Certos intelectuais olham para o País com indisfarçável desprezo. Isso é visível neste texto, do qual destaco a seguinte frase: “A fina película do nosso progresso, cada vez mais fina com a crise das classes ascendentes, revela à transparência todo o nosso ancestral atraso, ignorância, brutalidade, boçalidade, mistura de manha e inveja social”. O ‘nosso’ está ali para disfarçar, pois duvido que o autor, Pacheco Pereira, se reveja nestas linhas, que pretendem ser o retrato fiel do povo português, tal como é visto pelas elites.
E, no entanto, a frase é falsa, não há outra maneira de a caracterizar. O autor descreve um Portugal inexistente, puramente imaginário, povoado por criaturas grotescas e meio debilóides, incapazes de um pensamento estruturado, portanto necessitando da condução esclarecida de uma vanguarda intelectual com ideias e leituras cosmopolitas.
Para o autor, o povo português não vive em cidades e subúrbios, não se concentra no terço litoral do território, não está a envelhecer depressa nem enriqueceu, não é europeu nas suas preferências nem evoluiu um milímetro em matéria de instrução. A frase parece tirada de um romance neo-realista dos anos 40, descrevendo um país de cavadores depauperados, com gosto folclórico e nenhum conhecimento do que se faz lá fora.
Os jovens são drogados e vazios, os velhos não existem, como não existem mulheres independentes. Os portugueses são invejosos e manhosos, brutais (esta ideia nem percebo de onde vem) e as classes em ascensão estão em crise (suponho que o autor fala da classe média, que nunca foi tão alargada e tão influente).
O pior é que este tipo de comentário conquistou as discussões públicas; Portugal acabou, está morto e enterrado. E, no entanto, a visão de hecatombe não é apenas míope em relação ao povo que descreve, mas exibe desconhecimento profundo da realidade sobre esse povo. As elites intelectuais assistem à mudança da sociedade portuguesa sem perceberem patavina do que está a suceder, aplicando uma grelha de análise que talvez fizesse sentido na década de 40, mas que agora é apenas absurda.

Será de facto desprezo ou uma fria constatação desenganada? Porque nada do que aquele texto elenca é falso, ou sequer exagerado. Nada. Poderá você apresentar uma extensa lista de virtudes a colocar no outro prato da balança (não o fez, verifico), se as encontrar, mas nada daquilo pode por si, ou quem seja, ser de boa fé negado.
Os portugueses de facto não progridem em termos culturais, de instrução (que não é cultura, como sabe, e que por estes tempos – estes e, bem sei, antes deles – é formatada e avaliada para puros fins de estatística), ou de sofisticação de hábitos. Os portugueses não progridem e o estado impenitentemente demite-se das suas funções, não só nesses campos como em todos, deixando o cidadão mais e mais desprotegido.
Cada vez mais a maioria está demasiado ocupada em aguentar até ao fim do mês – e a sobrevivência embrutece – e um certo grupo materialmente bem sucedido revela-se claramente (permita o anglicismo) “new money “: deslumbrado pela riqueza, arrogante na sua ostentação e afinal tão mal-educado como dantes; só que agora essa má-educação é ainda mais sonora e visível. Os negócios do regime, que não são apenas os para lá de multimilionários (onde a educação também não imperará necessariamente), darão dinheiro, nas nunca “o chá” que se não bebeu na infância.
O povo não tem apetência pela ordem, pela cortesia, pela educação, pela cultura, pela elegância de hábitos e não é este governo (como não foram os anteriores desde há muito; desde sempre, diria) que pretende alterar este estado de coisas. Nem o poderia fazer, concordo, em quatro anos. Nem o quer fazer (como os outros não quiseram), pois um povo embrutecido, boçal, e que se contenta com manifestamente pouco, torna sempre mais fácil a vida ao poder.
No limite, muito no limite, poder-se-ia dizer que este afundamento civilizacional do povo português, que nunca verdadeiramente se elevou acima do lodo mas agora apresenta uma arrogância incrível na má-educação que militantemente exibe, ou uma resignação de vencido incondicional na pobreza a que implacavelmente o fazem descer, poderia ser um efeito triste, dolorosíssimo, mas moralmente resgatado pela recuperação das contas públicas, pela salvação do país. Seria uma inevitável destruição que seria o substrato da reconstrução. Uma espécie de recomeço.
Mas diga-me, toda essa destruição já consumada, onde está a recuperação das contas públicas, esse desígnio nacional absolutamente imperativo e que tudo justifica?
Costa
Luís,
vamos lá ver se me faço entender. O panorama da cultura em Portugal, com excepção para alguns intelectuais anónimos, sempre foi projectado por uma espécie de academia feudal que alimentou uma cadeia de ouvintes que a única contestação que faziam baseava-se em aplausos.
Com o passar dos anos, e o acesso facilitado aos mais diversos graus académicos, o sistema feudal cresceu fazendo minguar o som dos aplausos. Todavia, de um e outro lado da barricada as tendências mantiveram-se.
Com o advento da internet surgiu a verdadeira oportunidade cultural; e quem nunca se reviu no sistema acima exposto incentiva este meio de partilha e abre a verdadeira janela da democratização cultural. Escusado será dizer que acabo de fazer um elogio ao DO, mas disse.
Quando se corre a tras do mesmo tema base acontece um fenomeo semelhante a quem anda sempre a roda . fica tonto.
Apenas para parabenizar o caro Naves, pela pertinência do texto, e enaltecer o mui avisado comentário do caro Vento!!