Cadernos de um enviado especial ao purgatório (56)


Luís Naves,

As pessoas pagam produtos indigentes e respeitam muito o que compraram, se necessário até valorizam com unhas e dentes, colocam nos píncaros, para não terem de admitir que pagaram por um produto indigente. Se gastaram dinheiro, aceitam coisas más e até dizem que são extraordinárias. Dizem com convicção, são fáceis de convencer. Por outro lado, quando estão a ler textos gratuitos, a desvalorização mental que fazem bloqueia de imediato os seus sentidos e o espírito crítico torna-se feroz. Se é grátis, deve estar cheio de erros ou deficiências. Alguns, mais preocupados com ninharias, gastam todo o tempo da leitura em busca desses erros.

Por isso, escrever literatura na blogosfera nunca terá valorização, será sempre algo de inferior, pois o leitor não aceitará ler um texto gratuito e concluir que a qualidade era elevada. Esta regra aplica-se a textos de opinião, a qualquer tipo de artigo: sendo oferecido, não pode ser bom. As pessoas preferem aquilo que pagam, ou seja, é falso o velho provérbio de que a cavalo dado não se olha o dente. Neste caso, aplica-se outro provérbio, segundo o qual quando a esmola é grande o pobre desconfia. Se não for pago, um produto artístico é necessariamente nulo, por isso não tem valor a pintura na qual não se reconhece o pintor que assina, mesmo que seja um belo quadro. E isto leva a um paradoxo que ameaça a existência da própria arte: o público, que não a quer gratuita, também não aceita pagar por ela. Os membros do público contemporâneo não se conseguem libertar do preconceito com que olham, do preconceito com que lêem ou do preconceito com que escutam. As pessoas decidem à partida se vão gostar de alguma coisa. Geralmente, estão dispostas a criticar ou demolir. O objecto tem de possuir um valor monetário ou nada valerá, no sentido literal e no sentido profundo: não fará pensar um destinatário que, à partida, estava indisponível para o aceitar. O artista tem de ser pago a peso de ouro para ser levado a sério.

6 comentários em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (56)”

  1. O objecto tem de ter um valor monetário ou estar colocado ou consumido por uma determinada “elite”. Por sorte já assisti a um concerto dos Swingle singers, numa associação de bairro e completamente gratuito. A sala não encheu e eram os swingle singers. O mesmo aconteceu com o quarteto Borodin na mesma sala: vazio. Levem um qualquer zé da flauta ao museu da mesma cidade onde se reúne a elite e transborda.

  2. Vamos lá ver se nos entendemos. Não estamos em situação para andar a sustentar indigentes. Por conseguinte quem quiser vender livros ou outras obras de arte faça-se à vida porque os mercados estão vocacionados para outras matérias.

    O momento que vivemos é mais dado a pescarias, ao phishing. Este phishing tanto ocorre através de Despesas de Manutenção de Contas bancárias, como através do resgate de manigâncias financeiras, como através de taxas de solidariedade que deixam os pobrezinhos mais descamisados quanto antes da implementação das mesmas, como através da fiscalidade verde que nos enviará para Marte para trocar impressões com os nossos congéneres, como através de acções de formação para que a Vida seja Activa e assim se possam delapidar, melhor pescar, biliões e se possam pescar desempregados que continuando nessa situação passam a gozar do elevado estatuto de empregados e assim não pesquem do OE um único isco que lhes encha o estômago, como através de créditos fiscais que lá vão deixando o povão convencido que grandes investimentos estão a ser feitos na nação, como através de um acordo ortográfico que lá vai pescando umas letritas para convencer escritores que o seu talento será mais abrangente nos mercados livreiros de além mar e etc. e tal.

    Foda-se, eu sei que o problema da nação resume-se à afirmação da Maria Luís, isto é, à existência de poucos ricos. E é este mesmo o problema. Com tantos pobres para depenar é uma merda que não haja mais empreendedorismo nesta Nação.
    Porra, será que os empreendedores não compreenderam que existem um bons milhões de reformas e pensões para serem reduzidas, de ordenados para serem reduzidos – não fossem aqueles tipos do TC e Portugal teria mais ricos! -, de totós da classe média que teimam em ser medianos para que se lhes saque umas massitas – bem que podiam ser mais ambiciosos e ascender à classe elevada -, de gajos com o RSI para lhes serem sacadas verbas para alimentar os mercados…

    Péra lá, porra estou a ser injusto. O governo tem feito o seu trabalho na economia social. Eles estão a investir como gente grande tudo quanto sacam aos pobretanas nas instituições dadas à solidariedade. Estes investimentos traduzem-se na criação de riqueza por um processo de osmose. Ficam os resíduos em quem é residual e passa o tutano pela membrana mercado.

    Dito isto, a blogosfera é muito amiga dos instruídos. Através desta têm-se transaccionado uns excelentes títulos que valendo ouro e diamantes são disponibilizados gratuitamente a quem é capaz de lapidar e deixar a marca d´água. Eu sei, eu sei, eu sei, que este mercado é mesmo negro. Mas cada um move-se de acordo com as circunstâncias.

    Beijinhos às miúdas e um abraço para os rapazes.

  3. Em cheio!!! Num mundo que gira à volta de dinheiro é mesmo assim. Daí eu ser contra a gratuitidade no património. Concebo excepções como as usadas em Paris e preço atractivos para famílias, escolas e etc. porque de resto…
    Prefiro o exemplo Parques de Sintra a tudo o resto…

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