Reflexão do dia


Pedro Correia,

«A palermice em que anda a discussão em torno do Acordo Ortográfico exige que se tomem decisões rápidas. A mais recente proposta veio do congresso dos deputados, no Brasil, onde umas luminárias decidiram propor o fim de toda e qualquer filiação etimológica, retirando ‘h’ não pronunciados e transformando a ortografia numa dependência aleatória e analfabeta da fonética – resultados da “linguística estrutural oral” dos anos setenta e do populismo “antielitista” que afoga o sistema escolar brasileiro. Esta procissão de doidos, libertados para a arena sem qualquer atestado de sanidade, ameaça tornar irrelevante todo e qualquer respeito pelos dicionários, pela gramática, pela lógica, pelo bom senso – e, finalmente, por uma língua milenar.»

Francisco José Viegas, no Correio da Manhã

11 comentários em “Reflexão do dia”

  1. O espantoso é que o “ex-secretário viegas” se atreva a falar dos dislates do “acordo”: foi o 1º a exigir que o acordês fosse aplicado numas croniquetas que mantinha num jornal que usava a ortografia estabilizada.

    Talvez que o facto de os manifestos anti-acordo reunirem a grande intelectualidade portuguesa o tenha assustado e o que é certo há quem o ache descordista – pelo menos nos intervalos das entrevistas em que chama racista a Eça de Queiroz (!!!!!!!) e que por totalmente absurda projecta uma imensa luz sobre o que é um viegas.
    Para se aquilatar da coisa:

    “Viegas – Machado [de Assis]. Havia um racismo muito grande em relação ao Machado. Como se sabe, Eça [de Queiroz] era muito racista em relação ao Machado. Eça tem quase todos os pecados, ele era racista, machista… Ele era um homem muito fechado, provinciano. E ele nunca aceitou muito a concorrência do Machado. Na verdade, Machado tinha um humor absolutamente genial. Eça tinha medo desse humor. Por outro lado, Eça achava que Machado era apenas um mulato lá do outro lado do mar, do Brasil, onde havia macacos na rua, e araras… E isso era muito estranho para o Eça.”

    1. Onde é que ele escreveu tal rol de barbaridades? Eça, o crítico das colónias, racista? Eça, o homem que antes dos trinta anos cobrira a abertura do Canal do Suez, um provinciano? Eça, o genial satirista , com medo do humor doutro escritor? A sério, eu preciso de ler o texto completo para me rir mais um pouco.

      Acho que é mais correcto dizer que Eça não tolerava dislates de escritores inferiores, especialmente de um que acusou O Crime do Padre Amaro de ser um plágio de um romance de Zola , uma acusação absurda que Eça facilmente rebateu explicando ao contista que Amaro fora publicado ante do de Zola , um facto nada irrelevante. Posso, a propósito, afirmar que a leitura dos cinco volumes das Polémicas (organizadas por Carlos Reis) são excelentes fontes de informação sobre os vários tolos que Eça teve de aturar ao longo da sua curta vida.

      1. Ah, já encontrei a fonte:

        http:/ http://www.saraivaconteudo.com.br Videos Post /43188

        Lido em contexto, o excerto faz mais sentido. Viegas está a dar uma entrevista a um jornalista brasileiro, a promover os seus livros no Brasil. Compreende-se a necessidade rasteira de agradar ao público-alvo da entrevista mandando abaixo o Eça e sobrevalorizando Machado de Assis. Tudo no interesse de se fazer passar por amigo do povo irmão que talvez lhe compre um par de cópias; a maneira como se baba pela literatura brasileira é extraordinária: ele quase que não se coibe de sugerir que a literatura brasileira passe a ser o modelo pelo qual todos os escritores portugueses julguem o valor dos seus livros.

  2. Não sendo de modo radical um defensor ou um antagonista do AO em uso em Portugal, embora profissionalmente o siga por imposição do serviço e como tal o tenha adotado para minimizar a confusão no ato da escrita (mas alguns extremistas consideram a minha opção como de mero apoio ao mesmo) concordo que o mesmo deveria ser melhorado, pois tem de facto inconsistências que há muito são denunciadas, sobretudo pelos seus maiores opositores.
    Agora é verdade que várias vezes alertei que o facto de no Brasil se estar a adiar a aplicação do AO não era motivo de regozijo dos anti-AO, pois a questão não era para lhe retirar os defeitos, mas sim por haver um grupo de pressão que queria ir ainda mais longe na desvirtuação da escrita, contudo só agora alguns dos opositores que elogiaram as autoridades brasileiras se estão a aperceber que o adiamento era por lá haver ainda menos bom-senso do que aquele que estivera na base do atual AO.

    1. Veja bem ao que chega o seu conformismo com a aberração: você, parece, ata o que escreve. Como um sapato, enfim.

      No seu serviço não sabem que uma resolução não revoga um decreto-lei. Ou seja que essa imposição que refere, se de facto existe, é ilegal. Ou sabem e tal lhes é absolutamente irrelevante. A lei, por cá, é irrelevante em tanta coisa…

      Costa

  3. Insultando a minha preguiça decidi vasculhar o legado do Chico Viegas enquanto desgovernante: népias, zip, nada de nada. Quanto ao AO, parece um buraco negro. Quem discordar poderá ter o prazer de levar uma espadeirada minha em local a combinar.

  4. Terá o homem tomado consciência da caixa de Pandora que militantemente ajudou a abrir, mais ainda num país e numa comunidade de língua – o que dela reste – onde cultura e instrução não abundam e, também por isso, é logo aceite e desejado tudo o que seja rotulado de moderno ou simplificador?

    Será um passo numa moderada retractação (muito moderada, apenas, pois reduzir genericamente, sem mais, a “palermice” a discussão do AO90 bem pode significar chamar palermas aos que o discutem e quanto a ele tomem uma posição ou a sua oposta) que lhe permita salvar a face e surgir como moderado quando o descalabro final se concretizar, desresponsabilizando-o nesse desastre?

    FJV não precisava de cair nisto. Mas caíu. Para quem se emocionou com O Mar em Casablanca, ou Lourenço Marques, a sua defesa do acordo ortográfico é uma nódoa indelével. Isso e Foz-Tua.

    É pena.

    Costa

    1. É verdade,quem leu a apologia do Tua feita por ele…
      Presta-se a essas coisas, a credibilidade vai indo por água abaixo,é pena.

  5. Mas quantos mais exemplos serão precisos para nós portugueses percebermos que não faz qualquer sentido fazer acordos ortográficos seja com quem for e muito menos com os brasileiros?
    Porque as línguas são vivas e como tal evoluem. E evoluem de forma diferente em cada um dos países lusófonos. O próprio ponto de partida é diferente em cada um desses países. Por isso, qualquer acordo cerceia a liberdade de cada um dos povos lusófonos de fazerem evoluir o seu Português no sentido que entenderem.
    Acresce que o Brasil não respeitou anteriores acordos ortográficos celebrados com Portugal e não parece também disposto a respeitar este. Apetecia-me ainda acrescentar que no Brasil se trata muito mal a Língua Portuguesa. Claro que por cá também, embora não tanto.
    E isto leva-me à questão para mim essencial: tratemos melhor a nossa Língua, sejamos mais rigorosos no falar e no escrever, incutamos nos nossos alunos a importância da leitura e da escrita como forma de melhorarem o seu conhecimento da Língua, exijamos que os próprios professores sejam excelentes conhecedores dela, não admitamos que se escreva com erros nos jornais, nos livros, nas televisões. Voltemos, se necessário, ao tempo dos revisores de provas. Isso é que interessa.
    Este acordo ortográfico é tão estúpido que custa entender como é possível andarmos um quarto de século depois da sua assinatura ainda entretidos com a sua aplicação ou não. É mesmo uma coisa de portugueses e é por estas e por outras que nunca passá/a/mos da cepa torta.

  6. Sabemos de a criatura ser mais ventre que cérebro. Aflige-se com o estrago que a demência à solta venha a fazer na feijoada à brasileira, só pode. Não o mando tomar passivamente na ASAE por respeito aos circunstantes. Ele que vá simplesmente prò…
    Cumpts.

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