Como sabem, o conselho galáctico encarregou-me de analisar a situação no território do planeta Terra conhecido como Portugal. A bordo da minha nave, e na companhia da minha assistente Barbarela (no espaço as noites são frias e longas) atravessei os confins do cosmos e cheguei esta semana ao vosso belo e tranquilo país, que tanto tem para ensinar aos restantes povos do universo. Quase comovido, assisti ao belo costume de atribuir doutoramentos honoris causa aos gestores que afundam as suas empresas. É uma notável tradição que apenas enobrece a academia e lembrei-me que no meu planeta, Urano, também existia esta prática saudável: o meu avô era gestor de uma fábrica de Zeutrões e foi vítima de um súbito short selling que o levou à falência, tendo por isso recebido um doutoramento honoris causa que muito honra a nossa família. Foi aliás devido a estes incidentes que tive de me alistar na frota galáctica e estava no outro dia a comentar com a minha assistente Barbarela que as noites espaciais são frias e escuras, mas ela disse que estava ocupada a evitar uma ejecção de massa coronal e ficou a mexer nos botões e nos computadores, em vez de seguir a minha inteligente conversa.
Por falar em inteligência. Portugal é um país de gente muito inteligente, como constatei na outra noite no Cais do Sodré, onde uma multidão se dedicava à tortura do sono, um costume local. Eram três horas da manhã e alguns cavalheiros, não aguentando a vigésima cerveja, urinavam em público, gritando palavras de ordem para impedir a vizinhança de dormir. O país discute agora se deve ou não reduzir a hora do fecho dos bares, das três da manhã para as duas, e só posso elogiar o elevado grau de civilização que os portugueses atingiram. Se ao menos no meu planeta houvesse este tipo de debate político! Um atento analista verificava que, em caso de redução do horário, os donos dos bares deverão perder metade da sua receita, com graves repercussões na venda de bebidas, emprego de vendedores de bebidas e mais perda de investimento privado na decoração dos ditos bares. Tudo isto representa perdas de empregos a montante da longa cadeia económica, o que ameaçará a própria recuperação europeia. Mas o que esta informação revela é que em Portugal mora uma raça disciplinada, que consome metade da sua cerveja entre as duas e as três da manhã. Se um português bebe cinco bebidas numa noite, beberá duas e meia naquela hora final da folia, se bebe dez, serão cinco, cada gole ingerido no momento adequado, sem possibilidade de antecipar o consumo ou de mudar sequer um minuto naquela busca de felicidade com hora marcada.
A elevada educação do povo deve ter uma origem. Julgo que esta disciplina e método são bem visíveis na acção do ex-ministro Crato, que procura inovar na forma criativa como procede à destruição do seu sector. Embora este ministro da educação já seja doutorado, merece amplamente um doutoramento honoris causa pela universidade da beira interior, onde fará um belo discurso sobre valor acrescentado e a persistência da vontade. Este é de facto um povo que espalha civilização, nas praxes e no rigor dos seus comentadores políticos especializados. Os portugueses são corteses, afáveis, bem dirigidos, e atravessam a sua crise com uma atitude despreocupada, por exemplo, a discutir a dívida sem a discutir verdadeiramente, que é a forma mais inteligente do debate. Na minha visita anterior, em 1891 (as viagens no espaço são longas e enfadonhas), tentei explicar aos responsáveis do tempo que a dívida era para ir pagando e essa, de facto, acabou de ser paga em 2001.
Teria sido a minha recomendação também desta vez, mas não consegui que me ouvissem. Fui a São Bento e vi muita mudança, o estacionamento estava cheio de naves espaciais e tive dificuldade em encontrar lugar. Lá dentro havia uma discussão intensa sobre as próximas eleições e um dos agentes espaciais dizia que este governo ia ganhar facilmente as legislativas. Todos concordaram de imediato. A vitória é certa, pois o tempo está do lado do governo, afirmou um. “É como cão em vinha vindimada”, disse outro dos conselheiros. “Julgo que o ditado português é cão em vinha mirrada”, afirmou um terceiro conselheiro. E logo ali se gerou uma frutuosa discussão, que não era um cão, mas porco, o qual passeava em vinha semeada. Nada disso, era vinha vigiada e o fulano tinha a certeza. Perguntei-me se não seriam vinhas da ira? Uma coisa é certa: os estrategas acham que este governo ganha facilmente as legislativas.
Na imagem, a minha assistente Barbarela confraterniza com dois assessores de são bento.


Nesta bela historieta espacial, não seria mais coerente “doutorar” o Costa? Afinal é ele o superintendente dos urinóis do Cais do Sodré!
Procurarei ser breve, pois hoje estou num grande desassossego. Acabei de ver uma grávida. Quando isto acontece entro de imediato em desejos. Hoje tá-me a dar para o arroz doce.
É inconcebível que num momento de tão grande crise depois de tanto se beber lá pelo caos do Sodré, ou por outros caos a montante ou a jusante, alguém tenha o despudor de desperdiçar o consumo que tanto custou a executar, em particular nessa última hora que representa os tais 50% da economia, urinando, e fazendo alarde disso, o tão precioso conteúdo.
Mais. Não basta só referir o desperdício. É necessário mostrar a minha indignação pelos graves problemas de segurança e saneamento que estes actos colocam à cidade de Lisboa. Sabem estes mijões que o Presidente da Câmara de Lisboa não tem solução para as cheias, e com estas atitudes agravam ainda mais esta situação. Admito que isto seja uma estratégia de adeptos da oposição para tentar descredibilizar ainda mais o actual Presidente do Município, fruto das sondagens que o apontam com uma maioria quase absoluta. Mas, por amor de Deus!, a luta política não pode centrar-se nos inadequados lençóis freáticos.
E acreditando na aposta educacional, proponho que se identifiquem todos os personagens que mijam fora do penico e que se lhes vede o acesso aos doutoramentos honoris causa.
Dito isto, vou agora em busca do arrozito doce para ver se m´aquieto.
Excelente Camarada! Também concordo que eram reaccionários do PSD, CDS a aliviar-se no Cais do Sodré.
A Polícia Municipal tem de actuar de maneira proactiva – oops revolucionária! Proponho vigilância nas áreas suspeitas de maior possibilidade de cheia: Sete Rios, P.Espanha, Alcantara.
Companheiro, esta foi cogitada sem alvo específico aqui pelos delitos. Garanto-lhe que mantenho as mesmas linhas de pensamento. Mas estou satisfeito com sua satisfação.
E concordo, esta oposição deve enfrentar uma carga revolucionária.