Cadernos de um enviado especial ao purgatório (30)


Luís Naves,

Quando li pela primeira vez este texto, nem quis acreditar. Li de novo e, de facto, trata-se de uma crítica ao “jornalismo concreto” que, segundo a autora, tem excesso de agressividade, sendo uma “nova forma de jornalismo”, em oposição a métodos mais honestos, como será o caso de um jornalismo de fantasia. O texto é uma crítica e o “jornalismo concreto” não deve ser praticado.

O pior é que este texto não foi escrito pelo tontinho da aldeia. A autora de Vai e Vem, Estrela Serrano, é uma especialista em comunicação social, ensina ou ensinou essa matéria e devia saber que só existe “jornalismo concreto”, tudo o resto sendo conversa da treta, limonada pseudo-informativa, com perguntas para embalar bebés. Os políticos têm obrigação de responder a questões autênticas e os jornalistas têm a obrigação de saber se eles disseram alguma coisa, se as suas propostas são viáveis ou se estão a omitir posições relevantes.

No entanto, na sua crítica, a especialista Estrela Serrano escreve que este mau exemplo “é um jornalismo que só se interessa pelo concreto e pelo imediato”, embora a frase seja uma excelente definição de bom jornalismo, que deve questionar exactamente esses dois elementos, o concreto e o imediato, expondo a retórica balofa e o empurrar com a barriga. 

Agora percebo muito melhor a crise da imprensa, a razão da fuga dos leitores. O jornalismo que questiona o concreto e o imediato tornou-se uma raridade que merece a crítica severa dos mandarins da comunicação social. Assim, os jornalistas que exercem a sua profissão devem acalmar-se e fazer apenas as perguntas mais dóceis.

9 comentários em “Cadernos de um enviado especial ao purgatório (30)”

  1. Bom dia,

    Se me permite, como leitora: estou plenamente de acordo com a Estrela Serrano. Quem faz perguntas complexas não percebendo que o são e espera uma resposta simples, revela simples ignorância. Desse imediatismo tem padecido a comunicação social portuguesa. Fazer uma pergunta complexa, cuja resposta levaria um dia a responder e querer, em vez disso, uma resposta simples, concluindo que a pessoa, se não responde, é porque não tem respostas concretas, é apenas um ignorante.

    Eu não sei como é que as pessoas competentes e sérias conseguem sobreviver num mundo enxameado por perguntadores e comentadores ignorantes.

    Dessas vistas curtas em que se acha que a solução para tudo é simples e se resolve através de uma folha de cálculo tem sido Portugal vítima nos últimos anos.

    Uma entrevista que permita conhecer o que vai um candidato fazer é uma entrevista em que o candidato não se sinta constrangido a dar respostas curtas e simples a questões complexas.

    Os leitores sentir-se-ão agradecidos se puderem ler entrevistas não agressivas, não impositivas, onde possam perceber o carácter do candidato, onde possam perceber se tem noção da complexidade da empreitada pela frente.

    Desejo-lhe um bom dia.

    1. António Costa que se apresentou ao PS e aos portugueses em geral como o homem que sabe como é que as coisas se fazem, tem de dizer ao que vem, o que pretende fazer em relação às preocupações concretas dos portugueses, e não refugiar-se em lugares comuns repescados dos “Estados Gerais” do PS em 1995, e da campanha do Sócrates em 2005: uma estratégia para dez anos, paixão pela educação e pela coesão social.
      Leio jornais portugueses e estrangeiros há mais de 50 anos, e é a primeira vez que ouço falar nesse estranho conceito da impossibilidade de dar “repostas curtas e simples para questões complexas”. Penso que ficaríamos todos mais esclarecidos se a leitora/comentadora que se identifica como Um Jeito Manso, nos explicasse o que é que entende por “respostas curtas e simples para questões complexas”.
      Eu admito que António Costa tenha dificuldade em explicar a maior parte das coisas que anda por aí a dizer, como p. ex. que a Espanha fez “uma coisa parecida com o PEC4”, esquecendo-se ao mesmo tempo de dizer três ou quatro coisas: 1ª a Troika emprestou 100 mil milhões à Espanha; 2ª apesar disso continua com um crescimento que é metade do português, e um desemprego que é o dobro do português; 3ª a Espanha fez cortes na despesa publica (nas pensões, nos vencimentos dos funcionários publicos, e despedimentos de muitos milhares de funcionários do estado), e aumentos de impostos muito superiores aos que se fizeram em Portugal.
      Talvez seja isto o exemplo de respostas simples e curtas para questões complexas, ou seja dizer o que lhe vem à cabeça e ninguém o questionar; afinal depois de os lisboetas lhe terem dado mais de 50% dos votos, a coisa estava tão bem encaminhada: depois de comer o Tozé ao pequeno-almoço, comia o Passos Coelho ao almoço. O Rio ficava para o jantar. Assim, com uns jornalistas que são uns chatos, a coisa complica-se mais.
      Costuma dizer-se que “se apanha mais fácilmente um mentiroso do que um coxo”. Por isso a dona Estrela anda tão irritada.

      1. Caro Alexandre Carvalho da Silveira,

        Se eu lhe perguntar a si de que é que gosta, ou o meu Caro é uma pessoa formatada para dizer os primeiros lugares comuns que lhe vêm à cabeça ou teria que segmentar a resposta: gostar a que nível? A nível de hobbies? A nível de géneros literários? A nível gastronómico? A nível de programas de televisão? A nível de práticas desportivas? etc, etc. Ou seja, eu ter-lhe-ia feito na maior ligeireza uma pergunta complexa como se se tratasse de uma questão simples mas que, obviamente, para ser respondida como deve ser, não poderia ter uma resposta simples.

        E é disso que se trata.

        Se perguntarem a uma pessoa o que vai fazer para equilibrar as contas públicas, se a pessoa em causa for um papagaio qualquer, de preferência com a voz bem colocada, responderá de caras três ou quatro coisas, não precisará mais do que um minuto para dali sair um sound bite; mas, se a pessoa for uma pessoa séria, precisará mais do que de meia dúzia de palavras. Só que, ao usar um raciocínio mais elaborado, lá estarão os ‘jornalistas do imediato’ a dizer que o inquirido não diz nada de concreto.

        Claro que acho que António Costa deve explicar ao que vem – mas que o possa explicar com ponderação, articulando raciocínios completos e não apenas através de meras frases de efeito, daquelas congeminadas por técnicos de imagem para os jornalistas perceberem e, de preferência, de modo a que possam fazer títulos sonantes.

        Será que agora me fiz entender, Caro Alexandre Carvalho da Silveira?

        1. António Costa tem tido mais do que oportunidade de “articular raciocínios completos”, tal o número de entrevistas que tem dado nos últimos tempos.
          P. ex., faz hoje uma semana deu uma entrevista de duas páginas ao Expresso, e tendo em conta o formato do jornal, perdeu ali uma bela oportunidade de articular os “raciocínios” que refere.
          Mas se nas entrevistas não consegue articular raciocínio que se veja, já na moção que apresentou ao partido e ao país há umas semanas o que é que vemos? “raciocínios articulados”? não. O que lá vemos são os lugares comuns copiados dos Estados Gerais do Guterres em 1995, e algumas ideias geniais copiadas da campanha do Sócrates em 2005.
          Quer dizer, e para mim isso é que verdadeiramente importa, Costa está a mostrar que não tem mais para oferecer do que o PS ofereceu há 20 e há 10 anos, com os resultados conhecidos.
          Achar que os jornalistas lhe fazem perguntas chatas a que ele não consegue responder, porque não tem resposta para elas, é patético e digno de uma sociedade anti-democrática.
          Depois da célebre entrevista que deu a Oriana Fallaci em que deixou cair a máscara, Álvaro Cunhal passou a dar entrevistas por escrito, ou a exigir que lhe enviassem antecipadamente as perguntas; talvez o sistema funcione com António Costa. Afinal o “rei vai nú”, e isso está a apoquentar as Estrelas Serranos deste pobre país.
          P.S. Eu não sou candidato a 1º ministro; mas se me fizesse de viva voz um questionário como o que refere nos primeiros parágrafos do seu comentário, eu responder-lhe-ia de imediato, porque sei o que quero, do que gosto, e por onde ando. E também lhe poderia explicar sucintamente como é que se resolve o problema das finanças públicas em Portugal. E sem inventar nada, porque já está tudo muito bem explicado; alguns não querem é perceber!

  2. Malandros dos jornalistas concretos, a incomodarem o dr Costa, tal como incomodavam o bacharel Pinto de Sousa.
    Estrela Serrano já então se incomodava também…

  3. Pois eu cá quero mais “jornalismo político concreto”. E jornalistas que apresentam e pesquisam factos e não se limitam a papaguear comunicados e “notícias” das agências de comunicação. Que questionem, que contra-argumentem, que espremam. Quero entrevistadores que à famosa expressão “mas deixe-me dizer só uma coisa” interrompam de imediato e digam “não deixo, por favor responda só à pergunta”. Que se tornem desconfortáveis (que não é a mesma coisa que insultuosos ou insinuantes) para os entrevistados. Que os entrevistados tenham medo de irem às entrevistas porque sabem que vão ter que se bater, a sério, com argumentos, pelo defendem ou dizem defender.

    Os políticos são tribunos e uma parte do seu trabalho é falar. Discursar, clamar, invectivar as injustiças e laurear os progressos. E para isso têm os comícios, o parlamento, os tempos de antena e os repastos a carne assada. Não têm nem devem ter os jornais, rádios ou televisão.

  4. Concordo que o jornalismo só pode ser bom senão é um frete ou favor. O exemplo não serve só porque o blog que tem muitas ideias correctas é um exemplo conhecido de oculos coloridos. Para quem o acompanhe vai encontrar argumentação a tentar provar o contrario, desde que seja a favor do ps. Desculpa-se e tem todo o direito de defender a sua dama, porque até é um blog e isso dá todo o direito ao dono de defender como acha bem. Como é tão transparenet nem causa enganos.

  5. «Assim, os jornalistas que exercem a sua profissão devem acalmar-se e fazer apenas as perguntas mais dóceis.»
    Como fazem com os membros do governo… Deste ou de qualquer outro. Nunca vi um candidato da oposição que caísse no goto dos jornalistas e comentadores. Há tempo para a bajulação quando – e se – o Costa lá chegar.
    A questão não é ser concreto ou abstracto, mas sim a cartilha oficial do governo, que pegou de estaca, apesar dos resultados desastrosos a que nos conduziu. Acho muito bem que haja quem não a queira seguir. Claro que é preciso apresentar propostas “concretas”. Mas isso vale o que vale, porque as promessas não são, como todos sabemos, para cumprir e porque as eleições não se ganham na oposição, mas perdem-se no governo.
    Achei piada à frase do Costa: «Não lhe digo que não, porque depois põe título, em que faço figura de palerma, do género “a Segurança Social não é um problema”». Os jornalistas são o que são e os políticos também.
    E os comentadores também…

Deixe um comentário

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *