descontentamento do eleitorado, sem conseguirem explicar exactamente do que se trata. As pessoas estão fartas da política do costume e em todos os pequenos assuntos há trincheiras cada vez mais violentas.
A América está frustrada com os seus fracassos no Médio Oriente, com o estado periclitante da economia e com a esterilidade do debate político das elites. As campanhas eleitorais têm crescente ferocidade e os republicanos usaram este ano uma agressividade retórica nunca vista contra um presidente adversário. O país parece fragmentar-se em questiúnculas onde é impossível negociar, por exemplo, sobre imigração, direito de porte de armas, vigilância interna, impostos para os ricos ou saúde pública.
Na Europa, este mal-estar impreciso também alastra como uma mancha de óleo, dando origem ao mesmo fenómeno da impossibilidade de negociar qualquer reforma. Em Espanha, onde estalou um escândalo político, o PP afunda-se nas sondagens e o Podemos (um partido populista de esquerda) surgiu pela primeira vez à frente das intenções de voto, com uma percentagem superior à dos socialistas. Mesmo que estes valores não se mantenham, o novo partido terá provavelmente uma boa votação e pode ser crucial para formar governo, apesar da sua plataforma incluir propostas que levariam a Espanha para um rumo incompatível com o cumprimento do Tratado Orçamental.
O fracasso do liberalismo implica o avanço dos populistas em todos os países, da Frente Nacional ao UKIP, da Alternativa para a Alemanha ao Syriza grego. Em Portugal, teremos provavelmente o partido republicano de Marinho e Pinto. Todos eles concentram o discurso em pequenas causas e franjas do eleitorado. Todos eles constituem uma ameaça ao Tratado Orçamental e à zona euro. Se não querem acabar com a Europa, todos querem, no mínimo, acabar com a Europa que existe. A crise financeira deu origem a uma crise política global e esta alimenta-se de formas de descontentamento que, não sendo iguais em todo o lado, parecem anunciar um longo Inverno.

O Luís Naves toca num ponto que necessita ser bem reflectido, que é: “mas os analistas mencionam o profundo descontentamento do eleitorado, sem conseguirem explicar exactamente do que se trata”.
O modelo da democracia representativa assenta no direito à governação por parte de uma maioria, seja ela relativa ou absoluta. Acontece que este modelo servia enquanto as franjas dos desvalidos eram meramente residuais.
O fenómeno que ocorre deve levar os partidos a pensar que a democracia é um modelo de governação que deve abranger o caleidoscópio social.
A democracia vigente ainda assenta nas prerrogativas de lóbis que julgam responder pelo interesse de todos. Na realidade os interesses dos cidadãos não estão respeitados nem por confederações partidárias, nem por confederações sindicais, nem por confederações patronais e nem por confederações profissionais. Porque estes representam tão somente aqueles que ainda vivem acima da água. Os afundados estão entregues a pseudo-caridades que não querem, porque ao invés de lhes acrescentar dignidade retira-lhes, a pseudo esquemas de inserção e reabilitação e os outros, aqueles que não acreditam nesses modelos arcaicos e resistem a essas formas de agressividade, estão entregues a si mesmos.
Sucede que estas realidades, que já não são franjas residuais, detêm em si mesmas a capacidade de crítica e o poder da mobilização. E o que hoje se assiste um pouco ou muito por todo o mundo é a uma classe política sem classe saída de um ventre putrefacto que não é capaz de se regenerar.
Aos novos partidos, àqueles que ainda não emergem destes ventres, e aos de boa vontade também é-lhes dada a responsabilidade de inverter esta realidade.
Os analistas não explicam bem o descontentamento crescente do eleitorado ou pode dar-se o caso de eu não ter compreendido algo que é perfeitamente explicado.
Com toda a modéstia posso responder, pelos vistos. Estas dificuldades ocorrem quando nos deixamos espartilhar por modelos que proporcionam a cegueira diante dos sinais.
As maiorias estão nas ruas e não num qualquer semicírculo, com ou sem alianças, que se diz representá-las. Foi isto que eu quis dizer.
E para ser mais concreto, no caso americano, sugiro que se verifique o valor interno de vendas de armas e os lóbis no senado em torno desta indústria. Mas também que se verifique o valor dos prémios que as seguradoras atribuem aos seus segurados na área da saúde. E que se verifique concretamente quanto custa anualmente um seguro de saúde a uma qualquer família americana com possibilidades de o pagar e o valor proposto pela administração Obama para esta abrangência sanitária. E que se faça o cálculo dos segurados que morrem por falta de tratamento e que indirectamente financiam os seguros de outros que beneficiam da cobertura total das enfermidades que padecem.
Depois disto apurado, é importante verificar-se, quer nos EUA quer na Europa, quais os grupos de pressão que detêm maior representatividade nos hemiciclos ditos representativos e até mesmo nos departamentos governativos.
Mais ainda, no caso americano, foi necessário que a máfia tomasse o poder sindical nas mãos para se tornar um grupo de pressão capaz de negociar contrapartidas quer para si quer para os trabalhadores. Pesquisar sobre o movimento sindical americano e em particular sobre os trabalhadores da recolha do lixo na América.
Depois associar a quebra do poder negociável com o declínio do poder associativo quer nos EUA quer na U.E.
Se aparece uma formação politica (estilo Podemos) que em vez de falar na esquerda/direita, crise do euro, crise da América, aviões dos russos e assuntos muito importantes falar de condenar os responsáveis pelo escândalo da compra de submarinos, subsídios a ONG fantasmas, julgar quem negociou PPPs ruinosas,organizar e avaliar as escolas e exigir eficiência dos departamentos de programas do ensino, avaliar todas as , institutos, laboratórios,fundações, enfim toda a Brigada das Colheres a volta do tacho publico, podem ter a certeza que o sebastiao Costa se vê aflito para repetir a socrática governação.
Por mera curiosidade, gostava de saber se os anti-europa-que-existe (e fico-me pelos cá do burgo) pretendem abdicar dos fundos europeus, e já nem digo devolver os que mamámos, bem ou mal mamados.
Creio que a explicação é simples: a resposta à crise financeira de 2007/2008 foi fundamentalmente errada, (europa) e quando episodicamente foi certa, foi tímida (EUA).
Como resultado temos a austeridade generalizada, com consequente empobrecimento de grande parte da classe média e acima de tudo. na minha opinião, um discurso político vazio, sem esperança.
Paralelamente, os que provocaram nunca foram responsabilizados, a proclamada e necessária revisão do sistema financeiro nunca aconteceu, e no meio disto tudo só se vê crescer a desigualdade.
Ou seja nestes anos de crise, em que milhões empobreceram, alguns poucos arrecadaram muitos milhões. E em países como os EUA estão a dispender um pouco do que ganharam para garantir que assim continua.
As pessoas podem não saber o que lhes aconteceu. Mas não será por ser inexplicável.
Tivemos as habituais distorções…
“os republicanos usaram este ano uma agressividade retórica nunca vista contra um presidente adversário.”
Pois. O presidente que chama inimigos aos Republicanos. E usa o IRS e outras agências federias para perseguição política. Mas parece que tal já não convém dizer.
“O fracasso do liberalismo”
O liberalismo em que 50% dos gastos são do Estado. Estranho Liberalismo.