Os sonâmbulos.


Luís Menezes Leitão,

Aproveitei este período de férias para ler o livro Os sonâmbulos (The Sleepwalkers), de Christopher Clark, que explica perfeitamente como a Europa se deixou de disparate em disparate arrastar para a guerra em 1914, que levou à destruição dos países envolvidos e à reformulação geopolítica do continente. O autor demonstra claramente como a causa próxima do conflito, o tiro disparado pelo sérvio bósnio Gravilo Princip, foi afinal o simples rastilho de uma guerra que foi desencadeada pela inconsciência dos governantes europeus, que se deixaram arrastar de escalada em escalada até à guerra total.  

 

É precisamente o que hoje se está a passar na Ucrânia. Sempre achei que a questão ucraniana tem que ser tratada com pinças, uma vez que é um estado dividido ao meio entre um ocidente pró-europeu e um leste pró-russo e cuja importância estratégica para a Rússia é absolutamente decisiva. Lenine dizia que os soviéticos podiam perder a cabeça mas não podiam perder a Ucrânia e Putin tem exactamente o mesmo posicionamento. Precisamente por isso desde a queda de Ianukovitch que me parece que tudo se encaminha para um confronto directo do Ocidente com a Rússia. A situação poderia ter sido evitada com a eleição de Poroshenko, mas este optou por esmagar a rebelião de Donetsk e Lugansk pela força das armas, lançando o exército ucraniano contra os rebeldes. Ora, era evidente que Putin não iria permitir o esmagamento dos rebeldes russos na Ucrânia, pelo que quanto mais vitórias Poroshenko tivesse no terreno, mais se tornaria inevitável a intervenção da Rússia. No fundo, a situação não é diferente da guerra da Coreia, em que a tomada de Pyongyang por McArthur arrastou imediatamente a China para o conflito, obrigando os EUA a voltar a recuar para sul do paralelo 38, uma vez que a única alternativa — e que foi proposta por McArthur — era uma guerra nuclear dos EUA com a China.

 

 

Neste momento, já é a própria diplomacia alemã a reconhecer que a situação na Ucrânia ameaça ficar fora de controlo. O que me espanta é que a diplomacia alemã não se tenha apercebido disso desde o início. Mais uma vez, o que isto lembra é 1914. O Kaiser e o Czar trocavam telegramas em que se tratavam carinhosamente por Willy e Nicky, enquanto arrastavam os seus países para o apocalipse.

9 comentários em “Os sonâmbulos.”

  1. Permita que lhe diga que a diplomacia alemã nunca viu nada nas guerras que ocorreram e que originaram. E não só não viram como de diplomatas nada têm ou tiveram.
    A lógica dos intervenientes nesta pantominice traduziu-se em comprometer perigosamente os EUA numa aventura que não querem e não têm condições para avançar.
    As reuniões de emergência em Bruxelas e também da Nato não passam de manobras de quem usa o tempo livre – demasiado liberto, diga-se – para fingir que fazem alguma coisa que os liberte da ruína política que ocasionaram.

    O resultado está por demais óbvio, a Ucrânia nunca mais terá autonomia para caminhar por seu próprio pé e quer queiram quer não, se a Nato decidir embarcar em alguma aventura através da Polónia, a Ucrânia acaba totalmente nas mãos russas e Alemanha volta ao protectorado que era no pós guerra.

    Mas há outras vertentes que necessitam ser abordadas, e estas vão traduzir-se no facto de nos quererem entreter a partir de agora sobre um perigo imaginário de um califado sem califas.
    E esta situação resume-se numa fórmula muito simples: ou Israel e o mundo Ocidental permite que os Palestinianos possam desenvolver a sua economia e adquirir uma vida estável também economicamente ou não passarão de um país de tropas de assalto rápido para os EUA de um qualquer Bush que nunca assaltam nada mas também nada mudam.
    Um povo ciente do que pode perder em bem-estar nunca patrocina políticas belicistas; e isto aplica-se a Israelitas e ao Hamas que capitaliza apoios graças a Israel.

    1. Permita o Luís que acrescente a este meu comentário um link para que qualquer leitor que pretenda informação adicional à minha reflexão a possa recolher. Mas há muita literatura para consultar

      Porém, duas ressalvas quero fazer:

      A primeira é solicitar especial atenção às declarações de Shmuel Toledano, ex agente da Haganah, e também para o facto deste documentário não conter toda a problemática em torno das relações entre palestinianos e israelitas, áranbes e israelitas e com as demais nações;

      O segundo aspecto é dizer que incluí este documentário, entre muitos, por ser o mais abrangente em torno da oportunidade dada às partes envolvidas.

      https://www.youtube.com/watch?v=GHxcQgDM1nY

  2. Concordo com o post e penso que muitas das culpas são dos dirigentes da UE que em vez de se solidarizarem só com o parceiro mais importante e fundamental para a UE (Alemanha) vai apoiar as cretinices Londres/USA de apoio a garotadas pseudo governamentais de Kiev pondo em cheque as tentativas de Berlim se entender com Moscovo para reduzir as tensoes entre ucranianos. Uma UE pouco solidaria com uns hipocritas a pedir permanetemente “solidariedade/dinheiro” a quem governa bem e se porta como uns tolos quando devia ser solidario.

  3. “E esta situação resume-se numa fórmula muito simples: ou Israel e o mundo Ocidental permite que os Palestinianos possam desenvolver a sua economia e adquirir uma vida estável também economicamente ou não passarão de um país de tropas de assalto rápido para os EUA de um qualquer Bush que nunca assaltam nada mas também nada mudam.”

    É preciso que os palestinianos também o queiram, e, até ver, quem elegem não o tem no topo das prioridades. Por outro lado Israel é um Estado democrático com muito para dar aos seus cidadãos e ao mundo, muito mais, alias, do que as suas palavras redutoras depreendem, infelizmente.

    1. Ó gato fedorento,

      Essa conversa da democracia parece querer justificar tudo e mais alguma coisa. Mas você esquece, ou não sabe, a história do estado de Israel e todas as peripécias subsequentes à sua criação, desde David Ben Gurion passando por Golda Meir and so on.

      Quero com isto dizer-lhe que redutora é a malícia que se usa em torno da palavra democracia.
      Se você para estabelecer uma democracia tem necessidade de fazer crescer o “terrorismo”, não só se transforma num terrorista como também é a causa desse outro terrorismo.
      Mas não pense que eu sou ingénuo, a outros convém que Israel permaneça neste estado de ignorância.

      1. Do gato fedorento a tentativas de lição de história, parece-me que sobre si está praticamente tudo dito. Acho que neste blog andam-lhe a dar importância a mais. Nota-se logo nessa sobranceira forma de se dirigir a quem lhe responde.

        Olhe que com jeitinho é facilmente desmontável, mas como deverá calcular, isto não é nenhuma corrida e o meu tempo é precioso. Seja como for dou-lhe isto e apenas isto: quanto ao que eu disse, andou às voltas mas não acrescentou nada de novo, apenas mais uma mão cheia de banalidades e lugares comuns. A palavra democracia pode não querer dizer nada para si que fala de barriga cheia, mas diz muito sobre quem governa e (por sua vez) quem se escolhe para governar – diz muito sobre a abertura e a sociedade que permite que esta forma subsista – permite inclusive uma visão geral do como um povo e uma forma de poder político interagem entre si, que valores partilham e o que esperam um do outro. Não é difícil perceber, parece-me.

        No que toca ao terrorismo, mais bla bla bla bla. Repare, é tão simples quanto isto, este (terrorismo que fala) só se afigura como viável não porque Israel o fez crescer, este surge em grande após o abandono dos países árabes à causa da Palestina, tanto pelas derrotas militares como por acordos de paz, o que obviamente precipitou o nascimento do nacionalismo palestiniano, até aí inexistente. O que há pelo meio é um processo de conflito que extrema posições de todos os lados, que não é nem inocente nem caso único na história. A importância que muitos dão a Israel é normalmente proporcional à falta de razão comparativa com conflitos passados e recentes dos últimos séculos.

        1. Meu caro,

          o que você sabe já a mim me esqueceu. Você para vir à fala comigo tem usado várias identidades, e eu tenho-lhe dado a importância que não merece para que se sinta importante. Há pessoas que mesmo que se esforcem nunca disfarçam os padrões que as caracterizam.
          Porém agradeço a atenção, o incómodo que lhe causo e o facto de saber o quanto me valoriza, ao ponto de se incomodar com a atenção que diz outros dispensarem à minha pessoa.

          Você já há algum tempo anda com gincanas para poder dizer o que o incomoda. E o que o incomoda é você mesmo, o seu ego e a mania que sabe muito e que sabe fazer uns slides com as palavritas.

          1. Não fale de mim e do que não conhece, concentre-se nos argumentos que eu usei e escrevi – lembre-se do assunto e não da pessoa. Pode ser?
            Se reparar o leve apontamento que lhe apontei não é nenhum juízo, foi uma mera e breve observação (três linhas e qualquer coisa) – não vale a pena dramatizar.
            Tenho pena que se sinta tão eriçado e ofendido com uma mera discussão sobre um assunto que nada tem a ver comigo ou consigo (nem deveria). Quanto a essa das identidades deve ser nova, ou alguma paranoia, uso sempre somente esta com a qual escrevo. Gincana? Tempo? Deve estar mesmo a confundir-me com outra pessoa, lamento mas não sou eu.

  4. Oi eu tenho um amigo, que e sonambulo, pois aconteceu algo tao estranho, ele se levantou durante a noite veio ate minha cama e me beijou, mas foi um beijo tao estranho parecia algo rela mesmo, fiquei muito assustado, fiquei com medo de acordar ele, naos ei nada dessas historias de sonambulos, se eles morrem ao ser acordado, vai se saber…queria uma opiniao, os sonambulos fazem o que realmente sentem, ou é algo sobrenatural, que nao devamos levar em conta?

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